G.R.: Como apresentaria sociológica e culturalmente seu núcleo familiar de origem e o meio ambiente?
B.M.: Meus pais, Ludgero Burlamaqui Monteiro e Heribertina Batista Monteiro, eram descendentes de fazendeiros e proprietários no município de Alenquer, no estado do Pará, no coração da Amazônia. Nesse ambiente eu vivi toda a minha infância. Nasci em Alenquer em 1º de março de 1924. A cidade fica na beira de um igarapé, afluente do rio Amazonas, e situa-se a meio caminho entre Belém, capital do estado do Pará, e Manaus, capital do estado do Amazonas. Está a cerca de 800 quilômetros de distância das duas capitais. Fica, portanto, no coração da Amazônia, na margem esquerda do rio-mar. Só se pode chegar lá por navio ou avião. Passei nela, e nas várzeas do município, toda minha infância. O ambiente é o mesmo que tanto descrevo em meus romances, dos quais ela é sempre uma grande personagem. Não conheci os meus avós. Meus pais também nasceram em Alenquer e, como já disse, são filhos de duas famílias tradicionais de proprietários e fazendeiros, de quem receberam heranças que se multiplicaram com o trabalho de ambos. Todos dois morreram com mais de 80 anos, depois de completos cinquenta anos de casados. Somos seis irmãos, dois homens e quatro mulheres, sendo uma freira carmelita descalça e as outras três casadas. Tenho um irmão que é engenheiro agrônomo, casado e que vive em Brasília. Temos pouca convivência, porque estudei em Belém, no colégio interno dos irmãos Marista, e fiz o restante do ginásio e parte da Faculdade de Direito no Rio de Janeiro, quando ainda era capital do país.
G.R.: Lembra de um episódio, gostoso ou dramático, deste primeiro período de sua vida? Quanto dessa vivência está presente em seus escritos?
B.M.: Creio que a experiência que mais me lembro é o ato sexual coletivo exercitado pela garotada do meu tempo em sexo de barro desenhado em argila mole dos barrancos do rio que margeia a cidade de Alenquer. Quanto à vivência desse período, está presente em quase todos os meus escritos relacionados com a Amazônia.
G.R.: Como era a relação com seus pais? Qual o tipo de educação recebida?
B.M.: O meu relacionamento com os meus pais foi um relacionamento normal. Eu recebi um tipo de educação católica. Minha mãe, que era uma matriarca, tentou direcionar a minha educação e influir até nos meus primeiros escritos. Tentou influir na escolha de minha noiva mas, apesar disso, tivemos uma convivência respeitosa. Creio que ela morreu aos 83 anos sem conseguir ter o filho que desejava.
G.R.: Qual a biblioteca, as leituras de seus “verdes anos”?
B.M.: A cidade onde nasci e vivi a minha infância não tinha nem uma arremedo de biblioteca. Não tive leituras nos meus “verdes anos”, a não ser os livros didáticos de leitura na escola e os livros de orações da igreja.
G.R.: Repassando na memória esse período de formação, encontra a figura de um “mestre”, de um modelo de vida?
B.M.: Os professores da minha infância só me marcaram pelos rigores dos castigos que eu sempre recebia pelo meu temperamento rebelde.
G.R.: Como, quando e por que começou a escrever? Como nasceu a vocação de escritor?
B.M.: Comecei a ler e escrever no internato do Colégio Nossa Senhora de Nazaré, dos Irmãos Marista, em Belém. Não sei dizer como nasceu a minha vocação de escritor. Creio que quando dei por mim, já estava escrevendo.
G.R.: Sobre seu primeiro livro publicado, considera-o um sucesso, um insucesso, um marco determinante em sua vida?
B.M.: Meu primeiro livro publicado é um livro de poesia, Bandeira branca, que foi editado no Rio de Janeiro, quando ainda era a capital do Brasil. Não chegou a ser um marco na minha vida, pois eu o publiquei aos 18 anos e só fui continuar a escrever literatura a partir dos 40. Apesar da boa crítica recebida, não teve sucesso de vendagem.
G.R.: Quando considera ter acabado seu período de aprendizagem? Como e quando tomou consciência de que um período da sua vida se acabou?
B.M.: Apesar de meus 63 anos não considero ter acabado a minha mocidade e nem o meu período de aprendizagem. Confesso que fiquei profundamente surpreendido quando um dia, andando de carro pela cidade, ia batendo noutro veículo e o motorista me encarou com muita segurança e disse: “Tamanho velho ainda não aprendeu a guiar”. Só aí fui considerar que já tinha passado dos 50 anos. Mesmo assim, até hoje não sei dividir os períodos da minha infância, da minha juventude, da minha mocidade e da minha maturidade.
G.R.: Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento que o marcou determinantemente?
B.M.: Houve sim. Foi quando cassaram o meu mandato de deputado estadual e suspenderam os meus direitos políticos com o golpe militar de 1964. Aí eu tive a minha carreira política interrompida por 18 anos e o meu reencontro com a literatura. Escrevi a partir daí todos os meus livros, e estou coordenando um romance autobiográfico, no qual narro essa minha experiência.
G.R.: Hoje você é escritor. Pode viver só do trabalho da escrita? Precisa de outra profissão? Qual é? Como vive as duas carreiras?
B.M.: Se quisesse, já podia viver exclusivamente de meu trabalho escrito. Mas os meus compromissos políticos me impediram de me dedicar exclusivamente à literatura. Sou advogado agrarista, e voltei à política reeleito deputado federal, hoje Constituinte. Estou em Brasília, debatendo e escrevendo uma nova Constituição para o Brasil. Apesar disso são poucos os escritores no Brasil que vivem exclusivamente dos seus trabalhos escritos. Por enquanto, não pude compatibilizar a minha carreira política com a minha produção literária.
G.R.: O processo criativo de seus livros passa por muitas fases de elaboração? Pode dizer como escreveu um de seus livros? Como surge, como se origina um livro ou um texto?
B.M.: Todos os meus livros de ficção surgiram a partir da linguagem. Antes de 1964, estava pesquisando a linguagem da Amazônia e estava projetando escrever uma tese de linguística para fazer o mestrado na universidade. Durante muitos anos, pesquisei e colecionei centenas de conversas do interior do Pará. Gravei dezenas de fitas e fiz centenas de fichas contendo esse material. Com o golpe de Estado de 1964, minha casa foi invadida e minha biblioteca saqueada pelos militares e pela polícia. Entre livros, documentos e escritos, os militares levaram todo o material pesquisado. Como não pude recuperar esse acervo, acabei utilizando o que me restava na memória para recriar uma linguagem típica da nossa região amazônica nos meus romances, nos meus contos e nos meus personagens, que são recriados a partir dessa linguagem.
G.R.: Qual é a sua relação com a escrita, com a palavra, com o estilo?
B.M.: Eu tinha uma relação muito intensa com a palavra e uma relação muito dinâmica com a escrita. A palavra é minha matéria-prima e a escrita é o laboratório dessa matéria. Para lidar com a palavra e acionar o laboratório, eu uso sempre a linguagem. A linguagem é que é o meu estilo.
G.R.: Por que escreve?
B.M.: Porque escrever para mim é o exercício da minha mais intensa liberdade.
G.R.: Em seu específico trabalho criador, prevalece a continuidade ou a interrupção? Há crises? Com que as identifica?
B.M.: No trabalho, não identifico nenhuma interrupção implícita. Ele só se interrompe pelos fatos circunstanciais da vida, como o meu trabalho de advogado, minha condição de marido e pai. Nunca tive crises para escrever.
G.R.: Há momentos felizes ou ideais para escrever?
B.M.: Não tenho momentos para escrever. Se tivesse necessidade desses momentos para escrever, não teria qualquer produção literária. Escrevo a qualquer hora e em qualquer lugar, desde que sinta necessidade. Leio e escrevo geralmente na rede, depois passo o manuscrito para a máquina.
G.R.: Quando escreve é a vontade que puxa a escrita? A neurose? O prazer da inteligência ou da fantasia?
B.M.: Já disse: escrever para mim é o exercício da minha mais intensa liberdade.
G.R.: Onde encontra estímulos e pretextos para escrever?Poderia exemplificar concretamente com os seus escritos?
B.M.: Para mim, o grande estímulo para escrever é o homem amazônico e o mundo amazônico.
G.R.: Escreve metodicamente todos os dias ou é possuído por êxtases repentinos?
B.M.: Escrevo irregularmente, mas todos os dias e todas as horas que posso.
G.R.: Qual é o papel que o imprevisto (emocional, político, social) desenvolve em seu trabalho criador?
B.M.: O imprevisto emocional, político e social não entra na minha obra.
G.R.: Existe, analogamente ao prazer do texto, o prazer de escrever?
B.M.: Repito mais uma vez: escrever, para mim, é o exercício da minha mais intensa liberdade. Escrevendo eu faço tudo o que eu tenho e não tenho direito. O que devo e não devo, o que posso e não posso, o que quero e não quero. Tudo livremente.
G.R.: Qual é o livro dos outros que gostaria de ter escrito e por quê?
B.M.: Nunca me passou pela cabeça escrever um livro que não fosse meu. Na escrita, a realidade não é objetiva, ela é profundamente subjetiva.
G.R.: Como se sente dentro da literatura brasileira, hoje?
B.M.: Com uma linguagem própria.
G.R.: O que pensa dessa literatura?
B.M.: Penso que a literatura brasileira mal chega às universidades. É uma cultura de elite, ainda não comercializada. Qualquer cantorzinho da moda ou jogador de cartaz, [de renome] tem mais espaço nos meios de comunicação de massa que o melhor de todos os nossos escritores.
G.R.: Qual o futuro dessa literatura?
B.M.: Dos 130 milhões de brasileiros, são raríssimas as pessoas que se interessam por literatura. Basta dizer que a edição de qualquer livro é no máximo de 6 mil exemplares. O futuro da nossa literatura está profundamente ligado ao futuro da nossa educação.
G.R.: A rotina cotidiana – a família, os filhos, a outra profissão – como e quanto influencia ou interfere na sua vida de escritor? É causa de tranquilidade e segurança ou é causa de neurose?
B.M.: O cotidiano não interfere em nada no meu trabalho de escritor. A não ser, me tirando o tempo para escrever.
G.R.: Entre as palavras seguintes: amor, cidade, poder, povo, solidão, solidariedade, prazer, violência, amizade, noite e silêncio, escolha três e diga alguma coisa sobre elas.
B.M.: Acho que sem o amor é impossível a vida. O poder modifica as pessoas: divide as criaturas e revela o verdadeiro caráter dos homens. A solidariedade está acima do amor e da amizade e deve ser o maior sentimento do ser humano.
G.R.: Como conseguiu publicar seu primeiro livro? Enviou o manuscrito? Foi apresentado por amigos? Participou das despesas?
B.M.: Publiquei todos os meus livros por edição cooperativa. O contrato de edição no Brasil é um contrato leonino. A editora paga apenas 10% do preço da capa e não há ajuste de conta.
G.R.: Mudou de editora? Por quê?
B.M.: Não tenho casa editorial definitiva.
G.R.: Algum editor propôs-lhe escrever exclusivamente com salário fixo mensal? Aceitaria a ideia?
B.M.: Não aceitei.
G.R.: Quando escreve, pensa no editor, no público, nos críticos?
B.M.: Não. Não penso em nada a não ser na vida dos personagens.
G.R.: Discute com o editor, aceita conselhos, cortes, sabendo que ele conhece o mercado?
B.M.: Não. Não discuto com ninguém.
G.R.: Acredita que a publicidade seja necessária para o lançamento de um livro ou pensa que o bom livro não precise dela?
B.M.: A publicidade é importantíssima para o lançamento de qualquer coisa no circuito comercial.
G.R.: Participa do lançamento de seus livros (noites de autógrafos, entrevistas, palestras)? Acha importante autopromover-se?
B.M.: Participo e acho que o lançamento de um livro com autógrafos, ainda é, no Brasil, a única forma de promoção literária.
G.R.: Quando escreve percebe autocensuras, temores em se revelar, laços, impedimentos?
B.M.: Não. Não tenho e nem percebo tais temores, laços, autocensuras ou impedimentos.
G.R.: O sucesso de uma obra depende de quê, de quem?
B.M.: O sucesso comercial da obra depende fundamentalmente da publicidade, da distribuição e de sua comercialização. Quanto ao sucesso literário, depende dela própria.
G.R.: Faça conta de nada ter dito até agora. Poderia traçar o seu perfil humano e profissional (enquanto escritor) para os leitores?
B.M.: Acho que escrever é a única forma que o ser humano tem de ser absolutamente livre. É a única forma que o ser humano tem de se aproximar de Deus. É a única forma de poder absoluto e de atingir a imortalidade. Até agora eu só consegui ser livre.
Para saber mais
CASTRO, José Guilherme de Oliveira; ALMEIDA, Luis Fernando Ribeiro; CASTRO, Milena Silva (2024). A magia dos objetos na narrativa de Benedicto Monteiro. Sentidos da Cultura, Belém, v. 11, n. 21, p. 31-45. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/sentidos/article/view/9860. Acesso em: 16 jan. 2026.
FURTADO, Marlí Tereza; NASCIMENTO, Maria de Fátima (2003). Dalcídio Jurandir e Benedicto Monteiro: a incorporação estética do imaginário popular. Moara, Belém, n. 20, p.131-146, jul./dez. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18542/moara.v2i20.3201. Acesso em: 15 jan. 2026.
HAMPEL, Juliana Florentino (2025). Aquele um. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília. 26 mar. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=4171. Acesso em: 15 jan. 2026.
NASCIMENTO, Maria de Fátima (2007). Narradores-escritores-copiadores em três romances de Benedicto Monteiro. Moara, Belém, n. 27, p. 96-110, jan./jul. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18542/moara.v2i27.3334. Acesso em: 15 jan. 2026.
* Apresentação do autor feita por Giovanni Ricciardi na obra O escritor corpoal. Uma sociologia para a literatura. Foz do Iguaçu: EdUnila, 2021.
** Ela foi previamente publicada na obra Biografia e criação literária. Vol.VI: escritores do Norte e Nordeste – Entrevistas. Lauro de Freitas, BA: Livro.com, 2009.