Mapeamento Crítico da Literatura Brasileira Contemporânea

Adélia Prado

Divinópolis (MG) 1935
Autora de poesia e prosa, debuta na literatura com o livro Bagagem (1976), no qual já demonstra a força e a originalidade de sua poesia, numa mistura peculiar de confessional erótico e religiosidade cristã. Pertencem a um segundo momento de sua obra, os livros O coração disparado (1978), Terra de Santa Cruz (1981), O pelicano (1987), A faca no peito (1988), Poesia reunida (1991) e Oráculos de maio (1990)*.
Ilustração: Francisco Dalcastagnè Miguel

Giovanni Ricciardi: Adélia Prado, você é conhecida em todo o Brasil, mas não vive no eixo Rio-São Paulo. Há possibilidade de fazer poesia e de ser conhecida fora do eixo?

Adélia Prado: Sim. Eu acredito que no caso da literatura, já que escrever é um exercício solitário, eu não precise de um local de exposições, como se eu fosse um pintor que necessitasse de um centro maior para levar as coisas. Aqui, a única coisa que eu tenho a fazer é escrever e depois enviar os originais. E, como tudo o que acontece em qualquer lugar do mundo, acontece em Divinópolis (as paixões humanas, as boas e as más estão todas aqui representadas, vividas); então eu não preciso sair do meu quintal pra fazer literatura. Tanto faz eu estar aqui ou no centro do mundo, o que acontece aqui, acontece no mundo. Eu fui descoberta por aquilo que eu fazia aqui; simplesmente descobriu-se que eu, aqui no interior, fazia literatura. E continuei fazendo no mesmo lugar.

G.R.: A senhora nasceu aqui em Divinópolis?

A.P.: Nasci aqui, na confluência de duas estradas de ferro, praticamente dentro das oficinas da rede onde meu pai era ferroviário. Toda a vida, desde pequena, todo meu imaginário, toda a minha paisagem é ferro, é locomotiva, é apito, é graxa; essa foi a minha primeira experiência feliz do mundo. Eu achava, e toda a vida achei, que o mundo era de ferro. Eu tive a oportunidade de falar isso em poemas. Quando eu quis me casar, quando eu comecei a ter sonhos matrimoniais, eu queria que tudo da minha casa fosse de ferro. Desde quando eu era bem menina isso me dava solidez. Meu pai fazia para nós colheres de ferro. Eu tenho até hoje colheres de amassar feijão de ferro, coadores de café, ou suporte de fazer café, de ferro; então tudo na minha casa era de ferro e aquilo me dava uma solidez, aquilo era indestrutível. Eu achava que meu pai também era indestrutível, que ele também era de ferro. A infância tinha todo esse contexto para mim: as máquinas, as locomotivas, o ferro do qual as coisas eram feitas. Esse era um lugar, para mim, aprazível de viver e é até hoje. A casa do meu pai é um lugar para o qual eu sempre volto, para recuperar essa solidez, essa segurança.

G.R.: Quando você nasceu? E como foram os seus primeiros anos, o seu currículo de estudos?

A.P.: Eu nasci aqui à beira da linha, no dia 13 de dezembro de 1935, no dia de Santa Luzia, por isso eu me chamo Adélia Luzia. Tive uma infância corriqueira, normal, pai ferroviário, mãe doméstica, família extremamente religiosa, dessa religiosidade também um pouco diferente, porque mineira, acentuada, para dentro. No grupo escolar ganhei um prêmio, então pude estudar de graça; foi a oportunidade que eu tive de fazer o curso ginasial e depois o curso de professora, que era o máximo que eu podia fazer.

G.R.: Era o máximo para Divinópolis?

A.P.: Sim, o máximo para Divinópolis, na época. Tinha aqui um ginásio, onde as meninas estudavam junto com os meninos, que era muita novidade para mim. O meu destino era fazer um curso de professora. Filosofia eu fiz mais tarde, já estava casada, com filhos. Fui inclusive filha de Maria e pertenci a todas essas irmandades religiosas.

G.R.: Eu queria que você falasse mais um pouco sobre esse tipo de educação mineira. O que é “mineiridade”?

A.P.: A coisa que mais me salta para dizer sobre mineiridade é a religiosidade da qual eu sou uma tributária fervorosa. Tive essa educação religiosa rígida, uma doutrina severa me cercou desde que eu nasci, mas, ao mesmo tempo que a religião era severa, eu fui salva, acredito, pela beleza do culto. Eu ainda aproveitei demais de uma liturgia muito romanizada, é claro, mas muito bela também, muito rígida, mas muito bela. Aquilo me salvava; eu pensava que Deus era cruel, mas era belo também. Aquilo me segurou, me salvou: a beleza, o poético do culto religioso, da celebração religiosa. A religião, para mim, até hoje, não é só uma herança feliz, é uma coisa que eu redescubro a cada dia e reassumo. Os rigores da doutrina foram apaziguados com a beleza da poesia, a própria poesia é que me devolveu a fé de uma maneira nova. Pela via poética, eu recuperei o vigor e a beleza original até da própria doutrina. Mas, da experiência religiosa, que eu descobri mais tarde, fiz uma experiência poética. Quando as duas coisas se encontram, eu fui completamente salva de tudo que a doutrina podia trazer para mim de opressão, isso porque eu tive uma via nova de entendimento do fenômeno religioso e da própria prática religiosa. A poesia na sua qualidade libertadora me mostrou também onde é que estavam os equívocos da minha doutrina, da minha prática religiosa. Uma coisa salvou a outra, e salvou-a de maneira feliz e definitiva.

G.R.: Quais foram os livros de Adélia menina?

A.P.: Eu lia muito na biblioteca dos freis franciscanos, que se chamava Pia Biblioteca das Filhas de Maria. Eu tinha uma tia, filha de Maria, e eu funcionava como sombra dela, aonde ela ia eu ia atrás. Então eu me aproveitei imensamente dessa biblioteca. Lá, eu lia a vida dos santos: Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Maria Madalena; livros, como se dizia, edificantes para a formação da gente. Santa Gema Galgan, aquela que tinha visões pavorosas sobre o inferno. Aquilo tudo era pavoroso, mas era tão bonito também, e eu me saciava dessas coisas, era um alimento mesmo, era uma espécie de convite a uma ceia. Eu, toda vida, desde menina, tive essa pretensão de ser santa, igual Santa Teresinha, queria morrer tuberculosa e fazia aqueles ensaios para uma tuberculose bem dramática, bem bonita, coisas de cabeça de criança. O amor ao livro, aquele cheiro de biblioteca, de livro velho, misturado com a batina dos freis, o religioso. Eu li mais tarde os livros de uma vizinha, pois lá em casa não tinha livro nenhum. Quando meu pai comprou um dicionário, eu já era casada. Os únicos livros eram aqueles escolares, mas eu tinha uma vizinha que tinha uma pequena biblioteca dentro de um guarda-louça, ela guardava aqueles livros para as mocinhas. Então eu lia tudo e observava rigorosamente as proibições a que a gente estava sujeita, por exemplo, eu não lia a revista O Cruzeiro daquele tempo, porque o frei dizia que era imoral e eu realmente obedecia, dava umas folheadas assim, mas com muita culpa. Foi esse o tipo de educação que eu tive.

G.R.: Como era a sua relação com seus pais?

A.P.: Eu tive um presente divino que foi uma infância feliz, muito pobre do ponto de vista material. A gente era paupérrimo, porque meu pai às vezes ficava quatro meses sem receber pagamento. E, desde cedo, também tive muito contato com as greves dos ferroviários. Tinha um avô e uma avó que ajudavam os filhos todos e ajudavam a gente também com o aluguel da casa, com a alimentação, comprando muitas coisas para eu poder estudar, o meu uniforme, esse tipo de coisa. Mas, uma coisa era indubitável, era o amor dos meus pais, a gente tinha certeza disso. O meu pai era extremamente severo, às vezes até injusto com relação a castigos, mas, como a gente não duvidava do amor dele, aquilo não nos fez mal, isto é, ele estava sendo injusto, mas ele me amava. Eu tive pouco relacionamento com a minha mãe porque ela morreu quando eu tinha 14 anos. A lembrança dela é a lembrança de uma mulher triste, melancólica, religiosa, severa. Era uma pessoa assim, mas eu não duvidava do amor dela.

G.R.: Repassando na memória esses primeiros anos, você encontra a figura de um “mestre”, de um guia, de uma personalidade que a tenha marcado?

A.P.: Não, professor, não.

G.R.: Como e quando começou a escrever?

A.P.: Eu me lembro da primeira poesia; o primeiro poema foi quando minha mãe morreu. Eu fiquei numa situação muito precária, tomando conta dos meus irmãos; eu só tinha 14 anos e fazia toda a lida da casa e ainda ia para a escola. Nessa época, eu já estava no ginásio, cursando a 4ª série ginasial; era uma coisa assim muito pesada para mim. Lembro que eu tinha muito medo, meu pai saía, às vezes, à noite. Quando ele começou a querer se casar de novo, eu fiquei apavorada; queria que os meninos ficassem acordados comigo, porque eu tinha medo, inclusive medo da minha mãe morta. Lembro que nessa situação eu fiz uma poesia sobre a minha mãe, uma poesia horrível falando da saudade da minha mãe. Fiz ainda um poema sobre um sineiro, um cara que tocava um sino para a apaixonada dele; eram aquelas irrupções românticas, eu era adolescente, descobrindo também o corpo, a vida. Eu tinha um irmão no seminário que me mandava recortes de jornal com poesias; ele também gostava de fazê-las. Então a gente começou a fazer aquilo, achava bonito. Ele me mandou alguns poemas de Alphonsus Guimaraens, eu adorava aquela melancolia. Comecei a imitar aquilo, comecei a fazer sonetos na escola e a fazer um sucesso danado, porque tinha facilidade em rimar, em compor. Fazia sonetos moralistas, tal e qual ouvia nas pregações. Eu recitava nas festas de escola, gostava de falar, de recitar, gostava de ouvir a palavra, de ouvir a mim mesma falando um texto e, por aí afora, eu fui escrevendo. Depois escrevi num jornalzinho que tinha aqui, chamado A Semana, jornalzinho paroquiano, e num jornaleco pequeno que era da Juventude Franciscana. Entrei na Ordem Terceira de São Francisco e comecei a escrever poesias neste jornalzinho. Eu assinava Franciscana. Achava fantástico. A ótica franciscana, a mundividência franciscana para mim é um alimento até hoje. Eu bebia tudo de São Francisco e no franciscanismo. Então comecei a fazer sucesso na minha rodinha. Quem vai fazer um texto sobre não sei o quê? Quem vai fazer uma poesia sobre não sei o quê? Era a Adélia, a Franciscana. Um belo dia eu fiz um poema. Frei Mateus, que na época era o diretor espiritual da Juventude Franciscana, um holandês severíssimo que vigiava tudo, viu o texto e falou para mim: “Você sabe que é poeta?”. Aquilo me deu uma felicidade, eu saí pulando de um pé só de tanta alegria! E ele era uma pessoa que eu amava demais, que eu respeitava. Era como um pai que a gente tinha, e eu pensei: “Nossa Senhora, frei Mateus falou que eu sou poeta!”. Fiquei toda entusiasmada, ele me deu um aval para eu continuar escrevendo. Mas hoje vejo que aquilo que eu fazia era mais uma imitação, eu não tinha ainda uma dicção própria, uma voz própria, eu imitava outros autores. Mas, depois de muito tempo, depois da morte do meu pai em 1972, é que eu comecei a escrever. Em 1973, acredito que foi por aí, eu fiz um texto diferente de tudo aquilo que tinha feito; não era salmo, não estava imitando Guimarães Rosa, nem Alphonsus Guimaraens, nem Manuel Bandeira. Era uma lírica, era a lírica que eu queria. Eu nunca publiquei esse poema, mas ele é o marco do dia em que comecei a escrever com uma voz que eu reconheci como a minha. A fala, boa ou má, era minha. Então, daí por diante eu comecei a fazer poemas, um atrás do outro, era Bagagem que eu estava escrevendo, e eu não sabia ainda. Aqui havia pessoas que liam, que diziam que estava muito bom, que eu precisava publicar. Mas foi talvez em 1974 ou 1975 que eu mandei os textos para o Affonso Romano, que fazia crítica literária na revista Veja. Ele gostou imensamente e falou para o Carlos Drummond que tinha recebido uns textos, aqui e ali, aquela história toda. Depois eu mandei para o próprio Drummond, sem falar nada, para ver o que acontecia, e ele foi extremamente generoso. Em uma das crônicas do Jornal do Brasil, ele falou que tinha uma pessoa em Divinópolis, que ele não conhecia, que estava fazendo versos, etc. Aí um editor se interessou. Eu devo a ele ter sido descoberta, mas primeiro eu devo a São Francisco de Assis. Me lembro que, quando estava com o volume prontinho, falei: “Oh, meu Deus do céu, São Francisco pode ajudar, se isto aqui for poesia mesmo, a encontrar um caminho”. E achou, né? Eu até botei na epígrafe de Bagagem uma parafrasezinha do Cântico das Criaturas: “Louvado seja o Meu Senhor por essas letras e palavras, etc”. Foi uma homenagem. Foi uma promessa que eu cumpri. Aí as coisas seguiram.

G.R.: Qual é a relação entre o trabalho de criação e a carreira paralela? Você disse que era professora; continua sendo?

A.P.: Não, fui professora de modo muito esporádico, porque custei a descobrir que não tinha vocação para ser professora. Tenho cinco filhos e, quando eles eram pequenos, eu não trabalhava. Quando me casei, deixei de dar aulas, achei aquilo uma felicidade, uma riqueza; me senti a rainha do Sabá não precisando trabalhar fora de casa. Dar aulas me cansava, toda vida me cansou extremamente, mas me sentia culpada de não estar trabalhando. Então saía e dizia assim: bom, agora eu dou conta. Não é possível, todo mundo dá conta, eu tenho que dar conta também. E começava a trabalhar mais dois anos, mais três… Eu nem me aposentei, porque o tempo de trabalho não deu pra isso. Então, nunca aconteceu de ter uma carreira paralela. Eu encaro a literatura como uma vocação, um dom do qual eu não posso dispor na hora que eu quero; acontece na hora que Deus quer, então eu fico à mercê disso. Quando descobri que podia parar de dar aulas, ficar sossegada, sem culpa, foi uma felicidade. Posso ficar em casa cuidando da vida e de outras coisas, mas gostava muito de dar aula, sou até uma pessoa com muita didática. Dar aulas por 40 minutos é uma coisa, mas eu tinha cinco classes… era uma coisa infernal!

G.R.: Como surge um poema?

A.P.: Eu acho que não dou conta de responder a isso não. Eu sempre escrevo assim que alguma coisa precisa ser expressa e isso nunca, jamais, é uma decisão minha. Eu nunca falo que hoje vou escrever, porque não acontece. Nesse sentido, sempre afirmo, e com toda a convicção, que, rigorosamente falando, o texto não é meu. Isso pra mim é tranquilo, é de uma tranquilidade solar, porque, se ele fosse meu, eu já teria acabado O homem da mão seca, que é um romance que comecei com muita fúria. Então, a coisa pede para ser escrita e isso é uma feliz experiência, uma felicidade da qual tenho a maior saudade, porque eu escrevia, às vezes, quatro poemas em um dia só, quatro poemas bons, que depois publicava; achava-me uma fonte inesgotável. Agora, porém, estou tendo outra experiência: não sou dona e nem dou ordens à poesia, sou serva dela e ela simplesmente se escondeu. Outro dia escrevi uma poesiazinha, fiquei de uma felicidade, mas foi uma colherzinha de chá.

G.R.: Você quer um poema grande?

A.P.: Não, não quero grande. Quero muitos poemas. O poema pode ser um haikai, mas quero muitos, e agora estou no deserto com uma bilhazinha d’água deste tamanhinho assim.

G.R.: Mas você poderia contar como surgiu um de seus textos?

A.P.: Pois é, é isso que estou dizendo, eu escrevo e não sei como é que surge não. Desejo expressar aquilo. Quando vou fazer um texto, a minha única preocupação é a fidelidade absoluta ao que eu estou sentindo. É uma coisa tão natural nesse sentido, é uma natureza, é como um sonho, como um fenômeno corporal, psíquico, então eu não dou conta de ver, por exemplo, a elaboração do texto, porque parece que ele fica se fazendo, é ele que se faz.

G.R.: Qual é a sua relação com a palavra?

A.P.: A palavra para mim é a coisa mais útil que existe. Palavra é coisa. Eu sou ruim, Giovanni, para dizer essas coisas. Eu vou frustrar a sua expectativa.

G.R.: Quando você fala em palavra como “coisa”, quer dizer que você usa palavras concretas?

A.P.: Às vezes a palavra entra no poema não pelo que ela significa, mas pelo puro som dela: aranha, cortiça, pérola são belas coisas ou palavras belas? No poema Em português, eu respondo exatamente ao que você está perguntando sobre as palavras. Palavra é sentido. Por exemplo, se eu falo “papel”, isso não significa nada; “cadeira”, “gravador”, “xícara”, “café” são sons. Agora, as palavras “papel”, “café” ganham consistência quando elas estão poetizadas. No poema elas ganham densidade, concretude, sentido. Então quando eu digo a palavra, eu estou dizendo o sentido. Eu entendi isso através de outra via. Quando você diz: “O filho de Deus é Verbo, Jesus Cristo é Logos divino, palavra eterna”. O que é isso? Para mim é sentido, o sentido, o sentido do ser, o sentido da existência. Então, essa palavrinha corriqueira é uma coisa que interessa pouco, só que eu tenho que me servir dela para atingir o logos. Eu digo esse montão de palavras só para você falar: “Ah, entendi!”. Palavra é quando você chega ao sentido, é quando você entende. Escrevi em Antes do nome:

“Não me importa a palavra, esta corriqueira.

Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,

[…]

A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,

foi inventada para ser calada.

Em momentos de graça, infreqüentíssimos,

se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.

Puro susto e terror.”

G.R.: Em seu específico trabalho criativo, prevalece a interrupção ou a continuidade?

A.P.: A continuidade. Eu faço quase tudo de uma vez só. O poema sai inteiro, o texto vem inteiro, depois eu só faço cortes. Quando eu começo a interromper demais, posso largar, porque o poema não presta, é mau, é ruim. Isso é um processo muito pessoal, comigo acontece assim, há pessoas que fazem de outra forma.

G.R.: Existem momentos felizes ou ideais para escrever?

A.P.: O momento feliz é quando a inspiração está cutucando a gente, como um aguilhão num boi, essa é a felicidade plena. Quando você está louco para escrever, é a pura felicidade. Quando a coisa pede para ser dita, é o Espírito Santo querendo ser adorado, soprando no meu ouvido um hino litúrgico.

G.R.: Por que você escreve?

A.P.: Boa pergunta. É necessário que eu escreva, acho que é uma necessidade divina de mostrar a Sua face, o Espírito quer ser adorado, ele quer ser visto. Deus precisa fatalmente mostrar a Sua face. A arte é uma mediação para a divindade. Então, nesse caso, tenho que ser dócil a esse desejo divino. Não obedecer a isso é pecar, é um pecado capital, eu não sou dona disso, não posso falar: “Não escrevo mais”. Isso seria o máximo do orgulho, então tenho que escrever.

G.R.: Onde encontra estímulos para escrever?

A.P.: Na vida. No absurdo e na maravilha da vida. É tão absurda, tão pesada a vida, tão maravilhosa, que não precisa sair de casa. É só ficar quieto que você tem todos os estímulos. O próprio fato de existir já é um absurdo.

G.R.: Você prefere escrever em situações de alegria, de satisfação, ou em situações de intranquilidade, de tristeza?

A.P.: Escrever é uma alegria. Mesmo na maior tristeza, na maior melancolia. Se você pega o seu lapisinho, é porque já está saindo da tristeza. Ninguém, estando no inferno, é capaz de pedir um lápis e um papel, mas quando você começa a escrever quer dizer que já está saindo do inferno, até para expressá-lo. Não tem importância se você está feliz ou alegre, escrever é sempre uma alegria.

G.R.: Qual é o papel que o imprevisto desempenha no seu trabalho criativo?

A.P.: Não acredito no imprevisto, no acaso, não. Acredito numa ordenação inconsciente das coisas. Falar em inconsciente significa falar em uma ordenação divina de todo o conjunto do cosmos, eu incluída, principalmente eu, que sou filha de Deus, sou humana. Então, não acredito em acaso, porque se existir o acaso, independente da divindade, o acaso é Deus e, então, poderia adorá-lo também. Não acredito em acaso. O que existe são coincidências significativas, sincronicidade. São coisas que eu não explico pela lógica, pois têm no seu substrato profundo uma ligação, uma explicação no sentido do mistério divino.

G.R.: O cotidiano, Adélia, como influencia o seu trabalho de poeta?

A.P.: Ele não influencia, ele é o próprio trabalho. Porque a única coisa que todo mundo tem é só o cotidiano. Nós só temos isso. O meu dia só tem 24 horas e nessas 24 horas tenho que viver a minha condição humana. Então, é só isso que tenho, e que acho que todo mundo tem, e isso é a miséria, mas é também o tesouro. Acho que a metafísica mora aqui no cotidiano, esse é o material da minha experiência, esse é o material da minha descoberta.

G.R.: A profissão de escrever a ajudou ou a ajuda na descoberta de si própria como mulher?

A.P.: Sim, não tenho dúvida, porque à medida que a gente vai escrevendo há realmente um desdobramento e um autoconhecimento. Decorre do escrever, um melhor conhecimento. Tanto que, quando eu estava escrevendo Os componentes da banda,num determinado capítulo, eu falei: “Meu Deus, não é isso que eu ia falar, não”. Eu mesma fiquei assustada com o que precisava ser dito, mas depois eu pensei: “Bom, então é assim que eu sou”.

G.R.: Quando escreve, você percebe autocensuras, temores em se revelar, obstáculos?

A.P.: Não, eu não gosto do que vejo, mas a fidelidade ao texto me obriga a falar a palavra certa, a dizer aquilo que deve ser dito, segundo o meu critério, é claro.

G.R.: Como foi o seu primeiro livro?

A.P.: Foi um acontecimento, assim como um casamento na família, um batizado, um nascimento. Para mim, teve o mesmo peso e tem até hoje a mesma densidade, porque foi uma coisa muito feliz, a cidade inteira ficou sabendo que o Drummond tinha falado na Adélia, que eu era conhecida, que todo mundo me conhecia e tudo. O Drummond falou no jornal que a poesia da Adélia é boa, etc. O editor veio aqui, foi uma festa com doces, no clube, todos os parentes, as comadres, os conhecidos; foi, como estou dizendo a você, como um casamento. Bagagem, o primeiro, foi cercado de afetos, de afetos felizes, de alegria.

G.R.: Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento que a tenha marcado profundamente?

A.P.: Houve sim, houve…, mas eu não posso falar disso.

G.R.: Você, Adélia, não quer especificar e eu não vou insistir. Quero somente que responda a essa pergunta: quanto a essa mudança, essa opção, marcou a sua poesia?

A.P.: Deixa eu ver. Nem quero que isso saia agora não. Tem muito tempo que eu não escrevo uma poesia.

G.R.: Você não escreve poesias, por quê?

A.P.: É isso. Eu não sei o que está acontecendo.

G.R.: Esta poesia que chega…

A.P.: Não, ela nem chega, ficou no deserto.

G.R.: Houve, na sua vida de escritora, um acontecimento gratificante ou de grande frustração?

A.P.: A coisa mais gratificante que existe é eu ter encontrado o caminho, desde o primeiro livro. Escrevo para ser lida, então essa é a primeira felicidade. E porque fui muito bem acolhida pela crítica e pelos leitores. Tive uma frustração que não é bem uma frustração, mas sim um sofrimento: publiquei doze poemas infelizes que não devia ter publicado. Nunca tinha me acontecido isso, eu achava que tinha muito faro, muita competência para ver a qualidade dos meus textos e a qualidade de textos alheios. Quando publiquei A faca no peito, um crítico me chamou atenção. Sofri muito, durante mais de um ano, até perceber que ele tinha razão. Agora, foi publicada minha obra reunida de poesias, expurgada dos doze poemas. Passei vergonha!

G.R.: Quem é que criticou os poemas?

A.P.: Felipe Fortuna, que faz crítica literária no Jornal do Brasil.

G.R.: E você se convenceu?

A.P.: Plenamente. Demorei, porque toca na sua vaidade. Pensava que não era possível, que tinha algum engano, mas, graças a Deus, fui capaz de perceber isso.

G.R.: Qual é o livro de outro autor que gostaria de ter escrito?

A.P.: Eu queria ter escrito Os Salmos, O livro de Jó, Isaías.

G.R.: A Bíblia toda?

A.P.: É, você sabe que é. Não sou pretensiosa não, mas eu queria ter escrito Isaías. Oh! Que maravilha que é Isaías, não é? Eu queria escrever como Guimarães Rosa, Clarice, eu tenho inveja desse pessoal.

G.R.: Dentre as palavras seguintes, escolha três e diga alguma coisa sobre elas: amor, cidade, poder, solidão, solidariedade, prazer, violência, amizade, noite, silêncio.

A.P.: Amor, noite, poder. Amor é a única coisa que eu quero para mim e para todo mundo, sem amor não tem jeito, não tem solução. Amor significa, em primeiro lugar, o amor de si, o amor que me convida ao autoconhecimento. Sem amor de si mesmo, não dá pra amar ninguém. Eu só posso oferecer para alguém, coisa que eu tenho, se eu não me tenho a mim mesmo, não posso me relacionar com ninguém. Então eu descobri que o amor é, em primeiro lugar, isso, e a via pra isso é o autoconhecimento. Amor é o que eu quero, é o que eu desejo, é o que eu espero. Poder é o que a gente precisa abrir mão, mas abrir mão de maneira mais radical possível. O poder até sobre as próprias ideias, deixar de segurar até os próprios pecados que a gente ama. A gente ama, às vezes, de modo especial alguns pecados, alguns vícios. Então, radicalmente, abrir mão do poder quer dizer cair em uma entrega para um poder maior, que, no caso, continua sendo amor. E a outra coisa que eu escolho é noite. Gosto da noite, quando eu era adolescentezinha, comecei a fazer um poeminha, lembro até de um pedacinho dele: “noite, noite, (não sei o que lá), se não houvesse noite eu morreria”. Lembro só desse verso. Naquele tempo, eu estava falando da noite, estava falando da noite mesmo. Hoje, eu tenho uma visão acrescentada: noite é voltar ao inconsciente, ao escuro, às origens, etc. A noite é muito fascinante. Eu adoro o sol, mas sem noite não dá não, tem que ter noite.

G.R.: Se algum editor lhe propusesse escrever com salário fixo, você aceitaria?

A.P.: Jamais, nunca! Porque eu teria que produzir. É como fazer tijolo sem barro: teria que produzir o quê e como?

G.R.: Quando escreve, você pensa nos leitores, nos críticos?

A.P.: Não, de jeito nenhum, não penso em nada. Eu quero só gozar aquela felicidade de estar escrevendo.

G.R.: Quanto pesa a publicidade no destino de um texto?

A.P.: Acho que pesa imensamente, porque o autor hoje aparece em televisão, é entrevistado em televisão, é visto e conhecido. Hoje, os meios de comunicação facilitam a divulgação da imagem do autor e do seu livro. Acredito que isso pese, pode pesar mal e pode pesar bem: você pode promover mediocridades e pode também promover autores bons. Ela tem dois lados, e a gente também não deve se deixar empolgar e ser manipulado por essa coisa não; a glória é muito precária também.

G.R.: Para finalizar essa entrevista, eu peço a Adélia Prado um autorretrato. Quem é Adélia Prado?

A.P.: Eu sou uma pessoa à procura da própria identidade, quero cada dia mais o autoconhecimento. Eu sou uma pessoa que começo a experimentar a viver sem alguns medos que me oprimiram durante a minha vida, uma pessoa mais calma, mais tranquila, mais paciente. Quero isso, quero o autoconhecimento, quero fazer essa viagem pra dentro.

G.R.: É uma viagem poética também?

A.P.: Essa aí está suposta.

G.R.: Você falou em temores que a oprimiram até agora, quais seriam?

A.P.: Eu tive medo de tudo que você pode imaginar. Eu sou diplomada em medo. Desde medo de cobra, eletricidade, etc. Quando eu fiquei adolescente, tive fobias terríveis que me tiravam o prazer de viagens, de encontros, de passeios e de tudo quanto existe. Descubro mais tarde, à medida que esse autoconhecimento avança. Por isso que eu falei para você que é a coisa que mais desejo. Descubro que o meu medo de cobra, medo de eletricidade, medo de chuva, era medo de viver. E é uma coisa misturada com uma intensa fome de viver. Era um inferno, um inferno vivo, Deus me livre! Era uma coisa terrível, foi uma coisa terrível durante muito tempo. Eu não sou uma pessoa melancólica, uma pessoa triste, mas permanentemente tive que lutar contra essas limitações. Mas, agora, eu descubro que alguns medos estão indo embora, a maturidade tem essas vantagens. Uma velha medrosa fica muito feia também.

G.R.: Muito obrigado, Adélia Prado.

A.P.: Eu é que agradeço a você demais.

Para saber mais

BINGEMER, Maria Clara Lucchetti (2003). Transcendência e corporeidade: a experiência de Deus segundo Adélia Prado. Gragoatá, Niterói, n. 14, p. 89-107, jan./jun. Disponível em: https://periodicos.uff.br/gragoata/article/view/33448/19435. Acessado em: 19 dez. 2025

CABAÑAS, Teresa. (2011). As estratégias discursivas e a evolução do sujeito poético feminino: de Adélia Prado a Maria Lúcia Dal Farra. Estudos De Literatura Brasileira Contemporânea, n. 36, p. 191-210. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/9718. Acessado em: 19 dez. 2025

OLIVEIRA, Cleide Maria de (2012). O poeta ficou cansado. IpotesI, Juiz de Fora, v. 16, n. 2, p. 183-200, jul./dez. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/ipotesi/article/view/25773/14689. Acessado em: 19 dez. 2025

SOUZA, Marina Maximiano Ferreira de (2025). Cacos para um vitral. Praça Clóvis: mapeamento crítico da literatura brasileira contemporânea, Brasília. 23 jan. Disponível em: https://pracaclovis.com/?p=3647. Acessado em: 19 dez. 2025.

* Apresentação da autora feita por Giovanni Ricciardi na obra Scrittori brasiliani. Testi e traduzioni, Nápoles: Tullio Pironti Editore, 2003.

** Ela foi previamente publicada na obra Biografia e criação literária. Vol. 3: entrevistas com escritores de Minas Gerais. Ouro Preto: UFOP, 2008.

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Como citar:

PRADO, Adélia.
Entrevista concedida a Giovanni Ricciardi.

Praça Clóvis: 

mapeamento 

crítico 

da 

literatura 

brasileira 

contemporânea, 

Brasília. 

27 maio. 2026.

Disponível em:

8211.

Acessado em:

07 jun. 2026.