Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Nihonjin

NAKASATO, Oscar. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011.

Lorena Micaela Vila Real
Ilustração: Nino Palmieri

As tensões identitárias nipo-brasileiras durante o século XX são retratadas no romance de estreia do escritor e pesquisador Oscar Nakasato (Maringá, PR, 1963), Nihonjin (2011). Com este livro, o paranaense venceu a 54ª edição do Prêmio Jabuti em 2012. Relançado em 2025 pela Editora Fósforo, o livro teve uma adaptação cinematográfica no mesmo ano: o filme de animação Eu e meu avô Nihonjin (2025).

A temática, entretanto, já estava presente na tese de doutorado de Nakasato Imagens da integração e da dualidade – personagens nipo-brasileiros na ficção (2002), a qual analisa tanto a presença de personagens nipo-brasileiros quanto o fenômeno de contato entre as duas identidades em romances e contos. Ele ainda escreveu mais dois livros: Dois (2017) e Ojiichan (2024), que ampliam as representações dos descendentes japoneses.

Na epígrafe, o autor apresenta um tanka (estilo de poema japonês curto de cinco versos) com a perspectiva do olhar de uma criança sobre seu pai trabalhando na lavoura retirado do livro Uma epopeia moderna: 80 anos de imigração Japonesa no Brasil (1992), da Comissão de Elaboração da História dos oitenta anos de imigração japonesa no Brasil. Embora não seja mencionado em Nihonjin, este poema, referido apenas como Bosanjin (1928), foi composto por um imigrante durante o período da chegada dos japoneses ao Brasil. Nakasato decide por reproduzir tanto o poema em japonês transliterado quanto sua versão em português. Contudo, a escolha da tradução de vocábulos não será usual na trama, que contém vários termos em japonês transliterado que não são traduzidos para o português, seja no próprio texto da narrativa, em uma explicação ou em notas tradutórias. Outro ponto interessante é a escolha desses termos não estarem em negrito ou itálico, diferenciados como estrangeirismos que são. Tal escolha acaba por criar segmentos que emulam a própria experiência narrada de estar entre duas culturas. Em entrevista a Osvaldo Duarte (2015), Nakasato afirma que a decisão da não utilização de glossários tinha como efeito provocar no leitor um estranhamento inicial que, no decorrer do texto, iria sendo substituído por uma certa familiaridade.

Em formato de romance memorialístico a obra narra, em sete capítulos, a vida de três gerações da família Inabata. A partir da memória individual obtida por cartas e recordações de seu ojiichan Hideo, o narrador Noboru apresenta também a história da diáspora japonesa, desde a chegada ao Brasil durante a Era Vargas até a década de 1980. Curiosamente, a trama começa com a reconstituição de Kimie, primeira esposa de seu avô, a partir de fotografias e lembranças do personagem. Em uma narrativa sobre a história familiar, é interessante que o narrador comece o relato não pelo avô, mas pela companheira dele naquela etapa da vida, demonstrando que o relato não se baseia apenas em fontes primárias e revelando toda a subjetividade de quem conta a história, especialmente quando Noboru assume que completa as lacunas que faltam com sua imaginação e que a saga familiar não inicia apenas com quem tem laços consanguíneos.

Ao contar sobre a chegada de seu avô com Kimie ao Brasil, o narrador revela como Hideo passa da condição de imigrante – visto que enviava dinheiro para os familiares que ficaram no Japão e pretendia passar no máximo cinco a seis anos no Brasil – à condição de exilado, quando lentamente percebe que a adaptação em terras brasileiras seria definitiva, uma vez que não há previsão de retorno por questões financeiras ou por iniciativas oficiais do governo japonês de uma repatriação. O contato com italianos e pessoas negras nas fazendas de café onde o casal começa a trabalhar também é relatado pela lente da alteridade. O avô percebe a diferença no tratamento dos brasileiros quanto à adaptação linguística dos italianos, os quais, mesmo que cometessem desvios da norma padrão de prestígio da língua portuguesa, não eram rechaçados como os japoneses. Já no caso dos negros, representados pela figura da vizinha Maria, Hideo demonstrava preconceito, como se pode constatar no seguinte trecho: “Me disseram que os negros foram escravos no Brasil, que têm raiva de todos os que não são como eles. São uma gente menor, de baixo valor”.

No próprio título da obra, Nihonjin (palavra em japonês que pode ser traduzida para o português como “japonês”), a tensão identitária que permeia a trama já se faz presente: a oscilação constante entre ser brasileiro e ser nihonjin. Transliterada para o português, mas não traduzida, a palavra, assim como o indivíduo, encontra-se entre duas culturas, não pertencendo totalmente a nenhuma delas: não é completamente assimilado ou refuta sua alteridade como Outro. A tríade família-educação-trabalho será fundamental para pensar como a constituição dos nipo-brasileiros foi formada. Na narrativa, após a morte da primeira esposa, Hideo casa-se com Shizue, avó do protagonista, com a qual formou família e se mudou de cidade. Ele deixa o trabalho na lavoura em uma fazenda de café no interior para se tornar dono de um comércio no bairro da Liberdade, em São Paulo e, pouco a pouco, sua adaptação ao novo país é mais visível: “pensou que talvez tivesse que manter Haruo no burajiru gakko e depois, ainda, matricular o outro menino e as meninas, e todos iriam à escola aprender a falar, ler e escrever em perfeita língua portuguesa e a fazer contas para não serem enganados […] já pensava no futuro em terras brasileiras, talvez na cidade, onde os filhos poderiam exercer alguma profissão mais rentável que a de lavrador. Todos estudariam”.

Ao apresentar a segunda geração, Noboru foca principalmente no conflito de seu tio Haruo com o seu avô Hideo durante a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial. O assunto ganha maior destaque porque abarca a questão dos ultranacionalistas Shindo-Renmei, já retratados em outras obras brasileiras, como Corações sujos (2000), de Fernando Morais. Se a obra de Morais é um romance-reportagem que pretende ser objetivo sobre o ocorrido, esta não é a premissa da obra de Nakasato, que traz o acontecimento pela ótica da saga familiar e por um olhar da própria comunidade, apesar de conter a menção a personagens reais, tal como Cassio Kenro Shimomoto.

O conflito entre nihonjin e gaijin – isto é, “japonês” e “estrangeiro” em português – é abordado principalmente por meio da figura da mãe do protagonista, que se divide entre seguir a tradição familiar, casando-se dentro da própria comunidade e continuando o que é esperado de uma esposa na cultura japonesa, ou ficar com seu amor de juventude. Entretanto, esse aspecto também é discutido de maneira mais sutil quando, ao se despedir da vizinha Maria, ainda na fazenda Ouro Verde, Hideo afirma que o contato com ela o lembrava de que “estava em terra estrangeira e que gaijin, na verdade, era ele”.

A temática da aculturação geracional também é trabalhada de forma direta em trechos em que são expostos os conflitos culturais no ambiente escolar, entre o que era ensinado em casa sobre o modo de agir japonês e o comportamento exigido na escola,  relacionado aos costumes brasileiros, algo claramente perceptível na mudança dos nomes dos membros familiares: a segunda e a terceira gerações ainda possuem prenomes japoneses; já os filhos do narrador apresentam nomes duplos como Pedro Hideki e Maria Hisae, mesclando ambas as culturas.

Embora tenham menos destaque em comparação com as figuras masculinas, as personagens femininas apresentam tensões nas questões identitárias. Na primeira geração está Kimie, que representa o protótipo da figura japonesa idealizada tradicional, mesmo que protagonize pequenas rupturas, como sua amizade com a personagem negra Maria. Seu fim trágico também simboliza o desterro – devido à inadequação às necessidades da nova realidade – e a morte do sonho de retornar ao Japão. Em contraponto a ela, Shizue, a segunda esposa, representa o enraizamento no cenário brasileiro e concretiza o papel de esposa que Hideo reconhecia como ideal nesse estágio de aculturação: “E já se surpreendera observando Shizue na cozinha, rápida na lavagem de panelas e pratos, em meio ao cafezal, vigorosa na capinação de ervas daninhas. […] Shizue era baixinha como Kimie, mas pesava mais, seu corpo era robusto, os braços mais grossos. Era uma vantagem. Precisava, ao seu lado, de uma mulher forte, que não reclamasse do trabalho da capina ou da derriça”.

Na segunda geração, Sumie, mãe do narrador, divide-se entre o dever e a busca pela felicidade individual. A decisão de abandonar o marido e ir viver com um gaijin apresenta a total ruptura com a tradição e expõe a rachadura na identidade nipo-brasileira.

A terceira geração é a de Noburo, que decide ir para o Japão, apresentando no último capítulo um vislumbre da saga dos decasséguis brasileiros, formados na maioria por nikkeis (descendentes japoneses): “Não os convencerei dizendo que é mais que um trabalho de decasségui, que trabalhar como operário não é um objetivo, mas um meio, que outro não existe, e que ir ao Japão é quase um retorno”. O autor não explora a adaptação à rotina das fábricas ou à cultura japonesa pelos nipo-brasileiros, decidindo por terminar o romance com uma dupla despedida: entre o narrador e seus parentes e entre os leitores e a saga familiar.

Mais importante do que o final da narrativa, contudo, é observar como o autor consegue misturar realidade e ficção para apresentar uma parcela dos imigrantes que compõem o povo brasileiro, mas que é ainda pouco abordada na literatura nacional, inserindo-se na linhagem de obras como O jardim japonês (1986), de Ana Suzuki; Sonhos bloqueados (1991), de Laura Honda-Hasegawa; Ipê e Sakura: em busca da identidade (1988), de Hiroku Nakamura; Sonhos que de cá segui (1997), de Sílvio Sam e O sol se põe em São Paulo (2007), de Bernardo Carvalho.

Para saber mais

EU e meu avô Nihonjin (2025). Direção: Celia Catunda. Produção: Pinguim Content. Roteiro: Rita Catunda e Oscar Nakasato. (84 min), son., color. Brasil.

ICHIKAWA, Jovanca Kamizi (2018). Nihonjin e Corações sujos: uma temática e duas visões. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Língua Portuguesa e Literatura) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba.

LONGHI, Clarisse Lye (2021). As representações da mulher nipo-brasileira em Nihonjin, de Oscar Nakasato: permanências e rupturas. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Letras Português) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba.

NAKASATO, Oscar Fussato (2009). Imagens da integração e da dualidade: personagens nipo-brasileiros na ficção. São Paulo: Blucher.

NAKASATO, Oscar (2015). Entrevista com Oscar Nakasato: autor deNihonjin (romance) e imagens da integração e da dualidade – personagens nipo-brasileiros na ficção (crítica e análise literária). [Entrevista concedida a] Osvaldo Duarte. Polifonia, s. l., v. 21, n. 30, p. 289-306. Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/polifonia/article/view/2313. Acesso em: 18 ago. 2025.

TSUKINO, Shirley Yuri (2025). A representação das relações migratórias entre Japão e Brasil em obras ficcionais contemporâneas escritas por autores nipo-brasileiros. Dissertação (Mestrado em Estudos Brasileiros) – Universidade de Lisboa, Lisboa.

Iconografia

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Como citar:

REAL, Lorena Micaela Vila.
Nihonjin.

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literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

28 abr. 2026.

Disponível em:

7867.

Acessado em:

07 jun. 2026.