Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Os papéis do Coronel

LAUS, Harry. Os papéis do Coronel. Florianópolis: Editora da UFSC, 1995.

Eliana Peter Braz
Ilustração: Mariângela Albuquerque

Os papéis do Coronel, único romance escrito por Harry Laus (Tijucas, Santa Catarina, 1922 – Florianópolis, Santa Catarina, 1992), aborda em primeiro plano (ou pelo menos é assim que o leitor é levado a crer) a recorrente temática de um escritor diante de sua obra, seus encontros e desencontros com a escrita. Mesmo sendo uma temática usual na literatura, não deixa de ser interessante, uma vez que cada escrita tem suas singularidades, e são as singularidades do próprio Coronel e de sua narrativa que levam leitores e leitoras a questionar o que está sendo apresentado.

Aos poucos o leitor se dá conta do duplo sentido da palavra papéis, que pode fazer referência tanto ao material escrito pelo Coronel quanto aos papéis que ele desempenha como narrador e como personagem narrado. Esse jogo de transpor questões humanas fundamentais de um sujeito para outro por meio da articulação entre narrador, personagem-narrador e outros personagens é um recurso que Harry Laus já havia utilizado em outras obras de sua autoria, a exemplo da novela Monólogo de uma cachorra sem preconceitos (1978). Essa novela, que tem como personagem-narradora a cachorra Lady Águia, trata da relação entre ela e seu tutor, abordando os temas do amor, da liberdade, da morte, da solidão – temas presentes também em Os papéis do Coronel.

O romance, assim como outros textos ficcionais de Harry Laus, tem algo de semelhante com a própria trajetória de vida do autor, instaurando uma “ambiguidade referencial” e pondo em dúvida o que seria invenção ou realidade. Desse modo, o romance pode ser interpretado como uma autoficção, pois o personagem-narrador compartilha características com Harry Laus. O escritor também foi um militar e morou em muitos lugares em função de seu ofício (estima-se que ele tenha realizado quarenta e três mudanças ao longo de sua vida; em uma delas, bastante significativa quanto à cultura militar da época, foi transferido para a longínqua Corumbá em razão de sua homossexualidade, condição que também gerou posteriormente seu pedido de desligamento do Exército).

Mas Harry Laus não foi “apenas” um militar que reunia anotações e papéis para um dia, quem sabe, escrever uma obra que falasse de amor, liberdade, morte e solidão. Foi também curador, crítico de arte, jornalista, gestor de museus, importante agente cultural e profícuo escritor. Publicou seis livros de contos, três novelas, um romance, páginas de seus diários, participou de pelo menos oito antologias de contos, escreveu críticas de arte em colunas especializadas em revistas como Veja, Senhor, e jornais como Folha de S. Paulo, Correio da Manhã, Diário de São Paulo, Jornal do Brasil, Diário Catarinense, entre outros. Toda sua obra foi publicada na França, vertida para o francês por Claire Cayron. A tradutora foi a grande incentivadora da escrita do romance Os papéis do Coronel e providenciou para que a obra fosse publicada na França (com o título Les jardins du Colonel) em 1992, mesmo ano em que Harry Laus faleceu. No Brasil, o romance só ganhou uma edição em 1995, pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), também por diligência de Claire Cayron.

Em Os papéis do Coronel há dois narradores, o primeiro conta a rotina de um coronel reformado que mora em um pequeno município no litoral de Santa Catarina; este coronel, por sua vez, está escrevendo um romance sobre um outro coronel que também moraria no mesmo município. Essa intercalação de escrita entre os dois narradores – ambos coronéis reformados e moradores do mesmo município – confunde o leitor menos atento, que só perceberá a ambiguidade dos narradores ao longo do romance.

Na primeira página de Os papéis do Coronel, há uma sucinta cronologia da vida do militar, cujo nome é Vitório de Lima e Silva: ele nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, ingressou na escola militar, ascendeu na carreira, constituiu família e de tempos em tempos era transferido para outros estados (passando por Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Mato Grosso e Rio de Janeiro). Na página seguinte, o coronel reformado chega em sua casa, em Porto Belo, mas demora para entrar, pois tem certa angústia ao pensar na casa vazia. Após essa relutância inicial, finalmente ele entra e vai diretamente ao quarto, onde estão “as folhas que havia datilografado na véspera”. É assim que o romance se constitui: entre o que acontece com um militar reformado que escreve e a sua narrativa, que conta de modo mais detalhado o que foi exposto na primeira página.

Desse modo, tem-se uma narrativa dentro da outra, atravessada por ponderações sobre o processo de escrita: a importância de cada personagem, de cada objeto, de cada fato narrado ou citado e o papel que eles exercem na trama; a necessidade de cortar, de dispensar partes do que foi escrito e de todo o trabalho que caracteriza a escrita literária. Ao longo do romance, aparecem pistas que despertam a curiosidade do leitor e que só serão reveladas no final do livro, como o bilhete de um antigo amigo e os pacotinhos que o Coronel traz para casa nas primeiras páginas. Há também estranhamentos: o mesmo sobrenome do Duque de Caxias (Lima e Silva), o patrono do exército brasileiro; a família “perfeita”, formada pela esposa exemplar (submissa, sempre pronta a ceder, a abrir mão de qualquer resquício de vida pessoal, individual), o filho ideal (companheiro, compreensivo, artista, sensível, mas não homossexual – como faz questão de anunciar quando questionado a respeito de sua afinidade com a arte).

Parece que o coronel narrador quer descrever uma “tradicional família brasileira”, enaltecida no início do século passado e ainda aclamada por certos grupos sociais no início deste século. Os papéis de gênero estão bem desenhados: as mulheres – reverenciadas, como se espera em uma sociedade patriarcal esclarecida – são cuidadoras, conformadas, companheiras (ou acompanhantes?), discretas, agem sempre sem reivindicar protagonismo; são os homens que aparecem desenhando as cenas, decidindo, agindo.

O narrador, em suas digressões a respeito da feitura da escrita, questiona os princípios caracterizadores de uma obra de arte literária, defendendo sua visão particular sobre o assunto. Já o personagem escritor, o Coronel, ao experimentar a escrita, procura contemplar esses princípios, aprendidos dos autores que ele admira, a exemplo de Anton Tchekhov e Mário Faustino (o segundo, amigo e mentor de Harry Laus em relação à escrita).

Composto entre 1984 e 1990, período marcado pelo final da ditadura civil-militar e pela primeira eleição direta para presidente depois de 21 anos de ditadura, o texto relembra as interdições a que estavam sujeitas as pessoas que não se conformavam com as normas estabelecidas nos governos militares, mas não só neles. Ainda hoje, mesmo após anos de relativa liberdade de expressão, algumas pessoas, a depender do meio onde vivem, são impedidas de manifestar esta que é uma das características mais fundamentalmente humanas. Os papéis do Coronel é um convite a se pensar a respeito dos papéis sociais que um indivíduo pode assumir, papéis mais ou menos explícitos, de acordo com a situação e com o contexto no qual se está inserido.

O jogo com os narradores instiga a reflexão sobre o papel do narrador no romance moderno e contemporâneo, tantas vezes já caracterizado como pouco confiável ou suspeito. Não que os narradores de Os papéis do Coronel demonstrem querer enganar quem os lê; talvez eles sejam frutos de suas épocas e tenham se acostumado a serem comedidos, a não revelar peremptoriamente algumas de suas características, ou de anunciá-las sutilmente, deixando ao leitor e/ou interlocutor o papel de, aos poucos, reconhecê-las.

Os leitores mais argutos ou que já conheçam o autor e sua obra serão capazes de identificar prontamente alguns detalhes que só serão confirmados ao final do livro. De qualquer forma, a maneira como foi tramado o enredo e suas camadas é resultado de um trabalho meticuloso de um autor que acreditava que o outro estava nele, assim como ele estava no outro, assim como cada um está nos outros e tem outros em si, como diz o poema Contranarciso, de Paulo Leminski, que serve de epígrafe do livro. Entre os três coronéis (o autor, o personagem-narrador e o personagem narrado) há semelhanças e distinções que transitam em uma linha tênue. É difícil dizer o quanto cada um está no outro, e talvez isso nem seja relevante, pois em todos eles – e também nos leitores – são inequívocas as marcas fundamentalmente humanas de amor, de liberdade, de morte e de solidão.

Para saber mais

MUZART, Zahidé Lupinacci (2011). Crônica de uma literatura anunciada: a correspondência de Harry Laus. Verbo de Minas: Letras, Juiz de Fora, v. 11, n. 19, p. 127-141, jan./jul. Disponível em: http://seer.uniacademia.edu.br/index.php/verboDeMinas/article/view/352/244. Acesso em: 24 fev. 2023.

LAUS, Harry (1970). Papo com Lady Agonia. Lampião da Esquina, Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, jun./jul. 1978. p. 16. Disponível em: https://www.grupodignidade.org.br/wp-content/uploads/2019/04/06-LAMPIAO-DA-ESQUINA-EDICAO-02-JUNHO-JULHO-1978.pdf. Acesso em: 24 fev. 2023.

MEMORIAL HARRY LAUS (1922-1992) (site). Disponível em: http://harrylausvivo.blogspot.com/. Acesso em: 24 fev. 2023.

MORAES, Taiza Mara Rauen (2002). Diários: espaço de presença e ausência de Harry Laus. Edição Crítico-Genética. 2002. Tese (Doutorado em Literatura) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Disponível em: http://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/83043. Acesso em: 24 fev. 2023.

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Como citar:

BRAZ, Eliana Peter.
Os papéis do Coronel.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

29 set. 2024.

Disponível em:

2487.

Acessado em:

06 mar. 2026.