Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

E Deus chorou sobre o rio

AZIZE, Elizabeth. E Deus chorou sobre o rio. Manaus: Valer, 1984.

Mykaelle de Sousa Ferreira
Ilustração: Manuela Dib

E Deus chorou sobre o rio (1984) é o romance de estreia de Elizabeth Azize (Manacapuru, AM, 1940). Reconhecida por sua intensa atuação na política amazonense e brasileira nas décadas de 1970 e 1980, Azize também transitou pelo gênero da crônica. Neste livro, a autora, filha de imigrantes sírio-libaneses, apresenta ao leitor um amplo retrato do processo de imigração dos povos árabes para o Brasil, impulsionado pela demanda mundial de extração de borracha das seringueiras da região amazônica, em especial, nas cidades de Manacapuru e Manaus, entre o final do século XIX e o início do século XX.

A narrativa é ambientada na primeira metade do século XX, tendo como pano de fundo acontecimentos políticos decisivos que marcaram o país, como o fim do Estado Novo (1937-1945) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Além de evidenciar de que maneira esses eventos repercutiram no estado do Amazonas, seja em seus fluxos econômicos ou em suas relações sociais, o romance de Azize escolhe representar a complexidade espacial e cultural da região amazonense, frequentemente retratada como uma paisagem exótica por meio de relatos ou crônicas de viagens. Nesse sentido, a autora traz um olhar mais profundo e atento ao cotidiano das personagens em cena.

Embora a temática da imigração seja recorrente no panorama literário brasileiro, Azize tece uma narrativa singular. Diferencia-se de outras obras centradas em personagens já consagrados sobre o ciclo da borracha amazonense – como o português, o coronel de barranco, que escravizava homens de sua cor, o caboclo e o nordestino. A autora, por sua vez, foca nos imigrantes, especialmente sírios e libaneses, que, em contato com os habitantes locais, desempenharam papel relevante no desenvolvimento econômico e cultural da Amazônia, junto a outros grupos, como judeus, espanhóis e italianos. Ao mesmo tempo, a narrativa dá espaço a personagens marginalizados, como as prostitutas, o árabe “teque-teque” e os boêmios, e busca articular uma representação sensível da experiência feminina, compondo assim um panorama diversificado da sociedade amazônica daquele período. As páginas do romance são invadidas por diferentes aromas, texturas e sotaques, construindo, assim, uma experiência sensorial ao leitor. 

Entre as diversas personagens, destaca-se a história de Marmud, comerciante e imigrante árabe que fez do Amazonas a sua pátria e a de seus filhos, e cuja trajetória ocupa o centro do romance. “Marmud era um tipo que não se faz em série. Caráter altivo, generoso, honesto, esperto e bom marinheiro, como um verdadeiro fenício”, comenta o narrador. Além de manter, com o auxílio do filho Gabriel, uma casa de comércio no porto de Manacapuru, a “Casa Síria”, Marmud trabalhava como dono da Jatahy, uma embarcação de ferro “faceira e cheia de prosa, bem vistosa, embora de passadio péssimo”. A Jatahy fazia viagens regulares, desde o Purus a Manaus, e “os povoados todos da região sabiam do dia e da hora certa da lancha passar. E ela apitava onde tivesse gente, a acenar”.

Azize transforma o rio em agente dinâmico, que não se limita apenas a um cenário físico e interage com as personagens, influenciando suas ações. E é com base nessa íntima relação com o rio que as interações das personagens são moldadas. O vínculo de Marmud com sua Jatahy exemplifica, segundo o narrador, a habilidade dos árabes no comércio de navegação: “A verdade é que os árabes seguiram as pegadas dos fenícios, em busca do grande rio, do maior rio e aqui chegaram desbravando as suas mais escondidas paragens”. Como um fenício, também o destino de Marmud será entrelaçado ao rio e à sua Jatahy.

Marmud vê a sua sorte mudar quando, em uma das viagens que comanda pela Jatahy, ele cobra para transportar uma estátua de São Francisco de Canindé, padroeiro de Anamã, adquirida por um dos moradores para ser entregue à igreja da vila. Esse gesto, interpretado pelas demais personagens como um ato capaz de atrair infortúnio, conduz Marmud ao desfecho do romance, cujo título se revela somente na cena final.

No entanto, embora Marmud seja o personagem central da narrativa, o leitor transita entre diferentes histórias, sem sobressaltos, em uma prosa que combina oralidade, memória e lirismo. A linguagem do romance não perde a sofisticação. Narrado em terceira pessoa, o texto de Azize é comovente, mantendo o leitor cativado pela força de sua narrativa, que não segue uma estrutura linear, organizando-se a partir de tempos fragmentados e deslocamentos. A autora transita entre a narrativa ficcional e histórica, articulando memórias individuais e coletivas, reconstruindo o passado amazônico com sensibilidade e rigor. É possível verificar, ao longo da trama, a retomada de eventos históricos pouco conhecidos, como por exemplo, a Revolta dos Tenentes no Amazonas, também conhecida como a Comuna de Manaus, A Revolta de Óbidos, entre outros.

É também interessante observar a maneira como Azize descreve minuciosamente a pronúncia do imigrante árabe. “Senhores de um idioma fortemente gutural, todo ele saído do fundo da garganta, já na pronúncia e na fonética o árabe revela a força de seu caráter e da sua resistência física”, informa o narrador. Tal mecanismo pode ser observado na fala dos personagens: “– Sí mal progunto, o sinhô tem branco um esse de arba sorta?… – perguntava Rita Gamaleira, da Costa do Marrecão, ao dono da loja de sapatos, o turco Fadul. – Sim senora, sim senora, senta bra esbrementa. Que numera senora, de bé? – perguntava o ‘turco’ que queria vender de qualquer jeito”.

É verdade que, por diversos momentos, a autora parece fornecer ao leitor uma caricatura. No entanto, trata-se de um recurso consciente, que não se limita à simplificação ou à ridicularização; ao contrário, expõe tanto a estranheza do estrangeiro diante do português quanto a vitalidade do encontro entre culturas, conferindo à narrativa um tom simultaneamente realista e crítico. Esse artifício, portanto, funciona como registro da oralidade, preservando o ritmo, o sotaque e a singularidade da fala dos imigrantes árabes. Em vez de reforçar estereótipos, a estilização valoriza a pluralidade linguística e cultural que compõem a paisagem amazônica. Ou ainda, como afirma a autora na apresentação da obra, “é um canto à solidariedade entre todos os povos deste mundo”. Por outro lado, esse recurso opera como instrumento crítico, revelando tanto o olhar preconceituoso da sociedade local quanto as tensões que atravessam o processo de integração do imigrante.

É nesse sentido que a escritora também explora as interações dos imigrantes árabes com o espaço e com as comunidades locais, considerando tanto o preconceito quanto a perseguição sofrida por estrangeiros no contexto amazônico, marcado por tensões e resistências. Esse enfoque evidencia como a experiência migratória se inscreve seja na dimensão social e econômica, seja na formação cultural.

Em síntese, o universo ficcional criado por Azize tem como enfoque temático principal os acontecimentos atrelados à vida cotidiana: casamento, culinária, política, entre outros. Embora a trajetória de Marmud funcione como o eixo central do romance, ela se entrelaça com as histórias de outros personagens. Segundo Adel Hanna (2024), trata-se de tramas secundárias que impulsionam a narrativa, lembrando pequenos contos dentro de uma história maior, e contribuem para enriquecer a dimensão cultural e social do enredo, oferecendo ao leitor uma visão mais completa e multifacetada do ambiente em que a ação se desenrola.

O livro inscreve Elizabeth Azize na tradição literária amazônica e, ao mesmo tempo, no conjunto da literatura de imigração no Brasil, dialogando de forma singular com obras que abordam deslocamentos, tensões identitárias e processos de pertencimento. É igualmente significativo que seja uma autora mulher, descendente de árabes, que, escrevendo nos anos 1980, resgate esse passado e dê voz a sujeitos e histórias mantidos à margem do cânone nacional. Apesar de não ter alcançado ampla repercussão crítica fora do Amazonas, o romance se afirma como obra fundamental para compreender não apenas a memória da imigração árabe na região, mas também para expandir os horizontes da literatura brasileira para além de seus centros hegemônicos. A atualidade do livro se revela, sobretudo, na forma como ainda ecoa discussões sobre identidade, xenofobia, integração cultural e pertencimento, mantendo-se como texto vivo e necessário nos dias atuais.

Para saber mais

HANNA, Adel M.; GOMEZ, Alessandra de M.; QUEIRÓS, Francisco A. T. (2025). A tapeçaria do cotidiano como urdidura das Amazônias nos romances E Deus chorou sobre o rio, de Elizabeth Azize, e Dois irmãos, de Milton Hatoum. Contextualizaciones Latinoamericanas, Guadalajara, n. 32, p. 294-311. Disponível em: https://contexlatin.cucsh.udg.mx/index.php/CL/article/view/8089. Acesso em: 24 jul. 2025.

HANNA, Adel M. (2024) Explorando espaços, formas de olhar e a vida cotidiana na Amazônia: uma análise de E Deus chorou sobre o rio, de Elizabeth Azize, e Dois irmãos, de Milton Hatoum. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal do Acre, Rio Branco.

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Como citar:

FERREIRA, Mykaelle de Sousa.
E Deus chorou sobre o rio.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

22 abr. 2026.

Disponível em:

7815.

Acessado em:

23 abr. 2026.