{"id":7780,"date":"2026-04-22T22:20:16","date_gmt":"2026-04-23T01:20:16","guid":{"rendered":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=7780"},"modified":"2026-04-22T22:20:16","modified_gmt":"2026-04-23T01:20:16","slug":"coronel-de-barranco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pracaclovis.com\/?p=7780","title":{"rendered":"Coronel de barranco"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#e1dede\">LIMA, Cl\u00e1udio de Ara\u00fajo. <em>Coronel de barranco<\/em>. S\u00e3o Paulo: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1970.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Mykaelle de Sousa Ferreira<br><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Dona Dora<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cl\u00e1udio de Ara\u00fajo Lima (Manacapuru, AM, 1908 \u2013 Manacapuru, AM, 1978) foi psiquiatra, ensa\u00edsta, tradutor, dramaturgo e membro da Academia Amazonense de Letras. Al\u00e9m de publicar ensaios relacionados \u00e0 sua pr\u00e1tica m\u00e9dica, o autor manauara dedicou parte significativa de sua obra \u00e0 produ\u00e7\u00e3o ficcional. <em>Coronel de barranco<\/em>, lan\u00e7ado em 1970, \u00e9 o t\u00edtulo do quarto romance de sua carreira e traz a Amaz\u00f4nia como paisagem central.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste livro, a narrativa se desenvolve a partir das mem\u00f3rias do narrador-personagem Matias Cavalcanti de Lima e Albuquerque. A obra \u00e9 organizada em tr\u00eas partes, intituladas respectivamente de \u201cAs sementes\u201d, \u201cAs \u00e1rvores\u201d e \u201cAs cinzas\u201d. Por meio dessas mem\u00f3rias, o enredo percorre cerca de cinquenta anos, do final do s\u00e9culo XIX \u00e0s primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, per\u00edodo marcado pelo auge e pelo decl\u00ednio econ\u00f4mico do ciclo da borracha na cidade de Manaus, assim como por eventos hist\u00f3ricos internacionais, como a Primeira Guerra Mundial e a Gripe Espanhola, doen\u00e7a que atinge o protagonista. O romance tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de mencionar o contrabando de sementes de <em>Hevea brasiliensis<\/em> para o Jardim Bot\u00e2nico de Kew, na Inglaterra, pelo bot\u00e2nico ingl\u00eas Henry Alexander Wickham \u2013 epis\u00f3dio que teve grande impacto na hist\u00f3ria econ\u00f4mica da Amaz\u00f4nia e no pr\u00f3prio desenvolvimento do enredo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maior parte do romance transcorre durante a <em>Bell\u00e9 \u00c9poque<\/em> amaz\u00f4nica, per\u00edodo em que o narrador-personagem se posiciona como testemunha privilegiada dos acontecimentos hist\u00f3ricos, adotando um olhar nost\u00e1lgico e, ao mesmo tempo, cr\u00edtico. Matias, assim, transita entre os dois n\u00facleos existentes no seringal \u2013 o barrac\u00e3o e as coloca\u00e7\u00f5es, onde residem os trabalhadores \u2013, acompanhando de perto as tens\u00f5es locais. O romance, portanto, oferece um retrato da vida do homem do tapiri, do barrac\u00e3o e da casa aviadora, inseridos no espa\u00e7o do seringal \u201cF\u00e9 em Deus\u201d. A voz do narrador desaprova, por exemplo, a maneira como o extrativismo da borracha amaz\u00f4nica \u00e9 conduzido, defendendo melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho para os seringueiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 aos 60 anos, entre idas e vindas \u00e0 Europa, Matias procura orientar os seringueiros diante do novo momento de decad\u00eancia da borracha, incentivando-os a obter mais autonomia e lucro com o pr\u00f3prio trabalho. A derrocada econ\u00f4mica da borracha, que rompeu a condi\u00e7\u00e3o de entrelugar em que viviam, tamb\u00e9m permitiu a forma\u00e7\u00e3o de n\u00facleos familiares mais est\u00e1veis. No entanto, se, por um lado, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho se tornavam menos desiguais, por outro, era necess\u00e1rio enfrentar uma condi\u00e7\u00e3o de vida mais modesta, marcada pela precariedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa acompanha ainda a doen\u00e7a de Matias, acometido pela Gripe Espanhola, que o leva a Paris para tratamento. Mais tarde, ele retorna ao seringal decidido a terminar seus dias na Amaz\u00f4nia. Aos 70 anos, o narrador-personagem realiza os principais desejos de sua vida: plantar uma seringueira, depositar as cinzas de sua amada Mitsi na floresta e escrever o livro que ambicionava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9, portanto, nesse exerc\u00edcio memorial\u00edstico que Matias oferece ao leitor n\u00e3o apenas um panorama dos principais acontecimentos de sua \u00e9poca, mas tamb\u00e9m um cortejo de personagens que se tornam s\u00edmbolos desse contexto. Entre eles est\u00e3o o seringueiro Joca, que encarna o nordestino explorado; In\u00e1cio, o pescador caboclo beberr\u00e3o; e o coronel Cipriano, seringalista autorit\u00e1rio e ganancioso. S\u00e3o sujeitos que habitam a mem\u00f3ria de Matias e, ao mesmo tempo, representam figuras fundamentais nesse cen\u00e1rio. Em s\u00edntese, conforme aponta Mendes (2013), a narrativa comp\u00f5e um instigante painel humano, que re\u00fane caboclos amaz\u00f4nidas, nordestinos oriundos de diferentes estados da Regi\u00e3o Nordeste do Brasil, al\u00e9m de estrangeiros, com destaque para os s\u00edrio-libaneses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto seringueiros, caboclos e nordestinos figuram como express\u00f5es de resist\u00eancia, o coronel de barranco encarna o poder e a explora\u00e7\u00e3o, contrapondo-se \u00e0 diversidade cultural da regi\u00e3o. Diferentemente de autores como Elizabeth Azize e Milton Hatoum, que tendem a representar a experi\u00eancia imigrat\u00f3ria de s\u00edrio-libaneses no Brasil e seu papel econ\u00f4mico e cultural, Ara\u00fajo Lima concentra, na figura do coronel de barranco, uma cr\u00edtica ao autoritarismo. Cabe lembrar que o termo \u201ccoronel de barranco\u201d designava, nas regi\u00f5es amaz\u00f4nicas, o patr\u00e3o seringalista que, muitas vezes, de modo violento, controlava os trabalhadores locais, em din\u00e2micas que guardam semelhan\u00e7a com outras regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estilo de Ara\u00fajo Lima \u00e9 marcado por uma rara combina\u00e7\u00e3o de densidade hist\u00f3rica, lirismo descritivo e cr\u00edtica social. Sua linguagem elegante e detalhista equilibra o registro documental com a imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. O texto causa um forte efeito sensorial no leitor, sustentado pela descri\u00e7\u00e3o minuciosa dos espa\u00e7os amaz\u00f4nicos \u2013 florestas, rios, seringais, barrac\u00f5es e cidades em transforma\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a altern\u00e2ncia entre um tom melanc\u00f3lico e contemplativo e passagens de di\u00e1logos coloquiais, sem cair na caricatura, confere complexidade estil\u00edstica \u00e0 obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os temas centrais est\u00e3o os conflitos sociais, a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, as rela\u00e7\u00f5es de poder autorit\u00e1rias e a heterogeneidade cultural da Amaz\u00f4nia. O romance rompe com estere\u00f3tipos discursivos recorrentes que reduzem a regi\u00e3o a um cen\u00e1rio ex\u00f3tico. Ainda que mobilize figuras emblem\u00e1ticas do imagin\u00e1rio amaz\u00f4nico, como o pr\u00f3prio coronel de barranco, a fic\u00e7\u00e3o de Ara\u00fajo Lima enfatiza a pluralidade de vozes e experi\u00eancias. Ao ressignificar tais personagens, o autor confere \u00e0 literatura amazonense uma dimens\u00e3o h\u00edbrida, na qual mem\u00f3ria, cultura e cr\u00edtica social se entrecruzam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora <em>Coronel de barranco<\/em> n\u00e3o tenha recebido aten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica significativa na \u00e9poca de sua publica\u00e7\u00e3o, em plena d\u00e9cada de 1970, durante a Ditadura Civil-Militar brasileira, revisitar essa obra representa propor um di\u00e1logo sobre discuss\u00f5es contempor\u00e2neas como colonialidade, apagamentos hist\u00f3ricos e destrui\u00e7\u00e3o ambiental. O romance permanece, assim, como obra fundamental para a literatura amazonense e para a compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre fic\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e hist\u00f3ria no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MENDES, Francielle Maria Modesto (2013). <em>Coronel de barranco<\/em>: a literatura no imagin\u00e1rio social da Amaz\u00f4nia no primeiro ciclo da borracha. Tese (Doutorado em Hist\u00f3ria Social) \u2013 Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MENDES, Francielle Maria Modesto (2016). <em>Imagin\u00e1rio na Amaz\u00f4nia<\/em>: di\u00e1logos entre hist\u00f3ria e literatura. Rio Branco: Edufac.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Iconografia<\/strong><\/p>\n\n\n<style type=\"text\/css\">\n#foogallery-gallery-7781.fg-masonry { --fg-gutter: 10px; }<\/style>\n\t\t\t<div class=\"foogallery foogallery-container foogallery-masonry foogallery-lightbox-foogallery fg-center fg-masonry fg-ready fg-transparent fg-round-small fg-shadow-small fg-loading-dots fg-loaded-slide-up fg-captions-bottom fg-hover-fade fg-hover-plus fg-col3\" id=\"foogallery-gallery-7781\" data-foogallery=\"{&quot;item&quot;:{&quot;showCaptionTitle&quot;:true,&quot;showCaptionDescription&quot;:true},&quot;lazy&quot;:true,&quot;template&quot;:{&quot;horizontalOrder&quot;:true}}\" data-foogallery-lightbox=\"{&quot;thumbs&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;thumbsCaptions&quot;:false,&quot;thumbsBestFit&quot;:false,&quot;thumbsSmall&quot;:false,&quot;thumbsCaptionsAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;info&quot;:&quot;bottom&quot;,&quot;infoVisible&quot;:true,&quot;infoOverlay&quot;:true,&quot;infoAlign&quot;:&quot;default&quot;,&quot;transition&quot;:&quot;fade&quot;,&quot;hoverButtons&quot;:false,&quot;fitMedia&quot;:false,&quot;noScrollbars&quot;:true,&quot;preserveButtonSpace&quot;:true,&quot;buttons&quot;:{&quot;fullscreen&quot;:true,&quot;info&quot;:true,&quot;thumbs&quot;:false},&quot;video&quot;:{&quot;autoPlay&quot;:true}}\" style=\"--fg-title-line-clamp: 0; --fg-description-line-clamp: 0;\" >\n\t\t<div class=\"fg-column-width\"><\/div>\n\t<div class=\"fg-gutter-width\"><\/div>\n\t\t<div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/IMG_0259-e1776907016539.avif\" data-caption-title=\"Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1970\" data-attachment-id=\"8108\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1970\" width=\"250\" height=\"354\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2026\/03\/IMG_0259-e1776907016539\/1417049286.avif\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22354%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20354%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1970<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><div class=\"fg-item fg-type-image fg-idle\"><figure class=\"fg-item-inner\"><a href=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/IMG_0261.avif\" data-caption-title=\"Valer, 2019\" data-attachment-id=\"8109\" data-e-disable-page-transition=\"true\" data-type=\"image\" class=\"fg-thumb\"><span class=\"fg-image-wrap\"><img decoding=\"async\" title=\"Valer, 2019\" width=\"250\" height=\"357\" class=\"skip-lazy fg-image\" data-src-fg=\"https:\/\/pracaclovis.com\/wp-content\/uploads\/cache\/2026\/03\/IMG_0261\/2431925622.avif\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns%3D%22http%3A%2F%2Fwww.w3.org%2F2000%2Fsvg%22%20width%3D%22250%22%20height%3D%22357%22%20viewBox%3D%220%200%20250%20357%22%3E%3C%2Fsvg%3E\" loading=\"eager\"><\/span><span class=\"fg-image-overlay\"><\/span><\/a><figcaption class=\"fg-caption\"><div class=\"fg-caption-inner\"><div class=\"fg-caption-title\">Valer, 2019<\/div><\/div><\/figcaption><\/figure><div class=\"fg-loader\"><\/div><\/div><\/div><style type=\"text\/css\">.fg-caption-title {font-family: \"Montserrat\", Sans-serif; font-size: 16px; text-align: center;}<\/style>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LIMA, Cl\u00e1udio de Ara\u00fajo. 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