LÍSIAS, Ricardo. Uma dor perfeita. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2022.
Raíssa Abreu Gomes
Ilustração: Catalina Chervin
A passagem por uma Unidade de Terapia Intensiva é o tipo de experiência traumática que ninguém quer lembrar. Ricardo Lísias (São Paulo, SP, 1975), porém, tinha razões para encarar seu adoecimento por outro ângulo. Ele sofria as consequências da Covid-19, o mal que, naquele momento, tirava a vida de quase quatro mil brasileiros a cada dia, muitos sem receber atendimento hospitalar. Ciente do privilégio de ser tratado em um hospital de elite em meio a uma crise de saúde pública, e habituado a explorar os limites da linguagem diante da morte, Lísias registrou tudo o que pôde. Essas notas forneceriam ao autor a base para compor Uma dor perfeita.
O romance – uma reelaboração literária do que o escritor viveu – acompanha as duas semanas em que ele esteve internado na UTI Covid-19 de um hospital privado de São Paulo, em março de 2021, no momento mais crítico da pandemia de coronavírus no Brasil, quando apenas profissionais de saúde e parte dos idosos e imunossuprimidos haviam recebido a primeira dose da vacina. O escritor sofreu um colapso pulmonar e esteve a ponto de ser intubado. À medida que se recuperava, ouviu do editor e amigo a sugestão de reorganizar em um livro a memória daqueles dias.
O enfrentamento de questões existenciais em situações extremas não é uma novidade na obra de Lísias, cuja produção literária é marcada pela mistura de gêneros e pela abolição das fronteiras entre ficção e realidade. O escritor surgiu na cena literária no início dos anos 2000 e rapidamente chamou a atenção de críticos conceituados, como Leyla Perrone-Moisés, que, em 2007, afirmou que Lísias era “um dos melhores escritores brasileiros revelados nos últimos anos”. Seu romance O céu dos suicidas (Alfaguara, 2012), por exemplo, considerado o melhor do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), explora a angústia de um jovem narrador, inspirado nas experiências do autor, diante da decisão de um amigo de tirar a própria vida. Já Divórcio (Alfaguara, 2013) reconstrói ficcionalmente o processo de separação vivido pelo escritor. Ou seja, a loucura, a violência, a solidão e a complexidade das relações humanas – assim como a própria literatura – são temas que fazem com que sua obra se destaque no cenário nacional ao representar as questões da contemporaneidade. Lísias foi finalista dos prêmios Jabuti, com Anna O. e outras novelas (Globo, 2007), e São Paulo de Literatura, com O livro dos mandarins (Alfaguara, 2009). Ele também esteve entre os vinte escritores selecionados, em 2012, pela revista literária inglesa Granta para a coletânea Melhores jovens escritores brasileiros, com o conto “Tólia”.
Para estruturar Uma dor perfeita, o escritor Ricardo Lísias precisou voltar ao leito do doente Ricardo e forçar seus limites para transformá-lo em narrador. É com base no jogo, ou na negociação, entre essas duas vozes metaliterárias – escritor e narrador – que o enxadrista Lísias faz emergir sua autoficção. Porém, a partida precisa ser interrompida várias vezes pelo narrador – ora pela falta de ar, ora por desmaios ou alucinações. Todos esses movimentos são incorporados ao relato, contribuindo para mergulhar o leitor na atmosfera de pesadelo da UTI Covid-19, marcada pela escassez de luz natural, pelo bipe constante dos aparelhos de monitoramento, pela tosse e pelos gemidos dos pacientes.
A forma do texto acompanha o estado de saúde do doente, indo da prosa introspectiva, nos momentos de relativa sanidade, à desestruturação do verso experimental, nos momentos de febre e dor. Os músculos das pernas de Ricardo foram, em suas palavras, “carcomidos pelo vírus”, provocando uma dor perfeita. O título do livro vem da expressão “tempestade perfeita”, que significa o “pior cenário possível”. Uma dor indescritível, que, de acordo com ele, “não tinha a menor ligação com a linguagem. Nenhum relato dará conta de tanta exatidão”. Mas, se a linguagem consciente do narrador não podia expressar essa dor, que era pura essência, seu inconsciente parece ter encontrado um caminho para contê-la. Nos delírios, ele imaginava uma película fina e transparente envolvendo suas pernas, que permaneciam imóveis e separadas do corpo. Podiam até, quem sabe, ser entregues a outra pessoa.
Superados os piores sintomas, o relato se volta para o exterior. Consciente, Ricardo observava e anotava todos os movimentos da UTI, tal como o profissional de saúde acompanhando a evolução do paciente: as rápidas e muito aguardadas visitas dos médicos, os movimentos ágeis e as lágrimas disfarçadas das enfermeiras, as conversas ao telefone de seus colegas de internação. O narrador conta que os trabalhadores e trabalhadoras daquela UTI não gostavam de acompanhar os pacientes que seguiam para a intubação. “Como não pode receber visitas e não tem mais ninguém por perto, muitos pedem para nos abraçar. É foda”, explica um enfermeiro, apelidado de “meu ministro da saúde”. Como o personagem de Lísias, os profissionais de saúde foram os que mais sentiram os impactos da pandemia de Covid-19. Além de conviverem com o medo diário da contaminação, com a perda de colegas e com o desgaste físico e emocional, no Brasil, eles ainda tiveram que enfrentar a falta das condições mais básicas de trabalho, pois faltavam equipamentos de proteção individual nos hospitais públicos.
Ao se lembrar de suas próprias chamadas telefônicas com a família, o narrador fala do medo e da vergonha que sentia ao encarar os “olhos de pedra” da esposa, uma vergonha que perpassa todo o relato – por ter se deixado contaminar, pelo tratamento de elite que recebia, pela fragilidade do corpo exposto. “Alguma coisa errada eu fiz”, ele diz a si mesmo. O rosto do filho, por sua vez, lhe aparecia borrado na tela do celular, sem contornos definidos, como se desaparecesse de seu horizonte de possibilidades. Uma imagem que evoca outra ausência, a de seu próprio pai, desaparecido depois de um jogo de futebol e visto pela última vez entre o abrir e fechar das portas de um metrô.
Vale destacar ainda no romance de Lísias a ênfase dada pelo narrador à hipocrisia de transformar uma catástrofe em objeto de literatura. Esse desconforto se projeta na figura de um rato, personagem-metáfora que devora as entranhas do doente até quase o final do livro. “De você, rato, só me livro quando enxergar, de longe, meu sangue invadindo os rins”, diz Ricardo. Mais uma vez, o autor faz uso da metaliteratura para enfatizar o caráter de artificialidade do texto literário em relação à realidade, o que fica claro quando o rato é finalmente convidado a se retirar. “Não, rato pretensioso, aqui é um livro. Lá fora é que estão os mortos. Chegou a hora de deixar bem claro: o pacto com o diabo é uma criação, portanto, a desfaço”.
Curioso notar que a imagem do rato foi bastante utilizada durante a pandemia para fazer referência ao então presidente da República, Jair Bolsonaro, mais especificamente à sua omissão na gestão da crise. Além de promover a desinformação, incentivando o uso de medicamentos sem eficácia comprovada e desestimulando o uso de máscaras de prevenção, o governo do ex-presidente foi acusado de atrasar deliberadamente a compra das vacinas e de se beneficiar financeiramente da aquisição delas. Ricardo Lísias analisou o período Bolsonaro nos romances-ensaio Diário da catástrofe brasileira – Ano 1 (Record, 2020) e Ano 2 (Record, 2021).
Muitos autores e autoras escreveram sobre a pandemia de Covid-19, que causou a morte de pelo menos 5,5 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com números oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS) – quase 700 mil no Brasil. Foi um período de isolamento, solidão e incertezas quanto ao futuro, propício também ao surgimento de algumas distopias, como foi o caso de O riso dos ratos, de Joca Reiners Terron (Todavia, 2021), e O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 2021). A seu modo, todas essas obras refletem a necessidade de seus autores e autoras de reagirem ao que de fato parecia ser o fim de um mundo.
Uma dor perfeita testemunha o horror e a desesperança daqueles dias com uma crueza impressionante. Ao tentar reelaborar, pela escrita, a experiência da doença, Lísias demonstra que, com todas as limitações da arte diante da tragédia – e com todos os pactos com o diabo disponíveis aos ratos da vez –, um livro segue sendo o que o escritor pode fazer de mais ético: uma memória imperfeita da dor perfeita. Um livro que envolve e contém essa dor, tal qual uma película, para que ela possa ser partilhada, para que não seja esquecida.
Para saber mais
PERRONE-MOISÉS, Leyla (2007). Posfácio. In: LÍSIAS, Ricardo. Ana O. e outras novelas. São Paulo: Globo. p. 195-205.
RUIVO, Julia Barbedo (2022). Diante da fratura do real: o realismo e o contemporâneo em Ricardo Lísias. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana. Disponível em: https://repositorio.ufop.br/server/api/core/bitstreams/f3827a73-d45b-4fae-abd8-b966a3fb7dae/content. Acesso em: 26 maio 2024.
SCAMPARINI, Júlia (2013). Presença do autor: autoficções de Ricardo Lísias e de Lúcia Murat. Itinerários – Revista de Literatura. Araraquara, n. 36, p. 277-286. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/itinerarios/article/view/5694/4723. Acesso em: 26 maio 2024.
SUT, Felipe Garzon (2022). Palavra que agride, palavra que convoca: Ricardo Lísias e o nome próprio entre desastre e acontecimento. Dissertação (Mestrado em Estudos de Literatura) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/18472. Acesso em: 26 maio 2024.
Iconografia




