Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Vidas provisórias

SILVESTRE, Edney. Vidas provisórias. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.

Eliane Waller
Ilustração: Pamela Araújo

No romance Vidas provisórias, de Edney Silvestre (Valença, RJ, 1950), a realidade se mostra em grande evidência por meio das histórias de Paulo Antunes e Bárbara Costa, personagens cujos destinos não se distinguem de tantos outros, vivenciados por brasileiros e estrangeiros que, por razões as mais distintas possíveis, precisaram se distanciar do país, de sua pátria e de suas raízes.

A primeira edição foi lançada em 2013, e a segunda, de 2021, tem um acréscimo de dois capítulos, justificado, segundo o autor, pela necessidade de se aprofundar na complexidade da relação entre os personagens, em suas histórias sofridamente verdadeiras. São sofridas porque traduzem, mediante uma narrativa fluida e atrativa, o desenrolar de fatos tão característicos e exclusivos de expatriados, nos mais diferentes momentos históricos e nos distintos países, estados e regiões por que passam.

Edney Silvestre consegue apresentar as nefastas consequências ocorridas na vida de dois brasileiros exilados, em momentos históricos distintos – a ditadura militar e o período do governo do presidente Fernando Collor de Mello –, por meio de recursos estilísticos e formais que captam a atenção do leitor: a reprodução de frases em inglês, a utilização de trechos de músicas brasileiras e a utilização de citações de nomes de personagens da história do Brasil. Dessa forma, não passa despercebida a intencionalidade de registrar a importância de todos esses elementos presentes no romance, sobretudo porque eles dão não só um dinamismo à narração, mas também acentuam e legitimam a verdade tão necessária àqueles relatos.

A alternância na apresentação da história de vida de Paulo e de Bárbara ratifica a sensação de celeridade com que os acontecimentos vão sendo apresentados, quando a cronologia da narrativa se refere à passagem de vários anos. O tempo é registrado com a perspicácia autoral de adjetivação qualificada, do desenho das cenas vivenciadas pelas personagens nos momentos mais significativos de suas trajetórias: o momento da chegada ao país estranho, as dificuldades com idiomas desconhecidos, a saudade da terra de origem, o sentimento de não pertencimento e o medo de ser reconhecido pelas autoridades policiais.

Além disso, a inevitável e impactante descoberta dos porquês daquelas rotas tão sofridas: jovens que são alijados de seus sonhos, distanciados de seu cotidiano, destituídos do direito à luta por seus ideais, calados por forças que aniquilam a sua integridade, a sua identidade e a sua história. São aqueles que, ao longo dos anos, subtraem as esperanças dos jovens e os remetem a serem aniquilados e precocemente envelhecidos diante da irreversibilidade da mudança de um passado que lhes pertence, mas que não fora construído por eles. É nessa perspectiva que se veem as trajetórias de Paulo e de Bárbara.

O início do sofrimento de Paulo, estudante de Pedagogia, que, aos 24 anos, foi associado a atividades contrárias ao regime militar é intenso. Seus algozes não acreditam em sua palavra quando diz que desconhece as pessoas a quem o associam. Seu desesperado pedido de socorro é indiferente àqueles que o torturam. Já quase à beira da morte, descobre, perplexo, ao ouvir na voz de um dos chefes – seu próprio irmão – que seria mantido vivo somente por essa razão.

Sem condições de compreender aquele martírio e a razão de seu irmão estar ali participando de tudo, ele é retirado do país. Deixado na fronteira com o Paraguai, chega ao Chile e, depois, à Argentina, países que também sofreram golpes militares, até conseguir fugir, com a ajuda de outros exilados, para a Suécia, país em que conhece Anna, funcionária e voluntária da Anistia Internacional. Anna, que viria a ser sua esposa e mãe de seus filhos, foi a mulher que viria a amar e respeitar por toda a sua vida.

Mas os fantasmas de seu passado – a humilhação sofrida, a perda da identidade e a expropriação de sua história – não lhe permitiram. A necessidade de um novo nome, a importância de não titubear ao ser interpelado por autoridades, a dificuldade em ser alocado em um mercado de trabalho que só oferecia subempregos e invisibilidade – algo que não era exatamente negativo, dada a necessidade de se manter a salvo da descoberta de sua existência num país estrangeiro – foram alguns dos desafios encontrados.

Não é diferente com Bárbara, a menina que, ainda menor de idade, sai do Brasil. No entanto, o momento histórico é outro. Vige o governo do primeiro presidente eleito pelo voto direto depois da ditadura militar, Fernando Collor. Embora haja ares de liberdade no início da década de 1990, a situação econômica do país era dramática: confisco da poupança, desemprego e altíssima inflação. Esse quadro remete à imigração de brasileiros em busca de condições melhores de sobrevivência em outros países.

Bárbara, jovem brasileira que, sem perspectivas, depois de ver o pai ser assassinado por policiais que o acusavam de participar de um sequestro e de acompanhar a falência do pequeno negócio da mãe – um salão de beleza –, vai atrás do namorado nos Estados Unidos com a esperança de um futuro melhor. Utilizando um passaporte falso, consegue entrar no território estadunidense; porém, tanto o namorado quanto as pessoas que conhecera preferem que ela fique longe da cidade pequena em que morava por causa da falsidade de seus documentos.

Ela vai para Nova York, a cidade grande. Não há lugar melhor para uma imigrante ilegal se esconder. Bárbara passa a fazer faxina nas casas de outros brasileiros, por exemplo na de um ex-garoto de programa bissexual, por quem nutre um sincero afeto. Sílvio foi bem-sucedido nos Estados Unidos, até ver sua vida se transformar ao ser acometido pelo vírus da AIDS. Passa a ser voluntário em um tratamento experimental da doença e sofre, terrivelmente, com todos os efeitos de uma doença na época incurável.

No entanto, o medo de ser descoberta pela polícia, a dificuldade com a língua inglesa, o pouco contato com a mãe, a solidão que a consome, tudo isso impõe a Bárbara quase uma blindagem emocional que a torna indiferente ao próprio sofrimento, como se ela já não se importasse com a convivência com as prostitutas, com os outros imigrantes ilegais como ela e com as pessoas que a ignoravam.

Edney Silvestre proporciona, por meio de seu romance, uma reflexão profunda acerca de conceitos que precisam ser discutidos na sociedade: o preconceito, a indiferença dos países aos mais vulneráveis, sobretudo àqueles que não pertencem à sociedade e são vistos como párias, o respeito aos direitos humanos e a necessidade de manutenção dos alicerces fortes nas democracias.

Para saber mais

HADDAD, Naief. Edney Silvestre reescreve ‘Vidas Provisórias’, sobre brasileiros expatriados. Folha de S. Paulo, 17 dez. 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/12/edney-silvestre-reescreve-vidas-provisorias-sobre-brasileiros-expatriados.shtml. Acesso em: 6 jun. 2024.

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Como citar:

WALLER, Eliane.
Vidas provisórias.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

27 set. 2024.

Disponível em:

2432.

Acessado em:

06 mar. 2026.