Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O irmão alemão

BUARQUE, Chico. O irmão alemão. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Juliana Florentino Hampel
Ilustração: Léo Tavares

Francisco Buarque de Hollanda (Rio de Janeiro, RJ, 1944), ou simplesmente Chico Buarque, é reconhecido por muitos críticos como um dos mais importantes nomes da música popular brasileira (MPB). Como escritor, publicou seu primeiro romance, Estorvo, em 1991, obra laureada com o Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 1992. No total, Buarque escreveu sete romances, entre eles Budapeste (2003), vencedor do Prêmio Jabuti de Livro de Ficção, e Leite derramado (2009), eleito o Livro do Ano pelo Prêmio Jabuti em 2010.

O irmão alemão (2014) é seu quinto romance e tem como eixo narrativo a busca do narrador-autor-personagem por seu meio-irmão alemão, fruto do relacionamento do pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, com Anne Ernst, enquanto trabalhava como correspondente na Alemanha nos anos 1930.

Segundo Buarque, O irmão alemão é o livro sobre “a busca interminável desse fantasma de irmão”, de quem ele havia tomado conhecimento em 1967, por intermédio do poeta Manuel Bandeira. A ideia de escrever acerca do tema surge muito mais pelo desconhecimento sobre essa “criatura distante de destino incerto” do que pela ânsia de revelar uma história tabu da família. Assim, o leitor é conduzido por um labirinto narrativo no qual se acessa uma biografia desorganizada, em que se cruzam elementos da vida pessoal dos Buarque de Hollanda que são identificáveis, mas que, entretanto, aparecem desviados pela ficção.

Estruturalmente, o romance é dividido em 17 capítulos, nos quais se sobressai uma narração de caráter autoficcional. Surgem, aqui e ali, cartas reais e inventadas relacionadas a Sergio Ernst/Günther — o irmão alemão — escritas por um Sergio de Hollander, além de documentos provenientes de embaixadas e de instituições germânicas informando a situação do irmão do narrador, que havia sido entregue pela mãe para adoção. O enredo se inicia justamente quando o narrador, Francisco de Hollander, carinhosamente apelidado de Ciccio, encontra acidentalmente, em 1960, uma dessas correspondências ao folhear um dos livros da biblioteca paterna.

Nos demais capítulos, desenvolve-se uma narrativa com detalhadas descrições da família, incluindo o pai e sua biblioteca, cujos livros se multiplicam por prateleiras instaladas em quase todos os cômodos da casa; a mãe napolitana, Assunta, que sempre usa o italiano em situações de tensão e se mantém o tempo todo atarefada atendendo às necessidades do marido e dos dois filhos; o irmão Domingos, o Mimmo, com suas aventuras amorosas em busca de mocinhas virginais; além de alguns amigos que convivem com Ciccio em diferentes períodos de sua vida, que vão da adolescência ao ingresso na universidade.

Apesar de alguns fatos alusivos à vida dos Hollanda e de certos documentos serem verídicos, Buarque declara que o livro é pura invenção. Inúmeros críticos asseveram que O irmão alemão deve ser lido sob a chave interpretativa da autoficção. Para Georg Wink, isso ocorre quando a narração se apresenta como um jogo no qual ocorre um “oscilar difuso entre fato e ficção, entre os pactos referencial e ficcional. Autoficção é uma forma de narração como se fosse (parcialmente) verdadeira”. E é precisamente esse jogo entre relato e sua ficcionalização que captura o leitor, uma vez que paira sempre no ar o questionamento se dado episódio realmente aconteceu, conduzindo a uma infinita checagem de informações, verificação de notícias e busca por informações que atestem o que está sendo dito.

Algumas estratégias utilizadas pelo autor parecem corroborar o ponto de vista de comentadores da obra. Por exemplo, no romance há “biografias ficcionais” do irmão alemão criadas pelo narrador que, obcecado por sua história, inventa inúmeras possibilidades sobre a vida dele após a adoção e, para cada uma dessas hipóteses, existe uma explicação que as tornam verossímeis. Conforme explica o crítico Georg Wink, “ao longo do livro é apresentado um caleidoscópio de ‘possíveis vidas’ do irmão”, em um declarado processo de explorar prováveis trajetórias, entre elas a de que o irmão teria viajado a São Paulo com uma bolsa do Instituto Goethe, mas que não chegara a contatar a família brasileira; e outra que diz que ele teria sido um intelectual tal qual o pai, enfurnado em diferentes bibliotecas de Berlim.

O pacto estabelecido com o leitor em O irmão alemão é o de que serão contadas verdades, porém transformadas porque são convocadas a partir da ficção. Por essa razão, muitas vezes, enquanto revela algo, o narrador cria novas narrativas ficcionais que se entremeiam às anteriores, confundindo e desorientando o leitor. Um exemplo desse estratagema é a relação de Ciccio com a biblioteca do pai, que se antropomorfiza, assumindo o papel de arrimo emocional: “Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporte desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do teto ao chão. E era nos livros que eu me escorava, desde muito pequeno, nos momentos de perigo real ou imaginário”.

A literatura é o alicerce desse narrador, que, entre outras pretensões, busca, por meio dela, estreitar laços com o pai, com quem afirma ter uma relação distante, de pouca afinidade. Fato é que Sérgio Buarque realmente possuía uma biblioteca com cerca de 10 mil volumes, que hoje faz parte do acervo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Tais elementos da narrativa, portanto, acabam por criar uma atmosfera de realidade verificável que, contudo, no decorrer da leitura, vai se provando ilusória, devido ao uso contínuo de artifícios que provocam a dúvida, como as alternâncias constantes entre registros de fabulação, sonhos e reflexões.

Mayara Calqui (2021) declara que os livros são “objetos biográficos dos Hollander”, pois há um investimento afetivo na relação de Ciccio com a biblioteca. Existiria ainda, de acordo com a pesquisadora, uma conexão direta com a memória cultural do país e, também, com a memória literária ocidental, “criando uma intertextualidade que forma um caleidoscópio de referências literárias que antecipam, corroboram ou explicitam pontos da trama de Buarque”.

O papel relevante da literatura na vida do narrador é evidenciado em vários momentos da narrativa, seja quando ele quer se destacar na universidade — “meus colegas não me perdoavam por ostentar os livros autografados do meu pai nos corredores da faculdade de Letras” — , seja nas tentativas de se aproximar do pai — “há uma edição em alfabeto árabe das Mil e uma noites que ele não leu, mas cujas ilustrações admirou longamente, como denunciam os filetes de cinzas na junção das suas páginas coloridas. Hoje tenho experiência para saber quantas vezes meu pai leu um mesmo livro, posso quase medir quantos minutos ele se deteve em cada página”. Dados como esses igualmente se cruzam com o real, pois Buarque, em mais de uma ocasião, declara ter derrubado o muro que o separava do pai por meio da literatura.

O presente da narração revela o contexto histórico do golpe militar no Brasil e, já no final da história, a visita inesperada de agentes da repressão à casa dos Hollanda em busca de Domingos, que havia desaparecido dias antes. À procura de respostas para o sumiço do irmão brasileiro, Ciccio empreende uma viagem ficcional que se confunde com a viagem real feita a Berlim por Buarque para conhecer a filha e a neta de seu falecido irmão alemão. A cena é importante porque antecipa a mistura que se dá na narrativa entre a figura dos dois irmãos, expondo, uma vez mais, o jogo entre ficção e realidade presente em O irmão alemão.

Ao caminhar pelas ruas berlinenses, Chico/Ciccio imagina como teria sido a vida de Sergio sob o regime comunista. Na visita à TV estatal da DDR (Alemanha Oriental), onde o irmão trabalhara, ele assiste a uma de suas gravações e, em determinado instante, se pergunta se aquele era “o Mimmo”: “[…] passaria mesmo pela minha cabeça que Sergio Günther fosse o próprio Mimmo, aos trinta anos de idade, exilado em Berlim Oriental com passado nebuloso e nome falso”. A confusão — ou fusão — entre o irmão brasileiro e o alemão é esclarecida pelo close da câmera, quando ele “veria nele o rosto oblongo, o nariz de batata e até os óculos do pai”, materializando, finalmente, a figura do irmão germânico. A possibilidade de contar essa história e tornar-se “um homem das letras” o coloca em um novo patamar no seio familiar, recriando esse sujeito que faz as pazes com o pai em um universo só possível por meio da ficção.

Para saber mais

CALQUI, Mayara de Andrade (2021). Entre perdas e memórias: uma leitura dos romances Leite derramado e O irmão alemão, de Chico Buarque. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade de São Paulo, São Paulo.

FERNANDES, Márcia; PÉREZ-LABORDE, Elga (2015). Duas faces de uma mesma moeda: na fronteira da autoficção pós-moderna em O irmão alemão, de Chico Buarque. Revista Cerrados, v. 23, n. 38, p. 162-173. Disponível em: http://periodicos.unb.br/index.php/cerrados/article/view/25795/22666. Acesso em: 15 mar. 2025.

LOPES, Maria Eduarda Pecly (2019). Ficção, história e ética na autoficção O irmão alemão, de Chico Buarque. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória.

SILVA, Fernando de Barros e (2015). O irmão brasileiro: a busca de Chico Buarque em Berlim. Público, Lisboa.

WINK, Georg (2017). A propósito de um irmão alemão: a ficcionalização de um assunto internacional de família. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 50, p. 47-66. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/10167/9008. Acesso em: 15 mar. 2025.

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HAMPEL, Juliana Florentino.
O irmão alemão.

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literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

06 maio. 2026.

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7897.

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07 jun. 2026.