Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O azul do filho morto

MIRISOLA, Marcelo. O azul do filho morto. São Paulo: Editora 34, 2002.

Renata Augusto de Carvalho
Ilustração: Léo Tavares

O azul do filho morto é o primeiro romance de Marcelo Mirisola (São Paulo, SP, 1966), autor já reconhecido por sua vertente contista. A obra traz tudo ou quase tudo de desagradável: Mirisola emprega uma linguagem crua, escatológica, muitas vezes chula e deliberadamente transgressora, num estilo que se inscreve em uma tradição literária que mistura autobiografia, autoficção e exagero absurdo.

A obra consolidou sua reputação como um escritor que desafia convenções, provoca o leitor e recusa qualquer pacto de boa conduta literária, surgindo como um manifesto de linguagem e de postura, mais do que como uma narrativa convencional. Mirisola, conhecido desde os anos 1990 por seus contos ácidos, parte aqui para uma autoficção feroz, em que vida, literatura e devaneio se confundem, dando origem a um narrador que não poupa ninguém, nem a si mesmo. A linguagem é crua, escatológica, por vezes violenta, mas também lírica e sofisticada em sua cadência. O resultado é um romance que causa estranhamento, fascínio e repulsa, sempre em doses simultâneas.

O livro se insere na chamada Geração 90, um conjunto de autores que estrearam nos anos 1990 e buscaram distanciar-se do realismo engajado das décadas anteriores e também da literatura acadêmica excessivamente formal. Essa geração preferia a linguagem urbana, fragmentada, coloquial, marcada pela cultura pop e pelo olhar desencantado diante da sociedade brasileira pós-ditadura. Autores como Marçal Aquino, Fernando Bonassi, Luiz Ruffato e João Anzanello Carrascoza exploraram em suas obras a violência das cidades, a precariedade das relações humanas e a dissolução da intimidade. Mirisola, porém, vai além: se seus contemporâneos se limitavam ao retrato crítico, ele aposta no grotesco e no escatológico como método, numa linguagem que beira a obscenidade para expor o ridículo e a hipocrisia da vida urbana. O azul do filho morto é, nesse sentido, uma obra-limite: mais radical do que a maioria de sua geração, um livro que não busca adesão fácil e se orgulha de desagradar.

Embora Mirisola afirme que “enredo é coisa de criança”, o romance traz um fio narrativo, ainda que frágil. O narrador-personagem, um duplo do próprio autor, atravessa memórias de infância, experiências sexuais patológicas, lembranças familiares e reflexões sobre a própria criação literária. Logo no início, surge a frase desconcertante: “coelho é um bicho que fode. Um bicho que fode”. Essa abertura já anuncia o tom da obra: repetição obsessiva, sexualidade distorcida, humor doentio. O “filho morto” que dá título ao livro funciona como uma metáfora para a impossibilidade de criação, seja biológica, seja literária. Trata-se de um filho natimorto, que se dissolve em imagens grotescas – “num vidro de maionese” – e que remete à esterilidade de um narrador que não pode produzir nada além de palavras. Esse deslocamento, entre a impossibilidade de deixar descendência biológica e a tentativa desesperada de deixar livros, ecoa a tradição machadiana de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), em que o protagonista se vangloria de não ter deixado filhos, mas sim uma obra. Mirisola dialoga com essa herança, mas em chave mais violenta, invertida e grotesca.

O tom de todo o romance é o do humor cáustico. Mirisola é um debochado que prefere o escárnio à descrição linear. Frases ofensivas, racistas, sexistas ou misóginas surgem em jorro, não para serem tomadas como confissões literais, mas como parte de uma persona que escancara o que a sociedade prefere esconder. Assim, o narrador pode dizer que esfaqueou a empregada doméstica ou que se excitava em humilhar figuras de autoridade, tudo num registro em que o riso e o choque se confundem. Em Mirisola, contudo, não há terapia nem tentativa de cura: há apenas um narrador que se deleita em seus desvios e na sua crueldade. Por isso, a leitura é perturbadora, mas também fascinante, pois o autor se recusa a suavizar qualquer aspecto da experiência humana.

Ao mesmo tempo em que ofende, Mirisola constrói uma prosa estilisticamente refinada, muito embora recheada de palavrões. A narrativa é simples, límpida e, salvo a linguagem chula, elegante. Essa tensão entre vulgaridade e sofisticação é parte do projeto literário do autor. A linguagem é ao mesmo tempo suja e limpa, escatológica e poética. É nesse contraste que reside a força do livro: Mirisola não é apenas um provocador, mas um verdadeiro estilista da palavra, capaz de transformar a obscenidade em literatura.

O romance também se insere em seu tempo histórico de modo peculiar. Lançado em 2002, ele reflete o desencanto de uma geração urbana que viveu a década neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. O Brasil dos anos 1990 foi marcado pela estabilização econômica, mas também pelo vazio ideológico, pela despolitização e pela hegemonia da cultura de massa. O narrador de Mirisola encarna esse desencanto: um sujeito sem fé em projetos coletivos, que não acredita na família, na pátria ou em ideais políticos. Seu refúgio é apenas a literatura, ainda que em forma de grito niilista. O livro é também uma resposta à saturação da cultura midiática: ao citar programas de auditório ou ídolos como Ayrton Senna, o narrador não reverencia, mas ridiculariza. Trata-se de uma crítica à idolatria nacional, mas também de um mergulho no universo banal e grotesco que a mídia produz.

Nesse sentido, o romance pode ser lido como uma crônica amarga da virada do milênio. Enquanto o país transitava para o governo Lula e experimentava esperanças de mudança, o narrador de Mirisola representava a voz de quem não acreditava em nada, de quem via a cultura brasileira como uma sucessão de farsas e de símbolos ocos. Sua recusa em produzir uma narrativa edificante ou um herói literário se alinha a esse espírito de ironia radical. Se a literatura, até então, muitas vezes buscava função social ou estética elevada, Mirisola reivindica para ela o direito de ser baixa e torpe – e, ao mesmo tempo, artisticamente potente.

Outro aspecto essencial é a forma como o romance trabalha a autoficção. O narrador se apresenta como o próprio Marcelo Mirisola, mas se sabe que se trata de uma persona literária, um duplo fabulado. Essa ambiguidade faz parte do jogo: o leitor se pergunta até onde aquilo é autobiografia, até onde é invenção, até onde é pura performance verbal. Esse embaralhamento dos limites entre vida e obra caracteriza parte da literatura contemporânea e em Mirisola se torna radical, pois seu narrador é deliberadamente antipático e grotesco. Ao criar um “eu” tão desajustado, o autor desestabiliza o pacto autobiográfico e transforma sua vida em espetáculo ficcional.

A recepção crítica ao livro foi marcada por divisão. Alguns o celebraram como uma obra-prima da geração, destacando sua coragem estilística e seu humor devastador. Outros o acusaram de gratuito, obsceno, misógino, racista. A verdade é que a força do livro está justamente nesse excesso, nesse gesto de empurrar o leitor contra a parede. Não é uma obra que busca consenso, mas uma que reivindica a literatura como espaço de risco. Comparado a outros títulos da Geração 90, O azul do filho morto parece mais extremo, mais visceral, mas também mais duradouro, pois não se encaixa em fórmulas fáceis. Até hoje, muitos leitores o consideram o melhor livro de Mirisola.

Os temas que atravessam o romance – a esterilidade da criação, o grotesco do cotidiano, a crítica à classe média, a recusa de qualquer moralidade – revelam um projeto de literatura que não é apenas narcisista, mas profundamente consciente de seu tempo. O filho morto simboliza o fracasso de uma geração em produzir futuro, mas também a aposta desesperada de que os livros possam ser filhos mais duradouros, ainda que natimortos, ainda que impossíveis. A literatura, para Mirisola, é um substituto grotesco da descendência, um espólio para o mundo que, como em Machado, existe mais pela contradição do que pela continuidade.

Ao final, o que fica de O azul do filho morto é a sensação de ter atravessado um território arriscado, incômodo e fascinante. A leitura não é fácil, tampouco agradável, mas é inesquecível. Mirisola obriga o leitor a rir do que não se deve rir, a encarar o que preferiria ignorar, a lidar com uma voz que não se curva às convenções do bom gosto. Em um cenário literário que muitas vezes privilegia a segurança, o equilíbrio e a polidez, o livro se ergue como uma afronta, um soco no estômago. Pode-se detestá-lo ou adorá-lo, mas ignorá-lo é impossível.

Assim, O azul do filho morto deve ser lido não apenas como um romance isolado, mas como um documento de época: a expressão literária de um Brasil desencantado, midiático, cínico, que atravessava o fim dos anos 1990 e o início dos 2000. É também um gesto de radicalização estética dentro da Geração 90, um marco de autoficção escatológica e uma aposta numa literatura que prefere arriscar com o grotesco a se perder na neutralidade. Com ele, Mirisola se firmou como uma das vozes mais originais, polêmicas e necessárias da produção literária brasileira contemporânea.

Para saber mais

ALMEIDA, Adriano de (2011). “O azul do filho morto” (2002), de Marcelo Mirisola.Prefácio Cultural. Disponível em: https://prefaciocultural.wordpress.com/2011/02/25/o-azul-do-filho-morto-marcelo-mirisola/. Acesso em: 23 ago. 2025.

LÍSIAS, Ricardo (2006). Capitulação e melancolia: o narrador de Marcelo Mirisola. Novos Estudos Cebrap, n. 76, p. 289-293. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-33002006000300018. Acesso em: 23 ago. 2025.

MARCELINO, João Gabriel Kalili (2020). Romance em deformação: a solidão debochada na literatura de Marcelo Mirisola. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Letras) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

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CARVALHO, Renata Augusto.
O azul do filho morto.

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contemporânea, 

Brasília. 

22 abr. 2026.

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7880.

Acessado em:

23 abr. 2026.