Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Crônica de indomáveis delírios

SANTOS, Joel Rufino dos. Crônica de indomáveis delírios. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

Paula Renata Moreira
Ilustração: Francisco Dalcastagnè Miguel

Livro de Joel Rufino dos Santos (Rio de Janeiro, RJ, 1941 − Rio de Janeiro, RJ, 2015), Crônica de indomáveis delírios faz jus à tradição que seu nome evoca – crônica. Tendo como mote a vinda de Napoleão Bonaparte ao Brasil durante a Revolução Pernambucana, o livro dialoga com a crônica historiográfica, todavia, subvertendo-a. É sabido que crônicas são textos em que se relatam fatos históricos, costumeiramente seguindo a ordem temporal. Grandes nomes avultam como nossos primeiros cronistas: Pero Vaz de Caminha, Hans Staden, Fernão Cardim, entre outros, cujo objetivo era descrever e registrar aquilo que viam em uma nova terra, o Brasil. A crônica, portanto, está indelevelmente ligada à questão temporal e documental. Seu nome está relacionado, desde a origem, a “khronos”, que significa “tempo”.

Em sua apropriação literária, porém, a crônica perturba a ordem do vivido por meio do relato ficcionalizado e, a depender do cronista, discute mesmo as formas de contar a história. Em Crônica de indomáveis delírios, Joel Rufino dos Santos traz à cena a figura de Napoleão, salvo da prisão e trazido ao Brasil, e brinca com essa ideia.

Como se sabe, o famoso líder militar francês Napoleão Bonaparte, após derrota na Batalha de Waterloo, em 1815, foi preso na ilha britânica de Santa Helena. A história factual informa que lá permaneceu até sua morte por câncer estomacal em 1821. O texto de Joel Rufino, entretanto, reposiciona o destino desse personagem histórico. O romance situa-se no Nordeste brasileiro durante o século XIX. Em sua ficcionalização, o autor coloca um grupo aficionado pelas ideias iluministas, acalentando o sonho de trazer Napoleão, resgatado da ilha britânica, para organizar a Revolução Pernambucana. Assim, o francês chega ao território brasileiro e será responsável por batalhas e também por questionar a estrutura daquela sociedade específica, apontando para a impossibilidade de vencer a guerra sem a força negra. Diz o personagem: “É a única chance. Temos cinco fortalezas e um pífio exército de dez mil. Com os negros, teremos cinquenta mil, cem mil, trezentos mil, que digo! […] Se os de baixo não sobem, não se ganha a guerra. Essa é a única lição que aprendi em Brienne”. Para os estudiosos da obra de Rufino dos Santos, tal questionamento seria próprio da discussão acerca das “ideias fora de lugar” – uma expressão de Roberto Schwarz –, ou seja, dos ideais europeus em contradição com a organização social brasileira. Como se sabe, a Revolução Pernambucana de 1817 foi um movimento republicano e separatista, ocorrido alguns anos após a chegada da família real portuguesa ao país. A região açucareira vivia uma crise que culminou na revolta, para o que colaboraram os ideais da Revolução Francesa, iniciada em 1789 e cujos impactos ainda repercutiam na Europa. A revolta de Pernambuco foi composta por diversos setores, entre eles, comerciantes, militares, padres e a elite local, sendo que alguns personagens históricos, como o Padre João Ribeiro, Domingos José de Martins, entre outros, aparecem no romance de Joel Rufino dos Santos.

A revolução desejava, entre outras requisições, a proclamação da república, a instauração dos três poderes, o aumento do salário dos soldados, o fim dos impostos, a liberdade de culto e de imprensa e, contraditoriamente, a manutenção do trabalho escravo. Não é sem ironia, portanto, que Joel Rufino dos Santos decide situar seu romance em plena revolta, revolta essa que se queria progressista em relação a seus ideais, mas mantinha intacta a ordem escravocrata. A participação negra solicitada por Napoleão, por sua vez, não representa redenção negra, mas uma visão mercantilista da participação desses atores para salvar a revolução. Reforça o francês: “Estou falando – retomou com o acento impolido que muitas vezes tomava – de usar a única força real que tem essa terra: os etíopes. Só ela pode alavancar a liberdade, como a canaille jacobina que só conhecem de livros de História. Derrotados os Bragança, vocês os isolam, lhes dão um pedaço do território, que aqui sobra, e fundam uma República toda branca, comme il faut”. Todavia, a própria existência de Napoleão na batalha traria seus mistérios, só descobertos ao fim da narrativa.

A ironia é farta no livro em questão. Tal figura de linguagem é um dos recursos fundamentais para o conhecido romance histórico pós-moderno, também conhecido por metaficção historiográfica, conceito da estudiosa Linda Hutcheon (1988). Nesse tipo de produção, a história é repensada – tanto em seus acontecimentos factuais, como na própria forma de contar o passado. Para Mariléia Gärtner (2006), o marco inicial do romance histórico contemporâneo no Brasil é o livro Catatau, de Paulo Leminski (1975). A autora, entretanto, aponta outros títulos marcantes desse estilo: “obras como Galvez, o imperador do Acre (1976), de Márcio Souza; Em liberdade (1981), de Silviano Santiago; Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro; A casca da serpente (1989), de José J. Veiga; e Boca do inferno (1989), de Ana Miranda, proclamaram o romance histórico entre o público leitor e a crítica, no final do século XX”. É a essa tradição que se filia Joel Rufino dos Santos e seu Crônica de indomáveis delírios.

A história, no livro, está a serviço de sua própria interpelação. Não importa se o contado aconteceu de verdade e se os personagens fictícios se misturam aos reais. O propósito está justamente em mesclar realidade e ficção, de modo a permitir ao leitor que repense não só o próprio acontecimento, mas o que se sabe sobre o que ocorreu, na medida em que as narrativas questionam possibilidades.

Dividido em duas grandes partes – “O diário de Roldão Gonçalo Rebelo – 1817” e “A trama – 1835” – o livro começa pela descrição das origens do personagem Roldão Gonçalo Rebelo, como se pode perceber pelo título, por meio de seu diário. Para além da importância da própria descrição, avulta também o gênero que escolhe o autor para iniciar a narrativa: um diário – fonte documental particular. Na pesquisa histórica, os diários ganharam relevo após a valoração das fontes não oficiais. Assim, textos escritos por particulares, com intenções diversas, puderam ser largamente investigados para a reconstrução de acontecimentos passados, sob novas perspectivas. Diários de personalidades políticas ou famosas, por exemplo, costumam imbricar fatos de caráter público àqueles de tônus pessoal. Todavia, também os diários de pessoas sem projeção pública podem ter interesse na reconstrução dos acontecimentos, na medida em que permitem perceber indícios de práticas e comportamentos de épocas passadas.

Nesse sentido, ganha relevo a escolha de Joel Rufino dos Santos pelo gênero diário para compor a narrativa da primeira parte. Por meio dele, pode-se ter acesso às observações em primeira pessoa de Roldão Gonçalo Rebelo, bem como se põe em evidência a própria fonte para a construção histórica e seu valor testemunhal. Roldão é um personagem negro pernambucano ou, como se dizia à época, mulato. Tal denominação tem a ver com sua origem. São suas as palavras: “Nada sei dos parentes que medeiam entre o filho de Miriam e meus pais, certamente esgalhados em cafuzaria e mulataria pernambucanas, obscuros no nome e na cor”. Roldão participa de todo o conluio ao redor da vinda de Napoleão e é através de seu ponto de vista que acompanhamos a primeira parte da história. O personagem aparece, a posteriori, no romance Claros sussurros de celestes ventos (Bertrand Brasil, 2012), do mesmo autor. É Simões Júnior (2015) quem comenta: “Caso igualmente digno de análise seria o entrelaçamento de Claros sussurros com outro romance do autor, Crônica de indomáveis delírios, cujas duas partes, ‘O diário de Roldão Gonçalo Rebelo’ e ‘A trama’, são associadas, ao narrar-se a história de Cruz e Sousa, a dois manuscritos, escritos por punhos diferentes, que o poeta negro ganhara, como presentes, de seu professor”. Percebe-se, desde logo, que a relação entre história e ficção é uma constante na obra de Joel Rufino dos Santos.

Em Crônica de indomáveis delírios, nota-se, também, a questão propriamente temporal. Duas grandes datas ou períodos compõem o livro, ambos marcados por insurreições históricas no Nordeste do Brasil. A segunda parte, “A trama – 1835”, situa o leitor na Bahia, em plena Revolta dos Malês. O levante, conduzido por mulçumanos escravizados, objetivava a libertação de compatriotas, bem como o fim da opressão. No livro de Joel Rufino dos Santos, encontram-se novamente alguns personagens da revolta pernambucana de 1817 no cenário baiano, promovendo uma rasura histórica tão ao gosto do autor.

Joel Rufino dos Santos nasceu no Rio de Janeiro. Tendo participado, segundo Nei Lopes (2011), da “elaboração da revolucionária coleção de livros didáticos intitulada História nova, foi, por esse trabalho e por sua atuação política, várias vezes recolhido aos cárceres da ditadura militar instituída no Brasil em 1964”. Homem negro, Joel Rufino dos Santos é um nome expressivo na literatura e na cultura brasileiras em relação à discussão da questão racial. Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), teve também significativa atuação no campo da literatura infantil. Além dos citados, são dele também os livros O que é racismo? (1980), Quatro dias de rebelião (1980), Uma festa no céu (1982), entre outros. Crônica de indomáveis delírios possui apenas uma edição, de 1991, com duas capas diferentes. A primeira é ilustrada com a imagem da obra Portrait of Amami Samori Toure (1830 – 1900), do artista Pierre Castagnez. Amami Samori Toure foi um clérigo mulçumano e estrategista militar que resistiu ao domínio francês na África. Sua representação na capa da obra faz menção direta à Revolta dos Malês. Na segunda capa, de Júlio Zartos, há um personagem com uma máscara de Napoleão, insinuando tanto o mote inicial quanto o desfecho da narrativa. O livro deve ser lido por todos aqueles que se interessam pela história do Brasil, pelo fazer histórico propriamente dito, bem como pelas questões relativas às pessoas negras escravizadas no século XIX e sua releitura contemporânea.

Para saber mais

GÄRTNER, Mariléia (2006). Mulheres contando histórias de mulheres: o romance histórico brasileiro contemporâneo de autoria feminina. 2006. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Estadual Paulista. Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/103689. Acesso em: 13 abr. 2023.

JESUS, Flora de (2014). As cartas rufinianas: um diálogo inconcluso. Dissertação (Mestrado em Letras e Ciências Humanas) – Universidade do Grande Rio, Duque de Caxias. Disponível em: https://tede.unigranrio.edu.br/handle/tede/307. Acesso em: 13 abr. 2023.

LOPES, Nei. Joel Rufino dos Santos (2011). Dicionário literário afro-brasileiro. Disponível em: http://joelrufinodossantos.com.br/paginas/artigos/dicionario-literario-afro-brasileiro.asp. Acesso em: 25 fev. 2023.

MARTINS, Jonas Lara (2021). Repensando o negro no debate da formação social brasileira: a contribuição de Joel Rufino dos Santos. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos. Disponível em: https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/16134. Acesso em: 13 abr. 2023.

SANTOS, Joel Rufino dos (2013). Claros sussurros de celestes ventos. Rio de Janeiro: Bertrand, 2013.

SIMÕES JR., Álvaro Santos (2015). Um herdeiro de Lima Barreto. In: MOREIRA, Maria Eunice; DOVAL, Camila Canali (Orgs.). Leituras de literatura brasileira contemporânea. Porto Alegre: EDIPUCRS. p. 27-56.

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Como citar:

MOREIRA, Paula Renata.
Crônica de indomáveis delírios.

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Brasília. 

23 maio. 2024.

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1124.

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07 jun. 2026.