TAPAJÓS, Renato. Em câmara lenta. São Paulo: Alfa Omega, 1977.
Carolina Montebelo Barcelos
Ilustração: Francisco Dalcastagnè Miguel
Renato Tapajós (Belém, PA, 1943) é cineasta e escritor. No início dos anos de 1960, mudou-se para São Paulo, onde cursou Ciências Sociais e começou a trabalhar com cinema, cuja produção era voltada para documentários que abordavam movimentos sindicais, lutas populares e defesa dos direitos humanos. Ainda na década de 60, como integrante da Ala Vermelha, dissidência de linha maoísta do Partido Comunista do Brasil, envolveu-se na luta armada contra a Ditadura (1964-1985). Por isso, ficou detido no Presídio Tiradentes (SP), que abrigava muitos presos políticos, entre 1969 e 1974. Lá, durante os anos de 1973 e 1974, escreveu o que inicialmente seria intitulado Nem todas as mortes são iguais, cujo manuscrito foi copiado em letras miúdas e levado pelos pais do autor embaixo da língua para ser datilografado.
Após algumas tentativas frustradas de publicar o livro por editoras que o recusavam temendo censura, Em câmara lenta, título então escolhido pelo autor por considerar o inicial demasiadamente sectário, foi publicado pela primeira vez em maio de 1977 pela editora Alfa Omega e logo esgotou. Após seu lançamento, o autor foi preso em 27 de julho sob acusação de um suposto caráter subversivo de sua escrita que, de acordo com Sérgio Paranhos Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, fazia incitação ao terrorismo e à luta armada. Assim, o livro foi censurado e, sua venda, suspensa, embora continuasse a circular clandestinamente. Com uma defesa fundamentada por parecer de Antonio Candido sobre o livro alegando tratar-se de uma autocrítica, Tapajós foi libertado quase um mês depois. Somente em 1979, com o fim da censura, o livro pôde voltar a circular livremente e a Alfa Omega, então, fez uma segunda tiragem. Em 2022, Em câmara lenta ganhou uma nova edição da Carambaia, na qual constam um posfácio escrito por Jayme da Costa Pinto, o relatório do DOI-CODI utilizado para condenar Tapajós à prisão e o parecer elaborado por Antonio Candido.
Este romance de estreia de Renato Tapajós é a primeira narrativa ficcional a abordar a luta armada durante a ditadura militar por um de seus participantes. A voz narrativa encontra-se, por vezes, na primeira pessoa, marcando um aspecto autobiográfico, como quando o autor reflete sobre a estada na prisão durante o ato da escrita do livro ou sobre sua participação no movimento estudantil da USP; por outras, na terceira pessoa, conferindo à narrativa um distanciamento autoral, sem participação ativa, caso das passagens sobre a luta armada na cidade e no campo. Tal qual um roteiro cinematográfico, estética cara ao autor – tanto que o título do romance é, em si, um procedimento utilizado no cinema, embora, ao mesmo tempo, possa remeter também à cela da prisão onde o tempo demora a passar –, o texto apresenta 63 fragmentos, ou cortes, com flashbacks e flashforwards idas e vindas temporais, uma cena que aparece cinco vezes, cada uma acrescentando informações àquela anterior, de modo que na cena final, mais completa, o leitor entende o que aconteceu desde a primeira passagem que versa sobre três militantes dentro de um carro parado por um policial no trânsito que é baleado por um deles.
A narrativa não é linear, mas fragmentária, em que se alternam, como em um fluxo de consciência, relatos da infância e adolescência do autor em Belém, sua ida para São Paulo, bem como sua participação em movimentos estudantis na USP, e a atuação de guerrilheiros na Amazônia e em São Paulo, representações das possíveis guerrilhas rurais e urbanas. Muitos dos diversos personagens são nomeados, como Carlos, Sérgio, Marta, Lúcia, Marcos; outros são identificados pela nacionalidade, como o venezuelano, o peruano, o americano e o japonês; e há ainda os algozes de todos eles, sem jamais ganharem nomes, mas sempre referidos como “o policial”.
A ação dos militantes na luta armada é o principal eixo do romance, no contexto da promulgação do Ato Institucional n. 5 (AI-5), de 1968, momento em que o autoritarismo alcançou novos patamares, a repressão endureceu e os movimentos estudantis e a luta armada cresceram. Nesse eixo, são mostradas as estratégias adotadas para arrecadar fundos para a causa, a atuação dos membros nas ruas e nos aparelhos (esconderijos), os planos de trazerem o operariado e os trabalhadores do campo para a resistência ao regime, os enfrentamentos e fugas da polícia. Por consequência, há relatos de perseguições, prisões, torturas e assassinatos realizados pelo DOPS e DOI-CODI (Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna).
Uma das descrições da tortura de uma militante é considerada por críticos como uma das mais chocantes da literatura brasileira. As imagens trazidas pela violência da cena já são em si fortes, e as hipérboles presentes intensificam a brutalidade. Não obstante as passagens sobre a luta armada e a repressão, há também momentos em que são abordados o medo dos militantes e de seus parceiros e pais, a deserção e o exílio. Além disso, as delações de companheiros e seus esconderijos são informadas, o que contrasta com a rigorosa resistência da militante torturada.
Recorrente no romance é a referência a um “jogo de armar”. Quando o narrador diz “Hoje eu olho a parede e nela desfilam os fragmentos do passado. As peças do jogo de armar que podem ser organizadas numa figura”, está fazendo uma alusão aos tais fragmentos do passado, mas a expressão também pode ser entendida como, pelo caráter fragmentário do texto, um convite do autor ao leitor para ordenar, montar e reorganizar os recortes do texto e dar-lhe sentido.
Outra imagem recorrente é a do silêncio. Ele marca, por exemplo, o temor dos militantes quando da presença da polícia, o que ocorre na cena que se repete cinco vezes, e é quebrado com o estampido do tiro de revólver direcionado ao policial. Ou é rompido quando um casal de militantes está na sala de casa e ouve a notícia de que o AI-5 havia sido decretado. O silêncio aparece, ainda, na solidão do narrador ao refletir sobre sua participação na luta armada, no choro da militante cujo parceiro havia sido assassinado pelo regime, ou naqueles que resistem à dor da tortura e não delatam os companheiros.
Em câmara lenta está em consonância com o movimento de autocrítica da Ala Vermelha de reconhecer o equívoco de uma luta armada na conjuntura da ditadura militar cuja estrutura bélica e tática não era possível de ser enfrentada e superada. Das memórias do autor, nas quais o fluxo de consciência e a escrita fragmentária acenam para um certo distanciamento em relação à atuação da luta armada, o romance é atravessado pela autocrítica. Desse modo, as reflexões do narrador alternam entre um sentimento de que a revolução é o único caminho possível para enfrentar o regime militar e a constatação de que a luta fora inútil. Também, em determinado momento, o narrador se refere a um malogro do movimento por não ter angariado apoio do povo, e, ao realizar uma espécie de balanço final no desfecho do romance, ele diz: “Agora eu sei. E saber não deixa mais nada além do ódio”.
Ao que pese o relatório do DOI-CODI apontar propaganda subversiva, emulação da guerrilha e ensinamentos de técnicas consideradas terroristas, foi esse aspecto da autocrítica presente no romance que fundamentou o parecer de Antonio Candido ao asseverar o caráter inócuo da guerrilha armada como resistência à ditadura militar. O crítico também ressalta a literariedade do livro, o “teor estético da linguagem usada”, sem que houvesse nele algum aspecto documentário que fizesse apologia à luta armada.
Com Em câmara lenta, Renato Tapajós traz para a nossa literatura uma maneira de narrar o trauma, quer seja pela sua própria vivência na luta armada que o levou à prisão; pela violência do aparato policial militar sofrida pelos militantes e o horror; ou pelo abjeto, noção desenvolvida por Márcio Seligmann-Silva a respeito da violência extrema impingida ao corpo e que norteia uma análise de Jaime Ginzburg sobre a cena brutal da tortura de uma militante.
Para saber mais
CURY, M. Z. F.; PEREIRA, R. S. (2018). Em câmara lenta, de Renato Tapajós, 40 anos: autocrítica pública e sobrevivência. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 54, p. 435–454. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/10379. Acesso em: 15 jan. 2024.
FIGUEIREDO, Eurídice (2017). A literatura sobre a ditadura: estratégias de escrita. In: A literatura como arquivo da ditadura brasileira. Rio de Janeiro: 7Letras, p. 41-123.
GINZBURG, J. (2011). Imagens da tortura: ficção e autoritarismo em Renato Tapajós. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 21, p. 129–142. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/8935. Acesso em: 15 jan. 2024.
LASCH, M. (2012). Em câmara lenta: representações do trauma no romance de Renato Tapajós. Remate de Males, Campinas, SP, v. 30, n. 2, p. 277–291. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8636252. Acesso em: 15 jan. 2024.
SELIGMANN-SILVA, M. (2014). Imagens precárias: inscrições tênues de violência ditatorial no Brasil. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 43, p. 13–34, 2014. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/9942. Acesso em: 23 jan. 2024.
Iconografia





