{"id":924,"date":"2024-05-16T18:14:29","date_gmt":"2024-05-16T18:14:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=924"},"modified":"2025-11-12T18:00:37","modified_gmt":"2025-11-12T21:00:37","slug":"no-tempo-fragil-das-horas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=924","title":{"rendered":"No tempo fr\u00e1gil das horas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">FERREIRA, Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves. <em>No tempo fr\u00e1gil das horas<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Claudeci Ribeiro da Silva Ara\u00fajo<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Gra\u00e7a Craidy<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>No tempo fr\u00e1gil das horas<\/em>, romance de Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira (Garanhuns, PE, 1936), \u00e9 uma leitura que come\u00e7a com grandes expectativas e nasce de uma fotografia na parede de uma sala. A fotografia \u00e9 de Antonia Carneiro da Cunha \u2013 a baronesa de Vera Cruz, que, no dia do seu nascimento, foi prometida pelos pais para casar-se com o tio Manoel Joaquim, bem mais velho do que a menina. A partir dessa premissa, a autora Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves escolhe novamente uma mulher para ser protagonista de seus romances, e narra a hist\u00f3ria de Antonia Carneiro, que ap\u00f3s ficar vi\u00fava, teve de administrar os engenhos da fam\u00edlia no in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, no Estado de Pernambuco, na regi\u00e3o Nordeste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo na abertura da obra, a escritora conta detalhes da pesquisa para escrever esse romance hist\u00f3rico contempor\u00e2neo: \u201cLi e reli cartas e bilhetes ditados por teu desespero e solid\u00e3o. Folheei teu invent\u00e1rio, que \u00e9 um pouco a hist\u00f3ria de teu esplendor e decad\u00eancia\u201d. Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves tamb\u00e9m tocou objetos que pertenceram \u00e0 baronesa de Vera Cruz, a exemplo do vestido de noiva vindo de Paris e um sapatinho de cetim. A partir da\u00ed, nas p\u00e1ginas que se seguem, o(a) leitor(a) \u00e9 conduzido(a) para a leitura de um romance rico em detalhes envolvendo Literatura e Hist\u00f3ria. Duas \u00e1reas que se completam e nas quais Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira tem encontrado espa\u00e7o para representar o cotidiano de mulheres, al\u00e9m de se destacar na luta feminista pela sua escrita liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escritora Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira tem se consolidado na Literatura Brasileira contempor\u00e2nea com um trabalho engajado no romance hist\u00f3rico de autoria feminina, contando a hist\u00f3ria de mulheres que tiveram suas viv\u00eancias silenciadas pelo c\u00e2none liter\u00e1rio e pelo sistema patriarcal. Seus romances s\u00e3o voltados para hist\u00f3rias de mulheres de Pernambuco. A romancista \u00e9 formada em Letras, doutorou-se em <em>\u00c9tudes Litt\u00e9raires Sciences des Textes et Document<\/em> pela <em>Universit\u00e9 de Paris VII \u2013 Universit\u00e9 Denis Diderot<\/em> (1996) e ocupou, durante muito tempo, o cargo de professora de Letras, na&nbsp;Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Como escritora, sua produ\u00e7\u00e3o re\u00fane livros de contos, biografias e romances \u2013 textos que unem a hist\u00f3ria oficial \u00e0 fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira \u00e9 imortal da Academia Pernambucana de Letras (APL) e, ao falar sobre este reconhecimento, relembra: \u201cS\u00f3 consegui entrar numa segunda candidatura, mesmo quando j\u00e1 havia publicado v\u00e1rios livros. Mas me sinto bem por dividir com pessoas amantes de literatura a honra e a responsabilidade do cargo\u201d. Seu nome representa a inclus\u00e3o de mais uma mulher a ocupar o espa\u00e7o dedicado, durante muito tempo, exclusivamente aos homens. A escritora passou a ocupar a cadeira 38, ap\u00f3s a morte de Wladimir Maia Leite, no ano de 2011. A autora pernambucana tamb\u00e9m recebeu pr\u00eamios e homenagens como reconhecimento de seu trabalho na literatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para contar a hist\u00f3ria da mulher da fotografia, que \u00e9 igual \u00e0 de tantas mulheres que cumpriram seu destino aqui na terra \u2013 de forma invis\u00edvel na sociedade \u2013, Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira dividiu o romance <em>No tempo fr\u00e1gil das horas<\/em> em tr\u00eas partes, e cada t\u00f3pico vem com uma numera\u00e7\u00e3o. A primeira parte do romance inicia-se com o nascimento de Antonia Carneiro da Cunha e o di\u00e1logo da sua m\u00e3e Maria Archangela com o irm\u00e3o Manoel Joaquim: \u201c\u00c9s o marido que sonharia para minha Antonia. Vou preparar essa menina para ti\u201d. Aborda um pouco da inf\u00e2ncia nos engenhos da fam\u00edlia, do casamento ainda jovem com o tio e das viagens frequentes, tendo Paris como destino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda parte da obra, ganha visibilidade um pouco da hist\u00f3ria de Maria Am\u00e1lia, sobrinha de Antonia Carneiro da Cunha. Ela, que ficou vi\u00fava muito jovem, conheceu em Paris o conde de Gaston e, com o apoio da tia, ele veio para o Brasil morar em um de seus engenhos. O que chama aten\u00e7\u00e3o nessa segunda parte \u00e9 o comportamento de Maria Am\u00e1lia, que n\u00e3o segue as regras do patriarcado e da Igreja Cat\u00f3lica, pois \u00e9 uma personagem dona dos seus desejos e de amores livres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a terceira e \u00faltima parte do romance, apresenta ao leitor os conflitos vividos pela protagonista Antonia Carneiro da Cunha, al\u00e9m de cartas encontradas em um ba\u00fa, que revelam desde a falta de amor no casamento com Manoel Joaquim, bem como a decad\u00eancia financeira dos engenhos da fam\u00edlia. Nessa parte do livro, encontramos na voz do narrador detalhes de cada passo da protagonista nos engenhos, como se percebe no seguinte trecho: \u201cAntonia empurrou a porteira e a colina devolveu, num eco, o canto melanc\u00f3lico da madeira antiga\u201d. S\u00e3o detalhes de um canto triste em terras de cana-de-a\u00e7\u00facar a perder de vista, compradas por um Hollanda Cavalcanti aos Jesu\u00edtas. Na porta de uma capela, uma data lembrava o tempo da reconstru\u00e7\u00e3o, ano de 1726.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Notadamente, a obra escrita no contexto do Per\u00edodo Colonial traz reflex\u00f5es sobre o casamento como o \u201cdestino\u201d que a sociedade prop\u00f4s para a mulher, transformando-o em objeto da supremacia masculina. A cr\u00edtica \u00e9 feita a partir da constru\u00e7\u00e3o do perfil de Antonia Carneiro da Cunha, que foi prometida ao tio no dia do seu nascimento sem que ela tivesse direito a escolhas, o que representa outras Ant\u00f4nias da nossa sociedade. Mas tamb\u00e9m apresenta uma protagonista com uma postura pol\u00edtica definida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o e \u00e0 condi\u00e7\u00e3o das mulheres, especialmente da casa-grande, uma baronesa como uma mulher de postura subversiva. Um importante aspecto para ser refletido na obra, pois al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o do(a) negro(a), a voz narrativa aborda a quest\u00e3o dos g\u00eaneros. Em s\u00edntese, a tem\u00e1tica contextualiza a situa\u00e7\u00e3o das minorias na sociedade e lhes \u00e9 dada visibilidade nos discursos de Antonia Carneiro por meio da literatura, sobretudo porque, devido ao preconceito de cor, a mulher negra ainda \u00e9 inferiorizada na sociedade, vivenciando situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, sofrendo opress\u00f5es do racismo por ser negra, e do machismo por ser mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No \u00e2mbito da discuss\u00e3o, encontramos, nos fragmentos da obra, um sistema opressor para mulheres e negros do s\u00e9culo XIX, grupos que n\u00e3o tinham espa\u00e7o para se manifestarem na \u00e9poca. O espa\u00e7o criado dentro do romance reflete a escravid\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o do sistema patriarcal em rela\u00e7\u00e3o ao feminino, principalmente quando remete ao comportamento e \u00e0 sexualidade da mulher no casamento. Ent\u00e3o \u00e9 desse universo feminino que trata o romance de Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira porque o livro remonta a um tempo em que as mulheres recebiam educa\u00e7\u00e3o para cuidar da casa e dos filhos, ou seja, eram casadas com o lar. Tamb\u00e9m deviam aceitar o casamento arranjado pela fam\u00edlia. \u00c9 um livro que reflete a cuidadosa escrita de Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira, deslocando-se pelo universo que melhor conhece \u2013 as mulheres de Pernambuco, suas viv\u00eancias e descobertas.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LOPES, Maria Suely de Oliveira (2013). <em>A escrita de Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira<\/em>: um estudo de metafic\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica<em>.<\/em> Tese (Doutorado em Letras e Lingu\u00edstica) \u2013 Universidade Federal de Pernambuco, Recife. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MACIEL, Anamelia Dantas (2008). <em>G\u00eanero e fic\u00e7\u00e3o na obra de Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves Ferreira:<\/em> um estudo sobre A gar\u00e7a mal ferida. Recife: Editora Universit\u00e1ria. \u00a0 \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-3102.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-3102\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Rocco-2003.webp\" data-caption-title=\"Rocco, 2003\" data-attachment-id=\"3103\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Rocco, 2003\" width=\"250\" height=\"339.67391304348\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Rocco-2003.webp\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22339.67391304348%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20339.67391304348%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Rocco, 2003<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FERREIRA, Luzil\u00e1 Gon\u00e7alves. 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