LADEIRA, Julieta de Godoy. Entre lobo e cão. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971.
Mariana Moura
Ilustração: Manuela Dib
Uma dona de casa que anuncia uma vaga de emprego para trabalhadora doméstica em seu apartamento em Copacabana: é assim que se inicia a obra Entre lobo e cão (1971), de Julieta de Godoy Ladeira (São Paulo, SP, 1927 – São Paulo, SP, 1997). A dona de casa em questão é a narradora sem nome do romance, que decide contratar Amélia, mulher negra e moradora de uma favela das redondezas. As duas desenvolvem uma relação que extrapola os limites profissionais a partir do momento em que a narradora sobe o morro para ir à festa de aniversário de Amélia e conhece Joaquim, parceiro da doméstica, e outras pessoas do convívio do casal.
A relação entre patroa e empregada, no entanto, é apenas uma entre as várias relações que a narradora descreve. Relações consigo mesma, com outras empregadas, com uma babá com quem conviveu em diferentes momentos da vida, com amigas e vizinhas, com o marido ausente, com familiares. Essa miríade de personagens povoa esse romance psicológico através da percepção e da memória da narradora, que conduz uma narrativa experimental em que tempos, espaços, diálogos dos personagens e reflexões existenciais e sociais se misturam num único discurso.
Entre lobo e cão é o primeiro romance de Ladeira. Nesse livro, a autora apresenta uma voz narrativa como pouco se vê na literatura brasileira mais recente, em geral menos afeita a experimentalismos. Com inspiração no nouveau roman, a autora cria uma narradora-personagem que domina o discurso. Num fluxo de consciência, ela conduz o leitor por episódios de sua vida no presente, bem como por momentos distintos do passado. A linha do tempo se desenha não como uma reta que o leitor pode traçar; ao contrário, a narradora o convida a acompanhá-la entre fatos ocorridos em tempos diferentes, referências a acontecimentos históricos, descrições da vida urbana, críticas sociais e inquietações existenciais.
Além da linguagem, outro aspecto que denota o experimentalismo do romance é sua estrutura. São vinte e dois capítulos; cada título é formado sempre por três substantivos de distintos campos semânticos. Esses títulos não parecem ter ligação direta com o enredo, mas sugerem uma interpretação simbólica, uma vez que sua progressão ao longo dos capítulos pode sugerir um ciclo de transformação que vai da gênese, no primeiro capítulo, a um rito de passagem. Assim, o leitor vai acompanhando o discurso da narradora entre acontecimentos aparentemente corriqueiros de seu cotidiano, enquanto sutilmente, quase nas entrelinhas, está em curso um processo de metamorfose que atingirá o ápice no fim do livro.
Essa transformação interna é sugerida ainda no início do romance, com a menção a seu título: “A tarde quase noite – entre lobo e cão […]. A hora em que nossos passos ecoam e as pedras devolvem, nesse compasso, a banalidade e a importância de nossa presença”. Lobo e cão simbolizam o contraste entre o impulso por liberdade e a concretude da domesticação, dilema existencial em que a narradora se encontra. O entardecer, como estado de transição entre dia e noite, também corrobora seu movimento interno e é, inclusive, a imagem retratada na capa do romance, creditada, na folha de rosto do livro, ao designer Eugênio Hirsch.
Em sua vida como dona de casa, num universo predominantemente feminino, a narradora relata como o vínculo com Amélia se intensifica para além do profissional, o que lhe permite conhecer o parceiro desta, Joaquim, e ainda outras patroas da empregada doméstica. Além da relação com Amélia, a narradora destaca a presença afetuosa de Mantônia, sua babá na infância. Junto com a sogra D. Laura e a cunhada Paulina, sempre cercada de filhos e com quem conviveu quando morava em Belo Horizonte, Mantônia representa figuras femininas que desempenham o trabalho de cuidado. Essa função, contudo, não é compartilhada pela narradora, que chegou a engravidar quando recém-casada, mas logo sofreu um aborto.
Vivendo numa cidade em que não tem familiares ou amigos de longa data e lidando com a ausência de filhos e de um emprego, mantém-se ocupada entre suas lembranças, sua relação com Amélia e as vizinhas, além dos questionamentos existenciais sobre seu lugar no mundo como mulher casada de classe média alta e sobre os caminhos que a levaram para o lugar onde está.
Aos poucos torna-se cada vez mais palpável a ausência do marido, igualmente sem nome – ele não só não tem nome como também sua identidade é irrelevante: “Agora eu o ouço tranquilo, ressonar. Poderia ter um número e não um nome. O homem 06243”. Enquanto ele está sempre no trabalho ou em viagens, a narradora vai dando pistas da fragilidade de seu casamento. A começar pelo fato de seus pais não terem apoiado a relação com um homem até então casado.
Embora o casamento fosse quase uma obrigação para moças de sua classe, ela justifica seu desejo de se casar pela necessidade de ter uma casa que seja sua. Afasta-se, então, da família, que achava que ela não tinha maturidade para viver longe, e vai morar com ele em Belo Horizonte e, posteriormente, no Rio de Janeiro.
A narrativa, portanto, desenrola-se em três tempos, em três cidades: a infância em São Paulo, a vida como recém-casada em Belo Horizonte e o presente da narrativa no Rio de Janeiro. Três momentos entrelaçados e ancorados no presente, como se a narradora precisasse a todo tempo repassar a história de sua vida para se situar, entender quem é, onde está, quem quer ser e para onde quer ir, sobretudo para que possa tomar uma decisão importante.
Conforme o romance avança, os capítulos, antes mais curtos, vão se alongando, como uma angústia que se adensa ao longo da “sequência de dias brancos”, tensão que se acumula até o clímax no último capítulo. Durante um encontro de família, a narradora anuncia sua decisão de pôr fim a seu casamento. Comunica-a ao marido, “homem sem verão”, assim que ele volta de viagem. Segue-se então o tormento de uma separação que se concretiza, uma noite que a narradora sabe que durará muito tempo e que lhe custará o que resta de sua saúde mental.
Longe de representar um elogio às avessas do casamento como tábua de salvação para mulheres, o destino da narradora aponta mais para o cerceamento da liberdade de lobos para que se tornem cães: “Pensando bem mulher só tem independência para andar dentro de casa de combinação, passar a sanduíche em vez de fazer comida, dormir besuntada de creme, deixar a louça na pia”.
Presa num casamento solitário, a narradora, por diversas vezes – e ao contrário do que se esperaria, na época da publicação de um romance com protagonista feminina –, desenvolve comentários argutos sobre a vida social e política do Brasil. Relata acontecimentos de sua vida cotidiana e familiar entrelaçados a fatos históricos, como a Segunda Guerra Mundial, a morte de Getúlio Vargas, o golpe cívico-militar, as tentativas democráticas no Brasil ao longo dos anos: “As eleições depois foram se tornando rápidas, os erros corrigidos. Entraram num ritmo normal, perdendo esse caráter de feira ou de milagre. Até acabarem novamente”.
Além disso, tece longas descrições da vida urbana da época, influenciada cada vez mais por uma dinâmica capitalista e consumista, com uma presença cada vez maior de bancos, grandes redes de lojas, logomarcas. Da mesma forma, faz uma crítica dura e sarcástica sobre as relações sociais no Brasil, denotando uma preocupação maior com os problemas da sociedade brasileira do que com os fatos pequenos da vida comum, então seara dita feminina.
Nesse sentido, há que se destacar a ousadia de Ladeira em publicar, no início da década de 1970, alguns anos antes da Lei do Divórcio (Lei nº 6.515/77) e no auge da ditadura cívico-militar, um romance cuja protagonista não só recusa o papel social frequentemente imposto às mulheres, baseado no cuidado dos filhos, do marido e do lar, mas também expressa intensa preocupação social. Ao leitor resta o questionamento de que tipo de vida a narradora poderia ter, caso o casamento não fosse uma necessidade compulsória para as mulheres de sua classe social.
A despeito de tecer uma narrativa corajosa para seu tempo, explicitando as contradições entre vida doméstica e vida pública, entre o destino familiar designado às mulheres e seus anseios por pensar a sociedade e a cidade, de construir uma protagonista complexa e de utilizar recursos formais sofisticados, Ladeira e sua obra literária permanecem pouquíssimo estudadas até os dias de hoje. De fato, a fortuna crítica sobre Entre lobo e cão, e mesmo sobre outros livros publicados pela autora, é quase inexistente.
Essa lacuna significa um campo aberto a ser explorado pela crítica literária, que pode se debruçar sobre a obra de Ladeira por sua relevância em descrever um Brasil que se urbanizava e assistia a transformações nas relações sociais e de gênero. Da mesma forma, uma perspectiva comparativista também pode encontrar terreno fértil nesse romance, em relação tanto a outras obras da época quanto a obras mais recentes, a exemplo da produção ficcional de Elvira Vigna, autora que também experimentava em questões formais e na criação de protagonistas femininas disruptivas.
Para saber mais
CARBONERA, Ildo (2005). Conto: tradição e rupturas. Revista Eletrônica Polidisciplinar Voos, s.l., n. 1, p. 17-25.
COELHO, Nelly Novaes (1989). Tendências atuais da literatura feminina no Brasil. Nuevo Texto Crítico, s.l., v. 2, n. 4, p. 205-211.
TEIXEIRA, Maria José Ferreira (2023). Mediação literária em: “Brasileiras: voix, écrits du Brésil”, 1977. In: LACERDA, Amanda; CLAUDIANO, Leonardo; IGNÁCIO, Valéria (Orgs.). A captura do real e os intraduzíveis na literatura latino-americana sobre as ditaduras. Parnamirim: Editora Biblioteca Ocidente. p. 147-167.
Iconografia




