ROCHA, Rosângela Vieira. O indizível sentido do amor. São Paulo: Patuá, 2017.
Leda Cláudia da Silva
Ilustração: Manuela Dib
Em O indizível sentido do amor, de Rosângela Vieira Rocha (Inhapim, MG, 1953), a narrativa de Nita reconstrói sua história de amor com José Antônio Simões Filho após a morte dele. Durante quarenta anos de relacionamento, José manteve deliberadamente ocultos detalhes de sua experiência como militante político de esquerda, bem como da prisão na Ilha Grande, onde foi torturado e mantido por cerca de um ano no período da Ditadura (1964-1985). Enquanto acompanha os mais de vinte dias de padecimento do marido na UTI, vítima de uma infecção mal diagnosticada, Nita se apega às memórias do casal e depara-se com a força do silêncio do companheiro, mantido desde que se conheceram, quando ela tinha 19 anos e ele, 25. Nos primeiros encontros dos jovens estudantes, José revelara ter saído recentemente da prisão, mas jamais forneceu detalhes dessa época. Ao resgatar essas histórias, a narradora enfrenta simultaneamente o luto pela perda do companheiro e a descoberta das lacunas sufocantes que ele suportou ao longo da vida.
A obra assume um caráter de autoficção, articulando autobiografia, “biografia não autorizada” (Carbonieri, 2018), depoimento pessoal, memória e ficção. A escritora parte de acontecimentos da própria vida para ficcionalizá-los, investigando e revisitando o passado por meio dos poucos fragmentos que ouviu, depoimentos de outras pessoas e fontes documentais, preenchendo brechas com “pitadas de invencionice”. Essa jornada investigativa após a morte do companheiro leva a narradora até Portugal em busca de Alípio Cristiano de Freitas, ex-companheiro de prisão do marido, na tentativa de reconstituir uma existência marcada pelo não dito e pelas sequelas da tortura.
Rosângela Vieira Rocha é escritora de formação multidisciplinar, com atuação nas áreas de Comunicação Social, Jornalismo e Direito, além da docência como professora aposentada do Departamento de Jornalismo da Universidade de Brasília. Reconhecida já no início da carreira literária com o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG, em 1988, pelo romance Véspera de lua, consolidou ao longo do tempo uma trajetória que conta com obras para o público adulto e infantil. Integra uma geração de escritoras comprometidas em revisitar criticamente a história nacional, articulando o pessoal e o político em narrativas que abordam temas marcantes para a sociedade brasileira.
A construção de Nita como narradora-protagonista demonstra a complexidade de uma voz que assume a transgressão de expor postumamente aspectos privados e políticos da história do marido. A confissão de que “até certo ponto, fui conivente” evidencia a cumplicidade com os silêncios do companheiro. José emerge como personagem construído por meio de fragmentos e ausências, estratégia coerente com a temática do silêncio imposto pelo trauma. Suas reticências moldaram escolhas posteriores, como a busca por ocupação profissional que lhe permitisse ser reservado, e conectaram-se intimamente à sua saúde sempre frágil. Alípio Cristiano de Freitas assume função fundamental nessa reconstituição, representando não apenas fonte de informações, mas símbolo da resistência política que José admirava. Português que morou no Brasil, Alípio simboliza a resistência às ditaduras, e sua convivência com José na militância e na cadeia estabeleceu uma relação que foi além da camaradagem política para se tornar “quase reverência”.
O romance estrutura-se a partir da fragmentação temporal, com 55 capítulos curtos que se alternam de forma não linear entre diferentes períodos: namoro na graduação, início da vida comum do jovem casal, a fase passada em Salvador, viagens, internação de José e reflexões pós-morte. Essa estrutura não cronológica mimetiza tanto o funcionamento da memória quanto o processo psicológico de elaboração do luto. Os espaços geográficos assumem função estruturante que ultrapassa o meramente cenográfico. O Brasil da década de 1970 representa o território da juventude e dos ideais políticos. A prisão da Ilha Grande constitui o epicentro irradiador das sequelas que acompanharão José durante décadas. Salvador configura-se como espaço de consolidação da convivência conjugal; Brasília, o da maturidade e da estabilidade. O hospital constitui a geografia íntima do sofrimento, espaço limiar onde se processa a transição entre vida compartilhada e início da elaboração do luto. Já Portugal surge como território necessário da revelação, onde finalmente emergem os detalhes ocultados.
A referência marcante ao corpo físico, no romance, ancora toda a experiência na materialidade da existência, constituindo elemento central que vai além da simples descrição para se tornar uma das metáforas estruturantes da obra. É por meio dele que se dá tangibilidade à repressão imposta pela ditadura: corpos perseguidos, torturados, encarcerados, que envelhecem carregando marcas do trauma político. Essa corporeidade manifesta-se quando José, ainda jovem, revela à namorada ter sido preso. Seu corpo já porta as cicatrizes de uma violência que permanecerá silenciada por décadas. Funcionando como arquivo vivo da memória histórica, é o corpo que circula pelos espaços da militância, resiste na prisão, sofre as torturas e, posteriormente, envelhece e adoece carregando o peso desse passado marcado pelo sofrimento. A saúde sempre frágil desse ex-militante não é apenas característica pessoal, mas concretização das violências políticas sofridas.
Paradoxalmente, é também o corpo que ama. A narrativa demonstra como a mesma materialidade que sofreu violência política é capaz de experimentar ternura, prazer e intimidade. O corpo jovem que se entrega ao prazer simples do banho de chuva é o mesmo que carrega, invisíveis, mas presentes, as marcas da tortura. Essa corporeidade evita abstrações ideológicas sobre a ditadura, humanizando a prática política ao ancorá-la na concretude física. A obra sugere que os traumas coletivos se inscrevem nos corpos individuais, estendendo-se para as relações afetivas e familiares.
O tratamento dado ao silêncio evidencia sua natureza multifacetada. A narradora reconhece que ele não resulta simplesmente da covardia ou da falta de interlocutores, mas constitui também um gesto amoroso, forma de preservar as pessoas amadas, pois, quanto menos souberem, menores os riscos que correm. É, simultaneamente, estratégia de proteção psicológica e física. O silêncio opera também em dimensão coletiva, estruturando as relações afetivas marcadas pela violência política.
A investigação empreendida por Nita responde à necessidade de compreensão que surge com o luto, mas também à urgência de preservação da memória. A narradora manifesta o desejo de transmissão de legados espirituais relevantes, principalmente quando possuem conteúdo histórico. O luto conecta perdas individuais e coletivas, expondo como traumas políticos se inscrevem na estrutura familiar e afetiva da sociedade. A escrita funciona como mecanismo de elaboração do vazio criado pela ausência, indo além da curiosidade para se configurar como necessidade de dar sentido à perda.
O estilo da autora caracteriza-se por uma linguagem que transita entre a sofisticação e a força singela, demonstrando o domínio técnico de uma profissional que atua como jornalista, advogada, revisora e escritora. Sua prosa preserva o jeito característico mineiro de se comunicar, com um repertório vocabular e de expressões particulares que permitem quase ouvir o sotaque envolvente da escritora-narradora. Os traços regionais manifestam-se também nas referências à culinária típica, às paisagens e aos costumes, compondo um resgate afetuoso da infância vivida no interior.
A obra desenvolve reflexão metalinguística sobre os limites da linguagem diante da experiência extrema. Mesmo depois de ter acesso aos detalhes do passado de sofrimento do companheiro, a narradora reconhece que nem tudo é dizível, pois alguns aspectos “atentam contra a ética e a estética”. Essa abordagem configura não uma limitação, mas o reconhecimento de que o não dito também opera como componente estrutural da construção de sentido literário.
O indizível sentido do amor transcende a elaboração estética do luto pessoal para se constituir como ato de resistência política. Ao resgatar a memória do companheiro e revelar como a violência da ditadura militar penetrou nas relações mais íntimas, Rosângela Vieira Rocha constrói uma narrativa que funciona simultaneamente como testemunho histórico e instrumento concreto contra o esquecimento e o negacionismo. O romance faz lembrar que dar voz ao silenciado não é apenas gesto literário, mas forma urgente de preservar a memória das conquistas democráticas brasileiras, demonstrando como o amor pode ser uma arma poderosa contra o apagamento da história.
Para saber mais
CARBONIERI, Divanize (2018). Um retrato necessário do Brasil em O indizível sentido do amor. Letras Escreve, v. 8, n. 3. Disponível em: https://www.academia.edu/93649838/Um_retrato_necess%C3%A1rio_do_Brasil_em_O_indiz%C3%ADvel_sentido_do_amor. Acesso em: 10 ago. 2025.
CARDEAL, Nic (2020). Um mergulho n’O indizível sentido do amor. Sermulherarte: Revista feminina de arte contemporânea. Disponível em: https://www.sermulherarte.com/2020/08/resenha-do-livro-o-indizivel-sentido-do.html. Acesso em: 10 ago. 2025.
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