Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O homem de macacão

FRANÇA Jr., Oswaldo. O homem de macacão. Rio de Janeiro: Sabiá, 1972.

Carmen de Jesus Garcia
Ilustração: Julio Lapagesse

Oswaldo França Jr. (Serro, MG, 1936 – João Monlevade, MG, 1989) dedicou-se à escrita literária após ser expulso da Força Aérea Brasileira (FAB), em 1964. Era piloto de caça. Por ter participado da Campanha da Legalidade, foi considerado subversivo e proibido de exercer a função de aviador, inclusive na aviação civil. Para sobreviver, exerceu ocupações autônomas variadas, que não garantiram sustento suficiente para ele e sua família.

A opção pela literatura foi “um voo certeiro”, como afirma Maria Angélica Guimarães Lopes (2010), estudiosa de sua obra. França Jr. é autor do livro Jorge, um brasileiro, sua segunda obra, publicada em 1967, pela qual ganhou o Prêmio Walmap. O livro inspirou o seriado Carga pesada, exibido de 1979 a 1981 pela Rede Globo, consagrando como herói um motorista de caminhão.

Ao todo, França Jr. publicou treze romances e um livro de contos, com uma média de um livro a cada dois anos, no período de 1965 a 1989, quando faleceu aos 53 anos. Sua morte decorreu de um acidente de carro, numa estrada de Minas Gerais.

O homem de macacão é o quarto livro de França Jr. e foi publicado em 1972 pela editora Sabiá, de propriedade de Rubem Braga e Fernando Sabino. No romance, o protagonista é operário, e sua construção está alinhada com a preocupação de França Jr. de revelar o dia a dia do trabalhador brasileiro. O livro tem 129 páginas de texto corrido, sem separação de qualquer tipo; portanto, não há capítulos ou seções dividindo a narrativa. O enredo gira em torno do cotidiano do mecânico Afonso nas oficinas de reparo de veículos. É ele quem narra e protagoniza a história.

Afonso passara por três oficinas como empregado, até estar à frente da sua própria oficina mecânica, aquela que “desde rapaz novo [ele] sempre quisera ter uma igual”. A história é narrada a partir do momento em que, proprietário, Afonso é abordado por um corretor de imóveis interessado na venda do estabelecimento. Nesse instante, ele rememora sua trajetória de vida e passa a descrever as agruras e aventuras por que passou e que, com determinação e um pouco de sorte, o fizeram chegar até aquele momento.

O leitor depara-se com seus interesses amorosos, suas relações pessoais, de amizades ou profissionais, todas as situações desenrolando-se no ambiente das oficinas. A narrativa não é linear, mas dispersa temporal e espacialmente, entremeando relatos mais recentes e mais longínquos. No texto há muita repetição, de modo que um fato é insinuado, depois descrito e mais adiante contado com detalhes. A linguagem é coloquial, semelhante à fala cotidiana, o que torna o leitor mais um ouvinte da narrativa.

Os episódios se passam em Minas Gerais, e a primeira oficina em que o protagonista havia trabalhado localizava-se em Bela Vista, onde Afonso viveu por um ano e meio com Maria da Paz e sua filha. Em seguida, deixou-as e foi para outra oficina, na cidade de Betim, e depois para a Av. Francisco Sá, como ele se refere à oficina da capital mineira. Nesta, o leitor encontra o sócio Francisco Rita, que havia amarrado uma mulher muda por dois dias, para que ela entendesse que ele a queria junto dele. Denunciado o fato, Afonso e Francisco precisaram deixar a cidade às pressas, por exigência do delegado. É assim que Afonso parte rumo à sua própria oficina, de onde relata a sua história.

O protagonista comprou a oficina sem pagamento de entrada, com prazo de parcelamento de três anos. Herdou a dívida de INSS de quatro empregados fixos, de um total de dezesseis operários ao todo. Dois anos depois, um dos trabalhadores – José Trigueiro – foi morto a facadas na porta da oficina, o que afugentou fregueses, levou a gastos adicionais e, em face de sua crise financeira, ao surgimento de interessados em comprar o estabelecimento. Afonso reitera a determinação em superar mais este obstáculo para seguir em frente com seu empreendimento.

A oficina tinha fios com ligação elétrica direta espalhados pelo chão, não tinha tomadas nem ferramentas adequadas. Em contrapartida à bagunça, o leitor conhece a personagem Júlia, secretária contratada, que organizou o caos da oficina e com quem Afonso manteve uma relação afetiva.

A organização implantada por Júlia permitiu que Afonso levasse adiante o negócio sozinho e conseguisse reduzir o número de operários para os quatro funcionários fixos, os quais não podiam ser demitidos devido ao pagamento de contribuição previdenciária atrasada. Outros profissionais passaram a ser contratados por demanda, dependendo da necessidade e com base em um pré-cadastro montado e organizado por Júlia. José Trigueiro – o personagem que morreu na porta da oficina – foi um desses casos, pois trabalhou como pintor para Afonso. Nesse momento da narrativa, Júlia já não estava mais no estabelecimento, mas ainda era a única pessoa a quem Afonso poderia confiar a oficina e sair da cidade, despreocupado.

Afonso tinha muita preocupação em deixar a oficina sozinha, sem fiscalização, pois tinha consciência, segundo ele, de que os trabalhadores mal sabiam ler, tendiam ao alcoolismo e à discussão sem motivo. Ele tinha certeza, por exemplo, de que se a deixasse sob o comando de Vicente, um dos empregados fixos, ao voltar ele a teria vendido. Nazaro era outro funcionário em quem Afonso dizia não confiar: vendeu um carro para o dono de um bar, mas o veículo só tinha os pneus e a bateria em bom funcionamento. O carro foi entregue sem esses acessórios, que haviam sido trocados por outros de pior qualidade. Ameaçado de morte, o funcionário desfez a negociação.

Outro personagem interessante é Zé Gole, que bebia a ponto de esquecer o próprio endereço. Ele vivia só, cercado de gatos e cachorros, dos quais Afonso teve que cuidar quando o dono adoeceu e precisou ficar hospitalizado. O quarto empregado fixo, Adalberto, reagiu com certa intransigência à mudança de comando da oficina, pois ele havia sido expulso do quarto em que dormia, o qual passou a ser ocupado por Afonso.

Afonso frequentemente morava no quarto das próprias oficinas, e assim aconteceu quando comprou a oficina mecânica. Nesse quarto, o protagonista se encontrava com Júlia, até que ela falou em casamento, e, com isso, o relacionamento esfriou. Afonso dizia que ela era boa para encontros, mas não para morar junto. Curiosamente, a cunhada de Eneas – seu funcionário –, que não trabalhava e tinha se recusado a sair com ele, era considerada, por Afonso, mulher para casar. Posteriormente, ele menciona que era grato por ela não se interessar por ele, pois, caso contrário, a teria pedido em casamento.

Maria da Paz, que aparece no romance no tempo em que Afonso trabalhava em Bela Vista, foi considerada por ele como mulher para se viver junto, ainda que o relacionamento tenha durado pouco. Desconfiada, de vida sofrida, ela foi alvo do interesse afetivo de Afonso, que acabou por conquistá-la. A partir disso, ele alugou uma casa perto da oficina e foi morar com ela e a filha, vivendo com ambas por um ano e meio. Ao decidir partir, cuidou antes de deixar as duas amparadas. Ele descreve que não lhe saem da memória a cena e o silêncio de Maria da Paz, de mãos dadas com a filha, vendo-o ir embora.

A interação de Afonso com as personagens femininas expõe como ele as enxerga ao longo da narrativa. As mulheres são vistas como objetos e categorizadas em quem pode ser considerada para se viver junto ou casar e quem só é boa para encontros casuais.

O homem de macacão foi publicado no início dos anos 1970, época do chamado “milagre econômico”, por um lado, e da violenta repressão política dos anos de chumbo da ditadura militar, por outro. Neste livro, França Jr. fica à margem desses eventos e apresenta o dia a dia de um trabalhador brasileiro envolvido com sua sobrevivência, mesmo que alçado à condição de dono de um pequeno negócio. Mesmo havendo emprego, a luta cotidiana pelo sustento é penosa e solitária. O romance destaca a representação literária do mundo do trabalho a partir do olhar voltado para uma ocupação pouco valorizada, cativando o leitor pelo tema e por sua linguagem prosaica e coloquial.

Para saber mais

LOPES, Maria Angélica Guimarães (2010). O voo certeiro: a novelística de Oswaldo França Junior. Rio de Janeiro: Sete Letras.

MORAES NETO, Geneton (2009). O escritor recebe uma missão: matar Leonel Brizola. Suplemento Literário de Minas Gerais, Belo Horizonte, edição 1325 (Lembranças de Oswaldo França Junior), p. 16-19. Acesso em: 2 set. 2025.

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Como citar:

GARCIA, Carmen de Jesus.
O homem de macacão.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

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literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

21 maio. 2026.

Disponível em:

7890.

Acessado em:

07 jun. 2026.