Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

A noite sobre Alcântara

MONTELLO, Josué. A noite sobre Alcântara. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.

Luiz Henrique Silva de Oliveira
Ilustração: Cláudio Rodrigues

Publicado em 1978 pela editora José Olympio, o romance A noite sobre Alcântara, de Josué Montello (São Luís, MA, 1917 – Rio de Janeiro, RJ, 2016), discute a queda da cidade maranhense de Alcântara enquanto um dos epicentros econômicos do Brasil imperial. Para tanto, a obra aborda a fuga dos brancos pertencentes à elite econômica da cidade depois da crise econômica que a atinge, devido ao fato de que o poderio financeiro local recaía sobretudo no uso de mão de obra escravizada.

Segundo György Lukács (2000), em A teoria do romance, “a arte, a realidade visionária do mundo […] é uma totalidade criada, pois a unidade natural das esferas metafísicas foi rompida para sempre”. O estudioso alude à ascensão do romance como modelo capaz de dar vazão tanto aos problemas dos homens comuns, abandonados à sorte de suas escolhas, quanto aos destinos das coletividades, produto e processo do desenvolvimento histórico. É neste ponto que Montello e Lukács se encontram: a obra literária recupera episódios emblemáticos da cidade de Alcântara, do estado do Maranhão e do Brasil, por meio da figuração do contexto social e da dimensão íntima de Natalino, o protagonista do romance. Montello constrói a coerência de sua narrativa – interna e externa ao protagonista – pela adição de elementos históricos temperados ao gosto da inexorável rasura da verdade.

Filho de aristocratas, Natalino (cuja cor de pele não é identificada, mas que pode ser presumida como branca) é considerado por seus conterrâneos como um dos heróis da Guerra do Paraguai (1864-1870). Mas a verdade é que Natalino desertou do campo de batalha e escondeu tal fato de seus convivas alcantarenses. Sua imagem, pois, é forjada por esta mentira.

O texto está bipartido temporalmente, contendo um plano para o andamento do enredo (narrativa) e outro plano para o ato de rememorar os acontecimentos (narração). No primeiro plano, Natalino, ao jogar a chave de sua residência em um lote vago, no momento em que decide deixar Alcântara, é abordado pelo Comendador Ventura Lopes, outrora figura de relevo da cidade. Natalino perde o barco que o transportaria a São Luís, fato que o faz permanecer mais uma noite na cidade. Durante esse período de uma noite desenvolvem-se os acontecimentos de segundo plano, formado pelas rememorações do protagonista, as quais delineiam uma espécie de panorama histórico da cidade maranhense em fins do século XIX. Ao gosto da memória, passado e presente se entrelaçam por meio de uma estrutura narrativa dividida em duas seções: “A travessia” e “Enquanto a noite não vem”. Esta última é subdividida em cinco partes que abordam desde o início da Guerra do Paraguai, em 1870, até dezembro de 1899, quando Natalino finalmente viaja para a capital maranhense.

Natalino é um personagem em busca de si e dos propósitos de sua existência. A personagem se alista como voluntária na Guerra do Paraguai, mas deserta; trava relacionamentos amorosos, mas não consegue ser pai; pertence à elite conservadora e se assume liberal; possui berço, entretanto abdica da carreira política pavimentada por seu pai e seus correligionários. Mas não seria a busca por si mesma a tônica de Alcântara, dado o declínio da Monarquia brasileira? Afinal, com o anúncio da República e da transição do trabalho compulsório para o assalariado, o apogeu alcantarense não mais tem lugar, as suas carruagens e escravarias não mais ecoam pelas ruas, uma vez que são apenas fragmentos de lembranças dos munícipes. Vivem estes num presente apenas habitado pelo passado, pela memória. Prova disso é a saída da cidade pelas famílias importantes em direção à capital, São Luís, abandonando palacetes, escravizados, fazendas e mobiliários, elementos símbolos de uma ordem social que se apresenta rasurada pela discursividade anunciada no livro.

A seção “Enquanto a noite não vem” insere na trama personagens históricos e acontecimentos decisivos para a história de Alcântara. Contudo, não o faz por meio do desejo de retomada da verdade, mas mediante o questionamento e a rasura dos fatos. Tal movimento culmina no alargamento da percepção dos acontecimentos, tanto em relação ao que foi quanto em relação ao que poderia ter sido.

Do ponto de vista editorial, destaca-se a alteração do título do romance a partir da segunda edição, datada de 1984, sob responsabilidade da nova detentora dos direitos de edição do escritor maranhense, a editora Nova Fronteira. A supressão do artigo definindo “a”, fazendo constar na capa apenas Noite sobre Alcântara, amplia a semântica do título e da obra, sugerindo que a palavra “Noite” pode assumir diversas dimensões metafóricas na narrativa.

A noite sobre Alcântara inscreve-se na tradição do romance histórico, forma que reúne um mosaico de narrativas que partem dos registros individuais e coletivos para repensar os acontecimentos sociais e históricos. O romance mobiliza com episódios da história do Brasil, embaralhando fatos, trazendo personagens, destinos e desatinos de um território e de um tipo de organização social, de forma a metaforizar a transição entre a Monarquia e a República. O interesse da obra recai sobretudo nesse diálogo, que tematiza a fuga dos bancos e a não incorporação do negro na sociedade brasileira no pós-escravidão e primeiros anos da República.

Para saber mais

BATISTA, Suzany Silva (2018). Um passeio poético: a memória como estratégia narrativa em A noite sobre Alcântara. Dissertação (Mestrado em Memória: Linguagem e Sociedade) – Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista. Disponível em: http://www2.uesb.br/ppg/ppgmls/wp-content/uploads/2019/03/Disserta%C3%A7%C3%A3o-de-Suzany-Silva-Batista.pdf. Acesso em: 9 out. 2023.

HUTCHEON, Linda (1991). Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago.

KREUTZER, Winfried (1991). Estrutura e significação de Os tambores de São Luís, de Josué Montello. Rio de Janeiro: ABL.

LUKÁCS, Georg (2000). A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Trad. José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Editora 34.

MARANHÃO (1992). Secretaria de Estado da Cultura. Casa de Cultura Josué Montello: fontes de pesquisa para a história do Maranhão. São Luís: CCJM.

ZANELA, Agda Adriana (2009). A epopéia maranhense de Josué Montello: desvendando a poética montelliana em quatro romances. Tese (Doutorado em Estudos Literários) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/102386. Acesso em: 9 out. 2023.

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Como citar:

OLIVEIRA, Luiz Henrique Silva de.
A noite sobre Alcântara.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

07 out. 2024.

Disponível em:

2669.

Acessado em:

14 mar. 2026.