GUIMARÃES, Josué Marques. Os tambores silenciosos. Porto Alegre: Globo, 1977.
Rafael Rocca dos Santos
Ilustração: Moreno Lago
Josué Marques Guimarães (São Jerônimo, RS, 1921 – Porto Alegre, RS, 1986) iniciou sua carreira como jornalista e dramaturgo, porém foi como romancista que se assentou no cenário literário brasileiro. Sua produção conta com mais de vinte volumes de romances, novelas, coletâneas de contos, obras infantis e dramas. Foi político e exerceu os cargos de vereador em Porto Alegre, chefe de gabinete do presidente João Goulart e diretor da agência de notícias brasileira até o golpe de 1964. Essas informações são relevantes como pano de fundo para o contexto do romance Os tambores silenciosos (1977), o quinto dentro da produção literária de Guimarães. Ele foi escrito durante o ano de 1975, publicado em 1977 pela Editora Globo de Porto Alegre e reeditado diversas vezes, especialmente pela também gaúcha editora L&PM, casa que ainda abriga a obra do autor. O título se refere, por “tambores silenciosos”, à Noite dos Tambores Silenciosos, uma cerimônia adotada pelos Integralistas brasileiros para comemorar a fundação do Movimento Integralista Brasileiro, em 1935.
O contexto histórico mais amplo para se entender o romance é o golpe de 1964, que instituiu os militares no poder com apoio do empresariado, da mídia e de parte da sociedade civil. Escrito sete anos após a imposição do Ato Institucional nº 5, a narrativa reflete o período de auge da perseguição política e, no que tange às artes, de maior censura a manifestações culturais. Ressalta-se a participação ativa do autor no cenário político brasileiro, atuando como membro de diversos partidos políticos e na militância jornalística durante e após o golpe, que resultou em diferentes graus de repressão à sua carreira. Essa atividade política levou o escritor a se exilar em Portugal em 1974, mantendo o trabalho de correspondente internacional enquanto escrevia a obra.
O romance, porém, não se situa durante a Ditadura Militar de 1964-1985, mas sim antes do início de outra, mais antiga, no ano de 1936, no período conhecido como Estado Novo, no qual Getúlio Vargas consolida seu poder ditatorial de inclinação autoritária, emulando os diversos regimes fascistas europeus que então chegavam aos seus auges. O cenário do livro é a cidade fictícia de Lagoa Branca, no Rio Grande do Sul.
Formalmente, o romance de Guimarães propõe uma narrativa que se aproxima do cinema na medida em que a observação das atividades cotidianas parte do olhar das velhas da cidade, produtoras têxteis artesanais. A partir do comentário de uma dessas senhoras, o romancista altera o ponto de vista da narrativa-moldura principal para contar a história que fora observada pela velha, como se uma câmera se movesse da janela de onde a senhora olha a rua e focalizasse a cena que, assim emoldurada, passa então a ser narrada. Esse jogo de alternância entre a narrativa-moldura de fundo e episódios particulares é o fio que liga a narrativa. Porém, exceto por essa movimentação do olhar, a estrutura de Os tambores silenciosos é tradicional, ou seja, segue uma linha temporal sequencial; o autor não propõe inovações de língua e linguagem, tal como vistas nos movimentos vanguardistas da época. Isso não é, no entanto, um ponto negativo, pois está no enredo a importância do livro.
Apesar de a história se passar em 1936, e retratar, portanto, o período da Ditadura Vargas, em um nível mais profundo, temos também o momento contemporâneo à sua escrita, ou seja, os anos da Ditadura Militar (1964-1985), provavelmente a fim de elidir os mecanismos censores na época de publicação da obra. Em outras palavras, o romance aborda, de fato, a Ditadura Militar, porém usando a Ditadura Vargas como pano de fundo ou pretexto. Assim, são temas as dinâmicas de poder entre os militares e a sociedade civil e as justificativas políticas para a instauração da supervisão e da censura da sociedade por parte dos governantes. O tom do romance é irônico e, em certos momentos, beira o cômico devido à estupidez que o romancista imprime em seu personagem principal, o coronel João Cândido Braga Jardim, que é o prefeito de Lagoa Branca.
O coronel João Cândido Braga Jardim é, sob diversos aspectos, mais um burocrata do Estado do que propriamente um militar. Atuando como prefeito e sendo, assim, o centro de todo o poder na cidade pequena, o coronel se vê na missão de “moralizar” a população e trazê-la aos novos tempos, ainda que, na prática, isso se traduza somente em repasses de verbas. Em um movimento crescente, ele começa por censurar atitudes insignificantes dos moradores e os livros da única livraria da cidade até chegar a adotar uma posição ditatorial plena, que emula os regimes europeus e o crescente fechamento da sociedade pelo governo Vargas. Nesse sentido, o prefeito-militar apoia abertamente os integralistas brasileiros, o braço nacional do fascismo mundial, trazendo-os para dentro do governo. Pela defesa da família e da propriedade, que são lemas do fascismo brasileiro, o coronel propõe “limpar” a sociedade de Lagoa Branca da influência supostamente maléfica de elementos podres, tais como as “ideias estrangeiras” veiculadas por jornais da capital e a vagabundagem, encarnada nos moradores de rua da cidade, e reforçar valores familiares e religiosos tradicionais, embora não tivesse ideia de quais eles seriam. Dessa maneira, ele reproduz em sua fala o discurso biologizante em voga na época.
No entanto, a figura de um padre cria antagonismo ao coronel. De uma tradição católica que se volta à proteção dos pobres, podendo-se aqui afirmar uma aproximação à Teologia da Libertação, o padre Camilo se solidariza com o sofrimento popular e seu pensamento é crítico em relação às injustiças sociais, inclusive àquelas que derivam das diferenciações hierárquicas de poder entre a classe dominante e o povo. Essa diferença de visões leva a um ambiente de antagonismo entre as forças do Estado, junto aos setores conservadores e governistas da Igreja e o aparato opressor, e o padre, um membro da comunidade como os demais. Sentindo o aparato repressor estatal se aproximar, ele exacerba suas críticas ao regime e passa a fazer denúncias contra atos oficiais dirigidos contra a classe mais baixa da população. Intensifica-se então o confronto entre o setor da sociedade representado pelo padre e aquele da sociedade encarnada no coronel e seus asseclas.
O destino das personagens na trama assemelha-se ao destino de tantas outras personagens, reais e fictícias, que, em ambos os regimes autoritários, ousaram desafiar a situação e lutar por reformas e pelo fim da repressão em busca da liberdade.
Em uma prosa que é ao mesmo tempo direta e lírica, não sem deixar transparecer um tom de ironia, Guimarães conduz o leitor a dois tempos históricos e propõe uma reflexão sobre regimes autoritários e as justificativas multíplices que alicerçam tais sistemas. O autor expõe que as justificativas dadas por governantes autoritários para a manutenção do poder são risíveis e mesquinhas, fruto muitas vezes de pequenas rixas pessoais que se transformam em política de Estado. Além disso, contrasta a imperiosidade dos governantes em se mostrarem baluartes da moral em público com a narração de pequenos casos de adultério e de imoralidade na vida particular. No romance, isso é ilustrado, por exemplo, no episódio da apreensão de obras consideradas “licenciosas” pela censura para a “fruição” privada dos agentes do governo. O recurso à comicidade amplia a crítica social pelo riso, ainda que o tema seja sério, ou seja, a repressão da sociedade civil sob um regime autoritário.
Dada a crescente simpatia atual de parcela da população por regimes de caráter autoritário, protecionista ou, em certos casos, abertamente ditatorial, um romance como Os tambores silenciosos lança luz sobre tempos sombrios, deixando claras as mazelas que advêm, necessariamente, de regimes que preconizam a rigidez e o pânico moral, o retorno à família como núcleo da sociedade, insubstituível e cego aos seus problemas, e os conceitos de bem e mal, em si vazios, como fatores primordiais de definição de políticas públicas.
Para saber mais
DALCASTAGNÈ, Regina (1996). O espaço da dor: o regime de 64 no romance brasileiro. Brasília: Editora da Universidade de Brasília.
GONZAGA, Sergius; FILIPOUSKI, Ana Maria Ribeiro (2006). Josué Guimarães: escrever é um ato de amor. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro.
GUTH, Alencar (2021). Os tambores silenciosos e o novo romance histórico. Antares, Caxias do Sul, v. 13, n. 29, p. 391-413. Disponível em: https://sou.ucs.br/etc/revistas/index.php/antares/article/view/9569. Acesso em: 2 out. 2025.
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