BARROSO, Maria Alice. A saga do cavalo indomado. Rio de Janeiro: Record, 1988.
Cecilia S. F. Marinho
Ilustração: Léo Tavares
O romance A saga do cavalo indomado é a oitava publicação e o quarto livro da pentalogia escrita, entre 1967 e 1995, por Maria Alice Barroso (Miracema, RJ, 1926 – Juiz de Fora, RJ, 2012). Além de autora, foi bibliotecária, tendo em sua trajetória a direção do Instituto Nacional do Livro, da Fundação Biblioteca Nacional e do Arquivo Nacional. Na apresentação desse romance de afirmação e resistência feminina diante da opressão patriarcal, Barroso diz ter usado como “chão ficcional” a sua cidade de origem, Miracema, divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais. O local retratado na obra, Parada de Deus, bem como as histórias e personagens que envolvem os protagonistas da família Moura Alves são livremente inspiradas em lugares e pessoas reais dessa terra natal norte fluminense. O “ciclo Parada de Deus” se inicia com um feminicídio em Um nome para matar (1967), segue para a busca detetivesca de Quem matou Pacífico (1969), passa por outro homicídio em O Globo da morte (Divino das Flores) e, após A saga do cavalo indomado, se encerra com o coronel protagonista morrendo no mesmo dia da partida de Getúlio Vargas, em A morte do Presidente ou a amiga de mamãe (1995).
Apesar de ser o penúltimo livro de um conjunto que abrange cinco gerações dos Moura Alves, o romance aqui analisado faz um retorno cronológico para a fundação do vilarejo pelo patriarca Chico das Lavras, em torno de 1820. Desde o início da genealogia, a violência dos conflitos familiares é apresentada como parte indissociável da dinâmica social, política e religiosa local, refletindo processos da formação e desenvolvimento do país. Dessa forma, a obra representa a potência crítica da mulher diante do mandonismo exploratório e controlador. Além do prêmio Walmap dado a Um nome para matar, o Jabuti conquistado por A saga do cavalo indomado intensificou o reconhecimento da autora, colaborando para as reedições do romance em 2001. No entanto, como outras obras de autoria feminina, a visibilidade da criação de Maria Alice Barroso ainda é pequena se comparada à grandeza de sua qualidade formal e relevância temática.
O conhecimento das histórias que deram origem ao “ciclo Parada de Deus” aconteceram, segundo Barroso, através do “raconto” iniciado pelas negras escravas nas velhas fazendas brasileiras e propagado oralmente pela comunidade. Para reforçar essa característica, foram adotados procedimentos narrativos que privilegiam a oralidade, tanto pela narradora onisciente em terceira pessoa, como pela inserção de outras instâncias em primeira e mesmo segunda pessoa, próprias de contextos coletivos. Barroso, na apresentação do romance, explicita suas influências: “Isso quer dizer que tanto García Marques quanto eu somos discípulos de William Faulkner, o mago do Mississipi”. O escritor norte-americano foi um dos precursores da adoção de vários pontos de vista em primeira pessoa a se revezarem em cada capítulo de um romance, como acontece em As I lay dying (1915). A saga do cavalo indomado, nesse rastro, espalha múltiplos olhares sobre o enredo, dividindo-os em 33 partes ao longo das 168 páginas do texto ficcional, separadas entre si apenas por um espaço em branco e três asteriscos. Tal emaranhado ganha complexidade ao adicionar partes com o narrador onisciente em terceira pessoa do romance tradicional; partes com o diálogo entre um personagem e o autor, sinalizados pelo uso do travessão; e partes com recursos próprios do gênero dramático: diálogo direto entre personagens acompanhado de rubrica em itálico e falas indicadas pelo nome da personagem correspondente. A ensaísta Lea Ramsdell, da Universidade de Towson, comentou essa estratégia como sendo a aplicação de camadas formais discursivas da crônica, da entrevista e do drama.
A voz mais presente dessas camadas é a de Maria Olegária, filha mais nova de Chico das Lavras. Ao experimentar uma visão messiânica do Cristo-rei e dele receber a encomenda da exploração de ouro, ocupação da região e construção de uma igreja, Chico cumpre sua missão com capangas e armas mantendo competidores e indígenas afastados e instalando ali sua dominância. O fervor religioso o fazia frequentemente carregar pelas ruas uma pesada cruz nas costas, além de obedecer a vontade do mesmo Cristo-rei de que ele se casasse com a virgem mais feia da região, Siá Leopoldina. Trouxe o padre Cesário para viver em sua casa na fazenda Gratidão e prometeu entregar ao seminário seu único filho varão e ao convento suas sete filhas mulheres.
Olegária e o irmão Zé Inácio são os únicos que se opõem ao destino imposto, sendo que a caçula toma claramente o protagonismo da narrativa, adotando uma postura heroica. Contrariando os papéis destinados à mulher, ela evita os trabalhos manuais, frequenta a estrebaria usando calças, costuma galopar “como um homem” pelos arredores, sem rédeas, assume o desejo carnal de suas paixões e, finalmente, dirige seu questionamento e desobediência ao controle paterno sem medo. A ação tem a constante presença de Negro, um cavalo selvagem indomável a revelar um vínculo profundo e simbólico com Olegária, a única capaz de montá-lo. A insubmissão que ambos assumem é o cerne significativo da obra e por isso está representada no título. Com o desafio de domesticar o animal, Chico chama o afamado domador Honório, futuro pretendente da heroína da história. São esses personagens que compõem o ambiente de Gratidão e que são afetados pela problemática familiar, incluindo também a costureira Didila, amante de Chico, sua filha Glorinha, o feitor Matias, a mucama Rufina, Secundina e demais escravizados.
Outro recurso que Barroso utiliza, de forma semelhante aos relatos de As I lay dying, é a constante repetição de alguns traços definidores de cada personagem, acompanhando momentos de sua alusão. Olegária, por exemplo, é a dos olhos pisca-pisca; Chico é o de barba negra sobre gibão de couro, com rosários de ouro no pescoço; padre Cesário, o da cabeleira prematuramente cinza; Negro, o de pelo profuso como se quisesse encrespar, o branco dos olhos à mostra, dizem que parido de uma égua doida com um cachorro. Essa redundância nas imagens, além de contribuir para um ritmo marcado, criando um efeito coloquial (e ao mesmo tempo próprio da obra de arte) também reforça o papel daquela persona dentro do enredo. São personagens que apresentam alguma transformação ao longo de sua trajetória, mas nada que os modifique de maneira radical. A esposa escolhida por Chico, Siá Dina, por sua vez, é aquela da papeira “que lhe dava um ar magoado, como se tivesse sido ofendida”. Dos oito filhos do casal, somente os que lutam pela liberdade, Olegária e Zé Inácio, não herdaram essa característica, indicando que a imagem do chamado “queixo duplo” estaria ali presa mais à resignação diante da adversidade do que ao aspecto genético.
A problemática ascética da religião cristã, segundo Michel Foucault, surgiu da ligação do sexo a algo corruptível e doentio a partir dos dois primeiros séculos da era cristã, e teria intensificado essa característica no puritanismo do século XIX. A mulher, vítima principal da opressão religiosa, é culpabilizada pelo pecado cometido pelo homem. Chico das Lavras é a figura ficcional que assimila esse pensamento de maneira intensa, incluindo o controle político e social que o acompanha. Sendo “escolhido por Cristo”, ele se vale da legitimidade que isso confere à sua dominância e violência, mas é ao mesmo tempo refém da religião. Escolheu uma esposa suficientemente feia para acomodar o casamento somente à procriação, aceitando o sexo com ela por um buraco na colcha. Porém, aquilo “que não tem governo nem nunca terá” o leva a manter uma amante atraente dentro do lar, dormindo com ela todas as noites diante da família.
A inevitável e proporcional culpa cristã fez com que ele transferisse aos filhos a castidade forçada e “purificadora”. Domar, para ele, passa a ser fundamental na manutenção do privilégio material e espiritual, um reforçando o outro. Essa característica do século XIX foi amenizada em momentos históricos posteriores de predomínio do estado laico, mas nunca superada verdadeiramente, voltando com força sempre que uma crise política se apresenta. Foi o caso das nossas ditaduras do século XX e é o caso do avanço da ultradireita no presente momento, por isso a atualidade da obra. O cavalo indomado de Barroso, sua força simbólica, atravessa Negro/Olegária e, em menor medida, também Zé Inácio e a escravizada Rufina, tornando-os forças fundamentais para desarticular a barbárie e retomar a busca dos direitos humanos, incluindo a libertação do desejo.
A habilidade e a ousadia narrativa de Maria Alice Barroso souberam conduzir esse conflito através de um desenvolvimento tentacular espiralado e sugestivo. Tem razão Marcelo Moutinho, porém, quando diz que aspectos da parte final ficam prejudicadas, “quando no afã de conectar as sementes da família ao ciclo que se fecha na presença de Maria Isabel, sobrinha bisneta de Maria Olegária, a autora acelera um tom acima do ideal o ritmo da narrativa”. É como se a obra se encerrasse aproximadamente dezenove páginas antes do fim, se estendendo de forma desnecessária e deslocada do fio de tensão permanente e envolvente que havia conquistado até ali. De qualquer maneira, nesse prolongamento temos a revelação importante de que essa sobrinha bisneta é que seria a narradora em terceira pessoa do ciclo Parada de Deus. O foco de Barroso, evitando perder-se na aparente autonomia do enredo, volta a pousar nas mãos que o manipulam, lembrando uma vez mais ao leitor a fusão de invenção e memória, forma e conteúdo na obra literária.
Para saber mais
FOUCAULT, Michel (1985). História da sexualidade III: o cuidado de si. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque. Revisão técnica de J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal.
MARINHO, Cecilia S. F. (2024). A palavra da mulher e o mundo do homem: três obras de autoria feminina na primeira metade do século XX. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira) − Universidade de São Paulo, São Paulo.
MOUTINHO, Marcelo (2008). Sede indomada de liberdade, 2 jun. Disponível em: http://www.marcelomoutinho.com.br/resenhas/a-saga-do-cavalo-indomado/. Acesso em: 14 ago. 2024.
RAMSDELL, Lea. (2004). “Voices of collaboration and resistance in A saga do cavalo indomado, by Maria Alice Barroso”. BRASIL/BRAZIL: A Journal of Brazilian literature, v. 17, n. 32, p. 23-50. Brown Digital Repository. Brown University Library. Disponível em: https://doi.org/10.26300/f8dh-gg94. Acesso em: 14 ago. 2024.
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