Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Coronel de barranco

LIMA, Cláudio de Araújo. Coronel de barranco. São Paulo: Civilização Brasileira, 1970.

Mykaelle de Sousa Ferreira
Ilustração: Dona Dora

Cláudio de Araújo Lima (Manacapuru, AM, 1908 – Manacapuru, AM, 1978) foi psiquiatra, ensaísta, tradutor, dramaturgo e membro da Academia Amazonense de Letras. Além de publicar ensaios relacionados à sua prática médica, o autor manauara dedicou parte significativa de sua obra à produção ficcional. Coronel de barranco, lançado em 1970, é o título do quarto romance de sua carreira e traz a Amazônia como paisagem central.

Neste livro, a narrativa se desenvolve a partir das memórias do narrador-personagem Matias Cavalcanti de Lima e Albuquerque. A obra é organizada em três partes, intituladas respectivamente de “As sementes”, “As árvores” e “As cinzas”. Por meio dessas memórias, o enredo percorre cerca de cinquenta anos, do final do século XIX às primeiras décadas do século XX, período marcado pelo auge e pelo declínio econômico do ciclo da borracha na cidade de Manaus, assim como por eventos históricos internacionais, como a Primeira Guerra Mundial e a Gripe Espanhola, doença que atinge o protagonista. O romance também não deixa de mencionar o contrabando de sementes de Hevea brasiliensis para o Jardim Botânico de Kew, na Inglaterra, pelo botânico inglês Henry Alexander Wickham – episódio que teve grande impacto na história econômica da Amazônia e no próprio desenvolvimento do enredo.

A maior parte do romance transcorre durante a Bellé Époque amazônica, período em que o narrador-personagem se posiciona como testemunha privilegiada dos acontecimentos históricos, adotando um olhar nostálgico e, ao mesmo tempo, crítico. Matias, assim, transita entre os dois núcleos existentes no seringal – o barracão e as colocações, onde residem os trabalhadores –, acompanhando de perto as tensões locais. O romance, portanto, oferece um retrato da vida do homem do tapiri, do barracão e da casa aviadora, inseridos no espaço do seringal “Fé em Deus”. A voz do narrador desaprova, por exemplo, a maneira como o extrativismo da borracha amazônica é conduzido, defendendo melhores condições de vida e de trabalho para os seringueiros.

Já aos 60 anos, entre idas e vindas à Europa, Matias procura orientar os seringueiros diante do novo momento de decadência da borracha, incentivando-os a obter mais autonomia e lucro com o próprio trabalho. A derrocada econômica da borracha, que rompeu a condição de entrelugar em que viviam, também permitiu a formação de núcleos familiares mais estáveis. No entanto, se, por um lado, as relações de trabalho se tornavam menos desiguais, por outro, era necessário enfrentar uma condição de vida mais modesta, marcada pela precariedade.

A narrativa acompanha ainda a doença de Matias, acometido pela Gripe Espanhola, que o leva a Paris para tratamento. Mais tarde, ele retorna ao seringal decidido a terminar seus dias na Amazônia. Aos 70 anos, o narrador-personagem realiza os principais desejos de sua vida: plantar uma seringueira, depositar as cinzas de sua amada Mitsi na floresta e escrever o livro que ambicionava.

É, portanto, nesse exercício memorialístico que Matias oferece ao leitor não apenas um panorama dos principais acontecimentos de sua época, mas também um cortejo de personagens que se tornam símbolos desse contexto. Entre eles estão o seringueiro Joca, que encarna o nordestino explorado; Inácio, o pescador caboclo beberrão; e o coronel Cipriano, seringalista autoritário e ganancioso. São sujeitos que habitam a memória de Matias e, ao mesmo tempo, representam figuras fundamentais nesse cenário. Em síntese, conforme aponta Mendes (2013), a narrativa compõe um instigante painel humano, que reúne caboclos amazônidas, nordestinos oriundos de diferentes estados da Região Nordeste do Brasil, além de estrangeiros, com destaque para os sírio-libaneses.

Enquanto seringueiros, caboclos e nordestinos figuram como expressões de resistência, o coronel de barranco encarna o poder e a exploração, contrapondo-se à diversidade cultural da região. Diferentemente de autores como Elizabeth Azize e Milton Hatoum, que tendem a representar a experiência imigratória de sírio-libaneses no Brasil e seu papel econômico e cultural, Araújo Lima concentra, na figura do coronel de barranco, uma crítica ao autoritarismo. Cabe lembrar que o termo “coronel de barranco” designava, nas regiões amazônicas, o patrão seringalista que, muitas vezes, de modo violento, controlava os trabalhadores locais, em dinâmicas que guardam semelhança com outras regiões do país.

O estilo de Araújo Lima é marcado por uma rara combinação de densidade histórica, lirismo descritivo e crítica social. Sua linguagem elegante e detalhista equilibra o registro documental com a imaginação literária. O texto causa um forte efeito sensorial no leitor, sustentado pela descrição minuciosa dos espaços amazônicos – florestas, rios, seringais, barracões e cidades em transformação. Além disso, a alternância entre um tom melancólico e contemplativo e passagens de diálogos coloquiais, sem cair na caricatura, confere complexidade estilística à obra.

Entre os temas centrais estão os conflitos sociais, a exploração dos trabalhadores, as relações de poder autoritárias e a heterogeneidade cultural da Amazônia. O romance rompe com estereótipos discursivos recorrentes que reduzem a região a um cenário exótico. Ainda que mobilize figuras emblemáticas do imaginário amazônico, como o próprio coronel de barranco, a ficção de Araújo Lima enfatiza a pluralidade de vozes e experiências. Ao ressignificar tais personagens, o autor confere à literatura amazonense uma dimensão híbrida, na qual memória, cultura e crítica social se entrecruzam.

Embora Coronel de barranco não tenha recebido atenção crítica significativa na época de sua publicação, em plena década de 1970, durante a Ditadura Civil-Militar brasileira, revisitar essa obra representa propor um diálogo sobre discussões contemporâneas como colonialidade, apagamentos históricos e destruição ambiental. O romance permanece, assim, como obra fundamental para a literatura amazonense e para a compreensão das relações entre ficção, memória e história no Brasil.

Para saber mais

MENDES, Francielle Maria Modesto (2013). Coronel de barranco: a literatura no imaginário social da Amazônia no primeiro ciclo da borracha. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo.

MENDES, Francielle Maria Modesto (2016). Imaginário na Amazônia: diálogos entre história e literatura. Rio Branco: Edufac.

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Como citar:

FERREIRA, Mykaelle de Sousa.
Coronel de barranco.

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mapeamento 

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literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

22 abr. 2026.

Disponível em:

7780.

Acessado em:

23 abr. 2026.