Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Quatro-olhos

POMPEU, Renato. Quatro-olhos. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976.

Luciana Hidalgo
Ilustração: Cláudio Rodrigues

Quatro-olhos, de Renato Pompeu (Campinas, SP, 1941 – São Paulo, SP, 2014), é uma obra da literatura brasileira que conjuga ficção, autobiografia, metaficção, testemunho, memória, documento histórico, enfim, tantas nuances. Elementos tão díspares assim reunidos poderiam fazer com que o romance desandasse. No entanto, o estilo do autor, o que ele tem a dizer e o humor irreverente amarram todos os gêneros (e não gêneros) numa obra singular.

Há uma contemporaneidade em Quatro-olhos que o faz um tanto vanguardista na literatura brasileira produzida e lançada durante a ditadura civil-militar no Brasil dos anos 1960-70. Isso se explica basicamente pelo grande talento de Renato Pompeu em se descolar da experiência vivida e transformá-la numa narrativa literária que existe, subsiste, por si só. Ou seja, não é preciso saber do contexto, do período histórico, da biografia do autor, para ler o romance: eis a chave para a compreensão da sua longevidade e universalidade.

O escritor em questão, jornalista, trabalhou na grande imprensa brasileira e lançou 22 livros de ficção e não ficção, sendo ao menos três desses títulos sobre futebol. Quatro-olhos foi seu primeiro livro: uma estreia tão marcante, pelo conteúdo e pela linguagem, que nenhuma outra obra de sua autoria obteve repercussão semelhante, nem foi tão estudada no âmbito universitário.

Quatro-olhos é uma narrativa-limite escrita após a vivência do autor numa situação-limite. A saber: Renato Pompeu foi preso diversas vezes pelo governo militar por motivos políticos (embora não fosse militante) e a partir dessa experiência radical, dessa situação-limite, passou a ter delírios de perseguição que evoluíram para um quadro de psicose. O livro é o resultado imediato da sua internação numa clínica psiquiátrica de janeiro de 1974 a agosto de 1975.

Ao utilizar o eu como origem da escrita, Renato Pompeu cria uma narrativa que tem em si mesmo a causa principal, ou seja, o eu transborda para o romance, mas de uma forma descolada do evento traumático narrado. O autor embrulha o trauma numa ficção apurada, sem nem por isso mascarar a crueza da vivência, o eu aturdido. Trata-se de uma habilidade rara, somente possível graças àquilo que os franceses chamam de autodérision, o exercício da autoironia, de um tom sarcástico em relação a si mesmo, que Renato Pompeu usa bem, demonstrando um grande distanciamento do autor-narrador em relação ao protagonista.

Em Quatro-olhos, o funcionário de um banco encontra-se internado numa clínica psiquiátrica não mais inserida no antigo sistema repressor de hospício. Há encenações de peças de teatro e apresentações musicais por parte dos pacientes, bem como um pequeno jornal editado pelos companheiros de manicômio. Fatores dessa ordem apontam para uma brecha antimanicomial que já começava a se ensaiar na década de 1970 e que é detalhadamente descrita por Renato Pompeu, dando ao romance um aspecto de testemunho, de documento histórico da psiquiatria, narrado a partir do ponto de vista do paciente, não do psiquiatra.

 O romance é dividido em partes. “Dentro” é o primeiro capítulo da vida do protagonista em seu tedioso cotidiano no funcionalismo público. Casado com uma professora universitária inquieta e militante, ele observa com certa distância o engajamento da mulher em reuniões políticas. Prefere viver num espaço-tempo um tanto suspenso, num lugar inacessível entre realidade e ficção – nesse caso, uma ficção real, escrita por ele durante todo o primeiro capítulo, entremeada à sua rotina.

 O cerne da trama é a obsessão do personagem por um livro que ele escreveu em algum momento da vida e se perdeu. Daí a sua busca obstinada para encontrá-lo ou reescrevê-lo. Portanto, Quatro-Olhos é um romance onde se reescreve um romance, sendo as narrativas do que é realidade (o dia a dia do personagem) e do que é ficção (as histórias contadas sobre personagens inventados do tal livro) totalmente embaralhadas. Passam personagens concretos, passam personagens imaginários, sem que a distinção entre uns e outros seja realmente importante:

“Talvez fosse eu, talvez um personagem do livro, quem sabe o homem morto, mesmo o dono das casas ou o moço que trabalhava na firma. Mas havia alguém, um casal, dançando abraçado e eram jovens, mas enquanto se dançava abraçado e muito feliz, o moço foi reparando que a moça foi envelhecendo.”

Esse ir e vir é costurado por Renato Pompeu num estilo conciso e preciso que por vezes beira a prosa poética. Em outros trechos, o humor dá o tom: “Comecei a falar em voz alta: – Eu sou índio, eu sou índio. E minha mulher a exigir que eu tivesse preocupações mais concretas; eu a andar nu pela casa a tomar pinga, na falta de cauim; e minha mulher não se escandalizava (como escandalizar uma grã-fina?), apenas me impedia de assim receber visitas”. E continua: “Comecei a notar que me casara com ela para melhor me proteger do mundo dos brancos, que ela trazia colado à pele, cheia de razões e esquemas, filha da indústria e do comércio; com todos seus pedantismos de grã-fina ela queria criar mundos novos com as ferramentas de que podia dispor, eu a achar que continuaria a ser mundo de branco”.

A insistência de que o narrador-protagonista só existe no momento da escrita é a ideia central do livro. Percebe-se a relação fundamental e fundadora do autor com o texto, com a palavra, especialmente em outra parte da obra intitulada “Fora”. Quando o protagonista é preso pela polícia política e acaba no hospício, o exercício da escrita continua. Sabe-se, a certa altura, que os manuscritos anteriores se perderam, e ele tenta reescrevê-los, assim como na primeira parte ele tentava recuperar um livro escrito anos antes. Ou seja, ao tentar recordar o que havia escrito, mais uma vez o reescreve, o que se torna outro livro.

O personagem de Quatro-olhos recorre a uma literatura da urgência, isto é, a uma narrativa-limite, que atua como antídoto à instituição psiquiátrica, para tentar dar conta da situação-limite com que é obrigado a lidar. Renato Pompeu, por outro lado, optou por adiar a urgência, escrevendo o romance no período posterior à internação, com mais distância, em que ecos da urgência transparecem, latentes, sem que a narrativa esteja submetida ao factual emergencial.

É possível que Renato Pompeu tenha compilado notas durante a estadia no hospital psiquiátrico por onde passou, a exemplo de Lima Barreto, que fez inúmeras anotações naquele que ficou conhecido como Diário do hospício e depois as utilizou para escrever o romance O cemitério dos vivos. Contudo, enquanto Lima tentou descrever o sistema manicomial de uma forma ao mesmo tempo factual e ficcional, com trechos que beiram a crônica, Renato Pompeu radicalizou sua ficção. O que se sobressai em Quatro-olhos é, sobretudo, a maneira como o autor vai abrindo diversos caminhos e clareiras entre o que é real e o que é ficcional: Quando conto essas histórias de minha mulher, não sei se falo da vida ou de coisas do livro ou mesmo se relato a memória ou estou inventando no momento”.

O tom de incerteza entre ficção e realidade rege a narrativa, estabelecendo uma dúvida muito bem-vinda quando o tema é loucura ou, mais especificamente: o estado psicótico. À vontade nessa ambiguidade, Renato Pompeu usa e abusa da metaficção, desvelando a cozinha do escritor, nada mascarando, pelo contrário, flagrando suas artimanhas: “No sonho me vinham passeios em bondes, com flores na mão do motorneiro; no texto me ocorria falar de moços desempregados em noite de estrelas ou de promontórios ensolarados – na vida contemplava a nuca de minha mulher”. E então prossegue: “Assim, sonho, texto e vida construíam as faces de um momento, em que brilhava nas minhas mãos a teoria, certa, única e permanente, contra o real viscoso e mesquinho perto a limitar-me, envolvido eu com nitidez no esmero serrilhado do redor”.

Por vezes parece que o autor tem conhecimento da fronteira entre narrativas reais e ficcionais, mas faz questão de transgredi-la, justamente para mostrar que a realidade do psicótico está além dela. Em resposta a todos os estudiosos que já tentaram aprofundar as relações entre arte e loucura, Renato Pompeu é certamente quem melhor resume essa associação, com consciente conhecimento da causa, em Memórias da loucura: “A arte, portanto, é um modo de expressar de forma adequada e socialmente aceitável e útil o que a loucura expressa de forma inadequada e nociva – as fantasias do inconsciente. Ora, se o louco passar a se expressar artisticamente, ele estará nesse momento não sendo louco. Estará sendo artista”.

Renato Pompeu saiu do hospício em agosto de 1975 e lançou Quatro-olhos em 1976. É digno de reverência seu esforço em lidar com as alucinações, dele e dos vizinhos de hospício, investigá-las, inventariá-las, para transmutá-las numa literatura lúcida e de qualidade estética. Chama atenção a lucidez contida nesse romance, escrito durante a ditadura civil-militar no Brasil dos anos 1960-70 por um ex-preso político internado num hospício. Embora o autor toque pouco no tema “ditadura” ao longo do livro, é visível, quase palpável, o autoritarismo do governo militar e sua influência nociva no corpo e nos afetos do autor-narrador-protagonista. Tal sutileza, possibilitada apenas pela ficção, em contraponto a testemunhos e relatos de não ficção, faz de Quatro-Olhos uma obra cult na literatura brasileira contemporânea.

Para saber mais

CALEGARI, Lizandro Carlos (2010). Uma leitura de fragmentos: as ruínas da história em Quatro-Olhos, de Renato Pompeu. Revista Cerrados – Literatura e compromisso social, Brasília, v. 18, n. 28, p. 69-82.

CONDE, Miguel Bezzi (2018). Escrever outra vez: luto e jogo em Quatro-Olhos. In: BIRMAN, Daniela; VASCONCELLOS, Lisa; SILVA, Maria Rita Palmeira (Eds.). Revista Literatura e autoritarismo – A experiência do confinamento, Santa Maria, Editora Central de Periódicos da UFSM, v. 1, n. 31, p. 53-67. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/LA/article/view/34572. Acesso em: 30 abr. 2023.

REIS, Eloésio Paulo dos (2004). Literatura e loucura: O escritor no hospício em três romances dos anos 70. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

Iconografia

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Como citar:

HIDALGO, Luciana.
Quatro-olhos.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

05 jun. 2024.

Disponível em:

1390.

Acessado em:

05 mar. 2026.