Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Marrom e amarelo

SCOTT, Paulo. Marrom e amarelo. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019.

Penélope Eiko Aragaki Salles
Ilustração: Léo Tavares

Escritor premiado, Paulo Scott (Porto Alegre, RS, 1966) é formado em Direito. Deixou a carreira como advogado e professor universitário para se dedicar integralmente à escrita. Além de escrever ensaios e roteiros, colabora com revistas e jornais de cultura do país e do exterior.

O romance Marrom e amarelo (2019) acompanha a trajetória de dois irmãos, Federico (Amarelo) e Lourenço (Marrom), filhos de pai negro e mãe branca. A narrativa se constrói no contraste entre suas experiências marcadas pelo colorismo: Federico, pardo de pele clara e cabelo liso, é frequentemente percebido como branco e se torna cientista social e ativista antirracista; já Lourenço, negro de pele retinta, enfrenta cotidianamente o racismo e tenta conviver com ele de forma mais naturalizada, tornando-se técnico de basquete de um time juvenil. O romance evidencia como o colorismo implica experiências distintas de privilégio ou violência.

O tempo narrativo alterna entre passado e presente, estruturando-se em flashbacks que conectam a juventude de Federico à sua atuação política e acadêmica na vida adulta. A trama concentra-se em dois momentos centrais: em 1984, período de formação identitária, no bairro do Partenon, em Porto Alegre, marcado pelo cotidiano familiar e pelas tensões raciais vividas na juventude; e em 2016, quando Federico, já aos 49 anos, participa em Brasília de uma comissão ministerial encarregada de discutir critérios de identificação para cotas raciais em universidades. Brasília surge como o espaço institucional onde se debatem políticas de ação afirmativa e se problematizam a autoidentificação e a burocratização do debate racial. É também o lugar em que a memória do protagonista é acionada, levando-o a se lembrar de episódios traumáticos da infância e adolescência. O romance, contudo, ultrapassa esses espaços, sugerindo uma ambientação nacional, pois discute a experiência brasileira do racismo, do mito da democracia racial e do apagamento da ancestralidade negra.

A narrativa é conduzida em primeira pessoa por Federico, num estilo marcado pelo fluxo de consciência, pela raiva e pela urgência de sua fala, que mescla reflexão política e lembranças íntimas. Sua voz é subjetiva, inquieta e fragmentada, revelando não apenas a militância e o engajamento do protagonista, mas também sua culpa, contradições e ambiguidades identitárias. O retorno constante ao passado expõe feridas não cicatrizadas e questiona de que maneira o racismo molda as subjetividades.

Por meio da história dessa família negra de classe média composta por um pai, perito policial e descrito como negro retinto, e uma mãe, identificada como branca, que vive em um bairro de maioria branca, o romance confronta o leitor com o racismo estrutural, o colorismo, as questões de identidade e privilégio, bem como com o pacto da branquitude. A figura da mãe, que insiste em considerar a família toda como negra, gera para Federico um dilema identitário: embora educado nessa perspectiva, socialmente ele é lido como branco. Esse não lugar em que se encontra provoca nele uma crise de pertencimento atravessada por dilemas de identidade e culpa. As diferentes percepções raciais entre os irmãos e a postura materna revelam, assim, tensões intergeracionais no entendimento da negritude.

Para ilustrar esse ponto, apresenta-se um trecho do romance em que Federico é interpelado por Caio, dono do bar Guitarreiro, sobre a relação entre eles e o passado no bairro do Partenon: “[…] Tu é metidão, Federico, sempre foi, olha tua cor, olha o teu cabelo, o jeito que tu usa esse teu cabelo lambido, Tu tem essa tua casca de branco, essa pele-passe livre do caralho, Tu nunca vai entender o que é ser preto, ser um fodido perseguido vinte e quatro horas na tua rua, no teu bairro, na tua cidade, Tu não sabe, Tu é metidão”.

O uso da segunda pessoa (“Tu”) e de expressões coloquiais (“metidão”, “essa pele-passe livre do caralho”) cria uma cena de confronto direto, marcada pela oralidade e pela agressividade. Esse recurso estilístico faz o leitor sentir a violência verbal como um ataque corporal, quase performático. O discurso não é mediado, mas cuspido, em um ritmo que reproduz a raiva e a mágoa acumuladas.

Nesse trecho, Caio evidencia a diferença entre ser um negro retinto (ele e Lourenço) e ser um pardo de pele clara (Federico). Este é acusado de ter uma “casca de branco”, um “passe livre” que o isenta de perseguições policiais e de hostilidades cotidianas, enquanto Lourenço e Caio vivenciam o racismo em sua forma mais direta e inescapável: “ser um fodido perseguido vinte e quatro horas na tua rua, no teu bairro, na tua cidade”. Federico, por sua pele clara, não partilha desse mesmo destino. Tanto Lourenço quanto Caio carregam no corpo o signo imediato da racialização.

A fala de Caio mostra que, no Brasil contemporâneo, a cor ainda define as possibilidades de circulação, segurança e dignidade. Essa distinção revela que o racismo não se distribui de forma uniforme: ele opera segundo gradações de pele, hierarquizando subjetividades dentro da própria população negra.

Durante a conversa entre os dois, Caio ironiza Federico como “porta-voz da galera” e “rei da teoria”, apontando o risco de um discurso antirracista proferido a partir de um lugar de privilégio. Federico, apesar de engajado, nunca experimentou de forma plena a violência cotidiana vivida pelo irmão e pelo próprio Caio, ainda mais marginalizado por ter vivido na rua, pedindo esmolas e lanches quando garoto. Assim, ele expõe uma crítica à militância mediada por intelectuais que, embora bem-intencionados, falam “em nome de” uma experiência que não os atravessa com a mesma intensidade.

A interpelação de Caio questiona a legitimidade de Federico como porta-voz, denunciando o risco de o discurso sobre a negritude ser apropriado por quem não vivencia as camadas mais brutais do racismo. A crítica é contundente porque toca num ponto nevrálgico: até que ponto Federico, com sua “pele-passe livre”, pode se colocar como representante da luta negra?

A acusação de que Federico “nunca vai entender o que é ser preto” explicita essa cisão subjetiva: mesmo dentro da mesma família, o racismo divide, hierarquiza e instala ressentimentos. Esse ataque verbal evidencia o dilema identitário do narrador: reconhecido como negro dentro de casa, mas como branco fora dela, Federico ocupa um lugar ambíguo e contraditório, que lhe confere tanto privilégios quanto culpas.

A repetição da palavra “metidão” reforça a acusação e funciona como martelada discursiva, reduzindo-o à sua contradição: alguém que goza de privilégios enquanto se apresenta como protagonista da luta racial. Essa violência verbal é também uma forma de resistência, pois Caio devolve, pela linguagem, a desigualdade histórica que o atravessa.

O discurso de Caio é exemplar ao ilustrar o colorismo, não em termos abstratos, mas na carne da linguagem e nas relações familiares. A cena apresenta a impossibilidade de uma vivência homogênea da negritude no Brasil, expondo o abismo entre teoria e prática na militância e tensionando o lugar do narrador, que, embora engajado, nunca poderá acessar plenamente a experiência do racismo sofrido pelo irmão. Trata-se, portanto, de um momento-chave do romance, em que identidade, ressentimento, privilégio e dor se condensam.

A passagem evidencia um dilema mais amplo da identidade negra no Brasil: a experiência da negritude é fragmentada, atravessada por gradações de pele que implicam diferentes níveis de privilégio ou opressão. A militância racial enfrenta, nesse contexto, o desafio de equilibrar a voz dos que têm maior visibilidade com a experiência dos que sofrem a violência de forma mais direta. A raiva de Caio cumpre uma dupla função, de denúncia e resistência, ao desvelar as contradições do mito da democracia racial brasileira.

Assim, o centro da trama em Marrom e amarelo concentra-se justamente na memória traumática e nas reverberações subjetivas e políticas de episódios como esse na vida de Federico e de sua família. Scott utiliza essa premissa para explorar a complexa relação entre brancos, negros e pardos no Brasil, bem como os mecanismos de um racismo estrutural que, ainda hoje, ecoa os resquícios da escravidão. Sua complexidade reside em mostrar que o racismo também atua no interior da própria população negra, a partir das hierarquias produzidas pelo colorismo.

Ao examinar as identidades raciais, Marrom e amarelo revela o lugar ambíguo do pardo claro no Brasil, dividido entre a identidade negra da família e os privilégios concedidos por sua aparência. Além disso, afirma-se como um romance relevante na literatura brasileira contemporânea, por articular subjetividade e política em torno do racismo e do colorismo. Sua narrativa não oferece respostas fáceis, mas expõe as contradições históricas e individuais da sociedade brasileira com uma prosa contundente, que entrelaça memória, denúncia social e trauma racial.

Para saber mais

GOMES, Fernanda de Souza (2022). Marrom e amarelo: os efeitos íntimos do modelo de racialização no Brasil. Gama Revista, nov. Disponível em: https://gamarevista.uol.com.br/cultura/marrom-e-amarelo-os-efeitos-intimos-do-modelo-de-racializacao-no-brasil/. Acesso em: 3 set. 2025.

RABELLO, Ivone Daré (2022). Políticas institucionais e movimentos sociais: a trajetória de Federico – sobre Marrom e amarelo, de Paulo Scott. Opiniães, São Paulo, n. 21, p. 103-112. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/opiniaes/article/view/204454. Acesso em: 2 set. 2025.

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Como citar:

SALLES, Penélope Eiko Aragaki.
Marrom e amarelo.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

22 abr. 2026.

Disponível em:

7862.

Acessado em:

23 abr. 2026.