Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Os novos

VILELA, Luiz. Os novos. Belo Horizonte: Gernasa, 1971.

Amanda Lacerda de Lacerda
Ilustração: @popi.oli

Em carta destinada à Sérgio Sant’Anna, o escritor Luiz Vilela (Ituiutaba, MG, 1942) comenta: “Tenho pensado muito sobre a nossa geração, particularmente sobre a nossa turma, os que escrevem; quê que é ela, quê que ela traz, quê que ela está fazendo, quê que ela pretende, onde ela quer chegar, tudo isso. Aliás, meu romance é sobre isso”. Um grupo de jovens professores universitários convive na cidade de Belo Horizonte nos primeiros anos após a instauração da ditadura civil-militar (1964-1985). Esse é o primeiro plano do romance Os novos, de 1971. O que está em foco é o cotidiano dessas figuras que se perguntam, de modo retórico: como a literatura pode transformar a realidade? O comentário de Vilela sugere que os anseios de uma geração que vive um momento de ruptura política marcam sua vida e obra.

Formado em Filosofia, em Belo Horizonte, Luiz Vilela estreou na literatura em 1967 com o livro de contos Tremor de terra (1967). Consagrou-se como contista e, com a coletânea O fim de tudo (1973), venceu o Prêmio Jabuti de 1974. Viveu em Belo Horizonte, São Paulo, Espanha e nos Estados Unidos, retornando a sua cidade natal nos anos 1970, onde vive até os dias de hoje. Publicou cerca de 30 obras, entre coletâneas de contos, novelas e romances, e com traduções para diversas línguas. Os novos é seu primeiro romance e foi escrito entre os anos de 1966 e 1968, majoritariamente enquanto Vilela esteve no International Writing Program, em Iowa, nos Estados Unidos, período em que se dedicou vertiginosamente à escrita. A primeira edição foi publicada pela editora independente Gernasa, em 1971, e relançado pela Editora Record no ano de 2023. Mesmo tematizando a ditadura e publicado após o AI-5, o autor relata, em entrevista ao jornal Estado de Minas, que o livro não sofreu impactos da censura, mas acredita que um receio nesse sentido tenha sido um fator importante na recusa de publicação pelas editoras de maior projeção (Sabiá e Civilização Brasileira).

O narrador de Os novos está diluído ao longo da narrativa, que orbita em torno de uma tríade. Zé é um homem desiludido, trabalha num banco em nome da estabilidade financeira e do compromisso de cuidados com a mãe, mas está sempre infeliz com essa condição. Buscará uma saída para o isolamento alienante do banco ao tentar um emprego na imprensa, mesmo que também considere um trabalho inferior se comparado à literatura. Assume que sua capacidade criativa será minada pelos anos de vida burocrática e doméstica. Vitor é um poeta fracassado, sempre convidando todos para beber chope. É casado, tem filhos e transita entre a vida pequeno-burguesa de pai de família e a boemia característica daquele que quer ser um grande poeta. Envia seu livro de poemas para uma editora, mas ele é recusado sob a justificativa de que é pouco vendável e essa deliberação faz instalar nele uma frustração profunda. Especialmente nesse personagem, o uso da autoironia se mostra como uma resposta à inação do grupo ao período de ruptura em que vivem. Não são revolucionários, nem são escritores, e a força que atribuem à literatura acaba se esvaziando. Nei, por fim, é uma figura discreta e central para a história. É um jovem introspectivo que está sempre adiando a escrita de um romance. Tem um relacionamento com Vera, que acaba se rompendo em razão de interesses distintos. Os pais são idosos e vivem no interior, na cidade natal do jovem. Sua voz em primeira pessoa aparecerá eventualmente no romance, sugerindo que a articulação dos vários discursos passam pela sua vontade de contar uma história, de escrever literatura.

Outros personagens circundam o trio e compõem a mesa e a roda em diversos ambientes: Ricardo, Leopoldo, Ronaldo, Telmo, Dalva, Martinha. Milton e Queiroz são mais velhos, de uma geração anterior ao núcleo previamente descrito, e chegam a interpelar “os novos” a assumirem uma espécie de vanguarda do momento em que vivem. A crítica é pela passividade com que desperdiçam o tempo em boemia e em discurso revolucionário, ora engajado, ora pessimista. O desenrolar do enredo vai compondo uma visão multifacetada e crítica dessa geração e suas aspirações, vista como enclausurada em seu próprio discurso em um momento político de turbulência. O espaço urbano de Belo Horizonte por vezes enfatiza um sentimento de desencanto: “Essas montanhas são os muros de um cemitério” e “Que se pode fazer aqui senão beber, encher a cara até arrebentar? Ou a gente faz isso ou então some daqui, não há outra alternativa”. O ambiente está marcado também pelo clima da universidade: as assembleias, o relato dos estudantes presos, as conversas na sala dos professores. Há um contexto subjetivo e político de impasse: é tempo de repressão e é preciso criar meios de viver para a própria literatura.

O livro é dividido em 12 capítulos, não nomeados ou numerados. O tempo é cronológico, inicia-se com as aulas da universidade e conclui-se com os festejos de ano novo. Apesar do tema central perpassar um momento de ruptura, a fluidez do texto é lenta e densa. Não há um desfecho claro, uma síntese do contexto ou das trajetórias de cada personagem, apenas Nei parece alcançar uma saída tantas vezes desacreditada e protelada para, enfim, dar forma ao romance que tanto quer escrever. O curso dos acontecimentos fica em suspenso e cada um deles segue em busca de sentidos para suas próprias histórias. O mesmo acontece com o mote inicial do romance, parte de uma cena corriqueira, enfatizando que, para a novela, o valor está no percurso que cada personagem trilhará, mais do que aonde chegarão ou de onde partiram.

Há um aspecto cíclico nessa estrutura temporal, já que associamos o ano novo com novos planos e novas promessas que, muitas vezes, não se cumprem, reforçando o dilema dos personagens, especialmente Nei. Segundo o pesquisador Miguel Sanches (2011), a prosa de Vilela trabalha com “experiências pedestres de linguagem”, e isso pode ser percebido pelos espaços em que caminham os personagens: bares belorizontinos tradicionais, como os do Maletta, as livrarias e espaços culturais em que acompanham lançamentos de livros, uma volta no parque. A chuva é um elemento recorrente, funcionando como uma expressão dos estados de ânimo dos personagens, assim como suas percepções sobre os dias frios de inverno e as montanhas que enclausuram a cidade de Belo Horizonte: “Estou cansado de tudo isso — disse Nei. — Cansado dessa confusão, cansado da literatura, cansado dessa cidade e dessa chuva, cansado até dessas nossas conversas, que não levam a nada. Dá vontade de sumir pra longe daqui”.

O discurso direto é predominante no romance e o leitor acessa as ideias e os sentimentos dos personagens pela suas próprias falas em diálogos com os demais. A esse recurso de composição formal, pode-se associar a presença do silêncio. Em entrevista, Luiz Vilela comenta sobre o jogador Tostão no apogeu da fama: “alguém observou que ele ‘jogava sem bola’, aludindo aos deslocamentos que fazia no campo adversário, atraindo para si os jogadores e abrindo brechas na defesa para que o companheiro passasse com a bola.” E complementou: “Mal comparando, é um pouco isso o que eu às vezes faço. Se assim posso dizer, eu escrevo sem palavras.”

A escrita literária mobiliza e garante uma dimensão metaficcional ao romance. O grupo edita a revista Literatura, todos são ou têm o desejo de ser escritores. Oscilam na percepção dos personagens as condições concretas de editar uma revista com pouca projeção e a própria condição de juventude na produção de textos, segundo o personagem Ricardo: “— Bom, mas nós ainda estamos no começo — lembrou Ricardo. — No começo eles também não eram nada. Ainda escreveremos uma obra. Ainda seremos futuros Balzacs, Dostoievskis, Faulkners”.

Escrever literatura é uma forma de dar resposta ao mundo esvaziado de sentido em que habitam. As mobilizações dos estudantes, a interpelação dos professores mais velhos que cobram um posicionamento mais alinhado a certas expectativas atribuídas a uma nova geração tornam-se motivo de desdém e autoironia para os “novos”. Essa ironia e autoironia estruturam-se como aspecto interno aos personagens e suas interações, mas podem ser lidas como um certo olhar, uma perspectiva sobre o momento histórico que vivem, construindo uma resposta crítica à passividade da geração que compõe “os novos”. No romance de Vilela, a juventude dos anos 1970 está atravessada, simultaneamente, pela desilusão da vida prática e pela crença na literatura. O sentimento de impotência divide espaço com a esperança de dias melhores. O que pode a literatura em tempos incertos? Essa é uma questão mobilizada pelo romance e que segue fazendo sentido nos tempos atuais.

Para saber mais

MARCELO, Carlos. Luiz Vilela comenta a reedição do primeiro romance. Estado de Minas, 18 nov. 2023. Disponível em: https://www.em.com.br/pensar/2023/11/6657008-luiz-vilela-comenta-a-reedicao-do-primeiro-romance.html. Acesso em: 22 abr. 2024.

RODRIGUES, Rauer Ribeiro (2013). Aspectos estruturais das novelas do ficcionista brasileiro Luiz Vilela. Forma Breve, Aveiro, n. 10, p. 167-178. Disponível em: https://proa.ua.pt/index.php/formabreve/article/view/5560. Acesso em: 22 abr. 2024.

SANCHES NETO, Miguel (2011). O romancista Luiz Vilela. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 31, p. 201–215. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/9441. Acesso em: 22 abr. 2024.

VIDAL, Ariovaldo (2019). A prosa de Luiz Vilela. Literatura e sociedade. São Paulo, v. 24, n. 29, p. 150-165. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ls/article/view/162438. Acesso em: 22 abr. 2024.

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Como citar:

LACERDA, Amanda Lacerda de.
Os novos.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

05 fev. 2025.

Disponível em:

3287.

Acessado em:

06 mar. 2026.