CRUZ, Eliana Alves. O crime do Cais do Valongo. Rio de Janeiro: Malê, 2018.
Nathália Melo de Oliveira
Ilustração: Rafael Trinco
Eliana Alves Cruz (Rio de Janeiro, RJ, 1966) é jornalista, escritora e apresentadora de TV. Suas produções literárias incluem os romances Água de barrela (2016), O crime do Cais do Valongo (2018), Nada digo de ti, que em ti não veja (2020) e Solitária (2022). Como apresentadora, Cruz interpela autores, críticos e editores em debates sobre literatura no programa Trilha de Letras, exibido pela TV Brasil. Em O crime do Cais do Valongo, a autora entrelaça a criatividade ficcional aos registros históricos, frutos de suas pesquisas, para construir uma narrativa em primeira pessoa de uma mulher e um homem negros – sendo este caracterizado como “mestiço” ao longo da narrativa – atravessados pelos horrores da escravidão.
O livro é organizado em onze capítulos que são introduzidos por fragmentos de notícias dos jornais Gazeta do Rio de Janeiro e Jornal do Commercio. Há duas vozes narrativas: a de Nuno Alcântara Moutinho, com presença limitada, e a de Muana Lómuè, que ocupa a maior parte da trama. Elas são demarcadas por subdivisões que têm subtítulos próprios para cada narrador. Assim, as histórias de cada um deles se cruzam entre si e com o que é exposto pelos noticiários.
A trama concentra-se também em descrever a região do Valongo, no Rio de Janeiro do século XIX. Em alguns trechos, é possível identificar lugares que existiram e ainda existem na antiga capital do Brasil, como os mercados negreiros da região, o Cais Pharoux e a Pedra do Sal. O romance se passa durante o reinado de D. João VI, fato que pode ser identificado por passagens do livro e pelas notícias no início dos capítulos.
O pano de fundo da narrativa é a tentativa de descobrir o assassino do senhor Bernardo Lourenço Viana, comerciante do Valongo que foi encontrado morto em condições estranhas em uma das ruas da cidade. Nuno, um homem mestiço que sonha em ser livreiro, inicia a história contando sobre como o corpo do homem foi encontrado. Nuno, que não é policial, percorre os capítulos acompanhando o Intendente-Geral da Polícia, Paulo Fernandes Viana, nas investigações do crime. Paulo é primo do homem assassinado e conduz toda a investigação interrogando suspeitos e buscando pistas. Nuno é também um suspeito do assassinato, por ter uma dívida com o morto. Contudo, o aspirante a livreiro se desvencilha da suspeição com a ajuda de Muana Lómuè.
O assassinato de Bernardo envolveu outros suspeitos: Muana, Marianno e Roza, porque eram os escravizados que trabalhavam na hospedaria de Bernardo, e Alceu Coimbra, amante de Emerenciana Campelo D’Ávila, noiva de Bernardo. Para o inspetor geral, os três escravizados de Bernardo eram os principais suspeitos. A única questão que intrigava Paulo era o fato de eles não terem fugido após a morte do comerciante.
Os subcapítulos narrados por Muana são mais longos do que os de Nuno. A narradora descreve boa parte de sua vida em Moçambique, seu sequestro, a travessia em um navio tumbeiro que a trouxe ao Brasil, sua chegada e a vida atual na hospedaria Vale Longo. As histórias de Muana são contadas para um ouvinte atento, o senhor João Toole, um professor de língua inglesa que visita a moçambicana no final do dia para ouvir seus relatos.
O senhor Toole apresentou-se a Bernardo como professor. Ele disse ao comerciante que lhe ensinaria a língua inglesa, desde que Bernardo o deixasse conversar ao final do dia com Muana. Para a escravizada, Toole se apresentou como abolicionista e disse que tinha a intenção de levar os relatos de escravizados no Brasil a público, a fim de encerrar o tráfico negreiro e, posteriormente, o sistema escravagista no país.
Muana conta ao professor sobre aspectos geográficos de seu país natal, questões culturais e religiosas de seus ancestrais, a morte dos pais, os amigos, as paixões que teve e as doenças que assolavam as pessoas na travessia do Atlântico. Muana relembra sua aldeia, próxima às montanhas do Namuli, e uma habitante de lá: Nipele, a Grande-Mãe. Ela também fala sobre sua ida para Quelimane e sobre o comércio negreiro da cidade.
Por conta do período em que viveu em Quelimane, cidade em Moçambique com influência islâmica, Muana relata o cotidiano da região e os rituais da religião, como a circuncisão de meninas após a primeira menstruação. A personagem conta que seu pai converteu-se ao islamismo, mas sua mãe não aceitava tranquilamente a ritualística proposta pelos muçulmanos. Por isso, quando Muana menstrua pela primeira vez, sua mãe prefere ensinar os rituais do povo Namuli para a menina, escolha que acaba gerando um ataque à família. A mãe de Muana é acusada de feitiçaria, e a família é separada por comerciantes de escravos. Assim, a protagonista perde o contato com seus familiares e apega-se a Umpulla, amigo e namorado, para sobreviver nos dias posteriores.
Após o ataque, Muana e Umpulla fogem para um mosteiro onde são escravizados. À noite, os dois se encontram nas áreas externas do lugar para se amarem. É em um desses encontros que Frei Lucas os descobre e os açoita. Ferida, Muana decide contar aos outros habitantes do mosteiro sobre as aventuras com homens que Frei Lucas vivia às escondidas e em como o clérigo se automutilava depois. Apesar de ser uma prática comum aos habitantes do mosteiro, a história gerou indignação no Frei, que os enviou para a Casa Rio de Janeiro, depósito em Moçambique que mantinha pessoas que seriam enviadas ao Brasil como escravizadas. O lugar tinha condições muito precárias, o que favorecia o alastramento de doenças. Foi aí então que Muana reencontrou seu pai.
Antes de serem enviados ao Brasil, Muana e Umpulla são marcados na pele com as iniciais dos comerciantes brasileiros envolvidos na comercialização de seus corpos. Ao chegarem ao Brasil, os dois enamorados acabam se separando, e Muana guarda apenas as memórias e um brinco de meia-lua de Umpulla.
Ao mesmo tempo em que conta sua história, Muana a registra em papéis que recebe de Toole. Este é um dos trunfos que ela tem e prefere esconder de Bernardo: saber ler, escrever e conhecer alguns idiomas. A personagem utiliza-se desta habilidade para se manter informada pelos jornais que recolhe para Bernardo, para resistir e se posicionar diante das situações que vivencia. Além disso, ela também tem a habilidade de ver e conversar com mortos, o que gera uma grande reviravolta no decorrer da trama.
Ao final da história, Muana enterra, nos fundos da hospedaria que era de Bernardo, um baú com sua história escrita nos papéis que Toole lhe dera. Além de sua história, no baú havia alguns pertences dos mortos com quem Muana conversava ao cair da noite. A mulher encarrega Nuno de cuidar do baú e de contar sua história aos descendentes dele. Embora Nuno não fosse muito religioso, ele lhe prometeu que cumpriria sua promessa.
Assim, quando Nuno se torna pai, ele desenterra o baú para contar a história de Muana a seu filho. Ao mesmo tempo, o livreiro impressiona-se com a história da escravizada e chega à conclusão de que o grande crime do Cais do Valongo nada tem a ver com Bernardo Lourenço, mas sim com a morte de milhares de africanos que ali aportaram.
O romance O crime do Cais do Valongo mostra-se relevante para os debates atuais no que tange às poucas narrativas de escravizados no Brasil. O baú de Muana pode ser lido como artefato histórico e pessoal. Ele não conta somente a história da personagem, mas atravessa um oceano inteiro e uma ancestralidade imensa para afirmar que a escravidão existiu no Brasil, foi e é cruel com a população negra até os dias atuais. Essa obra é uma ficcionalização de vivências que aconteceram e foram queimadas, enterradas ou sumiram do arcabouço histórico do país, por motivos diversos, mas que permanecem vivas nas práticas cotidianas do racismo estrutural, da misoginia e da tentativa de apagamento dos horrores da escravidão.
Para saber mais
CARREIRA, Nara Lasevicius (2020). O crime do Cais do Valongo, de Eliana Alves Cruz: a ficção como (re)escrita da História. REVELL – Revista de Estudos Literários da UEMS, Campo Grande, v. 1, n. 24, p. 105-123. Disponível em: https://periodicosonline.uems.br/index.php/REV/article/view/5014. Acesso em: 16 mar. 2025.
MATIAS, José Luiz (2019). O crime do Cais do Valongo: quando a saga da diversidade negra se projeta para a contemporaneidade. Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, Rio de Janeiro, v. 11, n. 22, p. 33-51. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/flbc/article/view/31043/18997. Acesso em: 12 mar. 2025.
O CRIME do Cais do Valongo, com Eliana Alves Cruz (2023). Roteiro: Carlos Alberto Jr. Youtube. 1 vídeo (68 minutos). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hUqJAAjkJZI&t=5s&ab_channel=CarlosAlbertoJr. Acesso em: 16 mar. 2025.
SANTOS, Eliana Silva dos (2022). Morte e ancestralidade em O crime do Cais do Valongo. Dissertação (Mestrado em Literatura e Cultura) – Universidade Federal da Bahia, Salvador.
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