{"id":7787,"date":"2026-04-22T21:43:20","date_gmt":"2026-04-23T00:43:20","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=7787"},"modified":"2026-04-23T08:39:30","modified_gmt":"2026-04-23T11:39:30","slug":"corpo-a-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=7787","title":{"rendered":"Corpo a corpo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">LISPECTOR, Elisa. <em>Corpo a corpo<\/em>. Rio de Janeiro: Antares, 1983.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Maria Eduarda Miranda Paniago<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Carolina Vigna<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma mulher, um luto e o oceano. Esses s\u00e3o os tr\u00eas elementos que primeiro captam a aten\u00e7\u00e3o no enredo de <em>Corpo a corpo <\/em>(1983), de Elisa Lispector (Savran, Ucr\u00e2nia, 1911 \u2013 Rio de Janeiro, RJ, 1989). Estruturado em cap\u00edtulos breves, o livro \u00e9 narrado por uma mulher que, sem revelar seu nome, tenta elaborar o luto por meio de reflex\u00f5es sobre a vida e a morte e rememora\u00e7\u00f5es de sua complexa rela\u00e7\u00e3o com seu falecido marido. Entre o di\u00e1rio e o mon\u00f3logo, o romance \u00e9 majoritariamente formado por fluxos de consci\u00eancia. O luto, tema t\u00e3o comum na literatura universal, se torna particularmente interessante por meio da atitude indagadora da personagem principal, que n\u00e3o se esquiva de se entregar por completo a essa experi\u00eancia, lan\u00e7ando-se a abstra\u00e7\u00f5es profundas e dolorosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora n\u00e3o haja uma demarca\u00e7\u00e3o temporal expl\u00edcita, pode-se entender que a narrativa se desenrola ao longo de dias passados pela narradora em um local afastado, no litoral, aonde foi para vivenciar intimamente o processo de perda, ou, como diz, para \u201cfazer um acerto de contas\u201d consigo mesma. N\u00e3o seria exagero afirmar que \u00e9 mesmo um embate contra si que ela trava ao longo das p\u00e1ginas. Ainda que a figura essencial que motive a escrita seja o \u201ctu\u201d ausente a quem ela se dirige, \u00e9 do \u201ceterno desencontro\u201d do \u201ceu\u201d consigo mesmo que sua ang\u00fastia prov\u00e9m em maior parte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na elabora\u00e7\u00e3o desse desajuste, surgem as mem\u00f3rias com o amado, nas quais ela n\u00e3o parece menos solit\u00e1ria do que no presente em que narra. O marido fora um escritor maduro e de relativo sucesso num certo c\u00edrculo liter\u00e1rio e intelectual, universo no qual a narradora mostra dificuldade em se inserir, ainda que demonstre possuir a mesma forma\u00e7\u00e3o cultural que ele. Desse modo, o \u201ccorpo a corpo\u201d amoroso entre os dois se confunde com o do combate. Nessa peleja, ela se alterna entre se impor, querendo provar seu valor e intelig\u00eancia, e se fechar \u201cem sua concha\u201d, autodepreciando-se, conformada com sua posi\u00e7\u00e3o de inferioridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse \u201cmon\u00f3logo autopunitivo\u201d, como descreve sua narrativa, a personagem se martiriza pela sua ina\u00e7\u00e3o diante da vida, incomodada com a posi\u00e7\u00e3o escanteada \u00e0 qual se sentia restrita em sua rela\u00e7\u00e3o amorosa. Magoada com a indiferen\u00e7a de seu companheiro, que se mostrava sempre mais interessado em suas leituras e escritos do que nela, sente um misto de raiva e culpa, ora demonstrando acreditar merecer mais do que ele lhe ofereceu, ora convencendo-se de que era mesmo indigna de seu amor. Nem mesmo no enterro do marido ela se sente confort\u00e1vel para participar do ritual de despedida que todos os outros presentes executam, mantendo-se, mais uma vez, \u00e0 margem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 margem \u00e9, ali\u00e1s, uma express\u00e3o precisa para definir sua posi\u00e7\u00e3o diante da vida, que pode ser compreendida sobretudo por meio do espa\u00e7o da narrativa. Os devaneios que conta se passam, em sua maioria, \u00e0 beira do mar. \u00c9 justamente nesse estado de \u201c\u00e0 beira de\u201d que a personagem parece se sentir em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria vida. Em sua perspectiva, o oceano representa uma esp\u00e9cie de totalidade que lhe causa inveja, em compara\u00e7\u00e3o com a fragmenta\u00e7\u00e3o da vida, do tempo e do ser. Diante dele, ela se d\u00e1 conta da condi\u00e7\u00e3o de pequenez e sente a vertigem da vida em sua falta de sentido, sendo atra\u00edda pela vontade de ser um com o Todo, o que pressup\u00f5e, de algum modo, a autoanula\u00e7\u00e3o. A morte na obra elisiana, como afirma Campos (2019), \u201cn\u00e3o \u00e9 vista como fim, mas como caminho para a liberta\u00e7\u00e3o e fuga da realidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tenta\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio ocorre algumas vezes \u00e0 personagem, como se pode ver ora de modo mais expl\u00edcito, ora mais cifrado. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de tens\u00e3o crescente na obra: quanto mais profundamente a protagonista se entrega \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da totalidade do mar, num misto de temor e desejo, maior a expectativa do leitor por um certo cl\u00edmax, isto \u00e9, o momento de seu encontro definitivo com o oceano, o que poderia significar, talvez, a morte. No entanto, n\u00e3o \u00e9 o que acontece ou, ao menos, n\u00e3o desse jeito. Numa cena em que se desloca desse cen\u00e1rio para ir at\u00e9 o povoado pr\u00f3ximo fazer compras, ela relata quase ter sido atropelada. Uma experi\u00eancia de quase morte que \u00e9 capaz de tir\u00e1-la daquela esp\u00e9cie de transe ensimesmado e despert\u00e1-la para a vida. A perplexidade toma conta de seu ser e, retornando a seu chal\u00e9 na praia, retorna tamb\u00e9m a suas reflex\u00f5es, mas dessa vez, algo est\u00e1 mudado. Tomada por uma s\u00fabita coragem, decide ir de uma vez por todas ao encontro do mar. Nesse encontro, o que lhe espera n\u00e3o \u00e9 exatamente a morte f\u00edsica, mas uma tal sensa\u00e7\u00e3o de liberdade e unidade que provoca uma esp\u00e9cie de renascimento, um \u201cbatismo com o mar\u201d, como descreve em alguns cap\u00edtulos antes. Dentro do mar, torna-se \u201cperigosamente consciente\u201d, assumindo finalmente uma posi\u00e7\u00e3o de protagonismo em sua vida, antes experimentada sempre pelas bordas e beiradas. O cl\u00edmax consiste, assim, no encontro do eu com o eu, com uma afirma\u00e7\u00e3o contundente em um dos cap\u00edtulos finais: \u201ceu me sou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado na d\u00e9cada de 1980, o livro se distancia de uma certa tend\u00eancia de engajamento social e de narrativas urbanas que povoavam a literatura brasileira da \u00e9poca. Sua ambi\u00e7\u00e3o existencialista se aproxima de prosadores de grande envergadura \u2013 imposs\u00edvel n\u00e3o se lembrar da pr\u00f3pria Clarice Lispector, sua irm\u00e3, ou de Guimar\u00e3es Rosa, quando, a certa altura, o autor escreve sobre o perigo de viver \u2013, assim como de poetas como Ad\u00e9lia Prado, que, embora em estilo diferente, tamb\u00e9m fazem da escrita uma esp\u00e9cie de busca pela compreens\u00e3o de conceitos abstratos, como Deus, a vida e a morte. \u201cO pensamento da morte n\u00e3o se acostuma comigo\u201d, diz Prado em um de seus poemas, \u201cDesenredo\u201d, verso que poderia fazer parte da profus\u00e3o de pensamentos da protagonista de <em>Corpo a corpo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imposs\u00edvel deixar de notar as quest\u00f5es de g\u00eanero que permeiam o livro, ainda que muitas vezes nas entrelinhas. O lugar da mulher intelectual e escritora surge de forma tensa nessa obra, entremeado por um sofrimento confuso, ainda apenas um pressentimento sem nome da avers\u00e3o estrutural existente em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento e \u00e0 criatividade femininos. Isso se deixa ver n\u00e3o apenas como tema do livro, nas cenas em que a protagonista recorda o desinteresse e desd\u00e9m do marido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua subjetividade, mas tamb\u00e9m se revela num contexto mais amplo, que diz respeito \u00e0 recep\u00e7\u00e3o deste e de outros livros da autora. Como aponta Rodrigues (2021), a obra elisiana teve seu valor liter\u00e1rio subjugado por uma cr\u00edtica majoritariamente masculina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, cabe dizer que a grande import\u00e2ncia da personagem masculina e de sua morte dentro do enredo est\u00e1 sobretudo no fato de permitirem \u00e0 narradora al\u00e7ar voo, por meio do mergulho no \u00edntimo de sua subjetividade, a quest\u00f5es maiores, filos\u00f3ficas e coletivas. Se, por um lado, tem-se a sensa\u00e7\u00e3o, em algumas passagens, de se tratar de uma trama qualquer sobre um sofrimento amoroso, logo se pode notar que o que h\u00e1 de mais interessante nessa hist\u00f3ria de amor s\u00e3o as reflex\u00f5es filos\u00f3ficas e existenciais que ela potencializa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, <em>Corpo a corpo <\/em>permanece numa linha tem\u00e1tica recorrente na obra de Elisa Lispector, que explora a solid\u00e3o feminina e a escrita intimista e existencial, como se v\u00ea, por exemplo, nos romances <em>O muro de pedras <\/em>(1963) e <em>A \u00faltima porta <\/em>(1975). Essa caracter\u00edstica introspec\u00e7\u00e3o coloca em evid\u00eancia, por meio de uma linguagem altamente po\u00e9tica, uma minuciosa investiga\u00e7\u00e3o dos sentidos da vida e da subjetividade humana, em que reside sua maior pot\u00eancia liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ANDRADE, Ana Beatriz Mello Santiago (2020). <em>Uma Lispector chamada Elisa<\/em>: hist\u00f3ria(s) de ex\u00edlio. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Literatura) \u2013 Universidade Federal de Santa Catarina, Florian\u00f3polis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAMPOS, Fernanda Cristina de (2019). Elisa Lispector: a escolha de um itiner\u00e1rio desconhecido.&nbsp;<em>T\u00e9ssera<\/em>, v. 2, n. 1, p. 206-226. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/seer.ufu.br\/index.php\/tessera\/article\/view\/51101\">https:\/\/seer.ufu.br\/index.php\/tessera\/article\/view\/51101<\/a>. Acesso em: 22 ago. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RODRIGUES, D\u00e9bora Magalh\u00e3es Cunha (2021). Para al\u00e9m de um teto todo seu: o caso Elisa Lispector.\u00a0<em>Caderno Seminal<\/em>, Rio de Janeiro, n. 39, p. 292-332. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.e-publicacoes.uerj.br\/cadernoseminal\/article\/view\/58166\">https:\/\/www.e-publicacoes.uerj.br\/cadernoseminal\/article\/view\/58166<\/a>. Acesso em: 22 ago. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-7789.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-7789\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Antares-1983-2.avif\" data-caption-title=\"Antares, 1983\" data-attachment-id=\"7866\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Antares, 1983\" width=\"250\" height=\"385\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2026\/03\/Antares-1983-2\/2453014792.avif\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22385%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20385%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Antares, 1983<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LISPECTOR, Elisa. 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