JORGE, Miguel. Pão cozido debaixo de brasa. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.
Eduardo Marinho da Silva
Ilustração: Moreno Lago
O romance Pão cozido debaixo de brasa, publicado em 1997 pelo escritor Miguel Jorge (Campo Grande, MS, 1934), tematiza e transfigura, numa prosa com alta carga mítica e mística, uma das grandes tragédias brasileiras contemporâneas: o acidente radiológico com o Césio-137, ocorrido na cidade de Goiânia em 1987. Trata-se de uma obra espelhada e marcada pelo signo da duplicidade, com duas narrativas tematicamente autônomas, mas cuja unidade pode ser encontrada em sua construção formal, que mobiliza uma linguagem iridescente, transformando-se conforme a incidência da luz, e convidando os leitores ao exercício da decifração, a começar pelo sugestivo título da obra.
A história do adolescente Adam/Adão é solar e a ação transcorre majoritariamente durante o dia; já a história dos três catadores, Felipa, João Bertolino e Nec-Nec, é noturna. Na primeira, tematiza-se a angústia da adolescência e os conflitos ético-morais formativos; na segunda, a precariedade e a perambulação dos catadores ganha contornos místicos. Ponto de contato, o amanhecer e o crepúsculo são momentos de transfiguração, quando as dimensões sociais e subjetivas se fundem e caminham para o desfecho trágico.
Pão cozido debaixo de brasa divide-se em 38 capítulos, a maior parte deles (25) concentrados ao redor de Adam. Órfão de pai, o menino vê o elo com sua mãe, Ziza, ser ameaçado após ela se casar com um imigrante libanês chamado Yussef Bocca. Adam assiste Yussef ocupar sua casa e o corpo de sua mãe, num movimento expansivo e voraz, como sugerido pelo sobrenome do comerciante, que desperta sentimentos de voluptuosidade e repugnância.
Adam se vê seduzido por sua professora, Leona, que, a pretexto de lhe oferecer aulas particulares, convida-o à sua casa, onde há um chalé rodeado por jardins, espaço edênico que servirá de cenário para a iniciação sexual do garoto. A professora instiga Adam a assassinar seu marido, o banqueiro Offir.
A história de Adam é formalmente construída a partir de uma profusão de técnicas narrativas e múltiplos pontos de vista. Miguel Jorge vale-se da narração onisciente, da narração em primeira pessoa e do discurso indireto livre, ora mergulhando, ora se afastando das perspectivas de suas personagens. Há trechos em que as fronteiras da prosa e da poesia se confundem, quando a linguagem referencial cede espaço para imagens obsedantes, que reforçam a atmosfera densa da narrativa. O adolescente possui, ainda, cinco capítulos inteiramente dedicados à sua perspectiva, intitulados “Esboço para um diário”, onde dá vazão ao pavor e fascínio exercido pela figura máscula de Yussef, ao desejo despertado pela feminilidade enclausurante de Leona, à tristeza pelo esgarçamento do laço filial e ao apagamento da memória de seu pai, que pouco a pouco vai assumindo os contornos de Yussef.
Há no romance uma intertextualidade com o texto bíblico e com mitologias judaico-cristãs, que se fazem presentes tanto nos episódios como na profusão de imagens e de alusões mobilizadas pelo autor. A professora Leona, que pede para ser chamada de Lili, é inscrita sob o signo da cobra e evoca a figura de Lilith, que em algumas mitologias é apontada como a primeira esposa de Adão. Contrariamente a Eva, criada da costela do primeiro homem, portanto, devendo-lhe obediência, Lilith teria sido criada ao mesmo tempo e do mesmo barro que Adão, recusando-se a ser-lhe submissa, o que acarretou sua expulsão do Jardim do Éden e posterior aproximação a Lúcifer.
No romance, esse intertexto bíblico não é mera alusão. Os passos de Adam entre a casa, a escola e o jardim de Leona/Lili são acompanhados por duas figuras angelicais, o Anjo Velho e o Anjo Novo, que irrompem na narrativa numa disputa incansável pela alma do adolescente. O Anjo Velho é zeloso e protetor, enquanto o Anjo Novo, voluptuoso e belo, incita Adam a seguir seus impulsos mais primitivos. Nos momentos de maior tensão, a figura do Anjo Novo vai se fundir à de Lili, como se duas entidades habitassem um mesmo corpo, cujo propósito é subjugar Adam/Adão.
Desse modo, o palco onde se movem as personagens da narrativa de Adam assume feições místicas, míticas e religiosas, numa profusão de metáforas: o jardim edênico de Leona; o mito da criação e da queda de Adão e Eva reencenado na relação entre o adolescente e a professora; a batalha fáustica entre os anjos pela alma do jovem. Adam se vê imerso em duas tríades: a nova família conjugal, composta por Adam-Ziza-Yussef, marcada por uma tensão de matriz edipiana, e a família extraconjugal, formada por Adam-Leona-Offir, em que a perda da inocência do menino é motivada pela tentação do assassinato de Offir.
O segundo enredo de Pão cozido debaixo de brasa tem como protagonistas três catadores de materiais recicláveis: Felipa, João Bertolino e Nec-Nec. Como “aves da noite”, eles caminham pela cidade em busca de sucatas e das sobras dispensadas pela urbe. Felipa – mãe de cinco filhos, dois deles já mortos – caminha pela noite à procura não apenas do pão-alimento, mas também de uma misteriosa luz azul, que lhe ajudará a atravessar o milênio. Sua jornada terrena tem contornos místicos, pois Felipa experimenta momentos de transe, onde se vê acompanhada por duas bolas de fogo e por figuras espectrais, visíveis apenas a ela. Felipa atravessa a noite em companhia de João Bertolino, seu marido, e de Nec-Nec, figura diminuta e muda, descrita como “meio homem, meio tatu, meio bicho-do-mato”.
Numa noite, Felipa vislumbra a luz azul vazando de um espaço em ruína, pressentindo o anúncio de uma nova terra santa, que os alimentará do pão-simbólico. As errâncias conduzem os três até um prédio abandonado, uma antiga instituição hospitalar. Lá, João Bertolino encontra uma caixa de metal protegendo um cilindro que Felipa acredita conter a luz azul. Depois de quebrar o revestimento metálico com golpes de marreta, surge uma cápsula, descrita como “um coração pulsando, feito uma bomba, para todos os lados”.
Felipa leva a cápsula para sua casa, situada no Bairro Popular – nome sugestivo que também corresponde a uma parte do que hoje é nomeado como Setor Central, na cidade de Goiânia. A abertura da cápsula é feita num momento de celebração, com a família rodeada pelos vizinhos, que contemplam a irradiação brilhante de um pó azul. A certo momento, uma das filhas do casal “comia do pão e comia da luz que parecia crepitar em sua boca, cobria de azul os seus lábios e atravessava em linha reta todo o seu corpo”. Os episódios seguintes do enredo transcorrem de modo vertiginoso, numa sucessão de fragmentos: Nec-Nec foge da festa; uma cruz brilhante aparece no peito da menina; soldados e jornalistas cercam o Bairro Popular; João Bertolino tem seus braços enfaixados devido a queimaduras; os animais da família são sacrificados; a menina é isolada e depois colocada em um caixão de metal; todo o quarteirão é sitiado; a menina começa a ser vista como uma santa. Felipa e Nec-Nec parecem ter sido severamente contaminados, enquanto João Bertolino torna-se “o homem da luz azul, de 13 de setembro de 1987”.
Nesta segunda narrativa de Pão cozido debaixo de brasa o texto ficcional se aproxima dos eventos ocorridos na cidade de Goiânia em setembro de 1987, quando catadores encontraram um equipamento de radioterapia numa unidade hospitalar abandonada e o levaram para casa. Após desmontar o recipiente metálico, encontraram um material azul, que brilhava no escuro. Trata-se do Césio-137, um isótopo radioativo capaz de deixar sequelas graves ou ser letal se ingerido ou se permanecer em exposição prolongada ao corpo humano. No acidente radiológico de Goiânia, estima-se que mais de 110 mil pessoas foram expostas ao Césio-137. Desse número, 249 apresentaram contaminação mais significativa e quatro morreram nas semanas seguintes ao acidente, dentre elas a menina Leide das Neves Ferreira, de seis anos, que se converteu em símbolo da tragédia.
Apesar de a história de Felipa, João Bertolino e Nec-Nec conter um elemento referencial facilmente identificável transposto para a narrativa, Miguel Jorge investe na transfiguração ficcional e na recriação metafórica da tragédia. Para isso, o escritor restringe a descrição realista, preferindo as construções simbólicas e alegóricas, revestindo um problema local com formas universalizantes, um refletindo o outro, ainda que de modo distorcido ou em polos opositivos.
O enredo do romance é deslocado dos anos 1980 para a virada do milênio e se aproveita das superstições e expectativas catastróficas que acompanham a data. Assim, as personagens da narrativa são atravessadas por questões do contemporâneo, como a migração, o exercício do poder, as vidas precárias, a identidade e a fé. Romance de formação e deformação, social e introspectivo, entre o sagrado e o profano, entre a queda e a redenção, as duas narrativas que compõem Pão cozido debaixo de brasa expõem fraturas sociais e subjetivas, bem como os anseios de um país às vésperas do século XXI.
O escritor Miguel Jorge, de ascendência libanesa, nasceu no Mato Grosso do Sul e é radicado em Goiás. O autor situa Pão cozido debaixo de brasa, romance vencedor do Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional em 1997, dentro de uma trilogia com temática regional, mas que possui “reflexos de universalidade”. A obra foi antecedida por Veias e vinhos (1981) e Nos ombros do cão (1991), também ambientadas em Goiás. O escritor possui uma vasta produção artística, que perpassa o romance, o teatro, a poesia, o conto e a produção audiovisual.
Para saber mais
NOGUEIRA, Soraya Calheiros (2002). O grotesco em Miguel Jorge e Julio Cortázar. Goiânia: Cânone Editorial.
BORGES FILHO, Ozíris; OLIVEIRA, Carla Reis de. Os espaços dialéticos em Pão cozido debaixo de brasa, de Miguel Jorge (2014). Todas as Musas, ano 5, n. 2, jan./jun., p. 178-191. Disponível em: https://todasasmusas.com.br/10Oziris_Carla.pdf. Acesso em: 13 abr. 2025.
SOUZA, Isaías Martins de (2016). A brasa que não dorme: diálogos entre literatura e história em Pão cozido debaixo de brasa, de Miguel Jorge. Dissertação (Mestrado em Educação, Linguagem e Tecnologias) – Universidade Estadual de Goiás, Anápolis. Disponível em: http://www.bdtd.ueg.br/handle/tede/863. Acesso em: 13 abr. 2025.
Iconografia

