Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

 Agá

BORBA FILHO, Hermilo. Agá. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.

Mykaelle de Sousa Ferreira
Ilustração: Dona Dora

Agá é o título do romance de Hermilo Borba Filho (Palmares, PE, 1917 – Recife, PE, 1976) publicado em 1974, sob o signo da Ditadura Civil-Militar (1964-1985). Borba Filho, figura multifacetada da cultura nordestina, atuou em diversas áreas ligadas ao teatro, ao jornalismo e à literatura, tornando-se uma das personalidades mais relevantes do cenário cultural brasileiro do século XX e um dos principais renovadores do teatro nacional.

No conjunto de sua obra, marcada pelo diálogo entre crítica social e uma profunda valorização da cultura popular, Agá se distingue como um livro singular, capaz de desafiar as fronteiras do romance tradicional. Nele é notável um experimentalismo radical, tanto na forma quanto no conteúdo, que envolve a alternância de vozes e personagens e a fusão de múltiplos gêneros, como o diário e o drama, incluindo uma história em quadrinhos ilustrada por José Cláudio, que não é apenas um ornamento visual, mas um elemento narrativo que amplia as possibilidades de sua leitura e interpretação.

Agá teve quatro diferentes versões, cada uma com texto modificado e publicada com pequenos cortes ou acréscimos. Na primeira aparece, logo abaixo do título e da palavra “romance”, a indicação entre parênteses “versão cor-de-rosa”. Estudiosos da obra, ao analisarem essas diferenças, sugerem que algumas edições, inclusive esta, podem ter sido resultado da supressão de trechos para fins de publicação, apontando para a existência de uma versão original mais extensa, que refletiria a intenção experimental do autor. Essa prática explica também por que diferentes cores passaram a ser associadas a cada edição do romance, funcionando quase como uma marca de suas revisões e atualizações. A edição mais atual, a “versão vermelha”, apresenta capítulos inéditos, por exemplo.

Logo no primeiro capítulo, o narrador, em primeira pessoa, parece demonstrar ao leitor como será o próprio desenvolvimento do romance. Em uma caminhada, ele se depara com diversas personagens e figuras célebres, que o entrevistam: Macunaíma, Dom Casmurro, Graciliano Ramos, entre outros. Essa interação cria um jogo no qual autor e narrador se confundem, estratégia narrativa que será retomada em outros trechos do livro, evidenciando a complexidade da construção da voz literária de Borba Filho, como demonstra o excerto a seguir: “[…] ser pernambucano é estar ao lado dos movimentos libertários, é não se conformar com o subdesenvolvimento da zona rural, é tremer de horror diante dos mocambos e alagados, é não admitir que os ricos se tornem mais ricos e os pobres mais pobres, é comer os quitutes da nossa cozinha, é falar mal do Recife e não conseguir desprender-se dele, é amar e ter inimigos, é pedir ao garçom mais uma dose de Passport”.

O Nordeste, aliás, está presente na obra do autor de ponta a ponta, mas de uma maneira diferente de outros escritores como Osman Lins e Ariano Suassuna, por exemplo, como afirma Pinto (1978). Não por acaso, o narrador, diante da figura de Graciliano Ramos, diz: “Venho tentando arrancar o romance nordestino do puramente anedótico, pretendendo colocar dentro da paisagem os problemas íntimos dos meus personagens. Isto já estou cansado de dizer: o que me interessa é o homem com todas as suas reações internas que podem ter ou não repercussão externa. Nada do homem condicionado pelo meio, mas do homem revoltado”.

Os capítulos seguintes são narrados pela mesma figura central, Agá, que assume papéis distintos: em “Eu, embaixador”, o narrador-personagem é um embaixador brasileiro que vive em alguma ditadura latino-americana. “Eu, padre” adota um tom mais filosófico e realista, com o narrador preso nas masmorras da ditadura militar brasileira, tornando-se testemunha ocular de interrogatórios e torturas. Em “Eu, guerrilheiro”, o narrador encarna um guerrilheiro acuado nas matas pelas tropas do exército brasileiro. “Eu, agente funerário” expõe um agente funerário em apuros por vender caixões com as cores da bandeira nacional, enquanto “Eu, deputado” apresenta uma distopia ambientada no Brasil do futuro, sob uma ditadura. O índice se completa com “Eu, lírico-trágico-cômico-pastoral”, “Eu, hermafrodito” e “Eu, o-morto-carregando-o-vivo (Epílogo)”, incluído na “versão vermelha” do livro, em que a experiência pessoal do autor se transforma em literatura ao relatar sua própria cirurgia cardíaca.

A obra inclui ainda “O Livro dos Mortos”, HQ protagonizada por figuras que resistiram à opressão estatal desde o período colonial brasileiro, como Antônio Conselheiro, Zumbi dos Palmares, Gregório de Matos, Tiradentes e Frei Caneca; “O Livro das Mutações”, peça satírica sobre a sociedade burguesa; e “O Livro das Confissões”, presente apenas nas duas primeiras versões do livro.

Esse cortejo de personagens é apresentado como em um teatro, com uma troca constante de máscaras. Cada capítulo apresenta um fragmento do perfil de Agá, situado em diferentes espaços e tempos na América Latina e, principalmente, no Brasil, entre os anos 1960 e 2005. No entanto, os diferentes capítulos mantêm alguns aspectos em comum em torno de seus narradores, seja em relação a elementos ou memórias que constituem sua personalidade, seja em relação ao autoritarismo dos espaços em que residem. “Isto de ser um Agá é muito importante”, declara o narrador nas primeiras linhas do livro, às voltas com o seu próprio processo de escrita. Para ele, inventar histórias não seria tão importante quanto tornar a sua própria história uma ficção. A organização do livro faz com que ele se abra e feche com a mesma persona, mais próxima da do autor, reforçando o caráter de experimentação.

O romance de Borba Filho ainda revela um trabalho profundo com a linguagem, que se reflete nas diferentes edições que recebeu. Trata-se de um romance fragmentado, marcado por uma estrutura não linear que desafia a progressão narrativa convencional, o que reforça a intensidade de sua leitura.

Além da ironia que caracteriza a narrativa, a intertextualidade é um recurso bastante utilizado pelo autor. Um bom exemplo disso acontece no capítulo “Eu, hermafrodito”, em que o narrador se compara a diversos personagens mitológicos ou literários, como Hermes, ou o cego adivinho Tirésias, e até Orlando, de Virginia Woolf. Esse procedimento de Borba Filho convida o leitor a conhecer essas fontes, suscitando analogias e diferenças.

O estilo do autor é caracterizado por uma linguagem cínica, ácida e incisiva, ora explícita em erotismo e violência, ora grotesca, denunciando estruturas opressoras e criticando tanto os males quanto as virtudes humanas. Como afirma o próprio narrador: “Foi Joyce quem disse não saber escrever sem ferir ninguém e isto se aplica a mim como uma carapuça, eu mesmo me incluindo no número de feridos. Assim, é tocar para a frente e denunciar todos os males e todos os bens, os que de mim partem e os que dos outros vêm”.

Por outro lado, segundo Farias (2017), o grotesco surge neste romance pela relação com o corpo humano e seus fluidos ou excrementos, bem como pela representação dos horrores que assombram o homem. “E esse horror é efeito tanto do pesadelo de quem dorme quanto dos que, em vigília, vivem sob o jugo de tiranos e déspotas, ou até subjugados por máquinas de tortura e extermínio que assumem o papel de bestas, naquilo que poderia pertencer perfeitamente à qualquer narrativa apocalíptica” (Farias, 2017).

Em resumo, entre os principais temas abordados em Agá estão as relações autoritárias que atravessam as personagens, a violência, o erotismo e a morte. Ao mesmo tempo, o autor antecipa tendências da ficção brasileira contemporânea, como a autoficção e a distopia, articulando um olhar crítico sobre a realidade social e política do país. Dessa forma, a obra não apenas dialoga com sua época, mas também aponta caminhos estéticos e temáticos que reverberam nas narrativas mais recentes da literatura brasileira.

Apesar de ter sido publicado por editoras de prestígio, como a Civilização Brasileira e a Editora Globo, o nome de Hermilo Borba Filho permaneceu, por muitas gerações, associado quase exclusivamente ao seu sucesso como dramaturgo. De certo modo, isso se refletiu na divulgação e na recepção de sua obra literária, contribuindo para uma relativa escassez de fortuna crítica em torno de sua ficção. Em tempos de retrocessos políticos, Agá se mantém como um verdadeiro ato de resistência na literatura brasileira, merecendo atenção contínua.

Para saber mais

AZEVEDO, Estevão (s.d.).“Agá”, de Hermilo Borba Filho: o levante armado de um clássico perdido. Acervo Pernambucano. Disponível em: https://pernambucorevista.com.br/acervo/resenhas/2377-%C3%A1g%C3%A1-,-de-hermilo-borba-filho-o-levante-armado-de-um-cl%C3%A1ssico-perdido.html. Acesso em: 15 ago. 2025.

FARIAS, Luiz Roberto Leite (2017). O grotesco e as imagens do corpo no romance Agá de Hermilo Borba Filho. Dissertação (Mestrado em Teoria da Literatura) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife.

PINTO, Heleno Afonso de Oliveira (1978). Hermilo Borba Filho: um escritor maldito? Letras de Hoje, Porto Alegre, n. 33, p. 41-45, set. Disponível em: https://pucrs.emnuvens.com.br/fale/article/view/18813/11943. Acesso em: 15 ago. 2025.

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Como citar:

FERREIRA, Mykaelle de Sousa.
 Agá.

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mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

20 abr. 2026.

Disponível em:

7759.

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23 abr. 2026.