Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Ana em Veneza

TREVISAN, João Silvério. Ana em Veneza. Rio de Janeiro: BestSeller; Círculo do Livro, 1994.

Ícaro Jatobá
Ilustração: Léo Tavares

Para onde se vai quando se muda de lugar? Em que se transforma aquele que é obrigado a fazê-lo? O que se busca nessa mudança? E o que fazer quando o que se procura está dentro de si mesmo? Inadequação existencial, exílio e a busca do ser marcam o livro Ana em Veneza, de 579 páginas, obra do paulista, João Silvério Trevisan (Ribeirão Bonito, SP, 1944) e publicada pela Best-seller, em parceria com o Círculo do Livro, em 1994.

Naquele ano, Trevisan, próximo dos seus 50 anos de idade, já somava vasta experiência cultural, literária e ativista, passando por projetos audiovisuais, periódicos impressos, como o jornal homossexual Lampião da Esquina (1978-1981), e pela publicação de outros títulos literários como Testamento de Jônatas deixado a David (1976), Em nome do desejo (1983), Vagas notícias de Melinha Marchiotti (1984) e Devassos no paraíso (1986).

Para construir a escritura do romance aqui analisado, Trevisan destaca que leu mais de 500 livros, pesquisou acervos e recorreu até à consulta dos búzios para encontrar inspiração literária para aquela que se tornou uma de suas principais obras e que foi a segunda colocada na categoria Romance do Prêmio Jabuti de 1995, ao lado de Jorge Amado e José Roberto Torero. Essas informações permitem compreender o esforço envolvido em seu processo criativo e a forma como sua literatura se insere no contexto brasileiro.

Ambientado no final do século XIX, o romance Ana em Veneza é uma obra complexa, visto que é estruturada em camadas narrativas que exploram a identidade, a memória e o deslocamento a partir de uma estrutura sócio-histórica. Trevisan constrói um texto multifacetado, que mistura pesquisa histórica, ficção, digressão e intertextualidade com outras artes e autores, como Pirandello, Thomas Mann (que na trama é filho da brasileira Julia da Silva Bruhns, uma das personagens centrais), Machado de Assis, Fellini e Bergman. Somam-se aos personagens principais a escrava negra Ana e o então maestro cearense Alberto Nepomuceno, e, claro, Veneza, que apesar de ser cidade, é também uma personagem importante, pois materializa a temática migratória presente no enredo.

Mais do que a simples experiência geográfica da migração, o exílio surge como condição existencial e subjetiva da obra e, em cada personagem, algo que os acompanha nos diálogos explícitos e implícitos, nos seus silêncios e em suas impossibilidades de pertencimento.

Júlia, Ana e Nepomuceno são três personagens exilados que carregam em si um traço que Trevisan considera bastante simbólico ao brasileiro: os exilados de si mesmos. Suas histórias, marcadas por perdas e deslocamentos, atravessam décadas e espaços geográficos. Ana é uma mulher negra, sequestrada ainda criança de sua terra natal no continente africano, marcada por cicatrizes tribais no rosto. Transportada em condições brutais para o Brasil escravista, perde a mãe durante a travessia e é vendida como escravizada à família Silva. Alforriada posteriormente, continua vivendo em condição de servidão junto à família Bruhns, acompanhando-os até a Alemanha. Lá, falando quase nada em alemão, enfrenta racismo, isolamento e o apagamento de suas referências culturais, mantendo apenas fragmentos de memória, e a marca no rosto, como conexão com sua origem. Cronicamente angustiada, vê-se um pouco mais aliviada quando conhece seu grande amor, o alemão Gustav. Ana é a única personagem puramente ficcional da obra, mas que facilmente poderia ter existido.

Julia, chamada na infância de Dodô, é filha de pai alemão e mãe brasileira. Nascida em Paraty, litoral fluminense, cresce em meio à natureza e à convivência com os escravizados da família. A morte precoce da mãe rompe seu mundo. Essa talvez seja sua primeira experiência de exílio, não físico, mas sentimental: ela experimenta uma espécie de desenraizamento interior, já não há um lugar seguro onde possa se reconhecer. Ao ser levada pelo pai, Lübeck, à Alemanha, vê-se obrigada a abandonar a língua portuguesa, os hábitos e a religiosidade de sua terra natal. Essa transposição abrupta a coloca em um estado de orfandade cultural e emocional, o que acentua ainda mais o exílio sentido pela personagem frente a dois lutos: a morte da mãe e a morte da terra-mãe. Sua relação com Ana é um dos poucos elos afetivos que resistem, embora também se fragilize na nova realidade.

Alberto Nepomuceno é um personagem recriado a partir de dados do real, maestro, compositor e figura histórica. Republicano e abolicionista, parte para a Europa em busca de aperfeiçoamento musical, financiado por amigos após a Coroa negar-lhe apoio. Ao longo da viagem e da estadia, experimenta um misto de fascínio e desencanto: é sensível à cultura e à arte europeias, mas mantém um olhar crítico sobre as desigualdades e o provincianismo do Brasil, bem como sobre as contradições da modernidade. Sofre, contudo, com bloqueios criativos e com um medo persistente da morte, chamado de tanatofobia, temor que o persegue como uma sombra.

Quando os três personagens se conhecem, Nepomuceno se vê diante do dilema “o que é o Brasil?”. Suas histórias revelam não apenas o encontro de indivíduos deslocados, mas a sobreposição de diferentes camadas de exílio: afetivo, cultural, social e artístico. Essa convergência mostra que a mobilidade e a perda de raízes são experiências constitutivas de suas vidas, funcionando como chave interpretativa para pensar tanto o romance quanto a própria condição brasileira de identidades fragmentadas e em trânsito

Há momentos conduzidos por um narrador onisciente que, por vezes, parece assumir a perspectiva de um alterego de Nepomuceno; outros, em primeira pessoa, como nos diários do músico, além de trechos que reproduzem a oralidade fragmentada das lembranças de Julia. A trajetória de Nepomuceno coloca em evidência a tensão entre a criação artística e as condições históricas, sociais e emocionais que a moldam ou a bloqueiam. O músico carrega a ambição de criar uma música brasileira que sintetize a diversidade cultural do país, mas se vê interrompido por incertezas, dispersões e pela pressão do reconhecimento. Afinal, qual seria a identidade do Brasil brasileiro? O que é arte? Qual é a identidade nacional?

As digressões permitem que o texto se mova livremente entre a história pessoal das personagens e reflexões mais amplas sobre arte, identidade, memória e morte. Em alguns trechos, a narrativa se expande para comentar eventos históricos, culturais e artísticos que dialogam com as experiências das figuras centrais, criando um entrelaçamento rico entre ficção e referências externas. Essa liberdade é central: não importa tanto ao autor “dizer a verdade” histórica, mas provocar o leitor com uma história que oscila entre o real e o imaginário, entre a memória e a invenção, habilidade que Trevisan domina ao longo de toda a trama.

Ana em Veneza é menos um relato de eventos passados e mais um mergulho nas zonas obscuras da identidade, nas memórias que resistem e naquelas que se apagam, nos deslocamentos que nos arrancam de nós mesmos e nas tentativas, nem sempre bem-sucedidas, de recompor o que foi perdido. É um romance que se constrói sobre a consciência de que todo exílio geográfico é também um exílio interior, e que a arte, embora não possa recuperar o irrecuperável, pode ao menos iluminar seus contornos.

Trevisan entrega ao leitor um texto que instiga e desafia, alternando momentos de lirismo com observações críticas e agudas, compondo um retrato complexo de personagens que, à sua maneira, enfrentam o mesmo dilema: viver entre mundos, sem pertencer inteiramente a nenhum deles. É nessa tensão que reside a força do romance, e talvez a razão pela qual ele permaneça ressoando muito além da última página.

O que Trevisan mostra ao leitor é que todos têm o exílio mais perto do que se possa imaginar. Se não se é daqui e nem de lá, de onde se é? A resposta também está mais perto do que se imagina, está dentro de cada um. No entanto, o processo de encontrar tal resposta e fazer conexões com pertencimentos é também o que leva ao exílio final, a morte. Por trás do destino das personagens, o autor também sugere uma leitura crítica do que foi deixado para trás por Ana, Julia e Nepomuceno: o Brasil. A escravidão, a busca por uma identidade cultural autêntica e a experiência de viver entre culturas aparecem como espelhos de uma nação fragmentada, que nunca se resolve plenamente entre tradição e modernidade. O romance, assim, se coloca como comentário sobre a formação do país, além de narrar histórias individuais que habilmente representam tantas outras.

Para saber mais

PANDOLFO, Alexandri Costi (2015). Viagem, desterro e narratividade: considerações sobre Ana em Veneza, de João Silvério Trevisan. Letrônica, n. 7, p. 1060-1074. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/letronica/article/view/17910. Acesso em: 8 ago. 2025.

PAULINO, Sibele (2012). Transitando Ana em Veneza de João Silvério Trevisan: um romance sem domicílio fixo. Estação Literária, Londrina, n. 1, v. 10, p. 132-149. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/estacaoliteraria/article/view/25865. Acesso em: 8 ago. 2025.

MOURA, Alderina dos Santos (2022). Digressão: os conflitos de Ana, Julia e Nepomuceno, no romance Ana em Veneza. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Letras) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

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Como citar:

JATOBÁ, Ícaro.
Ana em Veneza.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

22 abr. 2026.

Disponível em:

7766.

Acessado em:

23 abr. 2026.