MIGUEL, Salim. Nur na escuridão. Rio de Janeiro: TopBooks, 1999.
Barbara Nicolle Souza Carneiro
Ilustração: Francisco Dalcastagnè Miguel
Nur na escuridão (1999) é uma obra autoficcional de Salim Miguel (Kfarssouron, Líbano, 1924 – Brasília, DF, 2016) na qual o autor narra a história de sua família de imigrantes libaneses em uma jornada para e pelo Brasil, após uma tentativa frustrada de migração para os Estados Unidos da América. A família, que deixou o Líbano em busca de estabilidade econômica e qualidade de vida, desembarcou no porto de Mauá em maio de 1927, estabelecendo-se em São Pedro de Alcântara, município de Biguaçu, Santa Catarina, local que reverbera em toda a obra de Miguel.
Salim Miguel é autor de mais de trinta livros, entre os mais importantes Velhice e outros contos (1951), seu primeiro livro publicado, A voz submersa (1984) e Nur na escuridão (1999). Sua produção literária lhe rendeu diversos prêmios, incluindo o Prêmio Passo Fundo Zaffari/Bourbon de Literatura (2001) por Nur na escuridão (1999). Ademais, foi um dos expoentes do Modernismo em Santa Catarina, na década de 1950, no Grupo Sul, movimento que renovou os parâmetros tradicionais das artes, seja na literatura, no cinema, no teatro ou nas artes plásticas. Junto com sua esposa, Eglê Malheiros, escreveu o roteiro do primeiro longa-metragem catarinense, O preço da ilusão (1958).
Durante o regime militar, Salim e Eglê foram presos, acusados de subversão e de serem suspeitos de liderar o Partido Comunista em sua região. Em 1965, mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde Salim retomou seu trabalho como roteirista de cinema e, em parceria com Laura e Cícero Sandroni e Fausto Cunha, criou e editou a revista de contos Ficção (1976-1979).
A mescla entre realidade e ficção, memória e história constitui a produção de Salim Miguel ao longo de sua vida, sendo suas obras marcadas pela própria vivência de imigrante, preso e perseguido político, por meio de personagens ficcionais e reais.
No ensaio Reflexões sobre o exílio (2003, p. 46), Edward Said declara que a experiência do exílio é “uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e o seu verdadeiro lar, […] permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre”. A escrita, assim, torna-se um instrumento de reconstituição dessa ruptura para aqueles que cruzam fronteiras não apenas geográficas, mas também “do pensamento e da experiência”, diante da confluência de culturas. Na obra de Salim Miguel, esse processo se manifesta em uma narrativa autoficcional, ou ainda um romance de sua própria vida, onde a escrita serve não apenas para reconstruir o passado, mas para reverberar suas memórias no presente.
As memórias do protagonista em Nur na escuridão revelam-se tanto no Líbano, por meio das histórias orais de seu pai, Yussef Miguel, quanto na presença constante da cultura libanesa no cotidiano da família no Brasil. A autobiografia póstuma de Yussef, Minha vida (1997), é incorporada ao longo da narrativa, permitindo que o legado familiar seja resgatado e eternizado. Elementos culturais, como comidas típicas (zatar, kibbeh, arak) e o idioma árabe, mantido vivo principalmente pelo patriarca, fazem parte da experiência diária dessa família. Yussef, que foi professor no Líbano e o primeiro da família a aprender a ler e escrever em árabe, também foi o primeiro a aprender português, simbolizando a fusão cultural que permeia a vida da família.
É por meio da linguagem que Yussef/José/Seu Zé/Seu Gringo se aproxima e, ao mesmo tempo, se afasta, de sua terra natal, o Líbano. Ao desembarcarem no porto de Mauá, desorientados pela longa viagem de navio e sem conhecimento de onde estavam, para onde deveriam ir e sem entender a língua portuguesa, foram ajudados por um homem ex-escravizado, que os guia até a irmã de Yussef, Sada, moradora de Magé, Rio de Janeiro. É também por meio desse homem expatriado pela colonização, assim como sua família, que José aprende sua primeira palavra em português: luz, ou nur. É a esperança de uma vida melhor em um lugar, ainda, desconhecido.
Assim como muitos patrícios, é por meio da mascateagem que a família se mantém, pelo menos no início. A venda de produtos de porta em porta, viajando de cidade em cidade, marca a história daqueles que vieram antes e depois deles. Essa atividade oferecia vantagens imediatas por não requerer habilidades ou recursos significativos, nem grande conhecimento da língua portuguesa, podendo evoluir para pequenos comércios varejistas. Assim, por meio do idioma português, Yussef se torna José, aproximando-se de sua clientela não só pelas palavras, mas pela forma de tratamento, pelo nome. Contudo, todo ganho implica em uma perda, e aquele que um dia não soubera se comunicar em português ao desembarcar no cais de Mauá, agora esquecia palavras em árabe.
O período histórico que vivenciaram foi marcado por transformações políticas e sociais: a eclosão do fascismo na Europa e a Segunda Guerra Mundial no contexto global, além da ascensão de Vargas ao poder e o movimento Integralista no Brasil. Esses eventos dificultaram a continuidade da atividade econômica da família, vista como uma ameaça aos brasileiros conservadores e nacionalistas da região. Em um episódio revelador, eles deixam de ser considerados moradores da região e passam a ser tratados como “gringos”: “Não demora, a casa comercial de Yussef/Josef se torna conhecida, afreguesada”. No entanto, “de repente, sem qualquer explicação, sem lógica visível, sem nenhum fato aparente que justificasse ou provocasse, a reclamação dos demais comerciantes, solerte de início, escancarada a seguir, dois ou três ou quatro, nem meia dúzia eram, diziam, estamos sendo prejudicados, a queixa ao padre, esse estrangeiro, esse turco, chegou ontem e nos tomou a clientela, sem se lembrarem que também eles eram imigrantes, ou filhos ou netos de”. Por fim “passaram a chamar o pai de turco e gringo. […] Pela primeira vez, sim, o pai tomava conhecimento desse termo, era assim tratado”.
Apesar da busca por pertencimento, os imigrantes libaneses, como a família de Yussef, continuavam a ser “vistos com estranheza pelos demais, têm nomes exóticos, falam arrevesado, faltam-lhes palavras, se envergonham de dizê-las num arremedo de português e árabe. Passam a tudo fazer para serem aceitos e se integrarem naquele mundo”, mesmo que os pais tenham vivido a maior parte da vida no Brasil, e a maioria dos filhos também tenha nascido no país. Em busca de um lugar de pertencimento, as viagens geográficas definem não só a história narrada em Nur na escuridão, mas a do núcleo familiar de Salim e de tantos outros libaneses em busca de uma melhor oportunidade de vida.
Além das viagens físicas, a obra também explora as viagens interiores dos personagens, especialmente na figura paterna: Yussef/José. Ao utilizar trechos da autobiografia Minha vida (1997), escrita pelo pai ao longo de Nur na escuridão (1999), Salim não só o rememora no presente, mas recorda e mantém viva a identidade libanesa: aquela de seus antepassados e a de si próprio. Nur na escuridão é a memória, a trajetória familiar, cultural e identitária de sua família, uma homenagem à história de várias vidas libanesas que tiveram que deixar seus lares em busca de um novo lugar.
Por fim, Nur na escuridão oferece uma reflexão atual sobre colonialismo, guerras e regimes autoritários, que forçam indivíduos a migrar e enfrentar novos desafios longe de casa. Além disso, a obra questiona preconcepções e preconceitos enraizados na sociedade, que perpetuam desigualdades sociais e desvalorizam as multiplicidades culturais, diferenças essas que fazem com que os seres humanos sejam diversos e vivenciem múltiplas realidades. É por meio de obras como Nur na escuridão que se pode criar a compreensão do lugar e da vivência do outro, ter uma maior empatia com as dores, entender a beleza na diferença e aprender, assim, a ouvir as vozes que um dia foram silenciadas pelos colonizadores e ditadores.
Para saber mais
LAAOUICHI, El Mostafa (2016). A emigração árabe no romance brasileiro contemporâneo: Nur na escuridão e a memória, a identidade, a alteridade e o estranhamento. Dissertação (Mestrado em Estudos Brasileiros) – Universidade de Lisboa, Lisboa.
MELLO, Ana Maria Lisboa de (2014). Memórias e traços identitários em Nur na escuridão. Organon, Porto Alegre, v. 29, n. 57, p. 171-183.
Iconografia





