Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Os tambores de São Luís

Gilvan Santos Gonçalves
Ilustração: Théo Crisóstomo

“Até ali os tambores da casa-grande das minas tinham seguido seus passos, e ele via ainda os três tamboreiros, no canto esquerdo da varanda, rufando forte os seus instrumentos rituais, com o acompanhamento dos ogãs e das cabaças, enquanto a nochê Andreza Maria deixava cair o xale para os antebraços, recebendo Toi-Zamadone, o dono do lugar”. Assim se abre Os tambores de São Luís (1975), de Josué Montello (São Luís, MA, 1917 – São Luís, MA, 2006), um romance histórico que convida a uma imersão geográfica pelo centro histórico da antiga São Luís, ainda nos tempos da abolição da escravatura.

Nessa narrativa épica, o romancista tece uma trama que se desenrola entre os tambores afro-brasileiros, as festas populares, as tradições religiosas e a vida cotidiana da cidade de São Luís. Através de personagens complexos e bem desenvolvidos, o autor aborda questões como a herança cultural, as relações sociais e as transformações urbanas, oferecendo uma visão multifacetada da sociedade maranhense.

O romance, de 654 páginas, está dividido em 68 capítulos, com um enredo que margeia o drama individual de Damião, um escravo liberto que participa do processo de emancipação e libertação de um grupo étnico, em um momento histórico em que a escravidão negra transita da fase exploratória dos engenhos para uma vida caótica e sem perspectiva nos centros urbanos. É nesse contexto que Montello utiliza a vida de seu protagonista para explorar as transformações sociais e históricas do Maranhão colonial, desde o final do século XIX até as primeiras décadas do século XX.

O título da obra, Os tambores de São Luís, faz referência aos ritmos africanos que, até hoje, ecoam na cultura maranhense, simbolizando as raízes profundas que a escravidão e suas consequências deixaram na Ilha de São Luís. Assim, pode-se afirmar que os tambores, nesse contexto, são bem mais do que instrumentos musicais; são símbolos de resistência, memórias e identidade cultural de um lugar. São alegorias que ressoam não apenas nas festas e celebrações, mas também nos momentos de luta e afirmação do povo negro, que foi esquecido e marginalizado após a sofrida abolição da escravatura.

Narrada em terceira pessoa, a prosa montelliana é ao mesmo tempo lírica e introspectiva, pois o romancista utiliza uma linguagem que, embora rica e complexa, é acessível, permitindo aos leitores um mergulho completo em cada linha atmosférica da história narrada, onde tudo se passava no mundo social em que a escravidão pertencia à ordem natural das coisas. Por meio dessas relações, o escritor discute temas universais como amor, ambição, fracasso e redenção, no tempo cronológico de uma noite no ano de 1915, em sua ligeira passagem para o dia seguinte (das 22h às 9h), percorrendo o tempo histórico de 1838 até 1915. Todavia, o arco narrativo criado por Montello percorre uma história de três séculos de lutas e insurreições.

“Eu ainda não conheço a cidade”. É o que diz Damião para o padre, numa inquietude para seu corpo se movimentar por São Luís. Ao relembrar o caminho percorrido até ali, quando, aos oitenta anos, se prepara para receber mais uma criança, esse ancião apresenta o retrato da sociedade maranhense do século XIX: escravocrata, segregacionista e elitista. Desde sua infância na fazenda Boa Vista, no interior do Maranhão, a passagem pelo quilombo, a chegada ao seminário na capital, até sua maturidade atual, ele mantém o contato com a realidade dos escravizados. Ou seja, a miserável situação de homens, mulheres e crianças de todas as idades submetidos a outros homens no senhorio do cativeiro degradante.

Indo para São Luís depois de ser alforriado, Damião deslumbra-se com a paisagem que encontra pela frente, uma paisagem que jamais esquecerá, pois, além de ter o significado do encontro com o desconhecido, ela traz a presença do componente da liberdade, já que agora não é mais cativo (Tavares Júnior, 2018).

A partir da saga desse personagem, os leitores passam a ter contato com a rica e ancestral cultura africana dos vodus, que dançam ao som dos tambores pelos vastos terreiros da cidade. Em seu caminho, Damião descreve minuciosamente a cartografia de São Luís, com suas praças, ruas estreitas, sobrados, portos, sua fauna e flora exuberantes. Em meio a personagens fictícios, surgem figuras importantes da época: Donana Jansen e Dona Ana Rosa Viana Ribeiro (Baronesa de Grajaú), ambas cruéis senhoras de escravos; os poetas Gonçalves Dias e Sousândrade, e diversos políticos dessa época do Brasil Imperial.

Através dos olhos do octogenário Damião, são apresentados alguns dos principais acontecimentos políticos daquele momento histórico: a promulgação da Lei do Ventre Livre, da Lei Feijó e da Lei dos Sexagenários. Também é destacada a promulgação da lei que aboliu a escravidão e o caos que esse feito trouxe, ao jogar homens e mulheres definitivamente na rua. Agora livres, mas sem direito a terra, moradia ou alimento, e sem amparo nenhum, ficaram perambulando pelas ruas de São Luís, gerando uma enorme crise social.

Com grande conhecimento histórico e cultural sobre o Brasil colônia, Montello cria um romance rico em descrições detalhadas que capturam a essência da vida urbana e rural de São Luís, desde as festas vivenciadas em seus vários espaços de luta e resistência até os recantos mais esquecidos da cidade. É assim que o escritor descreve com maestria o ambiente local, trazendo à tona o colorido dos costumes, as crenças religiosas e as expressões culturais que definem a identidade e o sincretismo do maranhense e, por que não dizer, de todo o Brasil.

Ao longo de toda a narrativa, tem-se, portanto, a saga de um homem que, nascido na senzala de uma fazenda nas entranhas do Maranhão, conheceu as privações da escravatura, padecendo no tronco e na cafua (habitação precária). Ele experimentou a fuga e a resistência nos quilombos (lugar de refúgio). Uma vez capturado, viu o pai preferir ser estraçalhado pelas piranhas, misturando seu sangue às águas de um rio a retornar ao jugo do chicote de seu “senhor”. A dolorosa saga de Damião é uma espécie de martírio que o acomete diante da situação em que se encontravam os negros no Maranhão: homens sem valor e sem o devido reconhecimento como seres humanos.

Nesse sentido, considerando seu valor literário, o romance histórico de Montello é uma obra bastante significativa da literatura brasileira, ao retratar o protagonismo da vida e das tradições da cidade, explorando temas como a cultura afro-brasileira, a religiosidade popular e as relações sociais. Assim, ao longo de cada capítulo, o autor explora os costumes, as crenças e as tradições do povo ludovicense, destacando a influência da herança africana na formação da identidade local. Além disso, a trama é habilmente entrelaçada com personagens cativantes e acontecimentos marcantes, pois permite compreender a riqueza e a complexidade do universo sincrético que ainda hoje impera em todos os terreiros do Maranhão.

Fundem-se realidade e imaginação quando o autor relembra o processo do famoso crime da baronesa de Grajaú, caso real, acontecido ainda no Império, cujo documento lhe foi oferecido pelo Senador José Sarney (Paula, 2015). Nessa perspectiva, o romancista cria uma gama de personagens ricos e multifacetados que contribuem para a complexidade e a profundidade da narrativa. Dentre eles, destacam-se figuras como Donana, uma mulher forte e determinada que representa a força da cultura popular; o misterioso Pai Francisco, líder espiritual que exerce grande influência sobre a comunidade; o jovem Nhozinho, cuja jornada de autodescoberta reflete as transformações da sociedade local; e muitos outros personagens que, juntos, compõem um retrato vívido da vida citadina no período colonial. Contudo, apesar de fictício, o romance evidencia muitos temas verídicos, como o julgamento de Dona Ana Rosa Viana Ribeiro pelo assassinato do escravo Inocêncio, de apenas oito anos de idade; as consequências da Lei Áurea e o nascimento da República.

Por fim, observa-se que o romance montelliano é uma narrativa romanesca que se destaca pela sua capacidade de mergulhar nas tradições e na cultura da cidade de São Luís, oferecendo uma visão abrangente da cidade histórica. Mediante um enredo cuidadosamente construído, o autor conduz os leitores por entre os becos e vielas da cidade, apresentando personagens que refletem a diversidade e a riqueza cultural do Maranhão. Além disso, o romance aborda questões sociais e históricas, oferecendo ao leitor uma compreensão mais profunda da complexidade da realidade local. Outrossim, o romance de Josué Montello é considerado uma das mais importantes obras da literatura maranhense e brasileira. É apreciado tanto por sua qualidade literária quanto por sua capacidade de retratar com fidelidade a essência da cidade de São Luís, sempre atento às dinâmicas sociais, culturais e históricas de forma autêntica.

Para saber mais

TAVARES JÚNIOR, Mozart de Sá (2018). O olhar de Damião: uma leitura da paisagem na obra Os Tambores de São LuísInterEspaço: Revista de Geografia e Interdisciplinaridade, v. 4, n. 13, p. 93-106. Disponível em https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/interespaco/article/view/8332. Acesso em: 10 mai. 2024.

PAULA, Ceres Teixeira de (2015). Dor negra: ficção e história em Os tambores de São LuísVidya, v. 19, n. 33, p. 83-99. Disponível em: https://periodicos.ufn.edu.br/index.php/VIDYA/article/view/538. Acesso em: 10 mai. 2024.

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Como citar:

GONÇALVES, Gilvan Santos.
Os tambores de São Luís.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

10 mar. 2025.

Disponível em:

3290.

Acessado em:

06 mar. 2026.