PROENÇA, Augusto César. Raízes do Pantanal. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989.
Penélope Eiko Aragaki Salles
Ilustração: Dona Dora
Professor, contista, historiador e pesquisador da cultura pantaneira, Augusto César Proença (Corumbá, MS, 1937 – Corumbá, MS, 2023) nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Era formado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Região dos Lagos, de Cabo Frio, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, da Academia Corumbaense de Letras e do Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro. Além de seu engajamento em organizações ambientais e sociais, Proença deixou um legado literário ao retratar o Pantanal em seus textos, destacando seus costumes, lendas e falares, criticando a destruição ambiental. O Caso de Juanita, cujo roteiro foi baseado no conto homônimo do autor, foi adaptado para o audiovisual em 2010.
Raízes do Pantanal foi publicado em 1989 e narra a história do povo sul-mato-grossense por meio da saga de uma família. A narrativa, que intercala presente e passado (colonização, império e Guerra do Paraguai), retrata a vida de um cavaleiro e sua família, juntamente com alguns vaqueiros e um pequeno grupo de animais, na luta pela sobrevivência na região pantaneira. O grupo, impossibilitado de continuar a viver no espaço que ocupava, vê-se obrigado ao deslocamento para áreas menos castigadas pelas frequentes enchentes, partindo para a antiga fazenda do pai do cavaleiro. Eles procuram terras mais prósperas e protegidas, áreas que oferecessem melhores condições para sua permanência.
Ao chegarem na fazenda, o sonho de uma existência menos ingrata e miserável esboça-se no horizonte e o cavaleiro deposita a expectativa de uma vida melhor e mais digna para a sua família. Durante uma caminhada pela antiga fazenda, a mulher tentava puxar conversa com o marido. Incapaz de se comunicar, o pobre vaqueiro suporta as suas agruras calado. Ele é um homem rude, sua companheira, além de cuidar dos filhos e da casa, contava lendas e outras histórias inventadas para entretê-los à noite. Sonhava com um futuro melhor para seus filhos e não se conformava com a miséria em que viviam. Os dois seguiam fazendo planos para o futuro e pensando se existiria um destino melhor. Cansado da viagem, o cavaleiro ouve uma voz, a voz do pai, que conta a trajetória dos antepassados (bisavô, avô e pai). O pai era uma imagem constante nos pensamentos confusos do cavaleiro, que tentará reconstruir os dias gloriosos da fazenda.
A narrativa se desenrola, principalmente, na antiga fazenda, numa região marcada por enchentes excessivas e frequentes que transformam a paisagem em um ambiente inóspito e hostil. Um dos capítulos que ilustra bem essa relação é quando o cavaleiro descreve a perda do pai, que, mesmo crivado de balas, mantinha-se como o proprietário dos elementos naturais, como rios, vazantes, corixos, gado, árvores, peixes e aves. A terra, entre os rios, era descrita pelo pai como ingrata. A passagem sugere uma ligação profunda entre o pai e a terra, destacando a visão e o domínio que ele mantinha sobre esse espaço, apesar das adversidades.
O estilo rico de Proença, expresso principalmente pelo uso abundante de substantivos (“das tocas sairiam os cascudos, os canastras; o tamanduá-bandeira abriria os braços saudando a manhã. Capivaras, cachaços, queixadas, fuçariam macegas lamacentas. Guarás vermelhos, atentos nos olhos, ergueriam orelhas assustadas. Buscando novas lagoas jacarés se arrastariam”) para descrever a flora e a fauna pantaneiros, transmite a adversidade e a força do ambiente e seus efeitos sobre os habitantes locais.
Ao adotar o foco narrativo em terceira pessoa, Proença faz uma escolha estratégica, essencial para manter a verossimilhança da obra. Esse narrador conecta as diversas vozes da narrativa (cavaleiro, a mulher, o pai) chegando até a dar liberdade para que os personagens, como o pai, assumam a voz, transformando o texto em uma narrativa em primeira pessoa.
Além disso, o autor utiliza o discurso indireto livre, uma forma híbrida na qual as falas dos personagens se misturam ao discurso do narrador em terceira pessoa. Essa abordagem é no romance uma solução perspicaz, permitindo que a voz dos marginalizados seja integrada à narrativa sem a obrigação de conduzir completamente a trama. Em síntese, o autor, ao fazer essas escolhas narrativas, apresenta uma obra que se pretende mais autêntica sobre a complexa relação entre os personagens e o seu meio. Além da notável ausência de linearidade temporal na obra, destaca-se uma clara ênfase no tempo psicológico em detrimento do cronológico. A valorização do tempo psicológico estabelece uma conexão mais intensa entre as angústias dos personagens e a percepção do leitor.
Proença é hábil ao espelhar a fragmentação na estrutura do romance, adotando um método de composição que rompe com a linearidade temporal. Utiliza diversos recursos formais, tais como o discurso indireto livre, a narrativa não linear e a ausência de nomes dos personagens, como forma de denunciar as mazelas sociais presentes na narrativa. Esses elementos contribuem para uma narrativa rica em nuances históricas e sociais.
Por meio dos antepassados do cavaleiro, o escritor corumbaense descreve o processo de colonização e, posteriormente, com a chegada dos povoadores que se estabeleceram na região, as consequências desse processo. Sugere-se um fluxo contínuo de pessoas explorando e se estabelecendo na região. Fundaram fazendas, mataram e contribuíram para o declínio da força dos antepassados indígenas. A construção de fortes, povoados e vilarejos sugere uma mudança na paisagem e na estrutura social da região. Por isso, a obra é um retrato da expansão territorial e do impacto socioeconômico dos povoadores, destacando a transformação da paisagem, o estabelecimento de infraestrutura “moderna” e as relações complexas entre os colonizadores e as comunidades indígenas locais.
Em determinados momentos, o pai do cavaleiro assume a voz narrativa, transformando o texto em primeira pessoa. Em um dos capítulos, aborda várias questões relacionadas à exploração e à gestão dos recursos naturais, especialmente no contexto do Pantanal. O pai expressa preocupação com a exploração desenfreada dos recursos naturais, como o gado que engorda em terras alheias, a extração de subprodutos do boi por mãos estranhas e a exploração indiscriminada de recursos como ouro, diamante, borracha, penas de aves, entre outros, além de destacar a devastação ambiental causada por contrabandistas e invasores, incluindo a falta de respeito pela flora, pela fauna e por interesses locais e criticar a ganância que espolia a terra e esgota seus recursos, apontando para a necessidade de mudanças a fim de garantir um desenvolvimento mais equitativo e sustentável na região.
O autor aborda diversas temáticas que refletem as tensões e as lutas enfrentadas pelas comunidades locais. Em um capítulo, descreve sua resistência contra as invasões colonizadoras, destacando a surpresa e a incredulidade dos nativos diante dos invasores e enfatizando as diferenças cultural e tecnológica. A resposta à invasão é marcada por uma mistura de choque, perplexidade e ação. Os locais não apenas se defendem, mas também aprendem estratégias para enfrentar o inimigo, tirando proveito das situações de combate para melhorar suas próprias habilidades e recursos. Essas estratégias destacam a determinação e a resistência dessas comunidades em proteger suas terras.
O narrador destaca a situação de desvantagem dos indígenas diante da chegada dos colonizadores brancos. O texto sugere que os colonizadores se aproveitaram da ingenuidade ou da falta de conhecimento das comunidades locais em fazer negócios, resultando em acordos desiguais e desfavoráveis para os povos nativos. Além de invadir áreas que antes eram habitadas por comunidades indígenas, os colonizadores não hesitaram em envolvê-los em práticas de escravidão, seja por meio de contratos enganosos ou coerção. O texto destaca a exploração econômica, o avanço territorial desigual e as práticas injustas adotadas pelos colonizadores brancos.
Assim, Raízes do Pantanal é um romance que explora as complexidades da colonização e do desenvolvimento na região pantaneira. Proença aborda temas como a luta dos povos originários contra invasões e explorações desenfreadas, destacando a resistência diante das mudanças impostas por colonizadores brancos e povoadores da região ao longo dos anos. A narrativa revela as consequências desses conflitos, incluindo a transformação da paisagem, a distribuição desigual de recursos e as práticas de violência cometidas contra povos indígenas.
Além disso, Proença examina questões ambientais, como a devastação da natureza, e critica práticas que levam à perda de identidade cultural e territorial das comunidades locais. Raízes do Pantanal oferece uma reflexão profunda sobre os impactos sociais, econômicos e ambientais da colonização na região do Pantanal, explorando as raízes históricas e culturais que moldaram esse cenário complexo.
Para saber mais
ALVARES, Kelly Caroline; ABRÃO, Daniel (2021). Resgate da identidade cultural do pantaneiro pela ótica de Augusto César Proença. Anais do XVIJNLFLP. Revista Philologus, Rio de Janeiro, ano 27, n. 81, p. 2241-2248, set./dez. Disponível em: https://www.revistaphilologus.org.br/index.php/rph/article/view/1036. Acesso em: 23 fev. 2024.
LEITE, Eudes Fernando; PINHEIRO, Alexandra Santos (2023). Raízes do Pantanal: cultura e literatura tecidas por Augusto César Proença. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 39, p. 119-134, jan./jun. Disponível em: https://revistaveredas.org/index.php/ver/article/view/827. Acesso em: 23 fev. 2024.
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