Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Corpo a corpo

LISPECTOR, Elisa. Corpo a corpo. Rio de Janeiro: Antares, 1983.

Maria Eduarda Miranda Paniago
Ilustração: Carolina Vigna

Uma mulher, um luto e o oceano. Esses são os três elementos que primeiro captam a atenção no enredo de Corpo a corpo (1983), de Elisa Lispector (Savran, Ucrânia, 1911 – Rio de Janeiro, RJ, 1989). Estruturado em capítulos breves, o livro é narrado por uma mulher que, sem revelar seu nome, tenta elaborar o luto por meio de reflexões sobre a vida e a morte e rememorações de sua complexa relação com seu falecido marido. Entre o diário e o monólogo, o romance é majoritariamente formado por fluxos de consciência. O luto, tema tão comum na literatura universal, se torna particularmente interessante por meio da atitude indagadora da personagem principal, que não se esquiva de se entregar por completo a essa experiência, lançando-se a abstrações profundas e dolorosas.

Embora não haja uma demarcação temporal explícita, pode-se entender que a narrativa se desenrola ao longo de dias passados pela narradora em um local afastado, no litoral, aonde foi para vivenciar intimamente o processo de perda, ou, como diz, para “fazer um acerto de contas” consigo mesma. Não seria exagero afirmar que é mesmo um embate contra si que ela trava ao longo das páginas. Ainda que a figura essencial que motive a escrita seja o “tu” ausente a quem ela se dirige, é do “eterno desencontro” do “eu” consigo mesmo que sua angústia provém em maior parte.

Na elaboração desse desajuste, surgem as memórias com o amado, nas quais ela não parece menos solitária do que no presente em que narra. O marido fora um escritor maduro e de relativo sucesso num certo círculo literário e intelectual, universo no qual a narradora mostra dificuldade em se inserir, ainda que demonstre possuir a mesma formação cultural que ele. Desse modo, o “corpo a corpo” amoroso entre os dois se confunde com o do combate. Nessa peleja, ela se alterna entre se impor, querendo provar seu valor e inteligência, e se fechar “em sua concha”, autodepreciando-se, conformada com sua posição de inferioridade.

Nesse “monólogo autopunitivo”, como descreve sua narrativa, a personagem se martiriza pela sua inação diante da vida, incomodada com a posição escanteada à qual se sentia restrita em sua relação amorosa. Magoada com a indiferença de seu companheiro, que se mostrava sempre mais interessado em suas leituras e escritos do que nela, sente um misto de raiva e culpa, ora demonstrando acreditar merecer mais do que ele lhe ofereceu, ora convencendo-se de que era mesmo indigna de seu amor. Nem mesmo no enterro do marido ela se sente confortável para participar do ritual de despedida que todos os outros presentes executam, mantendo-se, mais uma vez, à margem.

À margem é, aliás, uma expressão precisa para definir sua posição diante da vida, que pode ser compreendida sobretudo por meio do espaço da narrativa. Os devaneios que conta se passam, em sua maioria, à beira do mar. É justamente nesse estado de “à beira de” que a personagem parece se sentir em relação à sua própria vida. Em sua perspectiva, o oceano representa uma espécie de totalidade que lhe causa inveja, em comparação com a fragmentação da vida, do tempo e do ser. Diante dele, ela se dá conta da condição de pequenez e sente a vertigem da vida em sua falta de sentido, sendo atraída pela vontade de ser um com o Todo, o que pressupõe, de algum modo, a autoanulação. A morte na obra elisiana, como afirma Campos (2019), “não é vista como fim, mas como caminho para a libertação e fuga da realidade”.

A tentação do suicídio ocorre algumas vezes à personagem, como se pode ver ora de modo mais explícito, ora mais cifrado. Há uma espécie de tensão crescente na obra: quanto mais profundamente a protagonista se entrega à contemplação da totalidade do mar, num misto de temor e desejo, maior a expectativa do leitor por um certo clímax, isto é, o momento de seu encontro definitivo com o oceano, o que poderia significar, talvez, a morte. No entanto, não é o que acontece ou, ao menos, não desse jeito. Numa cena em que se desloca desse cenário para ir até o povoado próximo fazer compras, ela relata quase ter sido atropelada. Uma experiência de quase morte que é capaz de tirá-la daquela espécie de transe ensimesmado e despertá-la para a vida. A perplexidade toma conta de seu ser e, retornando a seu chalé na praia, retorna também a suas reflexões, mas dessa vez, algo está mudado. Tomada por uma súbita coragem, decide ir de uma vez por todas ao encontro do mar. Nesse encontro, o que lhe espera não é exatamente a morte física, mas uma tal sensação de liberdade e unidade que provoca uma espécie de renascimento, um “batismo com o mar”, como descreve em alguns capítulos antes. Dentro do mar, torna-se “perigosamente consciente”, assumindo finalmente uma posição de protagonismo em sua vida, antes experimentada sempre pelas bordas e beiradas. O clímax consiste, assim, no encontro do eu com o eu, com uma afirmação contundente em um dos capítulos finais: “eu me sou”.

Publicado na década de 1980, o livro se distancia de uma certa tendência de engajamento social e de narrativas urbanas que povoavam a literatura brasileira da época. Sua ambição existencialista se aproxima de prosadores de grande envergadura – impossível não se lembrar da própria Clarice Lispector, sua irmã, ou de Guimarães Rosa, quando, a certa altura, o autor escreve sobre o perigo de viver –, assim como de poetas como Adélia Prado, que, embora em estilo diferente, também fazem da escrita uma espécie de busca pela compreensão de conceitos abstratos, como Deus, a vida e a morte. “O pensamento da morte não se acostuma comigo”, diz Prado em um de seus poemas, “Desenredo”, verso que poderia fazer parte da profusão de pensamentos da protagonista de Corpo a corpo.

Impossível deixar de notar as questões de gênero que permeiam o livro, ainda que muitas vezes nas entrelinhas. O lugar da mulher intelectual e escritora surge de forma tensa nessa obra, entremeado por um sofrimento confuso, ainda apenas um pressentimento sem nome da aversão estrutural existente em relação ao pensamento e à criatividade femininos. Isso se deixa ver não apenas como tema do livro, nas cenas em que a protagonista recorda o desinteresse e desdém do marido em relação à sua subjetividade, mas também se revela num contexto mais amplo, que diz respeito à recepção deste e de outros livros da autora. Como aponta Rodrigues (2021), a obra elisiana teve seu valor literário subjugado por uma crítica majoritariamente masculina.

Nesse sentido, cabe dizer que a grande importância da personagem masculina e de sua morte dentro do enredo está sobretudo no fato de permitirem à narradora alçar voo, por meio do mergulho no íntimo de sua subjetividade, a questões maiores, filosóficas e coletivas. Se, por um lado, tem-se a sensação, em algumas passagens, de se tratar de uma trama qualquer sobre um sofrimento amoroso, logo se pode notar que o que há de mais interessante nessa história de amor são as reflexões filosóficas e existenciais que ela potencializa.

Assim, Corpo a corpo permanece numa linha temática recorrente na obra de Elisa Lispector, que explora a solidão feminina e a escrita intimista e existencial, como se vê, por exemplo, nos romances O muro de pedras (1963) e A última porta (1975). Essa característica introspecção coloca em evidência, por meio de uma linguagem altamente poética, uma minuciosa investigação dos sentidos da vida e da subjetividade humana, em que reside sua maior potência literária.

Para saber mais

ANDRADE, Ana Beatriz Mello Santiago (2020). Uma Lispector chamada Elisa: história(s) de exílio. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

CAMPOS, Fernanda Cristina de (2019). Elisa Lispector: a escolha de um itinerário desconhecido. Téssera, v. 2, n. 1, p. 206-226. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/tessera/article/view/51101. Acesso em: 22 ago. 2025.

RODRIGUES, Débora Magalhães Cunha (2021). Para além de um teto todo seu: o caso Elisa Lispector. Caderno Seminal, Rio de Janeiro, n. 39, p. 292-332. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/cadernoseminal/article/view/58166. Acesso em: 22 ago. 2025.

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Como citar:

PANIAGO, Maria Eduarda Miranda.
Corpo a corpo.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

22 abr. 2026.

Disponível em:

7787.

Acessado em:

23 abr. 2026.