GUIMARÃES, Caê. Encontro você no oitavo round. Rio de Janeiro: Record, 2020.
Rodrigo Leite Caldeira
Ilustração: Julio Lapagesse
Publicado em 2020, Encontro você no oitavo round é o primeiro romance do escritor Carlos Eduardo Lourenço Guimarães (Rio de Janeiro, RJ, 1970). Radicado no Espírito Santo desde a infância, o autor construiu uma trajetória sólida no campo da literatura e da comunicação, atuando como poeta, jornalista e roteirista. Antes de estrear no romance, publicou cinco livros que transitam entre poesia, conto e crônica.
Ambientado na região conhecida como Grande Vitória, sobretudo na geografia urbana e periférica das cidades de Vitória e Vila Velha, o livro é dividido em três partes e conta a história de Cristiano Machado Amoroso, um escritor que trocou a máquina de escrever pelas luvas de boxe e se prepara, aos 40 anos, para a sua última luta. Na primeira parte da obra, estruturada em quinze capítulos curtos narrados em primeira pessoa, o protagonista-narrador introduz o leitor ao drama central: de promessa de grande pugilista, Cristiano passou os últimos três anos participando de um esquema de venda de lutas e agora se planeja para encerrar a carreira vingando-se daqueles que o exploraram e manipularam.
Desde as páginas iniciais, tomamos ciência de que toda essa explicação inicial é direcionada à personagem Esther Miller, para quem a narrativa parece ter sido escrita. Trata-se de uma jornalista admiradora do escritor Cristiano Machado Amoroso, que se aproxima do boxeador quando o jornal em que trabalha divulga o evento da luta. Há uma preocupação do autor em apresentar, pela voz do protagonista, todas as personagens que circundam sua vida. Essa apresentação é feita em uma prosa poética e filosófica, que estabelece uma clara demarcação entre aqueles que lhe causam ojeriza – representados sobretudo na figura de Rudinho, “o gigolô que agencia” suas lutas – e aqueles que lhe despertam atração e afetos paternais, como Riba, o treinador, e o sapateiro cego, amigo e responsável pela confecção de seu material de luta.
Na segunda parte, intitulada “Luta”, a narrativa leva o leitor diretamente ao ringue. Em oito rounds descritos com singular precisão técnica e literária, Guimarães mistura as dores físicas da luta com os conflitos internos do protagonista. O texto oscila entre a brutalidade dos golpes e as digressões existenciais de Amoroso, que transformam o combate em metáfora de resistência, sobrevivência e busca por sentido. Esse equilíbrio entre a materialidade do corpo e a densidade filosófica só é possível porque o autor fala de dentro: sua experiência pessoal como praticante amador de boxe atravessa a escrita, conferindo autenticidade aos detalhes técnicos e, ao mesmo tempo, oferecendo um campo fértil para reflexões de ordem estética e existencial. Além disso, elementos intertextuais, como referências a títulos de seus livros de poemas (Por baixo da pele fria (1997) e Vácuo (2014), por exemplo), reforçam a camada autobiográfica da obra. Entretanto, o próprio autor alerta em entrevistas que não se trata de uma autoficção, mas sim do uso das “memórias como matéria-prima para a invenção”, evidenciando como vida e literatura podem se entrelaçar sem se confundirem.
Na parte final, “Pródromo”, ocorre uma quebra estrutural que surpreende o leitor. A narração passa a ser feita em terceira pessoa e o foco recai sobre Esther Miller, deslocando o centro da narrativa e gerando o desconforto salutar da imprevisibilidade. Essa virada enriquece o romance, pois impõe ao leitor um exercício reflexivo sobre tudo que havia lido até então e desmonta qualquer expectativa de conclusão linear da história. A partir dessa estratégia, Guimarães reafirma o caráter literário de sua obra, recusando soluções fáceis e reforçando a força da narrativa como exercício de decantação e reinvenção.
Um dos aspectos mais instigantes do romance é o engenho associativo de Guimarães entre os exercícios da escrita e os do boxe, destacando como “ambos caminham nas sutilezas das bordas do abismo”, pois, ao flertarem com a queda, “só se tornam legítimos ao dispensar a rede de segurança”. A analogia é levada a extremos provocativos, principalmente quando o autor estabelece um paralelo sui generis entre escritores, pugilistas e porcos ao propor que: “Assim no ringue como no verbo. Assim no verbo como na lama. Ao final, seremos todos servidos com maçãs à boca nos banquetes da alegria”. A crítica a uma sociedade cuja espetacularização pode reduzir tanto lutadores quanto escritores ao papel grotesco de vítimas de sua própria arte é o caminho escolhido pelo autor para justificar, primeiro, o abandono da escrita e, agora, o da luta. Para Cristiano Aoroso – e, de certo modo, para o próprio autor – escrever e lutar são atos igualmente perigosos, demandando coragem, disciplina, precisão e entrega absoluta. Assim como a busca da palavra exata move um escritor “em meio à tempestade antes ou durante seu convicto ato de contrição”, o ato do pugilista de “colocar os protetores bucais e ouvir soar o gongo” exige dele “quantidades iguais de motivação e raiva, velocidade, precisão e controle” – sentimentos também experimentados pelo poeta na escrita de um poema. Isso se dá em ambas as jornadas, pois lutar é risco: “Passar dez, doze, quinze rounds levando socos na cabeça é risco. Escrever também é risco”.
O livro Encontro você no oitavo round não é, portanto, apenas um romance sobre boxe ou sobre literatura, mas um mergulho vigoroso nas zonas de intersecção entre corpo e linguagem, violência e poesia, derrota e criação. A relevância dessa obra para a atualidade reside justamente nesse gesto: ao tomar o boxe como plano de fundo, Guimarães retoma uma tradição narrativa que o cinema já explorou intensamente, em filmes que transformam o ringue em palco simbólico de dramas humanos universais. No entanto, ao transportar essa potência para o romance, Guimarães oferece uma nova dimensão a esse imaginário, demonstrando como a luta — seja com palavras, seja com socos — permanece metáfora fundamental da experiência humana. Assim, o autor se inscreve na cena literária brasileira contemporânea como uma voz capaz de renovar temas clássicos, aproximando-os da realidade social e emocional do tempo presente.
Para saber mais
BRAZ, Rafael (2020). Caê Guimarães: “A grande literatura conta a história de fracassos”. A Gazeta, 24 nov. 2020. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/colunas/rafael-braz/cae-guimaraes-a-grande-literatura-conta-a-historia-de-fracassos-1120. Acesso em: 15 ago. 2025.
CALDEIRA, Rodrigo Leite (2022). Encontro você no oitavo round. Fernão, Vitória, v. 4, n. 8, p. 181-186. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/fernao/article/view/39669. Acesso em: 10 ago. 2025.
GAMAL, Haron (2021). O homem cindido. Rascunho, março. Disponível em: https://rascunho.com.br/ensaios-e-resenhas/o-homem-cindido/. Acesso em: 10 ago. 2025.
RODRIGUES, Tadeu (Produtor) (2024). “À sombra do ringue – com Caê Guimarães”. Rabiscos [Podcast]. Spotify. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/60vdMQifrt2QG5E0y1Qu8j. Acesso em: 15 ago. 2025.
VITRINE Literária – Entrevista com Caê Guimarães (2022). Direção: Francisco Grijó. Produção: Folha Vitória. YouTube. 1 vídeo (24 min 58 seg). Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=jyWy57agzUQ. Acesso em: 15 ago. 2025.
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