G.R.: Percebo que no Brasil os movimentos literários continuam a dividir e a suscitar sentimentos fortes. Qual é a sua posição?
C.N.: Os movimentos literários, Giovanni, eu os vejo de uma forma muito crítica, porque a poesia — a criação — é muito mais ampla do que qualquer movimento. Nós buscamos a vida através das palavras. Enquanto o movimento tenta abarcar apenas determinados espaços, a criação é o espaço total, a vida total, o pensamento total. Há uma grande ânsia na minha criação: a busca da poesia total.
O movimento que mais tentou marcar a minha geração, a geração de 60, foi o movimento concretista. Quando comecei como poeta, encontrei-o tomando conta dos espaços dos jornais com princípios dogmáticos como este: “quem não está conosco não tem salvação”; “quem não escreve como nós, não escreve poesia”. Muitos poetas da minha geração resolveram escrever diferente, porque exatamente nós descobrimos que a nossa salvação não estava em nenhum movimento determinado; a nossa salvação estava na palavra, no trabalho que a palavra merecia para dar uma visão do universo. O concretismo, para nós, foi um movimento de terrorismo cultural, que lançou sobre a literatura brasileira toneladas de teorias, muitas delas advindas do estrangeiro, querendo adaptar à nossa língua determinadas características de literaturas que pertenciam a uma outra língua, tentando aplicar a uma língua fonética — como é a língua portuguesa — a perspectiva de uma língua óptica, visual, como é, por exemplo, o chinês. A influência que a minha geração pode ter sofrido é a de Ezra Pound, Mallarmé, Cummings, jamais a influência deles, os concretistas.
Donde nós, que confiamos na palavra, estarmos inseridos numa tradição de poesia brasileira que vem de Mário de Andrade, de Carlos Drummond, de Murilo Mendes, de Jorge de Lima — o Modernismo —, que alcança João Cabral, Ledo Ivo e outros. Drummond vislumbrou genialmente que “havia uma pedra no meio do caminho”, e essa pedra é o mundo contemporâneo, é o homem diante do problema, diante da angústia, diante do tempo.
A minha geração busca remover essa pedra do meio do caminho; por isso, é uma geração épica: não contempla apenas o acontecimento, quer mudar o acontecimento, quer transformar as coisas, não aceita mais passivamente aquilo que nos impõem, mas quer dar uma visão própria, nova.
G.R.: E a sua relação com o movimento Práxis?
C.N.: Eu sou muito independente. O movimento Práxis é uma invenção do teórico Mário Chamie, que é talentoso. A própria poesia dele venceu todas as camisas de força, não se conformou com o movimento que ele mesmo estabeleceu. Porque a vida é muito mais forte do que qualquer camisa de força. A defesa de determinadas teorias muitas vezes consiste naquilo que o poeta gostaria de realizar. Nós, poetas, corremos riscos com a palavra, nós lutamos com a palavra e as palavras podem também nos atacar como animais, como se fossem feras.
G.R.: Qual é a sua relação com as palavras?
C.N.: É uma relação com a vida. A vida é muito mais ampla, mais espaçosa, mais larga. Nós, poetas, usamos a palavra como janela, como uma porta que se abre diante do desconhecido. A linguagem, para mim, é uma aventura do desconhecido e cada dia mais o poeta tem de adentrar no Universo.
G.R.: O processo criativo de seus poemas passa por muitas fases de elaboração?
C.N.: A poesia vai na minha frente. Eu tento acompanhá-la, segurá-la dentro de determinada forma, mas ela é muito mais forte do que eu. O que eu tenho visto é que as formas explodem quando a palavra busca existir na sua plenitude sobre a página. Jamais eu busco diretamente o sentido, o sentido é que me busca.
Quando começo um texto, não sei o que vai ser. Vou vendo o texto ir se formando à medida que as palavras vão me levando e o fio do pensamento vai correndo. De repente, eu vejo que o poema está pronto. Vejo também que os meus poemas começam a formar uma verdadeira comunidade, que é o livro, como aqueles jogos de armar da infância: começam-se a juntar e vê-se que o livro está pronto. Uma característica minha é que eu não sou apenas autor de poemas, eu sou autor de livros. Os poemas vivem independentemente, mas também em função da aldeia, que é o livro.
G.R.: O que você sente, fisicamente, quando surge um poema?
C.N.: Num primeiro movimento, sinto como se estivesse carregado de coisas que eu precisasse pôr fora. Fico carregado de emoção. É como se eu andasse em alta velocidade e, de repente, aquilo tudo começasse a vir ao papel.
Os poemas começam a se formar numa verdadeira explosão criadora. Depois, os poemas se assentam e os deixo esfriar, porque estão incandescentes. E vou aperfeiçoando o texto. O meu aperfeiçoamento é sobretudo tirar coisas, e, para esse trabalho, eu deixo que o tempo se acumule.
Algumas vezes, eu escrevo um livro em seis meses, mas só o publico depois de quatro anos.
G.R.: Quando você fala em livro, fala num conjunto de poemas?
C.N.: Sim! No Brasil, em regra, os poetas são autores de poemas. Eu me caracterizo por ser um autor de livros. Todos os meus livros vão formar um livro único e grande, um canto épico, dramático, lírico, pungente, do homem, da condição humana. Eu estou ligado à condição humana. Nessa medida, eu sou um poeta político, um poeta metafísico, lírico, épico.
G.R.: Há crises durante a criação literária?
C.N.: Sim, há crises, como há crises na vida, mas a crise é a parturição de algo maior. Fico o espaço de um ano sem escrever, como se estivesse imensamente cansado, mas, através de uma palavra ou outra, começa a brotar um novo livro, que se forma como uma teia de aranha.
Em certa medida, eu crio meus livros, mas também sou criado por eles. Tanto que eu, diferentemente dos outros autores, digo que nem sempre os livros são os meus filhos; às vezes, o livro é meu pai, porque eu cresço nele.
G.R.: Há momentos ideais para escrever?
C.N.: Há. Eu acredito na inspiração. O poema pode nascer dentro de um livro, quando já existem vários outros poemas e estou vivendo aquele clima e as palavras estão imantadas em mim, vivendo em mim. Depois de elas viverem em mim, vêm à baila. Posso escrever um poema caminhando pela calçada. Me aconteceu quando, promotor de justiça em Caxias do Sul, caminhava para o fórum: de repente, o poema começou a se misturar ao ruído de meus passos. Escrevi “Selos dos dias”, de Poço do calabouço:
Dias de verão
dias virão
a golpes secos de potros no chão
Não sei se já nasceram
Não sei onde se encontram
os dias que amo tanto
No cano do fuzil
ou no cano do espanto.
Dias virão virão
lobos de aragem e a todos morderão
com sua liberdade
Que o pássaro se apluma
nas penas desses pássaros
e irão dias brotando
aos ombros de outros ombros
até onde houver ombros
irão dias brotando.
Veja você que é um poema com passos. Tenho outro poema que dá o mesmo movimento de um cavalgar; é o último canto de meu livro O campeador e o vento, uma epopeia contemporânea do Rio Grande do Sul, em dez cantos.
No último, O campeador com as rédeas do tempo, fiz um poema sobre o vento, que se liga ao nosso minuano, vento do Rio Grande. Eu estava subindo de elevador e, na minha mente, o poema começava a correr. Cheguei ao escritório também correndo para anotar:
Quando os ventos forem caminhos
Quando os ventos forem sementes
Quando os cavalos forem moinhos
E a noite negra for transparente
Quando os ventos forem caminhos
Quando os barcos forem poentes
Quando os cavalos forem moinhos
Quando a noite tranquilamente
A minha vida cheia de ventos
Na tua vida feita semente
Quando o jugo com seus dentes
Quando os ventos forem caminhos
Seremos ventos e moinhos
Sombras esguias, ventos, moinhos
Moendo a noite nos seus caminhos.
Isso é o movimento de cavalos. Se estou no clima, o poema sai, não como eu quero, mas como ele quer.
G.R.: Quando você escreve, domina a vontade ou a neurose, o prazer da inteligência, da imaginação?
C.N.: Muito mais do que neurose, é o prazer de estar vivo, é uma vocação irresistível para a vida. O poema atravessa as barreiras, liga-se ao Universo, é outra espécie de universo, dentro da linguagem.
G.R.: Uma pergunta canônica: por que você escreve?
C.N.: Éuma pergunta interessante, que a cada dia me faço. Escrevo porque é uma forma de estar vivo, é uma forma de pensar a vida e também uma forma de consciência do universo.
Não posso aceitar passivamente os acontecimentos, porque nós vivemos num mundo automático, num mundo de coisas que nos são impostas, e o poema é um instante de consciência neste universo. Não é possível mais aceitarmos as coisas passivamente; temos de tentar mudá-las. No momento em que nós usamos a palavra, já estamos sendo a palavra, já estamos mudando o sentido das coisas, porque já estamos nos ligando à palavra originária e àquele que é a Palavra.
G.R.: Onde encontra estímulos para escrever?
C.N.: O estímulo para escrever, Giovanni, são as coisas exteriores que nos acontecem: uma tristeza, uma alegria, um acontecimento, alguma frustração, alguma vitória, a leitura de um poeta. Por sugestão, de repente, nós saímos daquele mundo para o nosso próprio universo, e assim nasce a poesia.
G.R.: Você escreve regularmente ou é possuído por raptos, improvisos?
C.N.: A criação inicial do poema é uma espécie de rapto seco do espírito, usando uma expressão de alguém. É um momento de arrebatamento espiritual com a palavra. Escrevo regularmente porque estou sempre trabalhando meus poemas depois de prontos. Nunca estou contente com o poema como ele é. A exigência é algo que cresce com o criador, é como se a gente estivesse subindo uma alta montanha, o ar ficando rarefeito; cada vez mais estamos descontentes com o que fazemos. O primeiro momento é o de explosão, e esse eu não toco. Toco depois, no momento de cristalização, em que entra a técnica, entra toda a minha experiência com a palavra, todo o conhecimento de arte poética. Mas o momento inicial é intacto.
G.R.: Qual o papel que o imprevisto desempenha em seu ato criador?
C.N.: O acaso, o imprevisto, é muito importante porque o poema se alimenta de imprevisto. Eu não sou um poeta que me sento à mesa para escrever determinado poema. Sou o poeta que escrevo o poema porque o poema está me escrevendo. O acaso cria versos, aperfeiçoa outros e até corrige a arte ou o erro dos tipógrafos. Numa prova do Livro dos viventes, livro meu de personagens, o verso original dizia: “Ninguém é Ulisses. E o acaso”. Por um erro gráfico, veio esta descoberta, altamente poética: “Ninguém é Ulisses por acaso”.
G.R.: Em sua vida de poeta, houve um acontecimento extremamente gratificante ou uma grande frustração?
C.N.: Sou um homem muito vivido. Tenho conhecido da vida a vertigem, o amor até as suas profundezas, muitas experiências, como se eu tivesse vivido muito tempo, como se estivesse vivendo muitos personagens. Num certo sentido, o homem vai envelhecendo, mas o poeta vai se tornando cada vez mais criança, porque a infância é uma espécie de história do futuro e a épica que eu busco é a épica do futuro, é a construção do futuro. Minha grande nostalgia é a nostalgia do futuro, e o tempo lógico é o meu principal personagem.
G.R.: Qual o livro dos outros que gostaria de ter escrito?
C.N.: Eu te confesso que não tenho essa nostalgia, não. Eu passo toda a vida para ser Carlos Nejar e serei toda a vida Carlos Nejar, mais gordo ou mais magro, alto ou baixo, mas vivo.
G.R.: Como se sente dentro da literatura brasileira, hoje?
C.N.: Eu me sinto com meu espaço. Com o dito pós-modernismo, a criação contemporânea brasileira não sabe mais pensar, não sabe mais ver, se perde mais nos enfeites da técnica (até cinematográfica) do que naquilo que permanece. E eu quero a eternidade, eu quero o que dura.
Não escrevo para ser consumido, escrevo para ser lido por muitas e muitas gerações, porque acredito no poder da palavra, no poder da História. As palavras obedecem ao grande vento da criação. Não vejo limites dentro do universo, embora eu veja limites em mim. A maturidade é a constatação dos limites, mas eu tento tirar dessas limitações o ilimitado.
Não é o poeta, acaso, aquele que é capaz de conciliar os contrários? A poesia é a arte de juntar a água com o fogo, depois tornar o fogo uma espécie de estrela ou uma constelação. As palavras aprendem a nos obedecer e nós também aprendemos a amar as palavras. E, de repente, é a elas que nós obedecemos. É difícil fazer a separação.
G.R.: Como o cotidiano influencia seu trabalho criador?
C.N.: O cotidiano é, para mim, um dia completamente novo. Os trabalhos, a vida no lar, o andar na rua. O cotidiano habita a minha poesia, embora aparentemente eu não seja um poeta do cotidiano. Mesmo o cotidiano entra sob outra forma, como perspectiva, como dimensão.
Eu não posso, por exemplo, falar do homem no tempo se eu não pensar o homem no dia, no ontem, no amanhã. Não posso separar o homem da fábrica do homem, do escritório de advocacia, porque o que eu busco é o homem, a condição humana, aquilo que permanece no homem e que o tempo não pode arrancar.
G.R.: Entre as palavras seguintes, gostaria que você escolhesse três e dissesse algo sobre elas: amor, cidade, poder, povo, solidão, solidariedade, prazer, violência, amizade, noite, silêncio.
C.N.: Amor, porque é a grande hélice da minha poesia e da minha vida. Povo, porque sou um poeta ligado à minha gente e à minha terra, sou um poeta ligado ao Rio Grande, ao Brasil. Acho que nós, poetas, temos de dar uma identidade nacional à nossa gente. O poeta é um ser coletivo e, num certo sentido, exprime o inconsciente coletivo porque usa a palavra, que é matéria coletiva. É como na beira de um lago, quando atiramos uma pedra: refletem-se os círculos concêntricos da pedra caindo. Silêncio, porque há muita precisão de silêncio entre as palavras, e o silêncio exprime o poema total, absoluto. Acho que a poesia — ao menos a minha — tem sede de absoluto, só pode repousar no absoluto, e o absoluto é a Palavra.
G.R.: Como você apresentaria sociológica e culturalmente seu núcleo familiar, seu meio social?
C.N.: Nasci em Porto Alegre em 1939, numa família de comerciantes. Meu pai, Sadi Nejar, filho de sírio com libanesa; minha mãe, dona de casa, filha de italiano com francesa. Meu nome completo é Luiz Carlos Verzoni Nejar, mas, no correr da minha vida, o poeta foi absorvendo tudo: eu separava o homem — advogado, promotor, procurador de justiça — e Carlos Nejar, o poeta.
Um dia, quando lecionava no interior, me perguntaram: “Quem é o tal de Carlos Nejar?”, eu disse que era meu primo-irmão. Mas depois o poeta foi absorvendo todas as coisas da minha vida e hoje sou talvez apenas o poeta Nejar, que, em árabe, significa carpinteiro, carpinteiro de palavras.
Meu meio social era até abastado, tive possibilidade de convívio com livros. Meu pai, não muito culto, mas muito curioso, tinha uma biblioteca vastíssima, e eu conheci Shakespeare, José de Alencar, os grandes poetas universais. Eu lia desde cedo e ficava maravilhado com o que as palavras escondiam. Vi que as palavras tinham aroma, cor, som. Depois eu comecei a descobrir que havia um mundo todo atrás das palavras, que eu queria descobrir de qualquer maneira.
O que me facilitou muito foi o desejo de meu pai de que eu adquirisse cultura. Entretanto, quando ele descobriu que eu era poeta, comecei a ter problema com a família. Poeta, para eles, era algo completamente fora do prático. Ele tinha me preparado para ser um homem de negócios. Fui um bom aluno na Faculdade de Direito. Ele começou a ver que eu podia ser poeta e ser alguma outra coisa que fosse meu ganha-pão, porque eu não podia viver de poesia.
Sempre desenvolvi este outro lado da minha personalidade: nunca fui um homem totalmente prático, mas aprendi a sobreviver como advogado, a ponto de o Direito também entrar na minha poesia. Talvez eu seja um dos poucos poetas em língua portuguesa a usar a linguagem jurídica, como na fase dos meus livros Danações, Ordenações, e Casa dos arreios. Éque apliquei a teoria de Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma. A linguagem jurídica tem o húmus medieval, é uma linguagem carregada de sentidos, poucas vezes utilizada na poesia; mas eu a usei, e isso é uma das características que marcaram a minha obra.
G.R.: Recebeu uma educação religiosa?
C.N.: Minha avó foi uma pessoa muito marcante na minha vida. Fui formado na religião católica; tenho um tio que é monsenhor. Todavia, no decorrer da vida, tive uma grande experiência com o Deus vivo, que mudou completamente a minha existência e que me marcou profundamente. Não foi na Igreja católica, foi numa Igreja evangélica. Hoje, se você me perguntar qual é a minha religião, digo: não tenho religião, tenho uma experiência profunda com o Deus vivo.
G.R.: Qual foi a grande encruzilhada de sua vida?
C.N.: Tive uma encruzilhada muito grande na minha vida, mas vamos falar em três encruzilhadas. A primeira: assim que eu me formei, foi a falência de meu pai, que me marcou muito, porque nós éramos uma família de grande prosperidade material e eu tive de lutar pela própria sobrevivência e ajudar meu pai nessa luta. Foi quando entrei na carreira de promotor de justiça, fui pelo interior do Rio Grande e conheci palmo a palmo a minha terra, o pampa brasileiro, os viventes, os seres da terra.
A segunda encruzilhada foi a separação da minha primeira esposa, de quem vim a me divorciar. Tive uma união com uma pessoa que vivia no exterior, não estávamos casados, e isso fez com que eu abandonasse toda uma estrutura que estava montada em minha vida, uma organização, um lar, várias outras coisas a que eu estava ligado, inclusive uma biblioteca maravilhosa que possuía. Mas eu tive a coragem de, por amor, me atirar ao desconhecido, o que me trouxe uma experiência completamente nova, poética por um lado; conheci momentos que quase me levaram à loucura. Vivendo no exterior, às vezes eu tinha de retornar à terra como uma forma de resistência, tal foi a vertigem que eu tive. Aconteceu de 1981 até 1984. Depois desse período, retornei ao Brasil e passei um tempo sozinho.
É a terceira encruzilhada. Separei-me daquela pessoa, porque senti que poderia ser destruído, e vim para o Rio Grande, a minha terra. Morei sozinho num hotel, depois numa casa mobiliada, em torno de três anos. Fui como me restaurando. Passei um tempo de silêncio necessário, praticamente quatro anos sem publicar livro. Uma necessidade minha, de buscar o fundo da coisa.
Depois de me aposentar como procurador de justiça, fui convidado a vir a Vitória para advogar. Aqui também me casei; já estou aqui há mais de dois anos. Gosto muito desta terra e deste povo que me acolheu e gosto também deste contato com a natureza. Eu saí de todo um mundo poluído, porque morei um tempo no Rio. Aqui é diferente, é uma cidade em que a gente pode viver com tranquilidade, livre de todos esses problemas.
Foi nesta fase, em Vitória, que enfrentei a luta da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito no primeiro escrutínio.
G.R.: Acho esquisito o termo luta: por quê?
C.N.: Juscelino Kubitschek dizia que sua maior luta não fora pela Presidência da República, mas pela Academia Brasileira de Letras, onde perdeu. Confesso que postulei a Cadeira nº 4, que hoje ocupo, sem poder econômico, sem poder político, apenas com o poder da poesia, e foi uma vitória em que senti que o Deus vivo pelejou por mim, porque um poeta entrar na Academia, apenas pela sua poesia, é um ato absolutamente poético.
G.R.: Como, quando e por que começou a escrever? Como e quando nasceu essa vocação de poeta?
C.N.: Eu tinha lá os meus 12 anos, lia muito na biblioteca de meu pai, mas não havia descoberto em mim a capacidade de escrever. Tentei homenagear minha primeira namorada (chamava-se Jussara, era uma vizinha, amiga de minha irmã), fazendo um acróstico e, de repente, vi que era capaz de fazê-lo e que as palavras funcionavam dentro do texto.
A partir daí, comecei a descobrir que havia um amor muito antigo das palavras comigo e de mim com as palavras, que continua e que vai continuar por toda a eternidade, até aquele que é a Palavra.
G.R.: Como conseguiu publicar seu primeiro livro?
C.N.: Publiquei por minha conta, na Editora Globo, com o dinheiro que meu pai colocava para mim na caderneta de poupança quando garoto. Verifiquei que tinha o dinheiro suficiente para publicar o livro. A capa foi feita por um grande artista gráfico, grande pintor, Valdeni Elias.
Meu primeiro livro chama-se Sélesis, uma invenção que vem da palavra selene, acrescida do sufixo grego sis. Fala do homem-cão, o homem morto na praia do mundo. A poesia nasceu exatamente de elementos míticos, primitivos: o mar é a eternidade; o sol é Deus; a praia é o mundo; e o cão é o homem — o mito do homem-cão, querendo o cetim e tendo de contentar-se com a terra.
Esse poema, básico na minha obra e que marcou a minha geração de 1960, nasceu quando fui à praia de Tramandaí, perto de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, passar as férias, decepcionado com a separação da namorada. Vi na praia um cão morto e pensei: o homem é um cão, eu sou um cão. Dessa ideia, parti para uma ideia universal — o homem é um cão — e desenvolvi esse poema em que vejo o mar ir levando o cão pela eternidade.
G.R.: Você aceitaria, com salário fixo, escrever exclusivamente para uma editora?
C.N.: É difícil responder num sentido geral. Eu, na verdade, sou muito escritor, e só nessa medida é que escrevo. Não gosto de escrever sobre temas determinados; são os temas determinados que me escrevem. Não gosto de trabalhos sob encomenda, mas não quero dizer que não faça. Tenho aqui uma coluna de crítica, na Gazeta, jornal de Vitória, onde semanalmente publico uma crônica.
G.R.: O que pensa da propaganda? A poesia necessita dela? O que é que faz o sucesso de um livro?
C.N.: Hoje há uma verdadeira doença infantil da dita comunicação. Há escritores, há poetas que tentam facilitar, para serem alcançados pelo público, para serem consumidos. Eu tento escrever para a eternidade; então, isso não me preocupa muito. É lógico que o poeta inventa os seus leitores, e os leitores inventam o seu poeta, mas a poesia, por ser um meio de conhecimento, tem leitores mais exigentes. O leitor não busca na poesia um mero entretenimento — busca uma visão. Hoje, depois de 30 anos de poesia, já tenho o meu público.
G.R.: Quando escreve, percebe autocensuras, temores em se revelar?
C.N.: Não. Para mim, escrever é um exercício tão pleno de liberdade que não vejo porteiras nesse campo.
G.R.: Um autorretrato: quem é Carlos Nejar?
C.N.: Éalguém que quer viver intensamente o seu tempo. É um homem comum, que quer buscar o que existe de comum dentro da condição humana; que ama as palavras, porque as palavras primeiro o amaram; que quer exprimir este tempo, porque o tempo pode levá-lo para a eternidade e que ama muito o Brasil e quer dar, como outros artistas, um rosto, uma identidade a este país, ao Estado onde nasceu, que é o pampa.
É um homem que vê na linguagem uma grande aventura do espírito, que também sabe que sofre toda a precariedade de ser humano, mas está voltado para o movimento das estrelas, não acredita que o espírito do homem possa morrer, porque sabe que a eternidade está começando agora.
Para saber mais
BARCELOS, Carolina Montebelo (2025). Um certo Jaques Netan. Resenha de:NEJAR, Carlos. Um certo Jaques Netan. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=4121. Acesso em: 16 jan. 2026.
FREITAS, Cibele Beirith Figueiredo (2009). Ronald de Carvalho, Érico Veríssimo, Carlos Nejar: um olhar sobre a organização de três Histórias da Literatura Brasileira. Letrônica, Porto Alegre, v. 2, n. 2, p. 181-194, 2009. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/letronica/article/view/5721. Acesso em: 16 jan. 2026.
* Apresentação do autor feito por Giovanni Ricciardi na obra O escritor corporal. Uma sociologia para a literatura, Foz do Iguaçu: EdUnila, 2021.
** Ela foi previamente publicada na obra Biografia e criação literária. Vol. 1: escritores da Academia Brasileira de Letras – Entrevistas. Rio de Janeiro: Nitpress ABL, 2008.