METZ, Luiz Sérgio. Assim na terra. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995.
Antonio Carlos da Silva Moraes Júnior
Ilustração: Dona Dora
Assim na terra (1995), único romance publicado pelo jornalista, escritor e compositor Luiz Sérgio Metz (Santo Ângelo, RS, 1952 – Porto Alegre, RS, 1996), acompanha uma viagem que tem como destino o mesmo ponto de origem: o sul. Não como coordenada geográfica, mas como mito fundacional dos modos de viver em comunhão com a terra típicos do interior do Rio Grande do Sul. Por meio de uma estrutura circular, mas não limitante, e uma linguagem poética que funde a língua portuguesa normativa ao linguajar do gaúcho do interior, o romance, permeado pela intertextualidade com clássicos da literatura mundial, dedica-se a expor a busca do narrador por uma identidade gaúcha possível, oriunda da fricção entre a modernidade urbanizadora e os modos de vida da tradição rural da região.
Metz organiza o romance em três segmentos diferentes, sendo o primeiro e o último compostos pela passagem das estações do ano, como uma espécie de prefácio e posfácio circulares que conformam e margeiam o miolo do romance no qual é contada em três capítulos a viagem do narrador pelo interior do Rio Grande do Sul. O primeiro ciclo de estações do ano se inicia na primavera e termina no inverno, o segundo se inicia no inverno e termina no outono, o que confere à narrativa o aspecto de uma jornada empreendida nos rigores do frio. Contudo, apesar dessas marcações, o tempo no romance se mostra uma dimensão muito mais atrelada à natureza da introspecção, da interiorização das experiências com as quais o narrador se depara, do que à natureza do tempo marcado pelo relógio. O espaço, por sua vez, nunca nomeado por seus topônimos, é identificável pelas características da terra, da flora, dos bichos e das gentes, observadas e ponderadas pelo narrador. O espaço e o tempo figurados em Assim na terra pertencem à dimensão do mito e reforçam o caráter simbolizante do estilo adotado por Metz em sua prosa.
No primeiro ciclo de estações do ano, o espaço onde será desenvolvida a narrativa é apresentado por meio da caracterização das peculiaridades que primavera, verão, outono e inverno trazem, cada um a seu modo, ao viver da gente que habita esse pedaço de sul. Se a primavera marca para a aldeia o “[…] tempo de alisar os vincos, desdobrar o coração e ordenar os perfumes no penteador”, no inverno “se o tempo vestisse certamente seria sobrepeliz de pelúcia para usar na vasta noite do sul”. Ao fazer a marcação do tempo a partir das estações do ano, entidades inevitáveis e constantes que se repetem e marcam a passagem dos anos de maneira cíclica, Metz apresenta o tom mitológico que o registro linguístico escolhido reforça em trechos como: “Vozes do frio e frias, atraídas pelos acordeões rogados pelo minuano […]. Aqui dentro é uma região áspera e desamparada, estreita, acantonada. De códigos sem verbos. Mas a fala e o século se assemelha e o clima determina o diálogo, e é dito que o sul – Tá de renguear Gomercindo”. Nesse excerto há de se notar também uma característica que se repete ao final de cada um dos textos relativos às estações do ano nesse primeiro segmento do romance: a antecipação da aparição de Gomercindo, personagem fundamental para a obra.
Os três capítulos centrais do livro narram a viagem empreendida pelo protagonista nunca nomeado, que cruza as terras do sul atrás de algo que tenta alcançar não só pelo avançar dos quilômetros, mas principalmente por meio das palavras, do organizar das ideias pela linguagem. Leva consigo uma caderneta em que registra suas experiências e são as reflexões a respeito delas que conduzem a narrativa. No princípio, viaja a pé, é o tempo de sua juventude, em que “as coisas, então, tomavam um ritmo surpreendente […]. O que parecia alheio adquiria familiaridade, distâncias se uniam, cheiro e som e a descoberta do desespero e da passagem, dos fins nos começos”. À margem das estradas, observa a mudança profunda no campo e nas pessoas. As máquinas se modernizam, os produtos químicos promovem a morte instantânea das plantas indesejadas, “mudanças, hábitos empoeirados, sabedorias dando espaço às mais recentes compreensões”. Em seu caminho, cruza com uma trupe de ilusionistas, uma velha que, ao sabor dos oráculos, prevê o seu futuro, mas é o desabamento de uma casa muito antiga, escolhida como repouso, que marca o final desse período de amadurecimento. A casa derruída é símbolo da fragmentação dos modos de vida tradicionais e é saindo dos escombros desse desmoronamento que o narrador se depara com outro marco de sua jornada: Gomercindo.
Tal personagem funciona para a narrativa como a aparição da figura do mestre, que guia as reflexões e a escrita do narrador ao confiná-lo no Pensário, um dos poucos espaços nominados no romance, galpão de física improvável que conta apenas com uma escrivaninha e uma banqueta. Nesse ponto do texto, a linguagem se distende, o estilo do registro de Metz se aprofunda e as personagens passam a travar diálogos complexos, pontuados por reflexões filosóficas e pela intertextualidade com clássicos da literatura mundial, como Mallarmé, Baudelaire, Goethe, Kafka, Eliot e Borges, mas também com autores da tradição gaúcha, como Aureliano de Figueiredo Pinto, a respeito do qual Metz escreveu uma biografia publicada em 1986. É aqui também que o caráter metaliterário da obra se mostra, em passagens nas quais Gomercindo instrui o narrador: “— Começa a escrever aqui – ele disse –, trabalha com um sentimento ampliado usando uma corda de couro com trança de oito que corre entre os dedos que a tentam comprimir […]. A corda queima. A carne aviva. Nasce a necessidade de dizer coisas […]. Evita o pântano da filosofia. E os diálogos que são a ruína do texto”.
Após esse tempo de formação do narrador, possível de medir apenas por suas experiências e reflexões, ele e Gomercindo seguem viagem a cavalo pelo sul, vendados, como se, depois de tanto buscar apreender esse sul por meio da palavra que persegue o sentido das coisas, a visão fosse prescindível para a construção da imagem que se busca. Há nessa parte uma passagem que aponta a influência de Eliot na escrita de Assim na terra, algo evidenciado no próprio título, que pode ser lido como uma referência ao poema “A terra desolada”, assim como na epígrafe do livro. Na passagem em questão, o protagonista toma o chapéu de Gomercindo e nele borda as palavras “no meu fim, meu começo”, referência ao poema “East Coker”, do autor estadunidense-britânico. Aqui, reforça-se uma vez mais o caráter cíclico da narrativa, que encontra na culminância desse segmento seu sentido de perpetuação: “Tudo passa, tudo cala, tudo é vento sobre a noite. Ali estava um homem e o tempo desse homem, e o que é tempo nele no símbolo é levado, sua intimidade, sua lágrima na minha, como se prosseguisse uma imagem, uma estrofe, uma impermeável perseguição. Tudo passa, tudo é vento sobre a noite”.
Por fim, o ciclo das estações que encerra a narrativa de Assim na terra diferencia-se do primeiro por ter um tom mais reflexivo, fruto de um narrador amadurecido, que retorna com marcas da jornada em busca da linguagem. Se antes referia-se à sua terra como aldeia, agora narra o calçamento das ruas de uma cidade que cresce. No entanto, nem tudo é pessimismo. Ao falar de um livro extraviado, que talvez ele próprio tenha escrito a respeito de um povo que não conseguia mais usar sua linguagem, afirma: “no texto havia uma esperança e numa altura da narrativa testemunha: um lugar é habitado e habitável quando dele se pode ter saudade, sempre e somente saudade”.
Assim na terra foi publicado apenas um ano antes da morte de Luiz Sérgio Metz, que antes havia lançado também o livro de contos O primeiro e o segundo homem, em 1981. O tema do desaparecimento dos modos de vida tradicionais dos povos do Brasil em razão da expansão agrícola continua a encontrar eco na nossa sociedade e a ser objeto de romances e outros fazeres artísticos. Assim na terra se junta a essas obras como um relato complexo, de linguagem sofisticada, que expõe de maneira atemporal essa mazela.
Para saber mais
FERNANDES, Pedro (2015). Assim na terra, de Luiz Sérgio Metz. Letras in.verso e re.verso. Disponível em: https://www.blogletras.com/2015/10/assim-na-terra-de-luiz-sergio-metz.html. Acesso em: 20 ago. 2025.
FONSECA, Cláudia Lorena Vouto da (2012). A narrativa estilhaçada em Assim na terra, de Luiz Sérgio Metz. Scripta, Belo Horizonte, v. 16, n. 31, p. 161-172. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/scripta/article/view/P.2358-3428.2012v16n31p161. Acesso em: 18 ago. 2025.
OCACIA, Renata Vaghetti (2005). A representação da realidade na narrativa de Luiz Sérgio Metz. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
Iconografia





