Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Dôra, Doralina

QUEIROZ, Rachel de. Dôra, Doralina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.

Larissa de Medeiros Coutinho
Ilustração: Liana Abreu

Após um intervalo de mais de vinte anos sem escrever romances, Rachel de Queiroz (Fortaleza, CE, 1910 – Rio de Janeiro, RJ, 2003) surpreendeu a cena literária brasileira ao lançar Dôra, Doralina (1975) ao mundo. Mais madura desde O Quinze (1930), sua linguagem se complexifica dando mais liberdade às suas personagens e ao leitor – habilidade que já começava a desenvolver em As Três Marias (1939). Dedicada também à escrita de peças de teatro e de crônicas, a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras apresenta a saga de mais uma personagem feminina em um país que, apesar de suas dimensões continentais, não é capaz de contê-la. Narrada em primeira pessoa, Maria das Dores evoca suas memórias e traz para o centro da narrativa algo raro para uma mulher nascida no início do século XX: o poder de desejar.

O romance atravessa tanto o Brasil quanto o luto de uma família. Órfã de pai, distante emocionalmente da mãe e com um filho morto nas costas, Dôra é uma ilha dentro de si mesma a ponto de falar quase nada sobre quem é. Dividido em três cadernos, seu testemunho foca em Senhora (sua mãe), na companhia de teatro que integra e em Comandante (seu grande amor). Sem nenhum caderno dedicado inteiramente a si, Dôra está contida no outro e o descreve na tentativa de dar contorno à própria história; mora nas brechas da sua narrativa e carrega no seu nome (que odeia) o destino e a herança que ainda não sabe que lhe cabem.

É num contexto de instabilidade política interna e externa que a história de Dôra é desenvolvida. Com mais um romance de formação, a escritora molda sua heroína entre a metade da República Velha e o pós-Segunda Guerra, apresentando um recorte da experiência feminina naquele período. Embora não se identificasse com o feminismo, suas personagens caminham por rotas nada convencionais, desafiando a ideia do lugar da mulher na sociedade. Heloísa Buarque (2016) defende que as protagonistas de Queiroz foram as personagens mais revolucionárias e radicais da época, e Dôra dá mais peso a esse grupo quando, viúva, usa a situação conjugal apenas para exercer a sua liberdade.

Emancipar-se, tornar-se chefe da casa e administrar os negócios da família eram posições quase impossíveis de se atingir senão diante do patriarca morto. Contudo, o posto de grande respeito vinha com a obrigatoriedade social do uso do preto – lembrança de que tal autonomia era uma concessão fruto de tragédia, logo, nenhum sentimento além de tristeza e pesar poderia ser gozado. Perante o único estado civil capaz de lhes conferir poder, Senhora e Dôra reclamam para si toda a força que lhes foi negada ao longo da vida e agarram-se a ela sem jamais soltar.

Junto da viuvez, a dor da perda do pai é uma das bases fundadoras da protagonista. O pai que tanto ama sempre lhe escapa acabando por habitar apenas o terreno da mãe. “A vida de todo mundo é igual”, rebate Senhora ao ser encurralada pela filha por mais informações. Fala violenta e assertiva que é estabelecida mais como uma praga do que como uma explicação e que reverbera na narrativa como uma espécie de destino do qual Dôra luta para escapar. O ressentimento da ausência desse homem junto dos poucos retalhos que tem sobre a história dele leva a menina a habitar um poço fundo e escuro do qual só consegue sair ao subir no trem que a leva para Fortaleza.

A violência do pano de fundo da narrativa é apresentada de forma direta por meio de ferimentos de batalha, ataques e bombardeios, mas também indiretamente pela truculência dos homens que rodeiam a personagem – figuras masculinas clássicas impregnadas pelo cheiro de cigarro e álcool que dão vida ao horror, ao poder desmedido, mas, ao mesmo tempo, representam a proteção e o remate da lógica patriarcal.

Delmiro, Laurindo e Asmodeu são rememorados como personificações dessa truculência. Cada um é responsável por um sofrimento tanto íntimo quanto universal que encharca Dôra: a dor advinda da frustração política e de sonhos destruídos; a dor da traição e da culpa e a dor de perder o verdadeiro amor. Tecendo seu testemunho por meio das violências sofridas e de constrangimentos normalmente não abordados na escrita feminina da época, seu mundo colide com o do leitor e o convoca a curvar-se diante da complexidade do que é ser uma mulher desejante.

Na falta do pai biológico, Seu Brandini (diretor da Companhia) exerce a função paterna para Dôra e o teatro torna-se sua família, para além do seu ofício. Fato que também desafia os padrões sociais da época ao colocar em cheque o vínculo sanguíneo como o único vínculo familiar possível. Com Seu Brandini, Estrela e Dona Loura a seu lado, a jovem do interior que nunca tinha frequentado um baile sequer consegue estruturar-se para, finalmente, começar a sua vida.

Ao apresentar sua personagem principal como integrante de uma companhia de teatro, Queiroz adiciona ainda mais camadas de audácia a essa mulher. Em Prólogo, ato e epílogo (2019), Fernanda Montenegro descreve a estigmatização da carreira e o peso que era para uma mulher exercê-la. Colocadas no mesmo balaio, prostitutas e atrizes eram obrigadas a portar uma carteira de segurança pública para circularem livremente pelas ruas. Ser atriz era uma afronta não só à família, mas também à sociedade e Dôra, sabendo ou não disso, percorre o caminho da profissão sem exercer nenhum juízo de valor sobre si e suas companheiras. Com o nome artístico de Nely Sorel, rompe com seu passado no interior do Ceará e enfrenta o tabu da profissionalização feminina na cena artística, posicionando-se à parte do que parecia ser o seu destino.

Nely Sorel se reinventa, porém, sem deixar Maria das Dores para trás. A autora nomeia seus personagens para que ajam como uma estrutura para além de um substantivo próprio. São nomes capazes de se desdobrar em premonições, características físicas, psíquicas ou até mesmo contar histórias – parte da história do nome de Dôra é também a história de Senhora. O nome que tanto odeia é justificado pelo milagre de seu nascimento, porém, mais do que isso, significa o milagre da não morte da mãe no parto. Carregada da experiência traumática de outra pessoa, a menina só consegue se livrar da herança de dor pelo apelido dado pelo pai. “Doralina, minha flor” era como ele a chamava e é como ela consegue escapar do que está tatuado em si.

Mãe sem nome, Senhora assume uma posição arquetípica nas memórias de Dôra: impiedosa e rival da filha, “com Senhora ninguém estava seguro”. A força da clássica matriarca nordestina era indizível e se orientava sobretudo em defesa de suas terras. Senhora tudo via, tudo sabia; era onipresente e não admitia delimitação. No entanto, o que brilha na narrativa não é a impetuosidade que está cravada na memória da filha e sim os feitos e a ousadia dessa mãe. Personagem de extrema complexidade, traz para o presente a memória das várias formas de poder feminino ofuscadas ao longo da história. Em A roupa de Rachel: um estudo sem importância (2020), Buarque observa como as matriarcas da escritora cearense foram capazes de expandir a linguagem do discurso público e político e subverteram a lógica do poder privado dessas mulheres no imaginário brasileiro para além da crueldade, da inteligência e do poder.

Embora a protagonista se mostre desde o início uma mulher não submissa, sua desconcertante obediência a Comandante parece destoar de seu comportamento emancipado. É esperado que não haja contradição nessa mulher que renegou a estrutura totalitária à qual era obrigada a abaixar a cabeça e pedir bênção. Porém, analisada de perto, a devoção a Comandante não a posiciona hierarquicamente abaixo dele, pois Dôra não foi obrigada a se submeter. A vontade de dedicar-se ao homem amado é uma decisão orientada unicamente por seu desejo. Dôra tem o poder da escolha e, portanto, não ocupa o lugar clássico de subjugação feminina, mesmo que aja de modo servil ao marido idolatrado. Queiroz aborda a sexualidade feminina de forma pouco explícita, no entanto, ao apresentar Dôra entre a “obrigação e a devoção”, constrói uma mulher lúcida que sabe exatamente o porquê de sua submissão voluntária.

Lucidez que a ampara em suas decisões mais difíceis e que lhe entrega forças para seguir adiante – ainda que adiante signifique voltar ao início. Alinhavando um encontro entre passado e futuro, as personagens de Rachel de Queiroz saltam do papel e penetram no mundo real. Escrito na década de 70, Dôra, Doralina segue atual, contribuindo para as discussões do movimento feminista e, consequentemente, mostrando que ser mulher desdobra-se em infinitas possibilidades. A história de Senhora é a história de Dôra e de tantas outras. “A senhora combinou comigo que tudo ficava indiviso”, reclama à mãe em relação à divisão das terras. O que é de Senhora e de Dôra vaza, fica sem delimitação, sem fronteira e ultrapassa o contorno delas mesmas, misturando suas histórias e ficando indiviso também quem as lê.

Para saber mais

BUARQUE DE HOLLANDA, Heloísa (2016). Rachel Rachel. Rio de Janeiro: HB.

BUARQUE DE HOLLANDA, Heloísa (2020). A roupa de Rachel: um estudo sem importância. São Paulo: Bazar do Tempo.

LEITE SAMPAIO, Aíla Maria (2010). Dôra, Doralina: um percurso de dores. Revista Humanidades, Fortaleza, v. 25, n. 1, p. 9-30. Disponível em: https://ojs.unifor.br/rh/article/view/4382. Acesso em: 11 ago. 2025.

MONTENEGRO, Fernanda (2019). Prólogo, ato, epílogo: memórias. São Paulo: Companhia das Letras.

PEREIRA OLIVA, Osmar (2010). Dôra, Doralina: o eterno feminino ou um louvado para o amor. Diadorim: revista de estudos linguísticos e literários, Rio de Janeiro, v. 7, p. 145-158. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/diadorim/article/view/3913. Acesso em: 11 ago. 2025.

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Como citar:

COUTINHO, Larissa de Medeiros.
Dôra, Doralina.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

20 abr. 2026.

Disponível em:

7804.

Acessado em:

23 abr. 2026.