Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Catatau

LEMINSKI, Paulo. Catatau. Curitiba: Grafipar, 1975.

Greicy Kelly Carvalho
Ilustração: Rafael Trinco

Paulo Leminski (Curitiba, PR, 1944 – Curitiba, PR, 1989) marcou a literatura brasileira com uma escrita performática, inovadora e multifacetada. Poeta, professor, tradutor, músico e judoca, incluiu diferentes áreas de sua vida pessoal na escrita. Ele circulou por diferentes gêneros literários, por exemplo, o infantojuvenil (Guerra dentro da gente, 1988), contos (Gozo fabuloso, 2004) e quadrinhos eróticos (Afrodite, 2015). Conhecido por sua poética com versos objetivos, tinha inspiração direta no haicai — gênero de poesia com forma fixa, com três versos —; influenciado pela cultura japonesa e pelo autor Matsuo Bashō, Leminski utilizava esse formato para expressar críticas, ironias e arremates poéticos. Ao todo, suas obras poéticas são divididas em oito livros, reunidos pela Companhia das Letras em um único volume, Toda poesia (2013), com a venda de exemplares significativa para o gênero.

A obra Catatau foi concebida oito anos antes de seu lançamento, em 1975 – Leminski compartilhou pequenas passagens com seus colegas a partir de rascunhos e grifos. O livro não tem divisões em capítulos e é escrito em apenas um parágrafo. A linguagem é dividida em diferentes idiomas: tupi, latim, português, italiano, holandês, francês, grego, espanhol, alemão e inglês. A ideia do livro surgiu após uma aula de História ministrada pelo autor, que ficou com o questionamento: “E se Descartes tivesse vindo para o Brasil com Nassau?”. Foi com esse pensamento que nasceu o personagem principal, Renatus Cartesius.

Cartesius, inspirado no filósofo René Descartes, é ficcionalizado em uma viagem com a tropa de navegação de Maurício de Nassau a Olinda, no período das invasões holandesas. No início do percurso, guiado pelo comandante polonês Krzysztof Arciszewski, Cartesius fuma uma erva que o faz delirar, enquanto aguarda as explicações daquele novo ambiente tropical. Entre delírios, sátiras e pensamentos sobre o contexto daquela viagem, o narrador faz trocadilhos com frases memoráveis do filósofo: “Não, esse pensamento, não, ainda credo num treco. Claro que já não creio no que penso, o olho que emite uma lágrima faz seu ninho nos tornozelos dos crocodilos beira Nilo. Duvido se existo, quem sou eu se este tamanduá existe? Da verdade não sai tamanduá, verdade trás, quero dizer: não se pensa, olhar lentes supra o sumo do pensar!”.

Definido por Leminski como “romance ideia”, devido ao estilo literário inovador, a obra parece misturar prosa e poesia enquanto reflete a ironia daquela expedição. Catatau é construído a partir da intertextualidade entre palavrões, neologismos e caricaturas de um Brasil presente em livros de história. O personagem Cartesius critica e reflete sua formação em primeira pessoa: “O dia em que merda for merenda, pobre de mim que nasci sem cu!”. Refere-se a si mesmo com gracejos e caricaturas de um filósofo ocidental perdido no calor de um país desconhecido.

A sátira da viagem a este “novo mundo”, somada ao receio do desconhecido, os animais, as paisagens e a fauna, reflete a fragmentação de Cartesius e ridiculariza seus medos. Embora seja uma figura filosófica, ele continua sendo humano, e a graça das piadas feitas por Leminski esmiúça essa concepção. Em paralelo a essas reflexões, também são feitas críticas às religiões, às novas adaptações industriais e à “urgência” de explicações para se compreender a obra. Devido ao seu estilo próprio, Catatau foi visualizado pelos críticos como uma aproximação aos concretistas e neobarrocos, pelo nível de inovação, mas Leminski vai na contramão e idealiza a obra como sua propriedade literária, algo que nunca havia sido realizado antes. Por isso mesmo, a leitura torna-se mais densa.

No fluxo de consciência do personagem e na confusão de seus pensamentos, Leminski inclui frases complexas, como: “A ambiguidade está entre quem fala e quem pensa em tudo, a divergência produz um silêncio”. A argumentação e o conflito entre as ideias parecem perder o sentido, mas na continuação da leitura este é concluído e possibilita novas interpretações do que está sendo dito. A obra indica uma leitura oralizada, entre frases em latim e italiano, misturadas ao português e ao tupi, em uma sincronia que parece tecer um mundo globalizado e não fixo.

O personagem Occam é personificado como uma entidade que mora no lago Ness e aparece na incerteza das ideias irracionais de Cartesius, mas também é um “orixá asteca-iorubá encarnando num texto seiscentista”. Esse fluxo e essa fragmentação das figuras também indicam o estilo criado pelo autor, como a aglutinação de diferentes características no mesmo personagem. Occam traz consigo a teoria de Descartes; ele é um “malin génie” (gênio maligno), metáfora criada para os pensamentos falsos que, mesmo demonstrados a partir de algo concreto, não são verdadeiros. Essa ficcionalização entre criatura e criador indica as intenções que Leminski tem para caracterizar seus personagens, as quais podem partir das próprias teorias de Descartes, por exemplo.

Inspirado nas obras de Haroldo de Campos, James Joyce e Guimarães Rosa, Catatau explora a tensão entre a irracionalidade e a razão em Cartesius, evidenciando a transgressão de Leminski ao vincular delírio e alucinações à figura de um filósofo mundialmente conhecido por sua lógica cartesiana. Assim como as leituras críticas das obras dos autores citados anteriormente, que mencionam “dificuldades” para a compreensão, nesta obra os leitores também não são poupados. Apesar disso, os questionamentos, as piadas, as metáforas e as analogias são introdutórios para que se tente facilitar o entendimento da obra, até porque o próprio autor também questiona sua criação e ficcionalização ao longo do texto.

Leminski interpreta Catatau como “o fracasso da lógica cartesiana branca no calor, o fracasso do leitor em entendê-lo, emblema do fracasso do projeto batavo, branco, no trópico”, ou seja, a obra tem o intuito de causar desconforto e questionar qual foi a formação dessa lógica cartesiana ocidental deixada nos compêndios filosóficos. A narrativa possibilita levantar marcas decoloniais sobre quem é esse mundo ocidental, quem forma essa lógica cartesiana e como ela chegou aos trópicos. A somatização de diferentes concepções e conceitos escritos numa mesma linha são intencionais para induzir reflexões ou causar gargalhadas.

A obra também serviu de inspiração cinematográfica. O filme Ex Isto (2010), dirigido por Cao Guimarães, é baseado integralmente em Catatau, mostrando os delírios, as investigações geométricas e as óticas sobre esse outro mundo em que Cartesius foi parar e como ele percebe a sociedade contemporânea.

O deslocamento da realidade também ultrapassa novas definições sobre quem é esse personagem, como ele mesmo diz: “Debrucei-me sobre livros a ver passar rios de palavras. Naveguei com sucesso entre a higiene e o batismo, entre o catecismo e o ceticismo, a idolatria e a iconoclastia, o ecletismo e o fanatismo, o pelagianismo e o quietismo, entre o heroísmo e o egoísmo, entre a apatia e o nervosismo (…)”. E conclui: “e saí incólume para o sol nascente da doutrina boa, entre a aba e o abismo”. A transposição de quem é essa persona, que escorrega entre dualismos e segue sendo múltipla, elabora uma imagem de Cartesius como um homem semiótico dentro de um mundo difundido de ideias, até mesmo pelas próprias distinções das linhas teóricas em que o personagem caminha. Por isso, esse “homem semiótico” corresponde às idealizações que Cartesius cria e recria sobre si mesmo e sobre as diferenças desse mundo que o rodeia e suas concepções teóricas.

Ao final, Catatau suaviza as questões existenciais que foram levantadas ao longo da obra e as deixa sem desfecho, inspirando-se nos poemas dos concretistas (Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari), que reordenam suas interpretações a partir de diferentes perspectivas, assim como Leminski faz na prosa: “É esta terra: é um descuido, um acerca, um engano de natura, um desvario, um desvio que só não vendo. Doença do mundo! E a doença doendo, eu aqui com lentes, esperando e aspirando. Vai me ver com outros olhos ou com os olhos dos outros? […] Vem bêbado, Artyschewsky bêbado… Bêbado como polaco que é. Bêbado, quem me compreenderá?”. Quem compreender Catatau conseguirá compreender a polarização do mundo contemporâneo, com a difusão de ideias ditadas o tempo inteiro nas redes sociais; quem não compreender, seguirá como outros leitores, relendo o livro até ele ganhar seu próprio sentido.

Para saber mais

BYLLART, Cid Ottoni; LEMOS, Saulo de Araújo (2016). Catatau, imagem e trânsito. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 48, p. 1-22. Disponível em: https://www.scielo.br/j/elbc/a/q8GRxGfZGCg6WWnjdxSJyYc/?lang=pt. Acesso em: 26 set. 2024.

NOVAIS, Carlos Augusto (2008). As trapaças de Occam: montagem, palavra-valise e alegoria no “Catatau”, de Paulo Leminski. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

PENIDO, Luis; CAETANO, Paulo (2023). Máquina de mo(v)er pátrias e brasílias: Catatau (1975) de Paulo Leminski. A Cor das Letras, Feira de Santana, v. 24, n. esp., p. 173-183. Disponível em: https://ojs3.uefs.br/index.php/acordasletras/article/view/9367. Acesso em: 1º out. 2024.

TEIXEIRA, Danilo Bernardes (2020). O delírio de Descartes no Catatau de Paulo Leminski. Frontería, Nova Iguaçu, v. 1, n. 1, p. 115-140. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/litcomparada/article/view/1967. Acesso em: 1 out. 2024

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Como citar:

CARVALHO, Greicy Kelly.
Catatau.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

26 mar. 2025.

Disponível em:

4193.

Acessado em:

05 mar. 2026.