GIUDICE, Victor. Bolero. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
Maria Lúcia Outeiro Fernandes
Ilustração: Espírito Objeto
Victor Marino del Giudice (Niterói, RJ, 1934 – Rio de Janeiro, RJ, 1997) começou sua carreira publicando contos em jornais e revistas, no final dos anos 1960. Neles, abordava a exploração e a alienação do trabalhador, decorrentes da burocratização e desumanização do sistema, além de questões relacionadas à condição humana, como a crueldade e os jogos de poder, bem como temas ligados à ditadura e às mazelas da sociedade brasileira. Esses aspectos também são explorados em seu primeiro romance, Bolero (1985).
Narrado em primeira pessoa, o livro conta a história de um homem que passa sete anos em uma maternidade, esperando por sua mulher, que vai dar à luz e desaparece misteriosamente. Ao despertar de seu torpor e sair à rua, ele se depara com uma cidade que lhe parece estranha, onde havia ocorrido uma recente mudança para o regime monárquico, que submete os cidadãos diariamente a prisões aleatórias, sessões de tortura e desaparecimentos. O próprio narrador torna-se vítima dessa arbitrariedade, sendo preso e torturado várias vezes depois de colher uma flor na praça – gesto que as autoridades interpretam como subversivo.
Publicada às vésperas das eleições que puseram fim à ditadura (1964-1985), a obra configura-se como uma alegoria da situação política do Brasil naquele momento de transição. Não se trata, porém, de uma narrativa orientada pela utopia ou pela esperança. Ao contrário, apresenta-se como um romance profundamente crítico e cético em relação ao futuro da democracia. Nele, a população de uma cidade, dividida em dois grupos adversários – um adepto da República e outro da Monarquia –, colabora, por sua contumaz alienação, para a manutenção do autoritarismo, em qualquer dos dois regimes que se revezam periodicamente.
O título do livro remete a um ritmo musical muito popular na América Latina, evocando o fato de que a ditadura foi uma realidade vivida em todo o continente. Ritmo dinâmico, e sustentado por uma composição de estrutura repetitiva, com variações sutis, o bolero cresce gradualmente, mobilizando uma riqueza de timbres de diferentes instrumentos, até atingir um clímax poderoso. Criado para a dança de salão, ele evoca sequências de cenas e episódios que se entrelaçam, como os casais numa pista de dança. Nesse sentido, o título pode ser lido como metáfora da narrativa de Giudice, na qual fragmentos descontínuos de episódios ocorridos em diferentes locais e épocas se entrelaçam e se misturam a diversos timbres estilísticos, cabendo ao leitor o esforço de construir alguma coerência e sentido para o relato.
Victor Giudice recorre ao experimentalismo na forma e na linguagem, em busca de uma expressão capaz de encenar o contexto histórico. O discurso realista e a forma tradicional do romance lhe parecem insuficientes para transmitir a intensidade e as sutilezas das sensações decorrentes do medo, do sofrimento, da degradação e de outros aspectos ligados à falta de liberdade, à insegurança e à tortura. “Não há linguagem capaz de descrevê-la, desde o momento em que cesse de ser exercida. Já li e vi extensas narrativas a respeito de pessoas torturadas até a morte, e sempre me ficou a impressão de um amontoado de baboseiras que não conseguem nenhuma apreensão do real”.
O trabalho no nível da forma e da linguagem permite ao escritor ir além do registro documental, elaborando uma análise complexa que aponta para a impossibilidade de construir uma democracia sólida no país sem o enfrentamento de pendências históricas e traumas do passado – interpretação crítica que permanece válida para a realidade brasileira atual.
Somente em sentido amplo se pode considerar o livro como romance, já que se trata de uma narrativa híbrida, que mistura uma multiplicidade de técnicas e procedimentos típicos de vários gêneros literários, como a farsa, o realismo mágico, a sátira, a poesia, e de outras artes, como a música, as artes plásticas e as artes cênicas e circenses. As comparações insólitas reforçam o sentimento de absurdo: “A tortura é irmã gêmea de uma sinfonia de Beethoven. Tanto na grandiosidade quanto na intensidade da emoção transmitida. […] Ninguém descreve Beethoven. Ninguém descreve a tortura”. Em outro momento, ao evocar a crueldade e a desumanização sofridas pelos operários de uma fábrica, controlados por uma imensa tela de vídeo, o narrador sugere uma comparação com uma tela de pintura: “As indústrias são focos de desumanização e a Arte deve ser justamente o contrário”.
A transposição das técnicas do espetáculo circense é outro aspecto notável. Grande parte da narrativa é impulsionada pelas apresentações de um circo, assistidas diariamente pela população da cidade. Ao refletir sobre esses espetáculos, o narrador discorre sobre a natureza e a função da arte, o estatuto da beleza, as fronteiras entre realidade e ficção, entre banalidades e eventos históricos, mostrando que o circo era mantido pelos dois sistemas – o monárquico e o republicano – como instrumento de dominação. Segundo o narrador, enquanto a arte fundamentada no pensamento, na imaginação e no trabalho de criação liberta, o espetáculo de entretenimento mantém o espectador preso à opressão.
O experimentalismo abrange todos os níveis da narrativa, incluindo a caracterização dos personagens, contribuindo para mostrar os efeitos do regime autoritário sobre seu estado psicológico e comportamento. A fragmentação interior se mistura à fragmentação do tempo, já que o relato cruza diversos momentos da história da cidade e da vida do protagonista. Lembrando as circunvoluções dos dançarinos num baile, a narrativa acumula sensações de retorno a situações e lugares, como se o tempo ocorresse na forma de círculos, reforçando a ideia de alienação e aprisionamento, especialmente do protagonista, vítima de uma força opressora permanente que o mantém preso aos seus traumas.
É possível ver no personagem-narrador uma espécie de representação do ser político brasileiro. Destituído de identidade definida, dominado pela alienação, anônimo e confuso, ele não possui nenhuma certeza, nem mesmo acerca do que está narrando. Sem projeto de vida, parece rodopiar no tempo e no espaço, à mercê dos acontecimentos. Seu relato se fragmenta entre os mergulhos no passado – pelos quais tenta compreender seu relacionamento com a primeira esposa, Cynthia –, sua perda de memória, sua alienação política e o súbito engajamento como principal líder da segunda mudança de regime no enredo, da Monarquia para a Nova República.
O espaço físico é trabalhado em três ambientes caracterizados como repressores, violentos e instáveis: o circo, onde reina o ilusionismo e a manipulação, constituindo uma metáfora da sociedade brasileira; a cidade, descrita como caótica e hostil; e a casa, o único ambiente que, em alguns momentos, pode se tornar um refúgio acolhedor. Quanto ao espaço social, o momento mais emblemático de sua configuração ocorre no episódio que mostra o trabalho dos operários na fábrica pertencente à família de Auriflor, a segunda esposa do narrador. Além de ressaltar as desigualdades gritantes, o episódio amplia ao extremo tudo o que os demais espaços já haviam mostrado em termos de crueldade, violência e repressão. A passividade bovina dos operários reforça a ideia de alienação.
O desfecho confirma a obra como alegoria do período de transição ao final da ditadura, reforçando a mensagem de que tudo não passa de uma grande farsa – um acordo entre militares e forças neoliberais, sem mudanças significativas. O próprio título do livro também se revela como uma farsa, pois, ao contrário do clímax vigoroso que caracteriza o ritmo do bolero, a narrativa encerra-se em anticlímax. A esperança de uma suposta evolução do protagonista – de sua postura passiva e indiferente para uma ação revolucionária – transforma-se em profunda decepção, já que ele termina acomodado ao sistema e mergulhado em seus traumas. Isso se evidencia na carta à sua primeira esposa, de tom melancólico e saudosista, com a qual conclui seu relato.
Para saber mais
A ARTE Plural de Victor Giudice. Produção: Regina Zappa. Participação: Tereza Virginia de Almeida, Carlos Alberto Mattos e Chico Dias. Estação Sabiá. Entrevistas. TV 247, 2022. 1 vídeo (60 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=drOXknLi5ZI&ab_channel=TV247. Acesso em: 28 out. 2024.
ALMEIDA, Tereza Virginia (2016). Victor Giudice e o ritmo irresistível. Organon, Porto Alegre, v. 31, n. 61, p. 49-63. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/organon/article/view/65520. Acesso em: 20 out. 2024.
COSTA, Carolina Veloso (2021). “Conheço histórias mil que a História esconde”: uma leitura de Bolero. Tese (Doutorado em Literatura) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianpolis.
FERNANDES, Maria Lúcia Outeiro (2018). As sutilezas da verossimilhança e as variações da realidade n’O Museu Darbot. In: ALMEIDA, Tereza Virginia et al. (Orgs.). Museu Victor Giudice.Florianópolis: UFSC. p. 32-54. Ebook. Disponível em: https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/8000. Acesso em: 28 out. 2024.
SCOVILLE, André Luiz Martins Lopes de (2004). Abrindo o arquivo: relações entre personagens e espaço nas narrativas de Victor Giudice. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba.
Iconografia




