MALUF, Marcelo. A imensidão íntima dos carneiros. São Paulo: Reformatório, 2015.
Gislene Maria Barral Lima Felipe da Silva
Ilustração: Manuela Dib
Herdeiro da diáspora libanesa, como muitos brasileiros, Marcelo Maluf (Santa Bárbara D’Oeste, SP, 1974) resgata uma história que é a de sua família, mas também de grande parte dos imigrantes daquele país. O Brasil acolhe aproximadamente dez milhões de libaneses, mais do dobro da população residente no Líbano. Aquela região, embora milenar, começou seu processo de independência em 1926, após sair do domínio otomano, sob o qual permaneceu por cerca de quatrocentos anos, e se tornou uma colônia francesa. Somente em 1941, a transformação consolidou-se, com a fundação da República do Líbano, reconhecida em 1943.
Devido a esse longo período sob o jugo da dominação estrangeira, a partir de 1880, iniciou-se um grande afluxo de libaneses ao Brasil. Muitos desses migrantes eram pessoas jovens, enviadas por suas famílias em busca de oportunidades inexistentes em seu próprio país. Muitos deles, ao embarcar, deixavam para trás seu passado de opressão e suas tragédias pessoais e familiares. Assim, os descendentes vivem em uma busca permanente por suas raízes. É essa busca que Marcelo Maluf transporta para o romance autoficcional, que o autor prefere denominar de “autobiografia fantástica”, A imensidão íntima dos carneiros, lançado em 2015. Nesse mesmo ano, a obra foi finalista do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); e em 2016, foi finalista do Prêmio Jabuti e também vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria “autor estreante com mais de 40 anos”.
Tratando-se de um romance autoficcional, realidade e ficção se entrelaçam em suas 150 páginas. Os fatos aparentemente reais são alternados com cenas de carneiros que se tornam humanos e depois retornam à condição de carneiros. Um rio conta histórias para o narrador Marcelo, que ora assume a voz do neto, ora a do avô. A alternância das vozes narrativas exprime um deslizamento entre as instâncias do real e do ficcional, levando o leitor a se confundir sobre quem fala naquele momento: Marcelo, o neto, ou Assaad, o avô.
A obra é o primeiro romance do autor, que tem publicados ainda dois livros infantojuvenis: Jorge do pântano que fica logo ali (FTD, 2008) e Meu pai sabe voar (FTD, 2009), este último em parceria com Daniela Pinotti, selecionado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para o catálogo da Feira de Bolonha de 2010. Em 2012, publicou a coletânea de contos Esquece tudo agora e, em 2013, lançou o livro infantil As mil e uma histórias de Manuela, selecionado no âmbito do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, do Programa Nacional do Livro Didático (PNAIC/PNLD). Também organizou a antologia de contos infantojuvenis Era uma vez para sempre (2009), reunindo obras de vários autores.
O romance, dividido em quatro partes – cada uma representando um elemento da natureza: o ar, O Vento; a terra, A Montanha; o fogo, O Fogo; e a água, O Oceano –, inicia-se introduzindo um medo hereditário que persegue o narrador/personagem e sua família desde 724 d.C., ano em que um ancestral seu foi morto pelos muçulmanos com 128 golpes de sabre apenas por ser cristão. Esse medo conduz a narrativa. Marcelo viveu sua infância durante o período da Ditadura Militar brasileira, na qual os generais assassinavam impunemente, e a guerra civil libanesa, que acontecia desde 1975 e durou até a sua adolescência, em 1990. O narrador, que saiu ileso da opressão no Líbano por causa da distância e da ditatura brasileira pela proteção da infância, tenta entender a origem desse medo e o impacto que ele causou nos relacionamentos familiares ao longo das gerações e em si próprio.
A trama desenrola-se entre as montanhas do Líbano, na cidade de Zahle, na qual o avô Assaad Simão Maluf nasceu, e Santa Bárbara do Oeste, São Paulo, cidade natal do narrador-personagem Marcelo e na qual ele fixou residência. Assaad veio do Líbano para o Brasil ainda menino, depois de viver uma tragédia na família em 1920. Utilizando recursos do realismo fantástico, o narrador busca recuperar sua história e a de sua família, que se confundem com a história de muitos descendentes de libaneses. O estado de opressão, que é a causa do medo ancestral e hereditário, coincide com a época em que o avô é enviado ao Brasil, aos 8 anos, fugindo do domínio turco-otomano.
Além da foto em uma lápide à qual ele era levado para beijar de vez em quando e que o pai lhe apresenta como sendo de seu avô, Marcelo só tivera notícia de Assaad pelas histórias contadas por seus pais e tios e por sonhos em que o avô lhe diz: “tenho uma história para te contar”. Como o avô não lhe conta essa história nos próprios sonhos, Marcelo se transporta para a cidade natal dele, muitos anos antes de seu nascimento e da morte de Assaad, buscando uma convivência que lhe fora negada pelo tempo.
O avô havia presenciado uma tragédia familiar que o atormentara profundamente, mas manteve esse segredo. Com sua vinda ao Brasil, ele relega o passado de opressão, porém essas lembranças continuam a persegui-lo por toda a vida. O medo parece superado quando Assaad recebe a notícia do assassinato do pai no Líbano. Esse fato liberta-o do desejo de seu pai de que concretizasse o que os irmãos, Adib e Rafiq, não tiveram oportunidade de fazer. Marcelo, já adulto, retorna a Santa Bárbara do Oeste, muito antes de seu nascimento, por meio da leitura das memórias do avô e o acompanha durante a escrita dessas memórias. O neto, uma presença invisível, observa e se comunica com o avô, porém este não o vê nem percebe sua presença espectral. Ele tem muita dificuldade para escrever, pois, sendo mascate, não tomara “intimidade” com a leitura e a escrita.
A narrativa utiliza recursos do imaginário árabe por meio da fantasia e da fábula. A narração dos fatos históricos vividos pela família é cortada por conversa com carneiros, com djins (gênios) e até mesmo com um rio. É um carneiro que adverte Assaad da tragédia que iria acontecer. Ele estava pastoreando os carneiros da família nas montanhas quando seu carneiro Mustafa pede que ele não desça; no entanto, parece que esse alerta o impele a seguir adiante e ele acaba por testemunhar os soldados turcos enforcando seus irmãos mais velhos, Rafiq e Adib, na presença dos pais e das irmãs mais novas, Vidókia e Lucia. Essa é a desgraça familiar que o pai pedira que ele guardasse em segredo, pois “ninguém gosta de estar ao lado de gente que vive lamentando as suas tragédias”. As conversas com os carneiros e com o rio ajudam Marcelo a compreender os medos que ele e toda a sua família receberam de herança. Mas a convivência com o avô é fundamental para que ambos ponham fim à aflição que os persegue.
A imensidão íntima dos carneiros pode propiciar importantes reflexões na atualidade, em que o confronto entre vários países, os regimes autoritários, as guerras civis, vêm se intensificando, “expulsando” cidadãos de seus países. Pessoas como a representada pela personagem Assaad, inclusive libaneses, saem de sua terra natal “com a roupa do corpo”, sem conhecer línguas estrangeiras e muitas vezes sem os documentos que lhes permitiriam se estabelecer profissionalmente. Essa diáspora, que poderia gerar um potente intercâmbio de culturas e valorizar a riqueza das diferenças para a evolução da humanidade, dá ensejo a uma crise humanitária e reforça o recrudescimento de políticas de extrema direita devido ao sentimento de invasão de espaços já consolidados.
Cidadãos dos países destinatários dessas migrações em massa sentem-se ameaçados por uma população “exótica”, que julgam desequilibrar sua comunidade. No entanto, ao elaborar as vivências de sujeitos expatriados e colocar em cena a versão da história pela voz do imigrante, a obra possibilita o reconhecimento da diversidade cultural que nos forma e a construção de outros discursos de valores e de vida. Esse contato com outras subjetividades favorece, inclusive, um contraponto com visões sociais estereotipadas sobre essas alteridades, oportunizando a sensibilização e os posicionamentos contrários a discriminações com base em diferenças culturais.
Para saber mais
CARREIRA, Shirley de Souza Gomes; OLIVEIRA, Paulo César Silva de (2018). Escritas migrantes: deslocamento e identidade na narrativa brasileira contemporânea. Aletria, Belo Horizonte, v. 28, n. 2, p. 35-50. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/aletria/article/download/18794/15744/50176. Acesso em: 31 jan. 2023.
TEIXEIRA, Mirvana Luz (2021). Rastros migratórios na palavra escrita: os espaços da memória em a imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários Aplicados) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/225485/00112966 7.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 31 jan. 2023.
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