G.R.: Apresente a sua família, por favor.
E.V.S.: Nasci em Florianópolis, Santa Catarina, no sul do Brasil, onde até os 15 anos era apenas uma das netas dos Wendhausen. Meu pai nasceu na Bélgica, foi cônsul honorário do seu país em Santa Catarina e engenheiro eletrônico. Trabalhava na instalação da rede telefônica de Santa Catarina, quando se casou com minha mãe, Célia Wendhausen, uma bonita e doce mulher. A casa em que passei os primeiros anos da infância ficava na rua Bocaiúva e eu me lembro bem dela e do jardim, com seus pés de araçá e pitangas, da casinha de brinquedo, de madeira, que eu e minha irmã ganhamos num natal: tinha uma sala, um quarto e móveis e utensílios construídos no tamanho infantil. Essa casinha é minha imagem mais feliz da infância e deve ser a causa da minha fascinação, até hoje, por bonecas antigas.
G.R.: Quanto dessa vivência está presente em seus escritos?
E.V.S.: Não saberia precisar, realmente. As bonecas têm aparecido. Acredito que cada momento de ficção tem sua lógica anterior e interior. Presumo que eu tenha nascido numa noite amena, 12 de julho de 1936, e que meus pais ficaram contentes, pois a filha (em 1937 mais uma viria para me fazer companhia) não apresentava os defeitos cardíacos do primogênito, Charles François, que morreu com um mês de vida. Acho que já nos primórdios da formação uterina experimentei o sentimento de perda desse irmão que eu tanto gostaria de ter tido. Um sentimento que me acompanharia para sempre e que transparece na minha maneira de ver e sentir o mundo.
G.R.: Como foi a relação com seus pais?
E.V.S.: Meus pais se separaram quando eu tinha uns seis anos. Minha mãe foi recomeçar sua vida em Curitiba, no Paraná, fugindo à maledicência catarinense. Colocou as filhas num internato e tentou superar, na prática, a falta de conhecimentos profissionais. Em pouco tempo, era oficial major num Tabelião de Notas. Minha mãe era carinhosa e sensível, mas tinha pouca cultura. Os únicos livros que lia eram os de Stefan Zweig. Com meu pai, perdi contato. Além de umas visitas que ele fez a Curitiba, em que nos vimos talvez por meia hora, no hall do Grande Hotel, só o conheci, de verdade, já mulher feita. Eu o adotei como pai e hoje somos amigos e nos queremos bem. Minha educação social foi brilhante. Aprendi a fazer tricô, a bordar, cozinhar e cerzir meias em aulas de economia doméstica, que muito me ajudaram pela vida afora. Mas minha educação literária foi nula. As freiras do colégio eram bastante simples e despreparadas, salvo algumas honrosas exceções. Minha primeira manifestação artística se deu aos oito anos, quando uma professora de canto descobriu qualidades no meu timbre de voz e me fez solista do coro da capela. A música foi, acho, a primeira das artes a me causar emoção.
G.R.: Qual a biblioteca, as leituras de seus verdes anos?
E.V.S.: Os primeiros livros que li, à luz da vela, no dormitório do internato, eram da Coleção Menina-Moça: M. Dely e outros do gênero. Com aqueles livrinhos descobri que se podia criar emoção através das palavras. Todos aqueles heróis e heroínas românticos me comoviam muito entre os dez e doze anos de idade e me viciaram na leitura, que desde então, evidentemente, foi melhorando de nível.
G.R.: Repassando na memória esse período de formação, encontra a figura de um “mestre”, de alguém que lhe marcou?
E.V.S.: Há pouco mais de três anos, jantando em casa de Wilson Figueiredo, amigo de juventude do Sábato, meu marido, dei de cara com uma mulher loura, vistosa, que me disse: quem eu sou? Evidentemente, eu não a reconheci, por mais que tentasse. Aquela figura não me dizia nada. Para ser franca, até me irritou por ter me colocado na difícil situação do não reconhecimento, por mais pistas que me desse. Finalmente ela desistiu e em alto e bom som afirmou ter sido a minha professora de português, no primário. Era a irmã não sei das quantas, antes de largar o hábito e se casar com aquele senhor ali presente. Fiquei com vontade de dizer que devia ter me ensinado melhor a gramática, mas engoli a reprovação. De repente percebi que ela sentia um certo orgulho de ter sido minha professora. Fazer o quê? O meu primeiro mestre literário foi um vendedor ambulante de livros que me fez comprar a obra completa de Guy de Maupassant e as Maravilhas do Conto Universal. Eu tinha 15 anos. Benjamin Steiner, conhecido marchand de tableaux de São Paulo, foi uma das primeiras pessoas a ler meus contos e me incentivar a continuar escrevendo, além de Dalton Trevisan, que me transmitiu sua paixão pela literatura.
G.R.: Quando começou a escrever? Como nasceu a vocação?
E.V.S.: Comecei a escrever no internato. Os livrinhos água-com-açúcar estimulavam a minha imaginação e eu escrevia redações para mim e para minhas colegas. O curioso, impressionante que o conseguisse, é que eu as escrevia com mudanças de estilo, para que a farsa não fosse notada. O que acabou me valendo o primeiro emprego: radiofonização de cartas. Eu radiofonizava, escrevendo, e depois interpretava o papel das ouvintes que escreviam com problemas sentimentais. As cartas foram transformadas em contos, reunidos com o pretensioso título de Histórias incomuns, que eu pretendia publicar. Infelizmente, nos anos cinquenta não existiam as máquinas de xerox, e eu perdi o manuscrito, sem cópia, num táxi, e quem escreve sabe a dor insuportável que isso representa. Prometi para mim mesma nunca mais escrever ficção e passei a me dedicar apenas ao jornalismo. Quanto à vocação, não sei. O que posso dizer é que tentei várias formas de expressão: o teatro e o cinema, como atriz e roteirista, a publicidade e a galeria de arte. Em todas fui bem-sucedida. Especialmente no cinema: Garganta do diabo (1960), filme de Walter Hugo Khoury, me deu quatro dos mais importantes prêmios brasileiros e um internacional, no Festival de Cinema Latino-Americano, de Santa Margherita Ligure, na Itália. Um prêmio dado e criado por Roberto Rossellini, pois no festival não existia, para premiação, a categoria interpretação. Medalha de ouro enorme. Ao ganhar a medalha eu tinha 23 anos, era a primeira atriz brasileira premiada no exterior, e meu filho Ricardo ia fazer um ano.
G.R.: Considera o seu primeiro livro publicado um sucesso, um insucesso, um marco determinante em sua vida?
E.V.S.: Cio saiu em 1965. Reunião de contos escritos esparsamente, a maioria enquanto estava grávida da minha filha Anna. Amigos a quem dei os originais para ler, um deles o próprio editor, Carlos Von Schmidt, me convenceram a publicá-lo, em 1965, ano em que nasceu minha filha Lea. A imprensa me abriu excelente espaço, a crítica recebeu a estreia com discrição e o livro vendeu pouco. Não chegou a ser um marco na minha vida.
G.R.: Quando considera ter acabado a mocidade, o período de aprendizagem?
E.V.S.: Aprendizagem? Cada dia que passa percebo que menos eu sei e que estou sempre aprendendo alguma coisa. A vida é cheia de períodos, às vezes curtos, outros longos. Os meus foram todos importantes e vividos integralmente. Sempre se acaba e se começa algo, não é?
G.R.: Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento determinante?
E.V.S.: Minha vida é cheia de encruzilhadas e fatos determinantes. No que se refere à literatura, houve um momento em que senti que precisava tomar, realmente, algumas decisões. Uma delas era vender a galeria de arte que fundei e dirigia – a Múltipla – para minha sócia. Uma opção que me daria grande prejuízo financeiro, mas que era essencial para que eu pudesse levar a cabo a opção de viver para aquilo que se tornou a minha paixão mais profunda, ler e escrever.
G.R.: Hoje, que é escritora, pode viver só do trabalho da escrita? Precisa de outra profissão?
E.V.S.: Não, não posso sobreviver apenas com o que escrevo. Mas consegui só trabalhar em torno da literatura. Dirijo coleções editoriais – Os melhores poemas, Os melhores contos e Histórias inesquecíveis, na Global Editora. Faço traduções e adaptações literárias e teatrais. Ganho pouquíssimo, infelizmente.
G.R.: Como é seu processo criativo?
E.V.S.: Sou incapaz de traçar planos, construir uma história antes de escrevê-la, como fazem tantos escritores. Para mim, uma frase puxa a outra, uma situação sugere outra, um personagem se relaciona com outro. Em Memórias do medo anotei, inclusive, esse processo, nos títulos e nos finais dos capítulos. A imagem de uma figura à janela, ou um caso contado numa reunião de amigos pode ser o ponto de partida de um conto ou de um romance. Sábato, meu marido, me contou um dia a história do pai da atriz espanhola Núria Espert, que jurou não cortar as unhas enquanto Franco fosse ditador da Espanha. A promessa me impressionou. O que aconteceria às unhas se uma pessoa não mais as cortasse? Dra. Iraci, minha dermatologista, me mostrou, num livro, as garras duras em que se transformariam. Tempos depois, a história me surgiu, transmutada. Não sei porque, o cenário que me ocorreu para escrevê-la foi o da cidade e da casa em que passei os primeiros anos da infância, aquela, da rua Bocaiúva, em Florianópolis. O conto se chama “A promessa”. No conto “Até sempre”, abordei um caso que me fascinou durante anos, do irmão de um amigo que vivia, ao mesmo tempo, com duas irmãs. Muitas vezes eu já tentara sentir esses três personagens e desistia, a meio do caminho. Era difícil imaginar como aqueles três dividiriam uma casa, como resolveriam problemas normais, de ordem sentimental. Acho que fiquei com esse tema suspenso, dentro de mim, pelo menos uns dez anos.
G.R.: Qual a sua relação com a escrita, com a palavra, com o estilo?
E.V.S.: Escrevo a lápis, modificando as palavras no momento exato em que foram rabiscadas, substituindo imediatamente umas por outras. Além disso, faço mais de três versões à mão. Um hábito que adquiri quando meus filhos eram pequenos e eu não queria acordá-los, com o barulho da máquina. Escrever manualmente me proporciona tempo para pensar, quer dizer, para selecionar os pensamentos. Aquilo que jorra de mim, emocionalmente, vem sempre mal feito, mal acabado. E preciso refazer e organizar as ideias, encontrar o ritmo para o que quero contar. Esse processo de domar a emoção, de encontrar a expressão certa, de limpar o texto (dos lugares-comuns e das repetições de palavras que tanto empobrecem a narrativa) toma muito tempo, dá enorme trabalho, mas é, para mim, a melhor fase de escrever.
G.R.: Por que escreve?
E.V.S.: Depois de ter tentado as várias formas de expressão, escrever foi a mais constante, aquela que nunca deixei totalmente, ou melhor, à qual sempre voltei. Hoje, sou grafomaníaca. Minha fantasia se manifesta apenas em palavras. Às vezes penso que se alguém contasse as minhas histórias, ou tivesse os meus personagens, eu talvez não escrevesse. Mas não sei.
G.R.: Em seu específico trabalho criador prevalece a interrupção ou a continuidade? Atravessa períodos de crise? Com que as identificaria?
E.V.S.: Moro em São Paulo, como sabe, e respondo seu questionário em Paris, pois Sábato está lecionando, pelo segundo ano letivo, como Professor Associado, na Sorbonne Nouvelle – Universidade de Paris III. Devemos ficar aqui até junho. Pois bem. Não consegui produzir nada de pessoal fora de casa. Não por falta de tentar. A mudança de cenário – há tantos anos escrevo no meu quarto, na minha mesa –, ou a quantidade de informações culturais, sabe lá Deus a causa, me bloquearam. Compensei a crise criativa fazendo, no primeiro ano, 1985, uma adaptação de O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do Stevenson, para jovens, com o auxílio de Eduardo Brandão, que na época morava em Paris. Em 1986, fiz a tradução e a adaptação da peça Solness, o arquiteto-construtor, de Ibsen, por encomenda do grupo Tapa, do Rio; e agora, em 1987, traduzi O encontro de Descartes com Pascal, de Jean Claude Brisville, a pedido do ator Ítalo Rossi, que vai montá-la. Apesar da crise de criação, estou certa de que não posso mais não escrever, seja o que for. Tenho medo, inclusive, de que a falta de exercício enferruje minha capacidade de reflexão.
G.R.: Há momentos ou lugares felizes ou ideais para escrever?
E.V.S.: Eu diria que sim. Um momento feliz, para mim, pode ser aquele em que encontro o ritmo para prosseguir contando uma história. Ou quando descubro um personagem. Poucas vezes me coloco como protagonista, mas estou cheia de lembranças dos outros. Lembranças que incorporo como se fossem minhas e que depois transformo, transmudo, transfiro. Memórias do que não fiz ou não vivi e que, no entanto, me vêm à tona.
G.R.: O que acontece quando escreve?
E.V.S.: Acho que ao escrever entro numa espécie de transe. Deixo a imaginação solta. Ou seria a memória? É preciso não ter medo da imaginação. Às vezes, ao reler um texto antigo, levo verdadeiros sustos: eu escrevi isso? O exercício da fantasia é a grande surpresa, a minha grande fruição ao escrever. Para mim, cada personagem deve ter sua sintaxe. Não a marca do escritor, mas a sua própria maneira de ser. Por isso escrevo cada conto com uma linguagem diferente. Não me preocupo em ter um estilo. Prefiro encontrar o estilo do personagem.
G.R.: Houve algum acontecimento gratificante ou de grande frustração, na sua carreira?
E.V.S.: O diretor de teatro Silnei Siqueira me telefonou, um dia, perguntando por que eu não escrevia uma peça de teatro, pois ele achava, ao ler Corações mordidos (1983), que eu levava jeito. A ideia me pareceu fascinante. Assistindo a pelo menos cem espectáculos por ano, eu poderia, quem sabe. Eu havia passado pela terrível experiência de ter que operar o coração, me puseram duas pontes de safena, e havia entregue Corações mordidos para o editor (que ironia!) e estava naquela fase de renovação mental e física. Por que não? – pensei. Eu já havia tentado escrever uma peça, vinte anos antes, por encomenda de Martim Gonçalves… Fiz a primeira versão de O último encontro, que chamei inicialmente de Acerto de contas, e fui correndo, toda contente, mostrar para o Sábato, afinal, o crítico de teatro ali, à mão. Uma tristeza. Ele simplesmente me disse que eu tinha feito um conto falado e não uma peça. Fiquei tão decepcionada. Mas o meu lado germânico é forte, não desisto facilmente das coisas e recomecei tudo de novo, meses depois. E voltei a dar a ele para ler. Temos um jardim em casa. Enquanto ele lia, na sala, fui remexer a terra, plantar umas sementes. Quando apareci, imunda, fingindo indiferença, ouvi a frase que me deu, talvez, uma das minhas maiores alegrias. Ele havia gostado, finalmente, da peça. E eu descobria uma nova forma de expressão: a dramaturgia. Frustrações? Tenho várias. Uma delas é nunca ter conseguido escrever sobre uma imagem que me persegue há anos: um homem que vive sozinho, à beira de uma estrada. Um ermitão. Sei que tem uma biblioteca seleta, que é um homem refinado, que não deve possuir relógio – para quê? – e que prepara a própria comida. Ele se esconde de algo, mas ainda não descobri o que seja.
G.R.: Onde encontra estímulos e pretextos para escrever?
E.V.S.: Vou responder com uma afirmação talvez pretensiosa: os estímulos e pretextos estão dentro de mim. Andei algum tempo em crise com a minha literatura, sempre tive tanta dificuldade para escrever, todas aquelas versões intermináveis, que me deformaram a coluna e me provocaram uma rinite alérgica a papel, sem cura. Para quê, afinal de contas? Me ocorreu a ideia de conversar com outros autores a respeito. Leitora assídua da literatura brasileira contemporânea – modéstia à parte, poucas pessoas leram tanto os nossos autores atuais como eu –, resolvi entrevistá-los para publicação em livro, como a série Writers at work, publicada pela Viking Press. Fiz 42 entrevistas, das cem programadas, e 36 foram publicadas nos volumes I e II de Viver & Escrever. Ao conversar com os outros escritores fui me distanciando das dificuldades pessoais e, sem sentir, foi nascendo Corações mordidos, um romance de fragmentos, construído em cima das minhas perplexidades.
G.R.: Escreve regularmente ou é possuída por um êxtase ou improvisos?
E.V.S.: Me sento à mesa de trabalho diariamente, tenha ou não alguma coisa importante para escrever. Arrumo papéis, escrevo cartas, ou melhor, bilhetes – tenho horror às cartas literárias –, prefiro a comunicação pessoal com os amigos queridos de quem sinto falta. Às vezes, só porque a gente está ali, sentada, acontece a surpresa de uma ideia atraente e então… Bem, não se pode parar, sob risco de perda da emoção.
G.R.: Qual o papel que o imprevisto desempenha em seu trabalho criador?
E.V.S.: O imprevisto? Mas se é o meu ponto de partida, não saber jamais o que vai acontecer. Em “Até sempre”, por exemplo, eu pensava apenas em contar a história do sujeito que vivia ao mesmo tempo com duas irmãs. Até hoje não tenho explicações para o fato de que, ao começar a história, o cenário que me brotou, inconscientemente, foi o da casa da minha avó, onde eu passava as férias colegiais. À medida que eu ia escrevendo, recomeçava tudo de novo, a memória atropelando a razão. Finalmente a casa se impôs, cheia de segredos, e o trio principal passou para segundo plano.
G.R.: Existe para você o prazer de escrever?
E.V.S.: Claro. O prazer de aceitar minha imaginação, de descobrir do que ela é capaz. O trabalho em cima do texto escrito, aquele de selecionar, limpar, mudar, melhorar a frase, encontrar a palavra certa, o adjetivo preciso, esse, bem, é extremamente angustiante. Não consigo ler, por isso, meus livros, quando saem. Eu reescreveria, indefinidamente, tudo outra vez. Só depois de alguns anos, se pensar na possibilidade de uma reedição, ou quando me pedem algum conto para antologias etc.
G.R.: Qual é o livro dos outros que gostaria de ter escrito?
E.V.S.: São tantos os livros. Uma das minhas paixões literárias é Katherine Mansfield. Outra: Clarice Lispector.
G.R.: Como se sente na atual literatura brasileira?
E.V.S.: Uma privilegiada. A minha época tem grandes e notáveis escritores. Conviver com essa gente é um prêmio que eu talvez nem merecesse.
G.R.: O que pensa, realmente, dessa literatura?
E.V.S.: Olhando o panorama mundial, eu diria que a nossa literatura é uma das mais criativas e instigantes do momento. Lamento que seja tão pouco lida no exterior.
G.R.: Qual o futuro dessa literatura?
E.V.S.: Não faço ideia. O futuro é daqui a pouco. Amanhã.
G.R.:A vida cotidiana interfere no seu trabalho de escritora?
E.V.S.: Naturalmente que sim. Mas não tem a menor importância. Eu diria até que os problemas domésticos descansam a minha cabeça. Gosto de cozinhar, perco longas horas na cozinha.
G.R.: O fato de escrever a ajudou a descobrir-se como mulher?
E.V.S.: Não só a me descobrir como mulher, mas a me revelar todo o meu lado masculino.
G.R.: Lamenta a falta de um modelo, de um mestre no seu período de formação?
E.V.S.: Já falamos nisso, um pouco. Em todo caso, lamento sim. Perderia menos tempo, depois, recuperando o tempo perdido. Mas sou o que sou, apesar das deficiências, ou por causa delas.
G.R.: Existe no Brasil uma escrita, enquanto texto, feminina?
E.V.S.: O que posso dizer a esse respeito é que existem no Brasil excelentes escritoras e dramaturgas mulheres.
G.R.: Como conseguiu publicar seu primeiro livro?
E.V.S.: Mostrando o texto ao amigo editor que começava, como eu. Comprei exemplares da edição, não me lembro quantos, para ajudá-lo, e doei a bibliotecas.
G.R.: Mudou de editora? Por quê?
E.V.S.: Várias vezes. Algumas editoras só querem romances, não aceitam publicar contos. Outras, ao contrário, não fazem questão. Depende da oportunidade. Sou amiga de todos os meus editores. Cada livro é um caso e merece um tratamento especial.
G.R.: Algum editor lhe propôs que escrevesse com exclusividade para ele e com salário fixo? O que acha da ideia?
E.V.S.: Nunca recebi proposta do gênero. Já escrevi, isso sim, por encomenda, recebendo direitos autorais adiantadamente. Acho que eu não gostaria de escrever recebendo salário. Adiantamento de direitos autorais, sim, mas salário…
G.R.: Quando escreve pensa na crítica, nos leitores, no editor?
E.V.S.: Penso no leitor. Quero sempre me expressar da maneira mais clara possível.
G.R.: Discute com o editor, aceita conselhos, cortes, sabendo que o editor conhece o mercado?
E.V.S.: Até hoje, como autora, não tive nenhuma situação parecida. Na qualidade de diretora de coleções, discuto muito com os autores dos prefácios, antes que sejam feitos. Depois, não. Respeito os textos enviados.
G.R.: Acredita que a publicidade seja importante para o lançamento e o sucesso comercial do livro?
E.V.S.: Infelizmente, no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo, no momento da saída do livro, a publicidade é indispensável. A imprensa tem que noticiar, resenhar o novo título, senão ninguém fica sabendo que ele existe, e o editor terá enorme prejuízo. A publicidade não tem nada a ver com a qualidade.
G.R.: Participa do lançamento de seus livros, comparecendo a noites de autógrafos, entrevistas, palestras? Acha importante se autopromover?
E.V.S.: Faço tudo o que é necessário, não para me promover, mas para divulgar o livro.
G.R.: Quando escreve percebe autocensuras, temores em se revelar, laços afetivos, impedimentos?
E.V.S.: Às vezes. O que é facilmente resolvido através dos personagens.
G.R.: O sucesso de uma obra depende de quê? De quem?
E.V.S.: Mistério. Quem sabe a receita?
G.R.: Faça de conta que não disse nada até agora. Poderia traçar o seu perfil humano e profissional para os leitores?
E.V.S.: Isso é muito difícil. Seria melhor que outra pessoa o fizesse. O que posso dizer é que sou um ser que vive coletivamente. Um dos meus grandes prazeres é reunir os amigos em casa, para jantar, conversar fiado. Por isso tenho sempre a casa cheia.
Para saber mais
KREMER, Natan Schmitz; VAZ, Alexandre Fernandez (2023). Edla Van Steen e as imagens de Florianópolis na ditadura. Literatura e Autoritarismo, Santa Maria, n. 41, p. 1-19. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/LA/article/view/70437. Acesso em: 17 jan. 2026.
* Apresentação da autora feita por Giovanni Ricciardi na obra O escritor corporal. Uma sociologia para a literatura, Foz do Iguaçu: EdUnila, 2021.
** Ela foi previamente publicada na obra Biografia e criação literária. Vol.VII: entrevistas escritores do sul do Brasil,Palhoça: Ed. Unisul, 2009.