VIGNA, Elvira. O que deu para fazer em matéria de história de amor. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Leda Cláudia da Silva
Ilustração: Carolina Vigna
Em O que deu para fazer em matéria de amor, Elvira Vigna (Rio de Janeiro, 1947 – São Paulo, 2017) constrói uma narrativa fragmentada em que o passado e o presente se entrelaçam em um jogo de memórias, invenções, silêncios e interrogações. A protagonista, uma narradora de meia-idade e sem nome, encarrega-se de esvaziar para colocar à venda um apartamento, no Guarujá, que fora de Rose e Arno, um casal de judeus alemães que migraram para o Brasil nos anos 1940. Entre objetos abandonados e pistas dispersas, ela tenta reconstruir a história desse casal cuja relação parece ecoar seu próprio vínculo ambíguo com Roger (filho de Rose e Arno), com quem mantém uma ligação instável há décadas. No presente da narrativa, essa viagem do Rio de Janeiro para São Paulo transforma-se em uma investigação íntima da narradora, que percorre tempos e espaços diversos.
Ao longo do romance, percebe-se que a relação entre a narradora e Rose constrói-se como uma sofisticada partida de resistência (narradora-pôquer; Rose-brigde), em que a tensão do jogo provoca uma tensão erótica. Assim, corpo e palavra desafiam, cada qual à sua maneira, as estruturas patriarcais e os regimes totalitários que tentaram moldar suas existências: “com minha desenvoltura verbal” e “a desenvoltura corporal de Rose”. Imigrante alemã no Brasil pós-guerra, Rose transforma seu corpo em território de insurgência – sua nudez dançante subverte as expectativas acerca dos papéis sociais das mulheres. Já a narradora, que era jovem na época da ditadura militar brasileira, por sua vez, é também nômade e desafia as convenções familiares (“mãe solteira”), deslocando-se entre um relacionamento afetivo indefinido, uma graduação não concluída e mudanças constantes de moradia: “Só ao ouvir o tlec da porta percebo como é fácil, e é, sempre, ir embora. É só sair”. É como um jogo que a narradora manipula a narrativa, em que cada revelação e cada omissão são cartadas estratégicas contra as normas que pretendem subjugá-la, inclusive as do discurso.
O leitor é instigado a decifrar essa relação espelhada dessa dupla insurgência – não apenas interpretando os códigos corporais de Rose e as suposições ou silêncios narrativos da protagonista, mas também reconhecendo como ambas desestabilizam, cada uma do seu jeito, alguns dos pilares do patriarcado (no casamento, na maternidade, nas relações afetivas) e os traumas históricos que as cercam. A alemã que dança nua e a brasileira que conta histórias alheias compartilham, no fundo, um projeto semelhante: reescrever, cada qual com suas armas disponíveis, as regras do jogo que lhes foi imposto. E, embora a dança da narradora seja “desajeitada”, ela se reconhece na de Rose: “Porque a dança-base a partir da qual faço a outra, a dela, é de fato minha.”.
Cabe ao leitor não apenas assistir, mas participar ativamente dessa reescritura, completando com sua interpretação o que ficou nas entrelinhas da dança e da narrativa. O que une essas duas narrativas encavaladas, a de Rose e a da narradora, são as relações permeadas por vazios, desencontros, traições e supostos crimes “(Porque matou, viu, digo logo: matou sim, é o que eu acho.)”, mas também por escolhas. Enquanto a narradora remexe no passado alheio, ela busca decifrar a si mesma, confrontando-se com as cicatrizes desse amor que foi possível viver.
Esta obra é o oitavo romance dessa artista multifacetada. Formada em Literatura, com mestrado em Comunicação, Vigna também se dedicou ao estudo de desenho, história da arte e roteiro, consolidando uma trajetória singular como romancista, tradutora, ensaísta, jornalista, ilustradora, editora, artista plástica e crítica de arte. No campo editorial, enfrentou desafios característicos de um mercado instável, em que iniciativas literárias muitas vezes não vingavam. Ainda assim, deixou um legado marcante com projetos como A Pomba (1970-1972), uma revista marginal-literária. Como escritora, transitou entre a ficção adulta e a infantil, recebendo prêmios tanto por suas narrativas quanto por suas ilustrações.
Traduzido para o sueco, pela editora Tranan, em 2016, com repercussão entre a crítica internacional, esse romance, escrito em 2006, foi enviado à Companhia das Letras em 2007, mas enfrentou problemas: primeiro, o original se perdeu; depois, foi recusado. Ao revisá-lo para uma nova tentativa, a autora percebeu que algumas partes estavam muito duras e decidiu aprimorá-las, acrescentando trechos. Assim, o romance destaca-se por uma linguagem que mescla trechos prosaicos e coloquiais com traços de poeticidade, o que confere à narrativa um ritmo singular, entre os “talvez”, “não sei” e “pode ser que” que permeiam a narrativa.
A autora emprega o discurso indireto livre, permitindo que vozes narrativas e diálogos se fundam sem demarcações rígidas, criando por vezes um fluxo de consciência que oscila entre o presente e as reminiscências. A estrutura física da obra – dividida em três partes, com capítulos numerados e parágrafos em que predominam frases curtas – contribui para a construção fragmentada, reforçando a ideia de uma narrativa que não segue uma linearidade convencional, mas, sim, um movimento espiralado, em que os eventos se repetem e se desdobram.
O cenário é tão importante quanto as características das personagens: um Guarujá outonal, despovoado e encharcado pela chuva, em que o apartamento em ruínas parece mimetizar o estado interior da narradora. Detalhes aparentemente insignificantes – trechos de conversas com pessoas que frequentam o prédio do casal falecido, uma obra de arte desaparecida, um remédio fora do lugar – ganham carga simbólica, revelando camadas de uma história marcada pela herança da Segunda Guerra, pelos deslocamentos, pelos fantasmas que acompanham gerações, pelos fracassos, pelas relações afetivas ancoradas no vazio e na incompreensão: “Vou precisar detalhar porque é nos detalhes que está o todo. É por isso que me ponho aqui, nessa recuperação/invenção de minúcias”.
O tempo narrativo é descontínuo, marcado por idas e vindas entre décadas – dos anos 1940 ao início dos anos 2000, com “explosões islâmicas” operando como um marco histórico mais aproximado do presente da narrativa. A estada no Guarujá, que durou um mês, torna-se um microcosmo temporal, em que a protagonista rememora e reconstrói histórias familiares. Essa não linearidade é acentuada pelo ritornelo, técnica que reitera certos eventos sob novas perspectivas, como um tema musical que retorna com variações, incitando a diferença.
A narrativa alimenta-se de indícios (fotografias, documentos, fofocas), muitas vezes ambíguos, como a frase “meu crime ficará impune”, que paira como uma sombra sobre a trama. A autora recorre a tons variados – ironia, comicidade, suspense, erotismo – para explorar a subjetividade da narradora, que oscila entre a investigação meticulosa e a aceitação de que algumas verdades permanecerão inacessíveis.
A invenção e a rememoração se confundem, pois a protagonista preenche lacunas com suposições e “restos de névoas esgarçadas”. A própria linguagem, por vezes cínica, por vezes lírica, revela a dificuldade de fixar uma versão definitiva dos fatos. Assim, o romance não apenas narra uma história, mas também expõe o processo de sua construção – um jogo entre o que foi documentado e o que foi imaginado, entre o que se sabe e o que se desconfia, e suas múltiplas perspectivas. A obra, por isso, é tanto uma investigação acerca do passado quanto uma reflexão acerca dos limites da memória e da construção narrativa, forjada pela linguagem. E o título do romance funciona como uma sentença irônica. A narradora não está em busca de redenção ou lição moral. Há, em vez disso, a franqueza com que expõe a precariedade do que chamou de amor. Não há heroísmo nem tragédia, apenas a constatação de que, no fim, sobrou só isso: o que deu para fazer, nem mais, nem menos. E o humor ácido está em chamar isso de “história de amor”.
Em O que deu para fazer em matéria de história de amor, Elvira Vigna consolida sua prosa experimental, desafiando não apenas as convenções narrativas, mas também as estruturas que organizam afetos, memórias e histórias. Com uma narrativa que oscila entre o íntimo e o político, a autora desvela as engrenagens do patriarcado, do autoritarismo e da violência cotidiana, expondo suas fissuras por meio de uma protagonista que reconta – e reinventa – passados alheios como forma de resistência. Seu estilo irônico transforma o banal em matéria literária densa, revelando como o pessoal e o histórico se entrelaçam em jogos de poder, silêncios e pequenas insurgências. Aqui, a forma é também conteúdo: a fragmentação narrativa espelha a desordem das experiências compartilhadas, enquanto a linguagem recusa qualquer consolo. Mais do que uma obra sobre amor, este é um romance sobre as muitas maneiras de não se deixar capturar – pelas narrativas prontas, pelos regimes opressivos, pelos papéis de gênero. Uma literatura que, ao desestabilizar, afirma seu lugar como voz contundente e disruptiva na ficção brasileira contemporânea.
Para saber mais
HELENA, Lucia (2016). A queda das ações no mercado dos afetos: medo, amor e solidão em Ana Luiza Escorel, Mariana Portella e Elvira Vigna. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, [S. l.], n. 48, p. 67-86, 2016. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/10110. Acesso em: 28 mar. 2025.
SILVA, Hellyana Rocha e (2024). Construir, desconstruir, reconstruir: percursos da voz, da memória e da identidade em Elvira Vigna. Tese (Doutorado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Catalão, Goiás. Disponível em: https://repositorio.ifgoiano.edu.br/bitstream/prefix/4391/1/Tese%20vers%c3%a3o%20final%20-%20Hellyana%20Rocha%20e%20Silva.pdf. Acesso em 28 mar. 2025.
TONUS, Leonardo (2021). Espaçamentos em Elvira Vigna. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, [S. l.], n. 34, p. 134-142. Disponível em: https://revistaveredas.org/index.php/ver/article/view/698. Acesso em: 28 mar. 2025.
VIGNA, Elvira (2014). Comunicação no evento Paiol Literário. Revista Rascunho, n. 165. Disponível em: https://rascunho.com.br/paiol-literario/elvira-vigna/. Acesso em: 30 abr. 2025.
Iconografia





