LOPES, Nei. Rio Negro, 50. Rio de Janeiro: Record, 2015.
Julieta Kabalin Campos
Ilustração: Douglas Ferreiro
Rio Negro, 50 é o quinto romance publicado pelo prolífico e multifacetado Nei Braz Lopes (Rio de Janeiro, RJ, 1942), mais conhecido como Nei Lopes. Após obras como Mandingas da mulata velha na cidade nova (2009), Oiobomé (2010), Esta árvore dourada que supomos (2011) e A lua triste descamba (2012), o escritor carioca oferece a seus leitores uma perspectiva singular sobre sua cidade natal. Rio Negro, 50, como o título sugestivamente adianta, pode ser lida, sem muitos rodeios, como uma versão negra da cidade maravilhosa dos anos 1950. Embora exista uma explicação literal sobre a escolha do título, já que Rio Negro é também o nome de um dos espaços privilegiados do relato, essa aproximação inicial captura o foco enfatizado ao longo de todo o percurso narrativo.
Os protagonistas dessa história são homens e mulheres afrodescendentes que habitaram e deram vida e movimento a essa urbe com suas ações, memórias, intercâmbios, conflitos, saberes, projetos, afetos e pensamentos. O romance, nesse sentido, deve ser entendido como um discurso descentrado, na medida em que busca evidenciar a diversidade e as tensões de uma comunidade composta por sujeitos que costumam ser esquecidos de relatos oficiais ou, quando lembrados, retratados a partir de moldes fixos e preconcebidos. Como contraponto, é possível identificar uma perspectiva afrocentrada, uma vez que se procura reivindicar a cena cultural e intelectual negra, assim como denunciar o racismo que afeta diretamente o desenvolvimento desse setor da população. Porém, este giro não será realizado a partir de uma linguagem panfletária que repete fórmulas e arquétipos. Pelo contrário, o caráter antirracista do livro é construído a partir da exposição das heterogeneidades e conflitos que atravessam e definem a comunidade negra em sua complexidade.
O romance se inicia com o relato do cruel assassinato de um jovem negro em pleno Centro do Rio de Janeiro, depois da derrota da seleção brasileira de futebol na final da Copa de 1950. O ato, cometido de maneira espontânea por um grupo de cidadãos, acaba com a vida de um sujeito indefeso e é consequência de uma absurda confusão. O verdadeiro alvo do ódio e do espancamento mortal era “Bigode”, um dos jogadores derrotados no histórico “Maracanaço”, com quem o jovem teria sido erroneamente identificado. Na verdade, o defensor João Ferreira – o “Bigode” – foi responsabilizado, junto com o goleiro Moacyr Barbosa e o defensor Juvenal Amaso Amarijo, pela derrota ocorrida em 16 de julho de 1950. Esse evento esportivo resultou em uma condenação pública para os jogadores, marcada por manifestações preconceituosas e estigmatizantes, que deixaram à mostra o imaginário racista predominante na época.
O paralelismo traçado pelo livro permite imaginar uma situação de violência extrema perfeitamente coerente com o clima hostil daquele momento e o efetivo linchamento midiático e popular que sofreram aqueles jogadores do time, não casualmente todos eles jovens negros. Esse acontecimento que abre o livro e que, a modo de leitmotiv, irá retornando ao longo do relato para expor o caráter estrutural do racismo daquela época configura só um dos inúmeros assuntos ali abordados.
O romance propõe, em um mosaico de histórias entrecruzadas, uma espécie de reconstrução de circuitos marcados pela presença negra na cena artística, cultural, intelectual, social e política carioca. Nesse panorama se identificam dois enclaves de encontro principais: o Café Bar Rio Negro – casa de escritores e jornalistas, reconhecido “reduto da Negritude” e apelidado de “América” pela tendência comunista de seus visitantes – e o Bar Abará, também chamado “Café e Bar Colored” ou “Harlemzinho” – ponto de reunião de “boêmios artistas e profissionais, menos intelectualizados e talvez mais sonhadores”. Ambos os espaços ficcionais servem como pontos de encontro e intercâmbio de histórias diversas, que se tramam, em um fluxo vertiginoso de vozes, por meio de diálogos, comentários e intertextos que o narrador vai dosificando fragmentariamente ao longo do relato.
Um dos pontos fortes do romance é o modo como convivem personagens – com profissões e histórias de vidas variadas – e eventos da vida cotidiana com fatos e referentes históricos de uma década marcada por acontecimentos que a narrativa não deixa escapar. Esses últimos anos do Rio como capital da República são marco do último governo de Getúlio Vargas e da sua polêmica morte, temas que se infiltram nas conversas dos assíduos clientes do Abará. Do mesmo modo, a aparição do candidato a presidente Plínio Salgado como visitante do Café Bar Rio Negro ajuda a compor o clima golpista e antidemocrático da época.
A trama – protagonizada por personagens como o sociólogo e jornalista Paulo Cordeiro, o sambista Nelsinho Lord, a bailarina e coreógrafa Isa Isidora, o advogado Paula Assis, o estudante Hamilton Nascimento e o vendedor de amendoim Mani – é construída em diálogo permanente com figuras emblemáticas da época: Abdias de Nascimento, Abigail Moura, Moacir Santos, Dolores Duran, Johnny Alf, Zezé Moreira, Zaíra de Oliveira, Donga são só alguns deles. Cria-se, assim, um clima de época a partir de referências diversas que podem ir de uma simples menção do narrador ao ambiente musical de algum dos bares (um solo de cavaquinho que toca no rádio, no capítulo 3, por exemplo, serve para falar do baião como gênero de sucesso da época) até extensas descrições que permitem aceder a práticas e fenômenos particulares de uma maneira mais aprofundada, como é o caso do velório e cortejo em homenagem à Tia Caetana no capítulo 8. As referências a programas de televisão – como a novela O direito de nascer –, a obras literárias – como os romances Sete palmos de terra e Solidão nos campos, do sergipano Raimundo Souza Dantas, os Poemas de uma vida simples, de Solano Trinidade –, a grupos artísticos – como o Teatro Experimental do Negro –, a eventos – como o 1º Congresso do Negro Brasileiro –, a práticas e espaços religiosos – como terreiros, manifestações do candomblé, consulta de búzios, invocação de orixás, etc. – e a práticas artísticas – como as escolas de samba – fazem parte da riqueza do entorno retratado.
Nessa notável valorização de tradições, sujeitos e saberes afrodescendentes como parte constitutiva do caudal cultural brasileiro, produz-se também uma expansão dos limites nacionais a partir dos diálogos estabelecidos com a diáspora africana de uma maneira mais ampla, sobretudo a partir de referências a expressões e representantes de outros países da América Latina e dos Estados Unidos. Os trânsitos culturais entre Brasil e outros enclaves afrodiaspóricos articulam-se a partir das experiências e relatos que os próprios personagens oferecem, como é o caso das melancólicas memórias de Isa Isidora sobre as viagens realizadas, junto à sua companhia de dança, para diferentes países da América do Sul.
O livro está composto por um prólogo e dez capítulos, número que – podemos arriscar – visa abarcar simbolicamente os anos do período contemplado. Cada uma dessas partes abre com um verso decassílabo do poeta Cruz e Souza, reivindicado pelo próprio autor como “símbolo maior da intelectualidade afrodescendente do Brasil”. Essa estratégia ajuda a compreender a maneira como tanto paratextos quanto outros recursos que fazem parte do livro são utilizados em função da afirmação e reconhecimento de uma tradição negra, na qual o autor procura se inscrever. Um pedido de benção e permissão aos ancestrais e antepassados, uma lembrança a colegas e amigos que o acompanharam de diferentes maneiras na sua trajetória vital, uma dedicatória a representantes e líderes do movimento e os agradecimentos a colaboradores são instâncias para gerar laços e se reconhecer como parte de uma comunidade, assim como legitimar formas de se vincular com a palavra e a produção artística.
Depois de Rio Negro, 50, a incursão do autor no gênero romance teve continuidade com a publicação de O preto que falava iídiche (2018) e Agora serve o coração (2019). Além disso, a abordagem de outros gêneros literários, tais como contos, poemas, crônicas, resultou na publicação de relevantes obras narrativas – como Casos crioulos (1987) e 20 contos e uns trocados (2006) – e poéticas – como Incursões sobre a pele (1996) e Poétnica (2014).
Embora Nei Lopes tenha se formado em Direito (curso que concluiu em 1966, na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil [atual Universidade Federal do Rio de Janeiro]), sua vida profissional esteve majoritariamente dedicada ao campo musical e literário, tanto no âmbito da investigação quanto na produção artística. Seu interesse e preocupação sobre os assuntos que atingem a complexidade e diversidade da cultura afro-brasileira são explorados a partir de uma multiplicidade de disciplinas e gêneros. Essa versatilidade tem dado lugar a uma vasta obra que abraça a composição e a interpretação musical, a poesia, a narrativa ficcional e ensaística, assim como a pesquisa e a produção científica.
Nesse contexto, pode-se afirmar que o principal aporte do Nei Lopes e da sua produção, de modo geral, tem sido sua permanente reivindicação da matriz africana como vetor fundamental da história brasileira, a partir de um olhar crítico e denso que consegue fugir dos estereótipos e do lugar comum. No caso de Rio Negro, 50, em particular, esse movimento é realizado com uma exaustividade memorialística impactante, que não só reclama uma revisão sobre o passado, mas também exige um novo olhar para o presente e o futuro.
Para saber mais
CRUZ, Adélcio de Sousa (2018). Memórias, histórias e vidas reescritas ao sabor de Rio Negro, 50… Literafro: o portal da literatura afro-brasileira. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/resenhas/ficcao/%2089-nei-lopes-rio-negro-50. Acesso em: 9 fev. 2023.
CARVALHO, Consoelo Costa Soares (2018). Representação da intelectualidade negra na narrativa de Nei Lopes através de vozes veladas, veludosas vozes. Polifonia, v. 25, n. 39.1, p. 131-148. Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/polifonia/article/view/7411 Acesso em: 9 fev. 2023.
CARVALHO, Consoelo Costa Soares (2021). Literatura afro-brasileira e a descolonização de identidades negras no romance Rio Negro, 50 de Nei Lopes. Tese (Doutorado em Estudos de Linguagem) – Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá. Disponível em: https://cms.ufmt.br/files/galleries/250/Disserta%C3%A7%C3%B5es%20e%20Teses/2021/CONSOELO_COSTA_SOARES_CARVALHO_.pdf Acesso em: 9 fev. 2023.
CARVALHO, Rachel Marques (2019). O Griot e tradicionalista Nei Lopes, em Rio Negro, 50. Revista do Núcleo de Estudos e Pesquisa SANKOFA, Rio de Janeiro, v. 1, n. 3, p. 1-27. Disponível em: http://www.sankofa.periodikos.com.br/article/5d6544e80e88252355a6c575 Acesso em: 9 fev. 2023.
GONÇALVES, Cláudio Carmo (2020). Ninguém ouviu um soluçar de dor: violência racial na narrativa literária de Nei Lopes. PragMATIZES – Revista Latino-americana de Estudos em Cultura, v. 10, n. 18, p. 266-277. Disponível em: https://periodicos.uff.br/pragmatizes/article/view/40560 Acesso em: 9 fev. 2023.
Iconografia




