CAMPOS, Natércia. A Casa. Fortaleza: Editora UFC, 1999.
Bianca Magela Melo
Ilustração: Léo Tavares
Tudo o que existe irá se transmutar e desaparecer a seu tempo. Certas existências, porém, como a dos humanos, são breves e inconsequentes, como se pode concluir com a leitura de A Casa, de Natércia Campos (Fortaleza, CE, 1938 – Fortaleza, CE, 2004). Antropomorfizada é a casa grande erguida no período colonial brasileiro que nos apresenta o enredo, ocupando as posições de narradora, espaço e personagem. Trindades é o nome dado à construção rodeada por um alpendre e vizinha a um açude e a uma capela. Nessa situação diferenciada, a Casa (identificada com inicial maiúscula) olha para seus moradores, membros de uma família de origem portuguesa instalada no interior do Ceará desde o período das sesmarias.
Somente para as pessoas os acontecimentos têm a tintura da primeira vez. O tempo, afirma a narradora, é uma espécie de “velho desmemoriado” que “vive em roda, a girar, a repetir-se”. Portanto, as seis gerações da família são apresentadas em uma repetição de enredos de vida com angústias e alegrias que não surpreendem a Casa. Como decorrência dessa ampla visão, para quem lê, as personagens se sucedem em velocidade na curta duração do livro, não sendo possível um vínculo detido com quase nenhuma delas.
As mulheres, em quem incide mais luz, bordam, rezam, cuidam das crianças e de assuntos domésticos. Elas encontram os homens na configuração do casamento tradicional, eixo de manutenção da estrutura. As personagens que podem ser observadas um pouco mais demoradamente são as desviantes do padrão, com toda a perturbação decorrente. Assim é o artístico Bisneto, um dos descendentes retirado da convivência da família por ser homossexual, e as que não cumprem com o esperado, como certa nora Maria, que não gerou filhos e era obcecada em pôr ordem na casa; e ainda Tia Alma, que, apesar da doçura no cuidado dos sobrinhos, era intrigada pelo fato de nunca ter se casado.
Lançado em 1999 e agraciado com o prêmio Osmundo Pontes de Literatura, A Casa é o único romance de Natércia Campos. Ela estreou com a participação em concursos de contos e depois publicou Iluminuras (1988) – de contos –, os relatos de viagem Por terra de Camões e Cervantes (1998) e Caminho das águas (2001), e ainda A noite das fogueiras (1998), histórias recolhidas relacionadas a lendas, mitos e magias.
Em A Casa, a narradora sente, ouve e vê mais do que os humanos, sendo o período da noite privilegiado para avistar o que nossos olhos não alcançam – as perversões e aquilo que as outras pessoas fazem às escondidas, mas também fantasmas, assombrações e presenças sobrenaturais. Em muitos momentos, a Casa vê o que se poderia ler como ação do destino configurada em uma presença ao lado de alguém que se despede da vida. Uma moça pálida indesejada (a morte é chamada de “a cruel Moça Caetana”) ilustra o mundo descrito por Natércia Campos, regido pelo encantamento em que presenças espirituais são percebidas e dialogam com objetos e natureza, estes também animados. Os humanos desconhecem a própria ignorância diante desses sussurros e do coro expressivo ao redor e além deles.
O encanto mencionado não é restrito ao metafísico. Estende-se ao sentir: como a chuva que serviu como batismo da Casa, animando-a em sua existência singular: “ao acender-se no céu a estrela da tarde, Vésper, a minha boa estrela, e na terra a fogueira do Precursor, o Senhor São João Batista, que fui batizada pela chuva repentina e alvissareira, molhando e avivando a cor das minhas grossas telhas-canais de barro cozido.”
A água que vai surgir novamente, no fim da narrativa, em abundância, mudando a paisagem sertaneja em que está a Casa, é um dos elementos condutores de magia no livro. Na ocasião da morte de um dos membros da família, toda a água contida nos mais diferentes recipientes da Trindades foi derramada: “Preceito dos antigos. Lei Velha, pois a alma do morto podia vir banhar-se e nelas o Anjo lavara a espada percuciente”. De seus habitantes, a Casa se apropria das superstições e apreço por rezas e rituais, ligadas ao catolicismo de herança portuguesa ou às expressões sincréticas manifestadas na cultura de seu Estado.
Nas diferentes fases acompanhadas, entre bonança, seca e fome, é o vento, interlocutor da Casa, que lhe traz notícias. A Casa louva sua construção vazada para a circulação do ar, mas, quando membros da família começam a compartimentar os cômodos em quartos de despejo e cubículos escuros, ela sente-se tomada por parasitas: “Os ventos cerceados sentiram comigo as mudanças”.
A opção pela posição da narração propicia uma reflexão pouco convencional da Casa-observadora para as escolhas humanas. Há momentos de intensidade, como quando, após presenciar um crime sexual silenciado pela jovem vítima, a Casa revela: “Pela primeira vez desejei findasse para mim ter de assistir ao viver de cada dia e noite entre os homens. Vontade que meus sentidos só abrangessem a vida acima dos meus telhados na rota das estrelas”.
Como observou Edna Polese (2015), apesar de ser testemunha das vidas e das relações entre as pessoas da família, algo determinante na narração da Casa é a consciência de não poder interferir: “Essa construção imaginária de um ser onipresente, mas consciente de seu papel como testemunha somente, é, talvez, a realização mais impressionante do romance”. A construção de uma memória fictícia que expõe situações angustiantes que vão crescendo em gravidade, como a do adoecimento psíquico e dos atos bárbaros da personagem Custódio, é favorecida pela perspectiva da testemunha inerte. Sob suas telhas, a narradora afirma, não há “proteção contra os desmandos dos homens”.
Como uma construção fixa, a Casa recebe o que lhe chega por seus sentidos ampliados, digamos, mas ela em si não tem crise ou questão individual, pois a antropomorfização não chega a esse ponto. Erguida narrativamente como uma espécie de entidade, ela aceita as circunstâncias e os ciclos ligados à sua própria duração e presença no ambiente. Decorre disso a longa extensão, no início do romance, de trechos autodescritivos de sua nobre estrutura, modos e materiais de construção que, a despeito do cuidado com a linguagem e a plasticidade, podem dificultar a entrada no texto.
Filha do escritor e professor Moreira Campos, Natércia nasceu na capital Fortaleza, mas, em depoimentos, revelou seu fascínio pelo sertão tal qual pela obra do folclorista e pesquisador Câmara Cascudo. É dele a epígrafe que abre a edição usada nesta resenha: “O Destino conduzia seus cavalos na noite…”. São nítidos o conhecimento e a reverência da autora para com a cultura popular do seu estado, o que colabora para o tom de encantamento e o lirismo, este característico da sua prosa. “A luz crua do sol, rei e pai absoluto desse sertão, torna-me febril e os cheiros tresandam a borralho. Sinto-me curtida. Precisa de chuva, como se uma árvore fosse.”
A autora reelabora relatos da cultura popular, como os relacionados aos temas da fome (tratada, como em contos populares, pela “Velha-do-Chapéu-Grande”) e da seca, duas recorrências da literatura da Região Nordeste do chamado “Romance de 30”, inclusive na obra da também cearense Rachel de Queiroz (O quinze, 1930). Por meio das alegorias mostradas, vemos a história de ocupação do sertão do Ceará, como no exemplo dos indígenas cariris apresentados como responsáveis, tempos atrás, por terem estancado, magicamente, a água de uma grande lagoa no território como vingança contra os brancos invasores que dizimaram seu povo: “Os que se salvaram, antes de serem expulsos de seus vales de intensos verdes, fecharam a grande nascente e o enfeitiçaram em Sertão”. Fizeram, assim, os descendentes de portugueses padecerem da seca.
A atualização do tema do sertão é outro ponto de diálogo de Campos com uma tradição de autores brasileiros. Delineado como nascido de um feitiço de vingança, o sertão é apresentado a partir das relações, da paisagem, da tradição oral reverenciada e da colonização que levou ao encontro de povos em situação de conflito nesse território. Percebe-se, no entanto, que, apenas de modo transversal, são citadas “amas e mucamas”, um ou outro serviçal descendente de africanos, a negra Damiana, que contava histórias, sem que se mencione explicitamente a flagrante escravidão que permeou parte da ocupação narrada da casa.
Sob certos aspectos o livro pode ser aproximado de outros escritos 70 anos antes, não só pelo interesse por mostrar costumes e práticas sociais e linguísticas de determinada região. Há uma marcação constante relacionada à posição escolhida: a da casa que nasceu imersa em vivências tanto tradicionais, em termos, por exemplo, de configuração familiar, quanto supersticiosas. Em A Casa, é comum o início de frases com as expressões “Houve um tempo em que começara a aparecer nas manhãs uma névoa”; “Lembro-me da primeira vez…”; “Presenciei durante várias gerações a chegada Dela abrindo portas”; “Certo dia, quase no sol posto, avistei uma espessa nuvem negra”.
A autora revela, ao final, o nome do primeiro ocupante português da Trindades, que tem o mesmo sobrenome dela (Campos), dando a entender que história familiar e ficção se encontram na composição da obra. Eugênia, a jovem historiadora descendente da família, que visita a casa já desocupada, sintetiza os dispersos interesses que parecem ter movido a autora na concepção da obra: historiográfico, antropológico, de reelaboração linguística e, visivelmente, também afetivo.
Para saber mais
CHAVES, Sergio Wellington Freire (2022). Cartografias do Sertão-de-dentro na obra A Casa, de Natércia Campos. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Pau dos Ferros.
POLESE, Edna da Silva (2015). As memórias da casa: personagem e narradora. In: WEINHARDT, M (Org.). Ficções contemporâneas: história e memória. Ponta Grossa: Editora UEPG, p. 187-214.
PORTO, Zuleica Maria Souza (2013). Vozes do mar e do sertão: memória e história na literatura oral cearense e na obra de Natércia Campos. Tese (Doutorado em Literatura) – Universidade de Brasília, Brasília.
SARAIVA, Vandemberg Simão Saraiva (2011). A casa, de Natércia Campos: uma epopeia do sertanejo do Ceará. Revista inventário UFBA, n. 8, p. 24-38. Disponível em https://periodicos.ufba.br/index.php/inventario/article/view/17556/11425. Acesso em: 2 ago. 2024.
SILVA, Luciana Bessa; CÂMARA, Yls Rabelo (2023). As relações familiares na obra A Casa, de Natércia Campos. LiteralMENTE, João Pessoa-PB, v. 3, n. Especial, TOMO I, p. 130-146, jul./dez., p. 130-146.
Iconografia



