{"id":7978,"date":"2026-04-20T13:35:22","date_gmt":"2026-04-20T16:35:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=7978"},"modified":"2026-04-20T13:35:23","modified_gmt":"2026-04-20T16:35:23","slug":"corpo-desfeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=7978","title":{"rendered":"Corpo desfeito"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">ARRAES, Jarid. <em>Corpo desfeito. <\/em>Rio de Janeiro: Alfaguara, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Renan Henrique Messias de Paulo<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Esp\u00edrito Objeto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Detentora de uma das vozes mais criativas e representativas do Cariri, no Cear\u00e1, Jarid Arraes (Juazeiro do Norte, CE, 1991) \u00e9 autora de sete obras, tendo estreado, em 2015, com <em>As lendas de Dandara<\/em>, em edi\u00e7\u00e3o independente e, em 2016, pela editora Cultura. A autora n\u00e3o se restringe a um \u00fanico g\u00eanero liter\u00e1rio: sua escrita transita entre poemas, cord\u00e9is, contos e romance. Com o livro de contos <em>Redemoinho em dia quente<\/em> (2019), recebeu os pr\u00eamios Biblioteca Nacional e APCA de Literatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em entrevista concedida a Bruno In\u00e1cio (2025) para o jornal <em>Le Monde Diplomatique<\/em>, Arraes confessa que uma das principais chaves de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, sua \u201cgrande obsess\u00e3o como escritora, \u00e9 o trauma\u201d. Seja ele social, coletivo, transgeracional, individual, continua a escritora: \u201c\u00c9 o trauma e o que considero belo, sempre juntos: o animalesco, o horror, a extrapola\u00e7\u00e3o, a insol\u00eancia, a iconoclastia e os \u00edcones do feminino monstruoso e terr\u00edvel. Assim me sinto confort\u00e1vel, inspirada, criativa e viva. Sou obcecada por explorar o horr\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Corpo <\/em>desfeito, publicado em 2022 pela Alfaguara, \u00e9 o romance de estreia de Arraes. Narrado em primeira pessoa, acompanha a hist\u00f3ria de Amanda, uma menina de 12 anos que passa a viver com a av\u00f3 ap\u00f3s a morte tr\u00e1gica da m\u00e3e em um acidente de tr\u00e2nsito, e do av\u00f4, que morre alcoolizado nas ruas de Juazeiro do Norte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a av\u00f3, esperava-se que a garota fosse acolhida, mas, naquele \u00e2mbito familiar, os pap\u00e9is se invertem e \u00e9 a menina quem carrega o peso de cuidar da mais velha, ao mesmo tempo que se encontra em uma situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o e encarceramento dentro da pr\u00f3pria casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marlene, a av\u00f3, ap\u00f3s um per\u00edodo de luto em que sua vida se desmorona, j\u00e1 que era a filha quem sustentava economicamente a fam\u00edlia, resgata a imagem da m\u00e3e de Amanda e a subverte em santa. Esse gesto, a princ\u00edpio c\u00f4mico, ganha camadas de horror ao associar a figura beatificada da filha a desejos tir\u00e2nicos sobre a neta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa situa\u00e7\u00e3o, Amanda se v\u00ea desolada, sem voz ativa para se desvencilhar da viol\u00eancia f\u00edsica, psicol\u00f3gica e simb\u00f3lica a que \u00e9 submetida. Sua vida se transforma em um mart\u00edrio quando passa a usar um \u00fanico vestido azul que cobre todo o corpo; \u00e9 obrigada a tomar banho tr\u00eas vezes ao dia, apenas com sab\u00e3o; a rezar de joelhos sobre gr\u00e3os de milho quando n\u00e3o cumpria alguma regra; al\u00e9m de suportar agress\u00f5es que deixavam marcas vis\u00edveis em sua pele ap\u00f3s as explos\u00f5es de ira da av\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O leitor n\u00e3o \u00e9 poupado de cenas em que a inf\u00e2ncia \u00e9 corrompida. A cada dia, a av\u00f3 despeja mais a\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias para dominar por completo a neta. Longe da \u00fanica pessoa que antes a protegia, sua m\u00e3e, Amanda sente o desamparo absoluto, sobretudo porque nem mesmo os vizinhos, que ouviam o que acontecia na casa de Marlene, se dispunham a agir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda que conserve alguma f\u00e9 e se apegue \u00e0 figura de Padre C\u00edcero, em diversos momentos da narrativa, a protagonista de <em>Corpo desfeito<\/em> n\u00e3o encontra lampejos de esperan\u00e7a no futuro. Resigna-se a uma vida que compreende como normal e chega a acreditar que \u201camar \u00e9 como oferecer o corpo para ser punido\u201d. Na escola, sofre <em>bullying <\/em>por n\u00e3o poder usar o uniforme ou roupas diferentes, como as demais crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Percebe-se, tamb\u00e9m, que Amanda \u00e9 v\u00edtima de um ciclo de viol\u00eancia j\u00e1 atravessado por sua m\u00e3e e por sua av\u00f3. A m\u00e3e, criada sozinha, foi rejeitada pelo av\u00f4 por \u201cn\u00e3o reconhecer\u201d seu rosto ao nascer; e a av\u00f3, por sua vez, havia sofrido com trai\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias f\u00edsicas dentro de casa: \u201cQuando casou, v\u00f3 foi amea\u00e7ada de morte muitas vezes. Muitas vezes quase foi morta. Jamais faltaram motivos para que v\u00f4 Jorge, virado na cacha\u00e7a, aceitasse o impulso de pegar uma peixeira\u201d. O pai de Amanda n\u00e3o \u00e9 exposto no romance, e a cria\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria da filha era motivo de ira dos av\u00f3s, que julgavam a m\u00e3e como \u201cputa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O culto \u00e0 m\u00e3e, agora santificada, vinha acompanhado de uma s\u00e9rie de regras para manter a imagem da santa. Entre as imposi\u00e7\u00f5es, determinava-se: \u201cusar somente vestidos azuis. Cal\u00e7ar somente sand\u00e1lias de couro marrom. N\u00e3o cortar o cabelo. Manter o cabelo preso. Tomar tr\u00eas banhos por dia: manh\u00e3, tarde e noite\u201d. A essas prescri\u00e7\u00f5es somavam-se interdi\u00e7\u00f5es r\u00edgidas: \u201c\u00e9 proibido ouvir m\u00fasica. \u00c9 proibido assistir televis\u00e3o e filmes. \u00c9 proibido ter contato com qualquer tipo de material impr\u00f3prio. \u00c9 proibido tocar em si mesma de maneira impr\u00f3pria. \u00c9 proibido ser tocada por rapazes de maneira impr\u00f3pria. \u00c9 proibido ter amigos meninos, rapazes ou homens. \u00c9 proibido tocar meninos, rapazes ou homens de maneira impr\u00f3pria\u201d. Por fim, estabeleciam-se obriga\u00e7\u00f5es religiosas estritas: \u201c\u00c9 obrigat\u00f3rio praticar a reza de domingo. \u00c9 obrigat\u00f3rio seguir todas as etapas da purifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 obrigat\u00f3rio rezar todos os dias: durante os banhos, ao acordar e antes de dormir\u201d. Dessa forma, o dom\u00ednio sobre a garota era abusivo e impactava diretamente a maneira como ela percebia a pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A virada na vida de Amanda demora a acontecer. O leitor \u00e9 conduzido pela sofrida e turbulenta exist\u00eancia da menina at\u00e9 os cap\u00edtulos finais, sem tom de esperan\u00e7a, apenas com o gosto amargo da impot\u00eancia. Entretanto, assim como na vida sempre existe a possibilidade de escapar, ainda que momentaneamente, \u00e0s formas de controle, a narrativa apresenta outra figura essencial em sua vida: J\u00e9ssica, sua colega de classe. Retratada como ouvinte atenta das dores da protagonista, a amiga surge como um ref\u00fagio em meio \u00e0 aridez que queimava sua pele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que Amanda se torna mais isolada pelas proibi\u00e7\u00f5es da av\u00f3, a reaproxima\u00e7\u00e3o com J\u00e9ssica ocorre em um passeio ao s\u00edtio da fam\u00edlia. Esse reencontro faz com que o corpo desfeito de Amanda comece a se reconstruir. Diante do amor entre amigas, as regras da av\u00f3 s\u00e3o rompidas e, mais importante, ocorre uma fissura na vis\u00e3o da narradora, que passa a questionar se tudo aquilo estava de fato correto, pois n\u00e3o acreditava que sua m\u00e3e desejasse tais imposi\u00e7\u00f5es, como se constata no trecho: \u201cExausta, o corpo doendo. Escrevi que queria que as regras se lascassem, eu n\u00e3o mere\u00e7o aquilo, eu n\u00e3o tenho que viver para esfregar, lavar e cozinhar, eu quero ter uma vida e s\u00f3 porque mainha morreu n\u00e3o significa que eu n\u00e3o posso viver\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Arraes constr\u00f3i a trajet\u00f3ria de sua protagonista a partir de uma inflex\u00e3o orientada pelo afeto, configurando-o como gesto de supera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e do obscurantismo que estruturaram, at\u00e9 ent\u00e3o, o ambiente narrativo. O amadurecimento precoce de Amanda \u00e9 moldado pelos constantes lutos e enclausuramentos que perpassam sua vida. Ao final de seu percurso, j\u00e1 desvinculada das for\u00e7as que a constrangiam, a personagem passa a vislumbrar a possibilidade do amor e do afeto como dimens\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o pouco acess\u00edveis em sua experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trama romanesca de Arraes, organizada em 17 cap\u00edtulos, articula-se em primeira pessoa a partir da mem\u00f3ria de Amanda, uma menina cuja inf\u00e2ncia \u00e9 progressivamente corrompida. O relato \u00edntimo revela uma realidade que se desagrega sob o peso das viol\u00eancias f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas e simb\u00f3licas \u00e0s quais \u00e9 submetida, bem como pelas trag\u00e9dias que atravessam o n\u00facleo familiar. Essa perspectiva narrativa confere densidade \u00e0 obra, pois exp\u00f5e a fragilidade da protagonista diante de um cotidiano opressor, al\u00e9m de problematizar o modo como a mem\u00f3ria individual se entrela\u00e7a com marcas coletivas de trauma, tradi\u00e7\u00e3o e religiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena destacar, ainda, a linguagem escolhida pela autora. Arraes recorre a express\u00f5es pr\u00f3prias de sua terra natal e a voc\u00e1bulos que remetem ao universo da inf\u00e2ncia, o que confere maior verossimilhan\u00e7a \u00e0 narrativa. Esse recurso estil\u00edstico refor\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o da voz da protagonista e tamb\u00e9m explora, de maneira singular, o cotidiano, revelando como o espa\u00e7o, a oralidade e a mem\u00f3ria se entrela\u00e7am na tessitura romanesca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com <em>Corpo desfeito<\/em>, Jarid Arraes confirma a centralidade do trauma como marca de sua po\u00e9tica e se afirma como uma voz potente da literatura brasileira contempor\u00e2nea, ao articular mem\u00f3ria, viol\u00eancia e resist\u00eancia em uma narrativa que exp\u00f5e a dor, mas que tamb\u00e9m abre espa\u00e7o para o amor como possibilidade de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARBOSA, Larissa Dias (2025). <em>Inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e dissid\u00eancia<\/em>: uma an\u00e1lise de <em>Foi um p\u00e9ssimo dia<\/em> e <em>Corpo desfeito<\/em>. Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso (Letras \u2013 L\u00edngua Portuguesa e Literaturas) \u2013 Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">IN\u00c1CIO, Bruno (2025). Jarid Arraes: \u201cHoje sei que minha grande obsess\u00e3o como escritora \u00e9 o trauma\u201d. <em>Le Monde Diplomatique Brasil<\/em>. 9 jul. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/jarid-arraes-poemas\/\">https:\/\/diplomatique.org.br\/jarid-arraes-poemas\/<\/a>. Acesso em: 30 ago. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MACHADO, Daniel Almeida (2024). Outros personagens, outros amores: afetividades l\u00e9sbicas em <em>Corpo desfeito<\/em>, de Jarid Arraes. <em>Caligrama: Revista de Estudos Rom\u00e2nicos<\/em>, Belo Horizonte, v. 29, n. 1, p. 126-136. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/caligrama\/article\/view\/53949\">https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/caligrama\/article\/view\/53949<\/a>. Acesso em: 20 ago. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MACHADO, Daniel Almeida; GUIDA, Angela Maria (2023). Viol\u00eancia psicol\u00f3gica na literatura contempor\u00e2nea: cenas do invis\u00edvel.&nbsp;<em>Scripta<\/em>, Belo Horizonte, v. 27, n. 61, p. 18-49. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.pucminas.br\/scripta\/article\/view\/31293\">https:\/\/periodicos.pucminas.br\/scripta\/article\/view\/31293<\/a>. Acesso em: 26 ago. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-7979.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-7979\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Alfaguara-2022.avif\" data-caption-title=\"Alfaguara, 2022\" data-attachment-id=\"7980\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Alfaguara, 2022\" width=\"250\" height=\"391\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2026\/04\/Alfaguara-2022\/1316249518.avif\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22391%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20391%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Alfaguara, 2022<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ARRAES, Jarid. 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