Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Lili Passeata

GUERRA, Guido. Lili Passeata. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1978.

Jhenifer Alves Teixeira
Ilustração: Sofia Izar

Lili Passeata, romance de Guido Guerra (Santaluz, BA, 1943 – Salvador, BA, 2006) publicado em 1978, surge em um Brasil assolado pela repressão e pela censura impostas pela Ditadura Militar de 1964. Ao longo de suas 167 páginas, a obra mescla denúncia social, humor irônico e uma séria reflexão sobre a absorção de valores contraditórios com os quais se confronta toda uma geração moldada a partir do grito forçosamente silenciado. Ambientada nos limites urbanos da cidade de Salvador, no Brasil, durante a vigência do Ato Institucional nº 5, período em que a violência imposta pelo maquinário repressivo assumiu proporções hediondas, a narrativa explora temas como o irremediável desvanecer do espírito combativo de uma juventude marcada pela opressão estatal, a conformada desilusão e a tensão entre os devaneios revolucionários e a asfixiante realidade do autoritarismo. Com um forte tom jornalístico e investigativo, Guerra constrói a figura emblemática, mas sobretudo controversa, de Atília Pereira, que recebe o nome de guerra “Lili Passeata”, cuja rebeldia insubordinável se torna um símbolo de resistência diante do poder coercitivo do Estado.

O percurso de vida do autor é imperativo para refletir, de maneira aprofundada, sobre a obra. Jornalista desde os dezenove anos de idade, Guerra tornou-se reconhecido pela espontaneidade de suas crônicas, que, ao revisitarem ficcionalmente a cidade de Salvador durante o regime, assumiam um caráter irreverente e inconformado. Essa postura lhe rendeu uma série de ameaças de encarceramento durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974).

O conjunto de sua produção literária imprime o desconforto de sua vivência em um regime político antidemocrático sem, contudo, adotar o típico tom panfletário comum aos textos ficcionais da “geração literária de 64” – como ficou conhecido o enquadramento de escritores que produziram obras a partir da Ditadura Militar. Para isso, muniu seus escritos de uma linguagem irônica e sagaz, mas, também, extremamente aversa ao ajuizamento forçado.

A narrativa de Lili Passeata acompanha a vida de Atília Pereira, uma jovem universitária que se torna conhecida, na trama, por seu espírito inflamado e combativo diante dos valores conservadores prescritos pelo poder político vigente. Desde o início, a personagem é construída a partir da impressão que provocava nas pessoas que, direta ou indiretamente, tomavam conhecimento de sua história e atuação nos movimentos revolucionários dos quais participava nas ruas de Salvador na década de 1960, provida de uma série de tabuletas a estampar slogans panfletários de cunho marxista e feminista, como “Abaixo a exploração do homem pelo homem” e “Go home, imperialistas!”. Esses discursos ideológicos, gritados a plenos pulmões pela multidão de jovens sonhadores comandados por Lili, colidem com o asfixiante véu da realidade social e política que desaba incessantemente sobre as passeatas, enfraquecendo-as até que o grito, exaltado a princípio, não passe de um murmúrio abafado.

Além disso, Lili representa a dissolução do espírito revolucionário diante da violência empregada pelo poderio militar. A rebeldia e a disposição para enfrentar as ameaças de tortura e prisão são substituídas, ao longo da narrativa, por um sentimento infamiliar de conformidade em relação às injustiças sociais. O mundo, às avessas, parece ser aceito sem questionamentos. A protagonista da narrativa configura, nesse sentido, uma incontornável contradição: ao mesmo tempo em que se engaja em lutas coletivas, liderando passeatas contra o autoritarismo dos regimes fascistas, é incapaz de vencer as mudanças do tempo, esquecendo-se de si e de tudo – de todas as lutas revolucionárias que defendia nas ruas, clamando pela democracia e pelo fim do silêncio obrigatório; de todas as célebres citações de Che Guevara, Marx, Vinícius de Moraes e Brecht, desaprendidas, a pulso, pela ex-grevista.

Já adulta e casada com Antônio Serafim, advogado e professor universitário, Atília desmorona diante dos aparelhos de repressão característicos do contexto da Ditadura Militar. Após sua última prisão, em 1968, a personagem, abdicando de seu nome de guerra e sentindo-se “pela metade, sem voz nas ruas, acuada”, é posta em liberdade sob a premissa de um “descondicionamento por meios pacíficos, silêncio reobtido”. As passeatas de outrora são substituídas pelo encarceramento da protagonista em sua própria residência. Ali, autorizada a sair somente mediante a permissão prévia do marido, Lili se descaracteriza, mofando como os seus livros proibidos na estante. A emblemática roupa do julgamento, uma minissaia vermelha, que expressava sua ousadia diante da opressão empregada pelos policiais corrompidos, cede lugar ao colar de ouro da Cartier.

É o reencontro inesperado com o Outro, ex-grevista também, que provoca em Lili um desconforto diante do novo papel que desempenha socialmente. Ao observar o estado envelhecido, ausente e, sobretudo, conformado de João Porta de Sindicato (como era apelidado pelos colegas de passeata), a protagonista é estimulada a refletir sobre a própria condição: a de estar sepultada dentro de si. Essa tensão ocasionada pelo encontro evidencia, ainda mais, a degradação das personagens diante das mudanças que assolaram o cenário urbano no período de maior vigor da Ditadura Militar, isto é, a imposição de uma espécie de tortura emudecida e o ataque aos direitos civis e políticos de quaisquer indivíduos que ousassem desestruturar as rígidas amarras erguidas pelo Regime e por seus valores patriarcais ultraconservadores. Sob essa perspectiva, o leitor, ao mesmo tempo em que simpatiza com o destino solitário e irônico das figuras narrativas, reconhece, também, a presença de uma estrutura engessada e impermeável que circunda a realidade prática na qual a trama é desencadeada.

O título da obra expressa precisamente essa ironia. Lili Passeata é um contrassenso por si só, pois sugere uma narrativa quase épica dos feitos da rebelde que liderava multidões pelas ruas de Salvador. No entanto, o que o leitor encontra, reunidos na sucinta obra, são trechos do antigo diário de Atília Pereira, textos de documentos oficiais e depoimentos de outros personagens que entraram em contato com a protagonista. A figura feminina controversa que imprime seu nome no título da obra já não existe. Tudo o que se sabe sobre sua história e suas lutas revolucionárias depende do olhar sensível de quem, durante a narrativa, a acompanhou – José da Costa, repórter; Bico de Bule, testemunha ocular responsável pela prisão da jovem incorrigível; Lamenha Júnior, ex-repórter que a entrevistou no dia de seu julgamento; além de outras micronarrativas que revisitam o passado da heroína, já morta no interior de si.

Cabe salientar, nesse sentido, que, ao combinar esses variados gêneros textuais com o intuito de construir uma verdade multifacetada e polifônica, Guerra evidencia ainda mais a impossibilidade de se enfrentar, por conta própria, os desafios impostos pelo regime. A busca pela memória coletiva assume, nesse ínterim, um papel crucial para a narrativa, pois é somente a partir do resgate fragmentado e impreciso da vida de Lili Passeata, gravado à força nos relatos das demais personagens, fascinadas pela insubordinação e pela ousadia da ex-grevista, que o leitor toma conhecimento de sua imagem ficcionalizada e, portanto, atemporal.

Por meio de sua escrita sagaz e de suas personagens perdidas no interior de um passado brutal e inolvidável, Guerra criou uma narrativa que transborda os limites do contexto social e político no qual foi publicada, configurando, destarte, uma obra perene e imperativa em tempos de propagação de discursos totalitários. A reflexão velada no subtexto do inevitável senso de conformidade que assola, como praga infecciosa, os elementos narrativos da obra evidencia uma necessidade crescente de resistência humana frente ao surgimento de sistemas opressores. Tal é a eterna luta contra “a exploração do homem pelo homem” que estampava os cartazes de Lili enquanto, aos gritos, marchava pelas ruas da cidade a fim de defender a abertura política.

Em suma, Lili Passeata é uma obra que articula, a partir da ironia, da denúncia social e da linguagem jornalística, o esfacelamento da alma revolucionária durante a Ditadura Militar de 1964 no Brasil. A trajetória de Atília Pereira, uma jovem silenciada pelo sistema político que combate, encarna as tensões entre o sonho da mocidade e a realidade, sisuda e atroz. Guerra, dotado de uma linguagem que transita entre a subjetividade dos textos pessoais e a objetividade dos documentos de caráter jornalístico, constrói um retrato rico e irônico da sociedade brasileira durante a instauração de regimes totalitários. A narrativa permanece atual ao denunciar, com sutileza e sagacidade, os perigos do esquecimento e da conformidade, evidenciando, portanto, a necessidade de resgate da memória coletiva para que o passado, mascarado sob a forma de discursos falsamente libertadores, não venha a se repetir.

Para saber mais

SANTOS, Elmo (2019). Discursos meia-oito e o dialogismo em movimentos. Conexão Letras, Porto Alegre, v. 14, n. 22, p. 119-134. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/conexaoletras/article/view/98125. Acesso em: 16 ago. 2025.

SILVA, Paulo Santos (2011). O caminho das letras: literatura e política na Bahia do século XX. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 46, n. 4, p. 75-82. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/fale/article/view/10209. Acesso em: 16 ago. 2025.

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Como citar:

TEIXEIRA, Jhenifer Alves.
Lili Passeata.

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mapeamento 

crítico 

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literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

20 abr. 2026.

Disponível em:

7856.

Acessado em:

23 abr. 2026.