Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Benedicto Monteiro

Alenquer (PA), 1924 – Belém (PA), 2008
Advogado agrarista de Alenquer (PA), homem público. Em 1945, publicou um primeiro livro de poesia, Bandeira branca, mas foi depois de 1964 que publicou seus romances Verde vagomundo (1972), O minossauro (1975), Terceira margem (1983) e Aquele um (1985) com um mesmo protagonista, Miguel dos Santos Prazeres, um cantador popular e eficaz à la manière dos cantadores nordestinos, protagonista daquele ABC amazônico que caracteriza toda a sua obra, toda ela descrita em defesa da liberdade*.
Ilustração: Francisco Dalcastagnè Miguel

G.R.: Como apresentaria sociológica e culturalmente seu núcleo familiar de origem e o meio ambiente?

B.M.: Meus pais, Ludgero Burlamaqui Monteiro e Heribertina Batista Monteiro, eram descendentes de fazendeiros e proprietários no município de Alenquer, no estado do Pará, no coração da Amazônia. Nesse ambiente eu vivi toda a minha infância. Nasci em Alenquer em 1º de março de 1924. A cidade fica na beira de um igarapé, afluente do rio Amazonas, e situa-se a meio caminho entre Belém, capital do estado do Pará, e Manaus, capital do estado do Amazonas. Está a cerca de 800 quilômetros de distância das duas capitais. Fica, portanto, no coração da Amazônia, na margem esquerda do rio-mar. Só se pode chegar lá por navio ou avião. Passei nela, e nas várzeas do município, toda minha infância. O ambiente é o mesmo que tanto descrevo em meus romances, dos quais ela é sempre uma grande personagem. Não conheci os meus avós. Meus pais também nasceram em Alenquer e, como já disse, são filhos de duas famílias tradicionais de proprietários e fazendeiros, de quem receberam heranças que se multiplicaram com o trabalho de ambos. Todos dois morreram com mais de 80 anos, depois de completos cinquenta anos de casados. Somos seis irmãos, dois homens e quatro mulheres, sendo uma freira carmelita descalça e as outras três casadas. Tenho um irmão que é engenheiro agrônomo, casado e que vive em Brasília. Temos pouca convivência, porque estudei em Belém, no colégio interno dos irmãos Marista, e fiz o restante do ginásio e parte da Faculdade de Direito no Rio de Janeiro, quando ainda era capital do país.

G.R.: Lembra de um episódio, gostoso ou dramático, deste primeiro período de sua vida? Quanto dessa vivência está presente em seus escritos?

B.M.: Creio que a experiência que mais me lembro é o ato sexual coletivo exercitado pela garotada do meu tempo em sexo de barro desenhado em argila mole dos barrancos do rio que margeia a cidade de Alenquer. Quanto à vivência desse período, está presente em quase todos os meus escritos relacionados com a Amazônia.

G.R.: Como era a relação com seus pais? Qual o tipo de educação recebida?

B.M.: O meu relacionamento com os meus pais foi um relacionamento normal. Eu recebi um tipo de educação católica. Minha mãe, que era uma matriarca, tentou direcionar a minha educação e influir até nos meus primeiros escritos. Tentou influir na escolha de minha noiva mas, apesar disso, tivemos uma convivência respeitosa. Creio que ela morreu aos 83 anos sem conseguir ter o filho que desejava.

G.R.: Qual a biblioteca, as leituras de seus “verdes anos”?

B.M.: A cidade onde nasci e vivi a minha infância não tinha nem uma arremedo de biblioteca. Não tive leituras nos meus “verdes anos”, a não ser os livros didáticos de leitura na escola e os livros de orações da igreja.

G.R.: Repassando na memória esse período de formação, encontra a figura de um “mestre”, de um modelo de vida?

B.M.: Os professores da minha infância só me marcaram pelos rigores dos castigos que eu sempre recebia pelo meu temperamento rebelde.

G.R.: Como, quando e por que começou a escrever? Como nasceu a vocação de escritor?

B.M.: Comecei a ler e escrever no internato do Colégio Nossa Senhora de Nazaré, dos Irmãos Marista, em Belém. Não sei dizer como nasceu a minha vocação de escritor. Creio que quando dei por mim, já estava escrevendo.

G.R.: Sobre seu primeiro livro publicado, considera-o um sucesso, um insucesso, um marco determinante em sua vida?

B.M.: Meu primeiro livro publicado é um livro de poesia, Bandeira branca, que foi editado no Rio de Janeiro, quando ainda era a capital do Brasil. Não chegou a ser um marco na minha vida, pois eu o publiquei aos 18 anos e só fui continuar a escrever literatura a partir dos 40. Apesar da boa crítica recebida, não teve sucesso de vendagem.

G.R.: Quando considera ter acabado seu período de aprendizagem? Como e quando tomou consciência de que um período da sua vida se acabou?

B.M.: Apesar de meus 63 anos não considero ter acabado a minha mocidade e nem o meu período de aprendizagem. Confesso que fiquei profundamente surpreendido quando um dia, andando de carro pela cidade, ia batendo noutro veículo e o motorista me encarou com muita segurança e disse: “Tamanho velho ainda não aprendeu a guiar”. Só aí fui considerar que já tinha passado dos 50 anos. Mesmo assim, até hoje não sei dividir os períodos da minha infância, da minha juventude, da minha mocidade e da minha maturidade.

G.R.: Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento que o marcou determinantemente?

B.M.: Houve sim. Foi quando cassaram o meu mandato de deputado estadual e suspenderam os meus direitos políticos com o golpe militar de 1964. Aí eu tive a minha carreira política interrompida por 18 anos e o meu reencontro com a literatura. Escrevi a partir daí todos os meus livros, e estou coordenando um romance autobiográfico, no qual narro essa minha experiência.

G.R.: Hoje você é escritor. Pode viver só do trabalho da escrita? Precisa de outra profissão? Qual é? Como vive as duas carreiras?

B.M.: Se quisesse, já podia viver exclusivamente de meu trabalho escrito. Mas os meus compromissos políticos me impediram de me dedicar exclusivamente à literatura. Sou advogado agrarista, e voltei à política reeleito deputado federal, hoje Constituinte. Estou em Brasília, debatendo e escrevendo uma nova Constituição para o Brasil. Apesar disso são poucos os escritores no Brasil que vivem exclusivamente dos seus trabalhos escritos. Por enquanto, não pude compatibilizar a minha carreira política com a minha produção literária.

G.R.: O processo criativo de seus livros passa por muitas fases de elaboração? Pode dizer como escreveu um de seus livros? Como surge, como se origina um livro ou um texto?

B.M.: Todos os meus livros de ficção surgiram a partir da linguagem. Antes de 1964, estava pesquisando a linguagem da Amazônia e estava projetando escrever uma tese de linguística para fazer o mestrado na universidade. Durante muitos anos, pesquisei e colecionei centenas de conversas do interior do Pará. Gravei dezenas de fitas e fiz centenas de fichas contendo esse material. Com o golpe de Estado de 1964, minha casa foi invadida e minha biblioteca saqueada pelos militares e pela polícia. Entre livros, documentos e escritos, os militares levaram todo o material pesquisado. Como não pude recuperar esse acervo, acabei utilizando o que me restava na memória para recriar uma linguagem típica da nossa região amazônica nos meus romances, nos meus contos e nos meus personagens, que são recriados a partir dessa linguagem.

G.R.: Qual é a sua relação com a escrita, com a palavra, com o estilo?

B.M.: Eu tinha uma relação muito intensa com a palavra e uma relação muito dinâmica com a escrita. A palavra é minha matéria-prima e a escrita é o laboratório dessa matéria. Para lidar com a palavra e acionar o laboratório, eu uso sempre a linguagem. A linguagem é que é o meu estilo.

G.R.: Por que escreve?

B.M.: Porque escrever para mim é o exercício da minha mais intensa liberdade.

G.R.: Em seu específico trabalho criador, prevalece a continuidade ou a interrupção? Há crises? Com que as identifica?

B.M.: No trabalho, não identifico nenhuma interrupção implícita. Ele só se interrompe pelos fatos circunstanciais da vida, como o meu trabalho de advogado, minha condição de marido e pai. Nunca tive crises para escrever.

G.R.: Há momentos felizes ou ideais para escrever?

B.M.: Não tenho momentos para escrever. Se tivesse necessidade desses momentos para escrever, não teria qualquer produção literária. Escrevo a qualquer hora e em qualquer lugar, desde que sinta necessidade. Leio e escrevo geralmente na rede, depois passo o manuscrito para a máquina.

G.R.: Quando escreve é a vontade que puxa a escrita? A neurose? O prazer da inteligência ou da fantasia?

B.M.: Já disse: escrever para mim é o exercício da minha mais intensa liberdade.

G.R.: Onde encontra estímulos e pretextos para escrever?Poderia exemplificar concretamente com os seus escritos?

B.M.: Para mim, o grande estímulo para escrever é o homem amazônico e o mundo amazônico.

G.R.: Escreve metodicamente todos os dias ou é possuído por êxtases repentinos?

B.M.: Escrevo irregularmente, mas todos os dias e todas as horas que posso.

G.R.: Qual é o papel que o imprevisto (emocional, político, social) desenvolve em seu trabalho criador?

B.M.: O imprevisto emocional, político e social não entra na minha obra.

G.R.: Existe, analogamente ao prazer do texto, o prazer de escrever?

B.M.: Repito mais uma vez: escrever, para mim, é o exercício da minha mais intensa liberdade. Escrevendo eu faço tudo o que eu tenho e não tenho direito. O que devo e não devo, o que posso e não posso, o que quero e não quero. Tudo livremente.

G.R.: Qual é o livro dos outros que gostaria de ter escrito e por quê?

B.M.: Nunca me passou pela cabeça escrever um livro que não fosse meu. Na escrita, a realidade não é objetiva, ela é profundamente subjetiva.

G.R.: Como se sente dentro da literatura brasileira, hoje?

B.M.: Com uma linguagem própria.

G.R.: O que pensa dessa literatura?

B.M.: Penso que a literatura brasileira mal chega às universidades. É uma cultura de elite, ainda não comercializada. Qualquer cantorzinho da moda ou jogador de cartaz, [de renome] tem mais espaço nos meios de comunicação de massa que o melhor de todos os nossos escritores.

G.R.: Qual o futuro dessa literatura?

B.M.: Dos 130 milhões de brasileiros, são raríssimas as pessoas que se interessam por literatura. Basta dizer que a edição de qualquer livro é no máximo de 6 mil exemplares. O futuro da nossa literatura está profundamente ligado ao futuro da nossa educação.

G.R.: A rotina cotidiana – a família, os filhos, a outra profissão – como e quanto influencia ou interfere na sua vida de escritor? É causa de tranquilidade e segurança ou é causa de neurose?

B.M.: O cotidiano não interfere em nada no meu trabalho de escritor. A não ser, me tirando o tempo para escrever.

G.R.: Entre as palavras seguintes: amor, cidade, poder, povo, solidão, solidariedade, prazer, violência, amizade, noite e silêncio, escolha três e diga alguma coisa sobre elas.

B.M.: Acho que sem o amor é impossível a vida. O poder modifica as pessoas: divide as criaturas e revela o verdadeiro caráter dos homens. A solidariedade está acima do amor e da amizade e deve ser o maior sentimento do ser humano.

G.R.: Como conseguiu publicar seu primeiro livro? Enviou o manuscrito? Foi apresentado por amigos? Participou das despesas?

B.M.: Publiquei todos os meus livros por edição cooperativa. O contrato de edição no Brasil é um contrato leonino. A editora paga apenas 10% do preço da capa e não há ajuste de conta.

G.R.: Mudou de editora? Por quê?

B.M.: Não tenho casa editorial definitiva.

G.R.: Algum editor propôs-lhe escrever exclusivamente com salário fixo mensal? Aceitaria a ideia?

B.M.: Não aceitei.

G.R.: Quando escreve, pensa no editor, no público, nos críticos?

B.M.: Não. Não penso em nada a não ser na vida dos personagens.

G.R.: Discute com o editor, aceita conselhos, cortes, sabendo que ele conhece o mercado?

B.M.: Não. Não discuto com ninguém.

G.R.: Acredita que a publicidade seja necessária para o lançamento de um livro ou pensa que o bom livro não precise dela?

B.M.: A publicidade é importantíssima para o lançamento de qualquer coisa no circuito comercial.

G.R.: Participa do lançamento de seus livros (noites de autógrafos, entrevistas, palestras)? Acha importante autopromover-se?

B.M.: Participo e acho que o lançamento de um livro com autógrafos, ainda é, no Brasil, a única forma de promoção literária.

G.R.: Quando escreve percebe autocensuras, temores em se revelar, laços, impedimentos?

B.M.: Não. Não tenho e nem percebo tais temores, laços, autocensuras ou impedimentos.

G.R.: O sucesso de uma obra depende de quê, de quem?

B.M.: O sucesso comercial da obra depende fundamentalmente da publicidade, da distribuição e de sua comercialização. Quanto ao sucesso literário, depende dela própria.

G.R.: Faça conta de nada ter dito até agora. Poderia traçar o seu perfil humano e profissional (enquanto escritor) para os leitores?

B.M.: Acho que escrever é a única forma que o ser humano tem de ser absolutamente livre. É a única forma que o ser humano tem de se aproximar de Deus. É a única forma de poder absoluto e de atingir a imortalidade. Até agora eu só consegui ser livre.

Para saber mais

CASTRO, José Guilherme de Oliveira; ALMEIDA, Luis Fernando Ribeiro; CASTRO, Milena Silva (2024). A magia dos objetos na narrativa de Benedicto Monteiro. Sentidos da Cultura, Belém, v. 11, n. 21, p. 31-45. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/sentidos/article/view/9860. Acesso em: 16 jan. 2026.

FURTADO, Marlí Tereza; NASCIMENTO, Maria de Fátima (2003). Dalcídio Jurandir e Benedicto Monteiro: a incorporação estética do imaginário popular. Moara, Belém, n. 20, p.131-146, jul./dez. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18542/moara.v2i20.3201. Acesso em: 15 jan. 2026.

HAMPEL, Juliana Florentino (2025). Aquele um. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília. 26 mar. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=4171. Acesso em: 15 jan. 2026.

NASCIMENTO, Maria de Fátima (2007). Narradores-escritores-copiadores em três romances de Benedicto Monteiro. Moara, Belém, n. 27, p. 96-110, jan./jul. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18542/moara.v2i27.3334. Acesso em: 15 jan. 2026.

* Apresentação do autor feita por Giovanni Ricciardi na obra O escritor corpoal. Uma sociologia para a literatura. Foz do Iguaçu: EdUnila, 2021.

** Ela foi previamente publicada na obra Biografia e criação literária. Vol.VI: escritores do Norte e Nordeste – Entrevistas. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2009.

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Como citar:

SOBRENOME, Nome.
Entrevista concedida a Nome Sobrenome.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

27 maio. 2026.

Disponível em:

8219.

Acessado em:

07 jun. 2026.