Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

O penhoar chinês

JARDIM, Rachel. O penhoar chinês. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.

Eugenia Zerbini
Ilustração: Ruben Zacarias

Aqueles que se debruçaram sobre a obra da escritora Rachel Jardim (Juiz de Fora, MG, 1926 – Rio de Janeiro, RJ, 2023) são unânimes em apontar que memória e tempo sempre foram os fios condutores de sua obra. Não é diferente em O penhoar chinês. Uma das memorialistas de destaque da segunda metade do século passado, seus romances e contos são de caráter intrinsecamente confessional e intimista.

Raquel Carvalho Jardim, embora nascida “nas Gerais”, viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito. Porém, Minas, mais especificamente Juiz de Fora, nunca saíram de dentro dela: “Juiz de Fora sou eu”, afirmou Rachel em entrevista a Chico Lopes, publicada no blog Verdes Trigos, em 15 de junho de 2006. Ainda arrematou: “Sou um duende mineiro”. As várias temporadas passadas no exterior para seguir cursos em administração pública das cidades, do patrimônio cultural e de museus não apagaram seu apreço à terra natal. Como servidora pública carioca, foi diretora tanto do Museu de Arte Moderna, como do Patrimônio Artístico e Cultural e idealizadora do Parque das Ruínas, no bairro de Santa Teresa.

Em 1973, Rachel publica Os anos 40: a ficção e o real de uma época, sendo aclamada tanto pelo público como pela crítica. Nos anos 1970, as ideias feministas aportaram no Brasil, quando se vivenciou a chamada segunda onda feminista (a primeira entendida como a luta pelo voto feminino, conquistado pelo Código Eleitoral de 1933). Abrindo a década, em 1971, Betty Friedman – uma das porta-vozes do feminismo – aqui desembarcou para lançar o seu A mística feminina. Nesse mesmo ano, a fotografia da atriz Leila Diniz grávida e de biquini na praia, divulgada nos meios de comunicação, torna-se o emblema do novo exercício do feminino. Pouco mais tarde, as Nações Unidas declaram 1975 como o Ano Internacional da Mulher, pontuando a inauguração da Década da Mulher (1976-1986).

Nesse caldo cultural, expande-se no país a publicação das obras de autoria feminina, despontando nomes como os de Julieta de Godoy Ladeira, Lya Luft, Marina Colasanti, Marcia Denser e firmando-se outros, como o de Nélida Piñon. A obra de Rachel Jardim é abraçada por essa expansão.

Nesse contexto, a obra de Jardim é profícua, ainda que comprimida em pouco mais de uma década. Além de coordenar uma antologia de contos escritos por mulheres, Mulheres e mulheres (1978) e participar de algumas outras.  Em voo solo, Rachel publica três coletâneas de contos e três romances. Seu texto, lírico, de uma elegância intrínseca, evoca tempos passados e suas perdas, indagações sobre a própria identidade e propõe a escrita como um eventual processo de cura.

O penhoar chinês, seu último romance publicado, é a história da escritora e advogada Elisa Avellar. Diante da morte da mãe, Elisa, que mora no Rio de Janeiro, retorna à casa materna, em Palma.  A casa não é qualquer casa, mas a Vila Elisa, um palacete construído por seu pai e ofertada à mãe, como presente de casamento.  Mexendo em um baú, Elisa encontra um penhoar de seda, desgastado pelo tempo, cujo bordado compartilhara com a mãe, décadas atrás, nos anos 1920. Ao se recordar da emoção com que, criança, aprendeu a manusear a agulha para acompanhar a mãe na delicada empreitada de bordar esse penhoar, Elisa retoma o bordado, quase meio século depois. Espera desvelar o motivo que levou sua mãe a interromper o bordado.

As lembranças surgem. A mãe, dona de casa impecável. O pai, Bernardo, um engenheiro e homem de negócios, que ao soar das 21 horas, pegava o chapéu e saía para a rua. O ambiente inclementemente patriarcal assim se delineia: à mulher é dado o parir e o parado; ao homem, o restante, o mundo todo.

Bordar leva a filha a rever a própria vida. Porém, os segredos da mãe, com quem ela manteve uma relação de admiração e afeto, só virão à luz em uma carta que a filha, a certa altura, receberá das mãos da acompanhante que zelou pela mãe, até o fim. Tecer, essa atividade eminentemente feminina e quase mítica, poderia conduzir à figura de Penélope, o que entretanto seria um engano, como aponta Lélia Almeida (2003). Se para Penélope tecer durante o dia para desfazer à noite é um ardil que lhe garante a espera de Ulisses, o marido, em O penhoar chinês tecer é o fio que refaz uma genealogia feminina. O bordado compartilhado torna-se o cordão umbilical entre mãe e filha. Indo além, o encadeamento dos diversos pontos une as diferentes gerações, uma vez que a avó da Elisa do presente também se chama Elisa, criando uma ciranda de labirinto e de espelhamento.

Ao cotejar esse romance de Rachel Jardim com o restante de sua obra, essas duas noções, labirinto e espelhamento, se aprofundam. A narradora de Inventário das cinzas, Judite, é advogada e escritora, do mesmo modo que Elisa (e a própria autora, Rachel). No conto “Um coração solitário”, parte da coletânea Mulheres e mulheres, a narradora confessa ter sido casada com um francês e ter tido um casal de filhos, elementos que também integram a biografia de Elisa Avellar. Esta última, diante da morte da mãe, regressa a Palma, uma recriação de Juiz de Fora, nomeada em todas as letras mais ao fim do romance. Com exceção do ano em que morou em Guaratinguetá (SP), Juiz de Fora é o cerne das memórias recolhidas em Os anos 40. Esses dados são meros exemplos, pois eles brotam ao longo de toda a obra da autora, que, em última análise, se expõe em cada linha, falando muito de si.

Rachel Jardim, ao utilizar a própria vida como matéria bruta e direta da sua escrita, praticou a “escrita do eu” (Almeida, 2009), quem sabe sem nem saber. O termo não era usual na sua época, pelo menos no Brasil, nem tinha a dominância que adquiriu no século XXI, sob o signo da autoficção. Depois de O penhoar chinês, a autora declara ter cansado de escrever e de frequentar o meio literário, como confessado na entrevista de 2006, já mencionada.

Ainda assim, volta a público, porém desta vez para apresentar a edição do fac-símile do caderno poético de sua mãe, Maria Luiza Carvalho. Era um costume, entre as moças de antigamente, ter um caderno no qual pediam para amigos e familiares registrarem palavras e pensamentos bonitos à guisa de recordação. No caderno da mãe de Rachel Jardim, o poeta mineiro Murilo Mendes copiou uma série de poemas de autores famosos à época. Esse é o tema em torno do qual gira um outro livro de Rachel, em coautoria com Alexei Bueno: a obra Num reino à beira do rio: um caderno poético – Murilo Mendes (2004). Na realidade, é mais uma evidência dos laços de amor entre Rachel Jardim com sua mãe e com sua cidade natal. Do mesmo modo que, em O penhoar chinês, os laços entre Elisa e sua mãe, Vila Elisa e Palma. Só que, em lugar do bordado, um caderno de poesias.

Uma observação, antes de se encerrar esta resenha. Não se compra o livro pela capa, é o que se diz. Todavia, depois de várias edições de O penhoar chinês na editora José Olympio (aparentemente quatro), uma reedição feita em parceria com a Funalfa pecou pela capa. De modo inconsistente, a imagem estampada é o retrato de moças do século XIX, sentadas e ocupadas com seus bordados. Um erro em muitos sentidos, pois trai o romance, que se passa nos anos 1920, e a própria condição da mulher, que foi uma há dois séculos e outra na segunda década do século XX.

Para saber mais

ALMEIDA, Lélia (2003). Genealogias femininas em O penhoar chinês de Rachel Jardim. Signos, Santa Cruz do Sul, v. 28, n. 44, p. 7-30. Disponível em: https://online.unisc.br/seer/index.php/signo/issue/view/590. Acesso em: 22 jul. 2024.

ALMEIDA, Raquel Laurino (2009). Autobiografia, autoficção e künstlerroman: problematizando as fronteiras teóricas através da literatura de obras de Rachel Jardim. Revista Literatura em Debate, [S. l.], v. 4, n. 5, p 141-151. Disponível em: https://revistas.fw.uri.br/index.php/literaturaemdebate/article/view/508/931. Acesso em: 22 jul. 2024.

JARDIM, Rachel; BUENO, Alexei (2004). Num reino à beira do rio: um caderno poético – Murilo Mendes. Juiz de Fora, Funalfa Edições.

JARDIM, Raquel (2006). Raquel Jardim fala de sua vida literária: “sou um duende mineiro”. [Entrevista concedida a] Chico Lopes. Blog Verdes Trigos. Disponível em: http://verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=982. Acesso em 3 de ago.2024.

MAZZONI, Vanilda Salignac de Sousa (2004). Uma porta entreaberta: um estudo sobre Elvira Foeppel e Rachel Jardim. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal da Bahia, Salvador. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/28879/1/TESE%20Mazzoni%2C%20Vanilda%20Salignac%20de%20Sousa.pdf. Acesso em: 22 jul. 2024.

Iconografia

Tags:

Como citar:

ZERBINI, Eugenia.
O penhoar chinês.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

28 jan. 2025.

Disponível em:

3661.

Acessado em:

06 mar. 2026.