Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Teatro

CARVALHO, Bernardo. Teatro. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Allan Alves
Ilustração: Telma Scherer

Teatro (1998) é a quarta obra literária de Bernardo Carvalho (Rio de Janeiro, RJ, 1960), sucedendo a coletânea de contos Aberração (1993) e os romances Onze (1995) e Os bêbados e os sonâmbulos (1996). No que se refere à estrutura, o romance é articulado em duas partes distintas: a primeira nomeada “Sãos” e a subsequente, “O meu nome”. A linguagem da obra imprime condição vertiginosa à expressividade, recorrendo ao monólogo como um mecanismo principal de narração. Em relação à dinâmica interna, esses capítulos refletem-se de forma similar às ondas analógicas – elevadas e instáveis – cuja frequência se configura em uma variação de ondas curvas. Nesse contexto, os pensamentos entrelaçam-se e interrompem-se mutuamente ao longo do enredo.

A primeira parte tece o alicerce da trama, enquanto a segunda a des-constrói. Porém, não se toma desconstrução aqui com o sentido de demolição filosófica, mas, sim, de des-narrar. Isto é, narrar por meio da dissolução do anterior – do outro e de si. A arte na capa da primeira edição do livro é significativa: um instante fotográfico capturado por Jacques-Henri Lartigue ilustra o movimento preciso de um homem suspenso de cabeça para baixo. A contemplação visual, então, é de um mundo invertido, que observa e ao mesmo tempo é observado; num salto para fora do tempo.

No início de Teatro, o narrador, um policial aposentado, gradualmente deslinda a ocorrência de um crime ainda não solucionado. O leitor precisará exercer uma constante adaptação ao tom da linguagem para navegar com sucesso pela seção primeira. O narrador apresenta um caso de terrorismo – cujo espaço geográfico não é definidamente categorizado, mas intuitivamente percebido como os Estados Unidos – onde uma substância química letal é distribuída em correspondências anônimas para diversas pessoas influentes no sistema daquela sociedade. Ao mesmo tempo que a personagem narra a trama central, também descortina elementos de sua trajetória íntima. Simultaneamente ao fato, a narrativa prossegue até que um suspeito se entrega à mídia como culpado. No entanto, descobre-se que o verdadeiro autor das cartas que realizava os ataques era o próprio narrador, contudo, sem que ele – enquanto relator – demonstrasse real domínio consciente disso.

Por meio de descrições e falas circulares que se desdobram em aturdimento, o romance explora uma profunda desconfiança em relação às identidades e à noção de subjetividade. Essa personalização difusa se manifesta no cenário que varia do simbólico ao concreto, abordando questões das fronteiras geográficas, da colonização, da identidade, do tempo e do espaço social inserido. O leitor atento à obra poderá encontrar, inicialmente, três ecos culturais na narrativa. O primeiro, por meio dos sentidos da globalização, não apenas em tom econômico, mas, sim, em relação à padronização dos costumes, comportamentos e hábitos de consumo e de domínio inconsciente. O segundo, por meio do diálogo com a estética cinematográfica contemporânea, pela intensidade da ação, marcas visuais do desejo e imagens discordantes que inundam a percepção do leitor. O terceiro, um eco à obra de Thomas Bernhard, cuja consciência dúbia do narrador envolve a corrente do pensamento em linhas de incerteza e curiosidade. Linhas estas que compõem em força a presença da trama, que apresenta a violência como perspectiva vigente em um espaço mental até então não inserido na balança da consciência coletiva do presente – ou daquele presente.

Como não remeter a uma das mais deliciosas passagens de No decurso do tempo (1976) [Im Lauf der Zeit], de Wim Wenders, em que o personagem, em tom de admiração e condenação, confidencia que “os americanos colonizaram nosso subconsciente”. Esse tema da americanização da vida é em demasia explorado no romance. Os personagens são átopos (sem-lugar) imersos em um complexo mecanismo social em que o domínio vai além da mera substituição da língua, da pátria e da identidade. Nesse sentido, encontram-se no centro de um redemoinho cultural que consome e despersonaliza.

Conforme o narrador gradualmente se dá conta de que ele é o próprio criminoso cujos atos pretendia descrever, uma notável alteração na perspectiva narrativa ocorre, com a substituição dos pronomes e a mudança do tom observacional. Uma conspiração política se desdobra, na qual o personagem é um mero fantoche em um palco teatral. Nesse cenário, destaca-se o espelhamento entre indivíduo e objeto, entre a percepção e o mundo, em que as sombras do entendimento absorvem muito pouco da realidade oculta por detrás das cortinas sociais inacessíveis às massificadas retinas do homem comum.

No entanto, isso é feito sem apelo à razão consciente; a questão da veracidade, da confiabilidade do narrador é incessantemente colocada em dúvida. Desde as primeiras linhas, percebe-se a fragilidade inerente à linguagem manifesta no monólogo. Elementos como paranoia se entrelaçam com o terrorismo, o desejo, o deslocamento e o conceito de não-lugar contemporâneo. Conforme a personagem Ana C. articula: “O paranoico é aquele que acredita num sentido. […] É aquele que vê sentido onde não existe nenhum. O paranoico não pode suportar a ideia de um mundo sem sentido”.

No segundo capítulo, a narrativa des-constrói, isto é, reinterpreta a primeira parte ao mesmo tempo que introduz uma nova perspectiva, em paisagem distinta cujos agentes vestem novas peles. Nesse momento, a trama apresenta um famoso ator masculino de filmes pornográficos, que se encontra no interior de um caso de assassinato. Esse personagem é Ana C., que agora se autodenomina no masculino, em uma expressão de transidentidade, amalgamada com seu próprio fenômeno em uma ação psicológica entrecruzada ao novelo de ação da primeira parte. Nesse ponto, a narrativa-linguagem adquire uma profusão de camadas adicionais de complexidade, subvertendo as expectativas do leitor e ampliando o escopo das visões anteriormente descritas.

Talvez seja desnecessário salientar as constantes alusões que a obra propicia a um certo etos particular, influenciado pelo tenso clima político da segunda metade da década de 1990, em nosso fim de século – e de milênio. O captar expansivo das megalópoles, a imigração, o poder do neoliberalismo, a ideia da história à deriva, o impacto pervasivo da mídia de massa e as tensas ocorrências dos atos de terror são elementos marcantes.

Poder-se-ia esboçar a conclusão de que a narrativa joga com certo pensamento acerca de determinados critérios associados à modernidade, antes derivados da defesa pela independência da linguagem como instrumento universal da razão, mas que agora se tornam obsoletos em um mundo representado pela massificação e pelo domínio ideológico. A autopercepção da identidade é enganosamente moldada e reduzida por objetos que dissolvem o rosto humano por meio da técnica, cuja balança inclina-se ao peso da violência e da ação caótica. Entretanto, ainda assim, isso pareceria reduzido se não fosse por certa agudeza da obra que a todo momento sopesa qualquer tarefa de circunscrição de sentido amplo num mundo que não nos confere nenhum. Mais do que experimentalismo e artifício, a visão ourada é quase uma condição à narrativa do contemporâneo.

Para saber mais

ARAÚJO, André Luís de (2009). “Eu existo pelo nome que te dei”: Ana C. por Bernardo Carvalho. Tese (Doutorado em Estudos Literários) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

NOR, Gabriela Ruggiero (2010). O foco narrativo em Teatro, de Bernardo Carvalho. Literatura e autoritarismo (UFSM), Dossiê: escritas da violência II, p. 199-129. Disponível em: http://w3.ufsm.br/literaturaeautoritarismo/revista/dossie03/RevLitAut_art11.pdf. Acesso em: 2 jun. 2024.

ROWLAND, Clara (2004). Conspiração, paranoia e interpretação: Teatro (1998) e O medo de Sade (2000) de Bernardo Carvalho. Scripta, v. 8, n. 15, p. 137-148. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/12574. Acesso em: 2 jun. 2024.

SILVA, Nádia Regina Barbosa da (2001). Teatro, bêbados e sonâmbulos – uma leitura da narrativa de Bernardo Carvalho. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal Fluminense, Niterói.

THOMAZ, Paulo César (2010). Poéticas do dilaceramento e da desolação: Bernardo Carvalho e Sergio Chejfec. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 36, p. 233-239. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2316-40183615. Acesso em: 2 jun. 2024.

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Como citar:

ALVES, Allan.
Teatro.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

30 set. 2024.

Disponível em:

2531.

Acessado em:

06 mar. 2026.