Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Silêncio na cidade

SEABRA, Roberto. Silêncio na cidade. Brasília: Camará, 2016.

Elisangela Fialho
Ilustração: Espírito Objeto

Silêncio na cidade, primeiro romance do jornalista Roberto Seabra (Brasília, DF, 1964), lançado em 2016, envolve o leitor principalmente por apresentar um enredo marcado por ações cronológicas em torno de um crime: o assassinato de Ana Clara, uma menina de sete anos. O centro da narrativa pode parecer familiar ao leitor, e a razão é que essa história foi inspirada no assassinato brutal de Ana Lídia Braga, estudante de sete anos, ocorrido em 11 de setembro de 1973, na capital federal. Os sujeitos apontados no inquérito policial como culpados foram inocentados por falta de provas.

Seabra teve sua infância marcada por esses eventos e, como morador de Brasília, compreende que o crime foi responsável por “tirar a ingenuidade” da recente capital do país. O autor, todavia, ressalta que a cidade não era tão “inocente”, já que ocupante do centro da ditadura militar, como fica claro quando, a partir da morte da personagem ficcional, sintetiza a transformação da visão sobre Brasília: “Ana Clara precisou ser sacrificada para que Brasília se tornasse uma cidade de verdade, uma cidade real”. A visão idílica sobre a capital federal – espaço de nascimento de um novo país, terra das oportunidades – é abalada pelo crime (tanto na realidade quanto na narrativa), promovendo, no cenário local, segundo o narrador-personagem, “uma mistura de medo e prazer, uma coisa mórbida, que até hoje me assusta”.

Também os fatos trágicos que envolveram o fim da vida de Ana Lídia marcaram especialmente a infância de Seabra porque o pai, investigador de polícia à época, trazia suas impressões sobre o caso para o ambiente familiar. Assim, quarenta anos depois, o jornalista viu-se impelido a contar essa história, silenciada por muitas razões, e optou por fazê-lo num romance, mesclando, portanto, realidade e criação ficcional.

O livro é composto por 38 capítulos, cujas ações são predominantemente cronológicas, permitindo ao leitor “atuar” junto à equipe investigativa, a sofrer, com e como eles, a angústia de uma morte precoce e brutal, reveladora do que há de pior no homem. Conta, ainda, com uma apresentação feita pela escritora Rosângela Vieira Rocha, que conviveu com a vítima e sua família.

A história é narrada por Amantino Torres, investigador da Polícia Civil, que assume a missão de desvendar a morte de Ana Clara e, para isso, conta com outros três parceiros: uma perita criminal, Vera Hermano; o motorista e policial, Eduíno; e o jornalista Geraldo Raimundo – o Giramundo. Aos 25 anos e há somente dois na Polícia, Tino Torres é o primeiro a ter ciência do sequestro de Ana Clara, quando os pais da menina chegam à delegacia para relatar que ela havia sido levada, da escola em que estudava, por um desconhecido. O protagonista, então, dá início à busca que irá marcar sua vida pessoal e profissional: a da verdade sobre os fatos.

O grupo – uma clara referência aos personagens do clássico D’Artagnan e os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas – realiza uma investigação extraoficial, depois que a Delegacia de Homicídios “cria” uma versão do crime com o intuito de acobertar os verdadeiros assassinos. As estratégias traçadas pelo grupo para buscar provas e revelar a verdade sobre a morte da menina são, então, acompanhadas pelo leitor da trama.

Estruturado nos moldes do romance policial, Silêncio na cidade (re)constrói o cenário político marcado pela ditadura militar no centro do país. Nesse sentido, o alto escalão da polícia e da política manipula as provas, os fatos, com a intenção de que os verdadeiros culpados não sejam revelados, visando principalmente à manutenção do status quo, do poder instituído pelo golpe. Em virtude disso, a luta por justiça amplia-se, levando os personagens a enfrentarem o próprio Estado e suas formas de coação (e execução), para revelarem, jornalisticamente, a verdade.

Os silêncios que marcam a cidade da narrativa são diversos: o imposto à mídia, proibida de noticiar a investigação; o presente na indicação de um agente público para vigiar Tino Torres; o sugerido aos policiais nas ameaças que recebem por telefone. O silêncio, entretanto, não marca somente o tempo do enunciado – no qual a história se passa –, pois caracteriza também o tempo da enunciação. Dois fatos promovem uma mudança em Amantino Torres, já aposentado e sexagenário: a leitura de uma matéria jornalística cujo título é “Caso Ana Clara: 40 anos de mistério”, e o acenar da finitude da vida. Diante disso, ele passa a se ver de outro modo e a contemplar por outro prisma o seu passado. Então, decide transformar as anotações e os documentos sobre o caso Ana Clara em um manuscrito, sobre o qual, algumas vezes ao longo do romance, reflete e também faz provocações: “Talvez o leitor esteja querendo abandonar este manuscrito por não ver nele algo além de um mero diário de um policial aposentado. E na verdade, é isso mesmo que estou escrevendo”.

A metalinguagem marca as páginas do volume, até porque o autor implícito é também um leitor: “depois de décadas de tentativas frustradas de seguir os passos de Rubem Fonseca ou de um Conan Doyle, eu me assumi um reles servidor público […]”. Neste viés, a vida e a arte mais uma vez se encontram, pois Seabra, em entrevista concedida a Maurício Melo Júnior à TV Senado, comenta que realizou algumas tentativas de escrever um livro-reportagem sobre a morte de Ana Lídia Braga, mas muitos foram os empecilhos, não superados nem mesmo quando os arquivos da ditadura militar se tornaram públicos. Como afirma o autor, O silêncio da cidade ilustra os múltiplos papéis que a literatura pode exercer: entreter, promover reflexão, mas também denunciar. Nesse sentido, cumpre ressaltar que a nova versão do romance, publicada pela Saíra Editorial e lançada no início de 2023, é voltada para o público infantojuvenil, ampliando, acredita-se, o leque das possibilidades literárias do livro: auxiliar a formação/construção do jovem leitor.

Já o papel político desempenhado pela ficção, que dialoga com a História, encontra-se sinalizado desde a epígrafe, por meio de uma marca memorialística que percorre toda a narrativa: “Se você não sabe para onde vai, regresse ao passado para saber de onde vem (Eric Nepomuceno, autor de A memória de todos nós)”. Essa função social da literatura também se faz presente nas palavras do narrador-personagem: “Portanto, esse meu escrito nada mais é do que uma homenagem que presto à posteridade daquela menina”.

Sem dúvida, a posteridade de Ana Lídia (a da personagem Ana Clara), dentre tantas outras Anas, Marias e Isabelas, e também dentre tantos Bernardos e Henrys – crianças vítimas de violência física, sexual, no Brasil de ontem e de hoje – enxergará nesse romance a importância da sua própria voz, a qual, ante os silêncios impostos, se torna instrumento capaz de fazer ecoar outras vozes precocemente silenciadas.

Para saber mais

LEITURAS. Roberto Seabra fala do livro Silêncio na cidade. Programa de entrevista Leituras. TV Senado, 2018, 1 vídeo (26 min44s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ywm7Toss_Ps. Acesso em: 18 mai. 2023.

STAUD, Sheila Katiane (2021). Escrita como reexistência: resgates memorialísticos em Silêncio na cidade, de Roberto Seabra. EntreLetras, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 178-196. Disponível em: https://periodicos.ufnt.edu.br/index.php/entreletras/article/view/12749. Acesso em: 18 mai. 2023.

Iconografia

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Como citar:

FIALHO, Elisangela.
Silêncio na cidade.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

13 mar. 2025.

Disponível em:

3297.

Acessado em:

06 mar. 2026.