Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Malditas fronteiras

MELO, João Batista. Malditas fronteiras. São Paulo: Benvirá, 2014.

Juliane Vargas Welter
Ilustração: Dona Dora

“A rua ocupa todas as minhas lembranças”, diz Valentino na primeira frase de Malditas fronteiras (2014), romance premiado de João Batista Melo (Belo Horizonte, MG, 1960). Assim, pelo apontamento a um passado que atravessa toda a narrativa e remete à infância e à História, o leitor é iniciado nos dramas que preenchem o romance: dramas de ordem individual (as relações familiares), mas também coletiva (a Segunda Guerra Mundial). Aqui se destaca a sensibilidade de narrar a guerra a partir de uma perspectiva aparentemente menor, isto é, o Brasil e as relações travadas em solo nacional entre brasileiros e imigrantes alemães. Ou seja, trata-se de olhar para o alcance das consequências dessa tragédia. Se isso já é algo bastante explorado, como as vítimas mais evidentes do conflito (o povo judeu, de maneira geral), Melo explora a barbárie a partir de vítimas indiretas, como as famílias de imigrantes alemães, situação em que se cruzam não judeus, fazendo ver o alcance da perseguição nazista, e mesmo migrantes que já estavam no Brasil antes da guerra. A ampliação do escopo da violência é uma força da narrativa.

Ainda que o primeiro capítulo comece com um narrador em primeira pessoa, a sequência narrativa se dá inteiramente em terceira pessoa, com um narrador onisciente que faz uso do discurso indireto livre e domina a trama. Quando conta o passado, ele já sabe o futuro. Essa estratégia lhe confere um ar de narrador tradicional e totalizante, conferindo veracidade ao fabular sobre o passado, o que é intensificado pelas inúmeras reflexões feitas ao longo do texto. A voz em primeira pessoa só será retomada ao final, com o fechamento de um arco de lembrança tomado como dado cronológico (“1935 ou 1940”, dirá o narrador).

Embora o arco temporal seja extenso (da guerra ao século XXI), a narrativa pormenorizada se dá especialmente no início da guerra e na entrada do Brasil no conflito bélico. Se a voz em terceira pessoa domina a matéria narrada, a primeira pessoa será marcada pela reconstrução da memória da infância e da juventude. Embora mantenha certa compostura de sentido de verdade ao que narra, trata-se de uma construção presentificada na velhice de lembranças de um tempo atravessado por certa ingenuidade do final da infância, pela violência e pelo cerceamento; pelas fronteiras, dadas pelos Estados nacionais e pela guerra, mas também pela família.

O enredo tem como eixo central as relações entre Valentino — um brasileiro, filho de Osório, um antigermanista, e Marilda, uma figura apagada, que vive sob os ordenamentos do marido; e a família de imigrantes alemães. Esta é composta por Konrad, mestre cervejeiro e dono da cervejaria, apresentado como alguém sábio devido às muitas experiências de vida; Hermann, seu genro, que acaba preso durante o período de perseguição intensificada no Brasil; e Sophie, sua filha, órfã de mãe, cega de nascença, construída como uma personagem esperta e destemida.

À família de imigrantes se somam Érika, uma jovem escritora de esquerda que foge do regime nazista após a perseguição política e o assassinato do marido. Ela vem a se casar com Hermann e traz consigo o bebê Hans. Outros personagens importantes incluem Ferdinand, irmão de Hermann, ligado ao partido nazista; Bernardo, vizinho de Valentino e piloto de avião; e padre Wolfgang, um imigrante alemão muito próximo de Konrad, com quem trava intensas discussões políticas.

Mesmo que o número de personagens seja significativo, o foco da narrativa reside, sobretudo, nas relações de amizade entre as crianças, acompanhadas de perto pelo avô Konrad.

O romance é estruturado em três partes: um prefácio, no qual Valentino prepara o leitor para a história que será contada, apontando o retorno a um passado marcado pela infância; e mais duas partes principais: “A construção dos muros”, que narra esse passado, e “O Mestre Cervejeiro”, que avança para o tempo presente, quando Valentino, já idoso, assume a narração em primeira pessoa.

Embora a narrativa apresente fluidez e domínio da temporalidade, um ponto fraco a ser destacado está justamente nos saltos temporais explicativos, que, por vezes, conferem ao texto um tom excessivamente didático.

A narrativa explora a tensão no Brasil entre os migrantes, que acompanham o que se passa na Alemanha, confusos com as notícias e com que posição tomar, ao mesmo tempo em que se acompanha o sentimento antigermânico no país. A princípio, esse sentimento se dá de maneira desorganizada, alimentado por preconceitos, mas, a partir de certo momento, ele será institucionalizado pelas políticas de Estado com a entrada do Brasil na guerra. O antigermanismo passará a ser a tônica da violência que mudará a vida de Valentino e Sophie para sempre.

No macrocosmo, vê-se a proibição do uso da língua alemã e a crescente violência contra os imigrantes nas mais diversas cidades do país, inclusive nas zonas de forte colonização, como Blumenau. No microcosmo, a proibição da amizade entre as crianças. Tanto no campo amplo, da sociedade como um todo, quanto no micro, naquela vizinhança de Belo Horizonte, o leitor vai acompanhar o crescimento de uma violência desmedida. O ápice se dará na destruição de parte da cervejaria de Konrad e Hermann por jovens que os querem fora do país. A cena, embora verossímil e que pareça tentar fugir de maniqueísmos ao colocar no centro jovens antinazistas agindo como fascistas, acaba por resvalar nesses mesmos maniqueísmos.

Além disso, ao livro são acrescentados certos personagens que não ganham grande relevância, como Breno, um jovem advogado que se casa com uma empregada doméstica e ocupa uma posição meio denuncista daquela sociedade altamente conservadora, mas que não se destaca na trama, desaparecendo da narrativa a partir de determinado momento. Mesmo Bernardo, o pracinha, aparece apenas como um acessório da materialidade da participação do Brasil na guerra.

Cabe salientar também uma série de coincidências, como os quadros de Paul Klee encontrados na casa de Konrad, trazidos por Ferdinand e reconhecidos por Erika. Embora seja verossímil o desaparecimento dos quadros e sua interceptação pelos nazistas, visando lucros futuros (ainda que acusando os artistas de uma arte degenerada), o seu aparecimento em Belo Horizonte, nas mãos de uma intelectual conhecedora de arte, parece exagerado, com uma peripécia fora do lugar e do tempo.

Ainda como uma questão problemática do texto — não apenas deste, mas de muitos que se prestam à descrição de corpos femininos — está a objetificação das personagens e o atrelamento de suas qualidades a seus atributos físicos. Sabe-se como é o corpo de Erika, “com seios pequenos e firmes”, e como são os cabelos de Sophie, “dourados como se um copo de cerveja se cristalizasse em fios”. Embora se apresentem as perspectivas de Erika e Sophie no romance, permitindo o acesso ao que elas pensam e sentem, o narrador, ao descrevê-las — especialmente com a voz em terceira pessoa — limita as personagens a seus atributos físicos.

Contudo, é preciso salientar que o romance traz à tona uma representação pouco comum na literatura, ao olhar para a população migrante e para a abrangência das mazelas da guerra. A exploração do universo da cerveja, a partir da população de origem alemã, confere uma espécie de homenagem a uma tradição e a uma cultura secular, o que é um ponto positivo, aproximando o leitor daquele universo e, por consequência, de alguns personagens. Soma-se a isso, como ponto alto, a agilidade que o texto adquire na primeira pessoa, a partir da voz de Valentino, que aproxima o leitor do drama pessoal do personagem-narrador.

Para saber mais
JOÃO Batista Melo fala sobre seu livro “Malditas fronteiras”. Projeto de incentivo à leitura Sempre um papo, com a mediação da jornalista Jozane Faleiro. Governo de Minas Gerais em parceria com a Gerdau. 1 vídeo (56min27s). YouTube, 4 de janeiro de 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zxC4K48UnB4. Acesso em: 19 jun. 2024.

MELO, João Batista. Malditas Fronteiras: romance. Disponível em: https://www.joaobatistamelo.com/livro-malditas-fronteiras. Acesso em: 19 jun. 2024.

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Como citar:

WELTER, Juliane Vargas.
Malditas fronteiras.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

05 fev. 2025.

Disponível em:

3431.

Acessado em:

06 mar. 2026.