{"id":7983,"date":"2026-04-20T12:20:45","date_gmt":"2026-04-20T15:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=7983"},"modified":"2026-04-20T12:20:45","modified_gmt":"2026-04-20T15:20:45","slug":"os-possessos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=7983","title":{"rendered":"Os possessos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">ALMEIDA FILHO, Leonardo. <em>Os possessos. <\/em>Bras\u00edlia: Patu\u00e1, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Mayara Esteves-Costa<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Victor Flecki<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Os possessos <\/em>(2022), livro de Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, PB, 1960), combina os g\u00eaneros romance, entrevista, poema, cr\u00f4nica e conto em coment\u00e1rios acerca da vida, do luto, da solid\u00e3o e, sobretudo, das configura\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que regem o Brasil contempor\u00e2neo. Residente em Bras\u00edlia desde 1962, Almeida Filho \u00e9 mestre em literatura brasileira e publicou oito livros antes de <em>Os possessos<\/em>, obra finalista do Pr\u00eamio Candango de Literatura de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No cerne do romance est\u00e1 a morte de Luiz Carlos Mariano, not\u00e1vel literato e professor universit\u00e1rio aposentado que, com a ascens\u00e3o de movimentos neoliberais e as crescentes amea\u00e7as \u00e0 democracia no Brasil, abdica de seu ativismo e se isola em um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. A rememora\u00e7\u00e3o de sua vida e obra, majoritariamente apresentada pelo ponto de vista das pessoas mais pr\u00f3ximas a ele, mobiliza temas como <em>fake news<\/em>, racismo, viol\u00eancia policial, desemprego, precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, entre outros pr\u00f3prios \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o do bolsonarismo no Brasil, como a neglig\u00eancia estatal, os discursos de \u00f3dio, os ataques aos direitos humanos e a apologia \u00e0 ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O romance foi publicado ap\u00f3s um ano do falecimento do professor Hermenegildo Bastos, a quem a obra \u00e9 dedicada. Para seus coet\u00e2neos, o livro desvenda-se como uma sauda\u00e7\u00e3o a esse mestre e, nesse sentido, como um manifesto antifascista em mem\u00f3ria de seu legado. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio conhecer a trajet\u00f3ria de Hermenegildo Bastos para que a obra produza sentidos, mas faz\u00ea-lo permite uma leitura outra, haja vista sua defesa incans\u00e1vel pelo estado democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bastos compreendia a poesia como um todo que evidencia os processos de evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da humanidade. Para o professor, corroborando Luk\u00e1cs, a dial\u00e9tica entre hist\u00f3ria e poesia revela que esta se inscreve na processualidade temporal da a\u00e7\u00e3o humana, transformando-a, agindo sobre a hist\u00f3ria na medida em que a pr\u00f3pria hist\u00f3ria a inspira e edifica, mas tamb\u00e9m corr\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Repousa nesses ensinamentos a estrutura narrativa de <em>Os possessos<\/em>, que al\u00e9m de registrar, no campo do conte\u00fado, o desalento de um intelectual de esquerda, apresenta, em seu desenvolvimento, um apelo ao soerguimento coletivo para a supera\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie. Para tanto, o livro \u00e9 composto por cap\u00edtulos apresentados por um narrador em terceira pessoa que ambienta a hist\u00f3ria, explica algumas das rela\u00e7\u00f5es pessoais da trama e introduz alguns dos narradores em primeira pessoa que aparecer\u00e3o em seguida. Essas narra\u00e7\u00f5es entremeiam cap\u00edtulos em que foram criadas entrevistas, reportagens de jornal, poemas traduzidos, cr\u00f4nicas, notas autobiogr\u00e1ficas e, ao final da obra, um conto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 justamente dos poemas traduzidos que emerge a voz direta de Luiz Carlos Mariano. Ele na obra, assim como Hermenegildo Bastos em vida, assume o ep\u00edteto de c\u00e9lebre professor do departamento de Letras da Universidade de Bras\u00edlia. O protagonista, nascido em 1960, migra da Regi\u00e3o Nordeste para a capital do pa\u00eds e se consagra no meio liter\u00e1rio como escritor, poeta e professor. Em seguida, s\u00e3o apresentadas as cr\u00f4nicas nomeadas <em>Cenas de Copacabana<\/em>. Nelas, o professor-personagem faz jus ao seu prest\u00edgio, perpassando temas como o suic\u00eddio, a velhice e a viol\u00eancia policial, em cenas do cotidiano carioca. H\u00e1 surpreendente leveza e bom humor em sua escrita, ainda que n\u00e3o seja alheia ao caos vigente no Brasil. O conjunto dos seis textos permanece no imagin\u00e1rio do leitor por dias findada a leitura de <em>Os possessos<\/em>. A leitura dessas cr\u00f4nicas \u00e9 como ler Drummond na Praia do Arpoador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas p\u00e1ginas que se seguem, s\u00e3o apresentadas as notas autobiogr\u00e1ficas ficcionais e, por fim, um conto, que explica o t\u00edtulo da obra, \u201cOs possessos\u201d. Este conto, intitulado \u201cA longa noite das avestruzes\u201d, enuncia Bertold Brecht em sua ep\u00edgrafe: \u201cA cadela do fascismo est\u00e1 sempre no cio\u201d, anunciando o caos e o desespero frente \u00e0 calamidade estabelecida pelos monstruosos \u201cverde-amarelos\u201d no cen\u00e1rio do Brasil contempor\u00e2neo. \u00c9 um registro da selvageria pr\u00f3pria desse recorte da hist\u00f3ria brasileira e, com isso, uma assinatura de toda a obra, como quem rubrica e data seu documento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora seja uma figura central, Luiz Carlos Mariano tem menos espa\u00e7o de narra\u00e7\u00e3o do que as personagens que o circundam, uma vez que a hist\u00f3ria come\u00e7a justamente com seu vel\u00f3rio. Assim, a constru\u00e7\u00e3o ficcional da obra \u00e9 realizada por meio da vis\u00e3o dos outros personagens que conviveram com ele, como Teo, seu irm\u00e3o; Jos\u00e9 Matias e Ti\u00e3o, porteiros de seu pr\u00e9dio; Helena, sua namorada; e Luiz Carlos Mariano J\u00fanior e Sofia, seus filhos. As vozes desses personagens quase se confundem na primeira parte da obra, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 tanto contraste entre marcadores lingu\u00edsticos que diferenciam a estil\u00edstica de cada narrador. Isto \u00e9, ainda que apresentem diferentes n\u00edveis de escolaridade e que estejam situados em contextos socioecon\u00f4micos muito distintos, suas narra\u00e7\u00f5es, acrescidas \u00e0s do narrador heterodieg\u00e9tico, s\u00e3o feitas a partir de uma linguagem muito parecida, pr\u00f3pria das variedades lingu\u00edsticas de prest\u00edgio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A voz de Teo, por exemplo, <em>uber <\/em>e <em>motoboy<\/em> que n\u00e3o concluiu o Ensino M\u00e9dio e reafirma com frequ\u00eancia seu desapre\u00e7o pelos estudos, conta com constru\u00e7\u00f5es em linguagem acad\u00eamica, al\u00e9m de elaboradas divaga\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas e hermen\u00eauticas. \u00c9 o que se nota no uso de termos como \u201csemelhan\u00e7a medular\u201d e \u201ctaciturno\u201d e em trechos de digress\u00f5es sobre a figura de seu pai. Se o leitor consegue superar o estranhamento relativo \u00e0 disson\u00e2ncia entre o personagem e a linguagem esperada, pode encontrar algum al\u00edvio em perceber uma alternativa aos ma\u00e7antes estere\u00f3tipos de classe, nos quais comumente se retratam trabalhadores como sujeitos acr\u00edticos e iletrados, limitados a uma comunica\u00e7\u00e3o empobrecida lexicalmente, pouco coesa e autoconsciente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro inc\u00f4modo surge nas narra\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Matias. Ao porteiro do pr\u00e9dio de Luiz Carlos Mariano \u00e9 incutida a fun\u00e7\u00e3o de discorrer sobre racismo, viol\u00eancia policial, <em>fake news<\/em> e feitos das igrejas neopentecostais. Para al\u00e9m do l\u00e9xico e da sintaxe, por vezes suas falas parecem program\u00e1ticas, como em \u201cEu estava at\u00e9 muito feliz, tinha conseguido financiar uma casinha no programa Minha Casa, Minha Vida e sabia muito bem que era uma coisa dos governos do PT e da presidenta\u201d. O desconforto, entretanto, d\u00e1 lugar \u00e0 raz\u00e3o ao lembrar da necessidade de reafirmar o \u00f3bvio nos tempos em que a verdade era diariamente aviltada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fez parte da luta daqueles dias reafirmar a ci\u00eancia e a hist\u00f3ria. N\u00e3o t\u00e3o distante, ainda se percebem as sequelas desses ataques. Na literatura brasileira contempor\u00e2nea, em especial, ecoam recursos que utilizam diversos g\u00eaneros para passar a mesma mensagem, na esperan\u00e7a de se fazer entender por algum deles. \u00c9 uma redu\u00e7\u00e3o estrutural do desespero frente a um di\u00e1logo que n\u00e3o se fazia poss\u00edvel, de pessoas que explicavam, demonstravam, comprovavam e recebiam de todos os seus esfor\u00e7os duas respostas: o negacionismo e mais \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 tamb\u00e9m nesse sentido que o livro funciona como um retrato da ang\u00fastia desse momento, que \u00e9 uma marca profunda na hist\u00f3ria do Brasil. O epis\u00f3dio de discuss\u00e3o entre Luiz Carlos Mariano e Teo rememora as diversas rela\u00e7\u00f5es dissolvidas durante a ascens\u00e3o do bolsonarismo. As falas relacionadas \u00e0 \u201cmamadeira de piroca\u201d e ao \u201ckit gay\u201d marcam o absurdo daquele momento. Por sua vez, embora a pandemia de covid-19 n\u00e3o seja diretamente um tema presente no enredo, a mem\u00f3ria de crian\u00e7as alvejadas em opera\u00e7\u00f5es policiais atinge a urg\u00eancia de recobrar o valor da vida. Isto \u00e9, a banaliza\u00e7\u00e3o de mortes pelo Estado e a necropol\u00edtica que assolam o Brasil s\u00e3o temas que emergem do livro para urgir pr\u00e1ticas de mobiliza\u00e7\u00e3o contra toda forma de amea\u00e7a \u00e0 democracia. Dentre elas, o n\u00e3o esquecimento, o n\u00e3o \u00e0 anistia, a responsabiliza\u00e7\u00e3o dos criminosos que, de diversos modos, permitiram esse exterm\u00ednio e, de muitas outras maneiras, financiaram a destrui\u00e7\u00e3o de milhares de fam\u00edlias brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BOIDE, Alexandre (2023). Monstros verde-amarelos. <em>Impress\u00f5es Aleat\u00f3rias<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/impressoesaleatorias.medium.com\/monstros-verde-amarelos-cd19a48ea5b6\">https:\/\/impressoesaleatorias.medium.com\/monstros-verde-amarelos-cd19a48ea5b6<\/a>. Acesso em: 18 ago. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KOVACS, Alexandre (2023). Leonardo Almeida Filho \u2013 Os possessos. <em>Mundo de K<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.mundodek.com\/2023\/02\/leonardo-almeida-filho-os-po.html\">https:\/\/www.mundodek.com\/2023\/02\/leonardo-almeida-filho-os-po.html<\/a>. Acesso em: 18 ago. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-7984.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-7984\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Patua-2022-1.avif\" data-caption-title=\"Patu\u00e1, 2022\" data-attachment-id=\"7986\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Patu\u00e1, 2022\" width=\"250\" height=\"355\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2026\/04\/Patua-2022-1\/557138046.avif\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22355%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20355%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Patu\u00e1, 2022<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ALMEIDA FILHO, Leonardo. Os possessos. Bras\u00edlia: Patu\u00e1, 2022. Mayara Esteves-CostaIlustra\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o Victor Flecki Os possessos (2022), livro de Leonardo Almeida Filho (Campina Grande, PB, 1960), combina os g\u00eaneros romance, entrevista, poema, cr\u00f4nica e conto em coment\u00e1rios acerca da vida, do luto, da solid\u00e3o e, sobretudo, das configura\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que regem o Brasil contempor\u00e2neo. 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